Re: [Fórum da SAB] E-mail de compilação para sabforum@googlegroups.com - 3 mensagens em 1 tópico

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Alan Alves Brito

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Apr 20, 2013, 6:12:55 PM4/20/13
to sabf...@googlegroups.com
O que entendo então é que vivemos no Brasil, sobretudo na ciência, uma democracia *racial*? Quantos astrofísicos negros existem no Brasil? Quantos astrofísicos negros encontramos por aí nos congressos internacionais? Obviamente, no Brasil, o problema da igualdade racial teria que chegar, um dia, à torre de marfim da ciência. 

No Brasil que eu cresci há (e sempre houve) brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas. Cresci com todas essas representações por toda a minha vida: em casa, nas ruas, na literatura, na escola, na universidade, no trabalho, na TV, no cinema e em todos os lugares. E mais que isso: quase sempre essas representações colocavam o preto, o pardo ("quase preto de tão pobre") e o índio em um lugar menor, subalterno, de insucesso e preguiça natural (a Bahia, expressão máxima da negritude no Brasil, que o diga!). Estou contente que o CNPq tenha incluído esse item "racial", tal qual ele aparece. Precisamos, de uma vez por todas, desmascarar os nossos mitos.

O Brasil, ao meu ver, deu um passo importantíssimo com a implantação de várias políticas públicas (por exemplo, as cotas para negros, afro-descendentes, estudantes de escolas públicas, indígenas e etc nas universidades públicas). Nesse meio tempo, ganhamos também um Estatuto da Igualdade Racial (embora sem contar ainda com algumas das demandas históricas do movimento negro no país). Assim que, naturalmente, o CNPq queira agora saber a "raça" dos seus cientistas. É um processo. Ao meu ver, é bom que o CNPq inclua esse item até mesmo como forma de avaliar o impacto das políticas públicas que cito acima. A "pobreza" (e isso no sentido literal da palavra) no Brasil tem gênero e cor, meus queridos! Alguma dúvida disso? Convido então a todos a passar um dia em qualquer presídio do Brasil. Para mim, os presídios do Brasil, retratam com maestria a cara (e a cor) da nossa "democracia racial".

Desigualdades raciais, segundo o Estatuto da Igualdade Racial em vigor no país, são as "situações injustificadas de diferenciação de acesso e gozo de bens, serviços, e oportunidades, nas esferas públicas e privadas". Acho que não preciso dizer mais nada. De todas as formas, imagino que há consenso de que não vivemos, no Brasil (e isso não seria diferente na ciência), uma democracia racial. Ou será que mesmo Florestan Fernandes ou o amado de muitos (não meu) FHC ainda não nos convenceram disso? 

Quem sabe assim, com mais cientistas declaradamente negros haja, por exemplo, mais políticas públicas de saúde voltadas ao combate de doenças com maior incidência entre os negros (por exemplo, a anemia falciforme ou mesmo o lúpus). Quem sabe assim, como mais cientistas declaradamente brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas tenhamos um país melhor e menos desigual. Quem sabe assim, conseguimos todos juntos, reconhecendo as nossas diferenças sociais e históricas, construir uma democracia racial de fato e não apenas um mito longínquo como esse que agora queremos acreditar.


2013/4/21 <sabf...@googlegroups.com>

Grupo: http://groups.google.com/group/sabforum/topics

    Gabriel Hickel <profgabr...@gmail.com> Apr 19 01:57PM -0300  

    Relevante seria o poder público (esferas municipal, estadual e federal)
    deixar de hipocrisia e oferecer um ensino de qualidade à população. A
    existência de cotas é um atestado de incompetência. Ninguém é barrado em um
    processo seletivo para entrar em uma Universidade por causa de sua raça,
    mas sim porque não teve um ensino de qualidade. Entretanto, querer resolver
    este problema na ponta da escala de ensino (ensino superior) é como tentar
    resolver os problemas de fundação de uma casa reformando apenas o telhado.
     
    O impacto das cotas na realidade social brasileira será irrelevante. Teria
    (e terá) muito mais impacto, aumentar o número de vagas e campi nas
    universidades públicas, esta sim, uma medida acertada dos governos anterior
    e atual.
     
    Raça? A minha é humana.
     
     
    Em 18 de abril de 2013 14:39, José Fernando de Jesus <

     

    "José Fernando de Jesus" <jfjesu...@gmail.com> Apr 19 02:45PM -0300  

    Não ter um ensino de qualidade é apenas uma das causas de termos poucos
    negros nas universidades públicas. Ou será que apenas os negros não têm um
    ensino de qualidade? Eu acredito que outro motivo de vermos poucos negros
    nas universidades públicas, e o fato de essa proporção se reduzir cada vez
    mais quanto mais alto é o cargo ocupado na universidade, é devido também ao
    fato de o negro não se ver ocupando essas posições. Modelos como o do
    ministro Joaquim Barbosa e do presidente americano Barack Obama são
    raríssimos e acredito que não devido à incapacidade das pessoas negras, mas
    sim devido a essa barreira sociológica-político-cultural e sem falar na
    defasagem que os negros tiveram em relação aos outros brasileiros com o
    advento da abolição da escravatura.
     
    Cotas não é uma solução completa para esses problemas, mas é uma forma
    de minimizar as diferenças de oportunidades entre brancos e negros. Eu
    mesmo nunca consegui um emprego antes de entrar na universidade pública e
    já vi casos em que pessoas não foram sequer avaliadas para uma entrevista
    de emprego pelo simples fato de serem negras. Neste caso, uma boa educação
    pública se faz necessária para a inserção dessas pessoas no mercado de
    trabalho e reduzir o conceito de raça social que o brasileiro ainda possui.
    Em outras palavras, tirar a ideia de que negro é pobre e/ou ladrão.
     
    Att,
     
    Prof. Dr. José Fernando de Jesus
    PhD on Cosmology (IAG-USP)
     
    Unesp - Câmpus Experimental de Itapeva
    Rua Geraldo Alckmin, 519
    Fone: (15) 3524-9100 r. 9144
    Itapeva - SP
    Brasil
     
    (:¿©2013©?:)
    Rock'n'Roll!
     
     
    Em 19 de abril de 2013 13:57, Gabriel Hickel

     

    Carlos Alberto <be...@lna.br> Apr 19 03:53PM -0300  

    Não acho que o lugar de discutir este assunto de cotas/raças seja no
    Fórum da SAB.
    Mas não resisto comentar o que disse oJosé Fernando. A discussão nesta
    forma
    apareceu no governo FHC. Lembro que li de umnegro americano na época mais
    ou menos o que o José Fernando alega - a falta de modelos para uma
    criança negra.
    Fiqueiconvencido e adepto de cotas (TEMPORÁRIAS, até modelos existirem)
    para negros.
    Não gosto da argumentação em cima de vestibulares, porque pressupõe que os
    vestibulares são/eram medidores razoáveis de alguma coisa. Não eram e
    não são.
    Nenhum excelente aluno é realmente prejudicado por cotas. Apenas talvez os
    medianos, para os quais o vestibular se assemelha mais a uma loteria.
     
    Dito isso, vai uma distância imensa entre cotas para universidades (que,
    para mim,
    deveriam existir para os que são realmente discriminados socialmente, ou
    seja,
    não para os que se declaram negros- mesmo que os pais ou avós os sejam,
    porque
    quase todo brasileiro passa por esse critério) e passar a exigir (que
    seja, pedir)
    declaração de raça para qualquer coisa. Isso se assemelha demais ao que
    existiu
    na Alemanha, como as consequências conhecidas. Para facilitar as
    estatísticas
    (que nem se justificam) se poderia até argumentar que seria bom cada um
    trazer
    uma peça de vestimenta caracterizando sua raça. Ou um chip, para ficarmos
    maismodernos... O item do Lattes é um absurdo e um insulto e as pessoas
    que o aceitam merecem ser classificadas de racistas(racista inclui
    preconceito
    contra branco de olhos azuis).
     
    Carlos Alberto Torres
     
    On 04/19/2013 02:45 PM, José Fernando de Jesus wrote:

     

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José Fernando de Jesus

unread,
Apr 21, 2013, 9:28:33 AM4/21/13
to sabf...@googlegroups.com
   Esse é meu ponto. Não basta dizer que o conceito de raça biológica está há muito tempo ultrapassada, se a maioria da população ainda acredita e age como se houvessem raças e como se houvessem diferenças pré-concebidas entre elas.

   Trazendo pra uma analogia com a astronomia, não adianta todos afirmarmos a importância de um programa espacial e do risco de uma colisão de asteróides com a Terra, por exemplo, se o povo não acreditar realmente nisso e o governo não investir num programa espacial. Se o povo não muda o pensamento e/ou o governo não muda suas atitudes, nada muda.

Prof. Dr. José Fernando de Jesus
PhD on Cosmology (IAG-USP)

Unesp - Câmpus Experimental de Itapeva
Rua Geraldo Alckmin, 519
Fone: (15) 3524-9100 r. 9144
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Brasil

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