Poderíamos talvez defender que o estudo da argumentação, e de certa
forma também a interpretação de textos, caem sob os tópicos de
interesse desta lista.
[[
Dou por aceito que não precisamos defender Marie Curie. Albert
Einstein disse o que havia a dizer, em uma carta que enviou a ela em
23 de novembro de 1911, logo depois de Curie retornar da Suécia com
seu segundo prêmio Nobel para encontrar seu nome denegrido pela
imprensa e sua casa apedrejada pela furiosa turba de conservadores de
extrema-direita:
"If the rabble continues to occupy itself with you, then simply don’t
read that hogwash, but rather leave it to the reptile for whom it has
been fabricated."
https://einsteinpapers.press.princeton.edu/vol8-trans/34
]]
O que eu observei até agora, no debate nesta lista sobre o texto da
física Marcia Barbosa, foi:
(1) A menção a um texto de uma cientista relatando um bem conhecido
caso de misoginia na ciência. O texto foi desqualificado antes mesmo
de ser lido devido ao uso do termo "vagabunda" no título.
Aparentemente o objetivo principal daquela menção foi o emprestar
força adicional à desqualificação de outro texto ---absolutamente
desastroso--- publicado no mesmo blog, escrito por outro autor, sobre
um tema completamente diverso.
(2) O texto já citado, que diz respeito ao empoderamento feminino, foi
acusado, das formas mais variadas, de "MAU gosto". Um dos motivos
principais, mais uma vez, parece ter sido o uso ---essencial--- da
palavra "vagabunda". Os outros motivos apontados são um pouco mais
difusos, e mais ou menos "criativos".
(3) Supostamente haveria no dito texto uma proposta de ressignificação
semântica pela qual "vagabunda" passaria a ser um elogio.
Não tenho o que dizer sobre o ponto (1), e já disse o que tinha para
dizer sobre o ponto (2). Eu próprio não teria hesitado em escrever um
texto com esta palavra no título, fosse ela essencial ao conteúdo.
Quanto ao ponto (3), se houvesse uma real tentativa de
*ressignificação* das expressões "vagabundas" e "vadias", como
aconteceu por exemplo com os termos "gay" e "queer", então seria de se
supor que as mulheres hoje _desejassem_ ser tratadas por "vagabundas"
ou "vadias". Não me parece que seja o caso ---ou pelo menos não
ainda, pois a linguagem tem sua dinâmica. Resta-me, assim, a opção da
*ironia* (ou, no mínimo, da estratégia de chamar a atenção pela via da
*polêmica*), que afinal me parece ter sido bem praticada pela autora
do texto.
[[
Sobre a apropriação por parte das mulheres dos termos opressores _para
tentar revalorizá-los_ (como no mote "se ser livre é ser vadia, então
somos todas vadias") encontrei um texto recente interessante, escrito
da perspectiva da Análise Dialógica do Discurso [Bakhtin]:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2019000200209
Como disse um colega, portanto, pode haver, também neste ponto,
"espaço interessante para reflexão".
]]
Ainda sobre as mensagens anteriores dos colegas:
> Talvez ela não saiba das histórias das"jovens polacas". Se sabe, é pior ainda.
> É de todo modo uma referência infeliz, que me faz não gostar da notinha.
As "jovens polacas" jamais foram referidas no texto. Parece de todo
modo irrelevante saber se a autora do texto conhece a expressão, ou
mesmo se Marie Curie teria sido assim chamada no Brasil, como sem
dúvida teriam feito naquela época os tabloides franceses.
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Um dos _menos_ virulentos ataques a Marie Curie foi publicado no Le
Figaro (o jornal diário mais antigo da França), em 26 de novembro de
1910:
"Nous avons déjà plus de femmes de lettres qu’un pays civilisé ne peut
supporter. Que les dieux favorables nous épargnent une génération de
femmes de science!"
https://polonia.histegeo.org/Curie_Academie.swf (p.7)
A propósito, esta é a realidade que aponta modernamente o mesmo jornal
(conservador e de direita):
http://madame.lefigaro.fr/societe/les-europeens-estiment-que-la-science-a-haut-niveau-nest-pas-faite-pour-les-femmes-160915
(curiosamente, enquanto o artigo de 1910 deplora a possibilidade de
prêmios científicos concedidos por "júris femininos", o artigo de 2015
diz respeito a uma sondagem promovida pela fundação L'Oréal, que hoje
patrocina tais prêmios)
]]
> não tem essa de politicamente ressignificar o preconceito que fez uma vítima ilustre
O _preconceito_ certamente não foi ressignificado pela autora do
texto. Quando muito poderíamos dizer que a palavra que expressa esse
preconceito foi usada como uma provocação. E, claramente, a
provocação funcionou.
Abraçxs,
Joao Marcos
[[
Como disse o filósofo da linguagem Humpty Dumpty, citado também no
artigo feminista cujo link se encontra acima, e grande influência de
Ludwig Wittgenstein:
'When I use a word,' Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, 'it
means just what I choose it to mean — neither more nor less.'
'The question is,' said Alice, 'whether you can make words mean so
many different things.' '
The question is,' said Humpty Dumpty, 'which is to be master — that's all.'
]]
PS: Walter, tendo em vista que você era amigo pessoal da Hilda Hilst,
surpreende-me sobremaneira que você agora assuma esta postura
"linguística" conservadora...