Neste artigo apresentada e discutida a forma como as concepes e representaes sobre "raa", miscigenao, sexualidade, gnero, erotismo e casamento so operadas em duas obras paradigmticas representativas de dois importantes perodos da trajetria de Jorge Amado: Jubiab, da fase nomeada de "romance proletrio", e Gabriela, Cravo e Canela, tido como o livro que representa uma virada na carreira do autor, inaugurando o perodo do chamado "romance dialgico". Esses dois romances so protagonizados por casais inter-raciais que funcionam como o suporte a partir do qual Jorge Amado veicula algumas representaes correntes na sociedade (e na cincia da poca), no somente sobre a relao entre negros e brancos, como, igualmente, de uma nao que em um nvel se percebe como mestia e em outro enfrentava (e enfrenta) o dilema da diferenciao racial. Como ser visto, desejo proibido e luta de classes vividos pelo par homem negro / mulher branca (Jubiab), uma vez contrastados com erotismo, casamento e progresso em foco na relao homem (quase) branco / mulher mestia, lanam luzes sobre algumas das representaes de nao presentes e veiculadas na sociedade brasileira por suas mais variadas instituies.
This article presents and discusses how concepts and representations of "race", miscegenation, sexuality, gender, erotism, and marriage are operated in two paradigmatic novels by Jorge Amado which represent two important periods in the author's trajectory: Jubiab, from the period called "proletarian novel", and Gabriela, Cravo e Canela, which marked a twist in Amado's career, beginning of the phase called "dialogical novel". The protagonists in both novels are inter-racial couples who help the author transmit some current social representations (and on science in that time), not only of the relations between blacks and whites, but as well of a nation that, on the one hand, perceives itself as having mixed blood, and, on the other, faced (and faces) the dilemma of racial differentiation. One will see that forbidden desire and class fights lived by the couple black man / white woman (Jubiab), once contrasted to erotism, marriage, and progress focused by the relation between (almost) white man / woman of mixed blood, explain some current representations of nation transmitted in Brazilian society through its various institutions.
Entre o realismo e o ficcional: representaes sobre "raa"1 1 As categorias de "cor" e "raa" esto grifadas com aspas. Sigo, com esse procedimento, a sugesto de Fry (1996). Na percepo do autor, a noo de "raa" e seus termos correlatos devem ser compreendidas como construes locais, histricas e culturalmente determinadas. As aspas, nesse sentido, ajudam a relativizar a "realidade do racismo" como algo homogneo e transcultural, possibilitando que a analisemos em suas faces mais sutis e/ou menos exploradas. , sexualidade e classe em dois romances paradigmticos de Jorge Amado2 2 O texto que se segue parte da reflexo que desenvolvi no doutoramento (no prelo). Na tese analisei os valores e as representaes sociais sobre "raa", mestiagem, gnero e erotismo que sustentavam um elo afetivo-sexual entre casais heterossexuais de "raas" diferentes no Brasil e na frica do Sul.
Neste artigo apresentada e discutida a forma como as concepes e representaes sobre "raa", miscigenao, sexualidade, gnero, erotismo e casamento so operadas em duas obras paradigmticas representativas de dois importantes perodos da trajetria de Jorge Amado: Jubiab, da fase nomeada de "romance proletrio", e Gabriela, Cravo e Canela, tido como o livro que representa uma virada na carreira do autor, inaugurando o perodo do chamado "romance dialgico". Esses dois romances so protagonizados por casais inter-raciais que funcionam como o suporte a partir do qual Jorge Amado veicula algumas representaes correntes na sociedade (e na cincia da poca), no somente sobre a relao entre negros e brancos, como, igualmente, de uma nao que em um nvel se percebe como mestia e em outro enfrentava (e enfrenta) o dilema da diferenciao racial. Como ser visto, desejo proibido e luta de classes vividos pelo par homem negro / mulher branca (Jubiab), uma vez contrastados com erotismo, casamento e progresso em foco na relao homem (quase) branco / mulher mestia, lanam luzes sobre algumas das representaes de nao presentes e veiculadas na sociedade brasileira por suas mais variadas instituies.
This article presents and discusses how concepts and representations of "race", miscegenation, sexuality, gender, erotism, and marriage are operated in two paradigmatic novels by Jorge Amado which represent two important periods in the author's trajectory: Jubiab, from the period called "proletarian novel", and Gabriela, Cravo e Canela, which marked a twist in Amado's career, beginning of the phase called "dialogical novel". The protagonists in both novels are inter-racial couples who help the author transmit some current social representations (and on science in that time), not only of the relations between blacks and whites, but as well of a nation that, on the one hand, perceives itself as having mixed blood, and, on the other, faced (and faces) the dilemma of racial differentiation. One will see that forbidden desire and class fights lived by the couple black man / white woman (Jubiab), once contrasted to erotism, marriage, and progress focused by the relation between (almost) white man / woman of mixed blood, explain some current representations of nation transmitted in Brazilian society through its various institutions.
Roquette Pinto e Gilberto Freyre esto entre aqueles a quem Jorge Amado se aproxima no perodo em foco, tendo inclusive participado com afinco do I Congresso Afro-Brasileiro organizado por Freyre em Recife, em 1934. Almeida (1979, p. 121-122) argumenta:
"Amado, com Jubiab, acompanhando Freyre de perto, parece desfazer no seu pensamento a 'confuso de raas' que afirmara em 1931. Incide numa valorizao do negro. Exalta seus conhecimentos e religio. O personagem central concebido como representante de uma cultura especfica, que o autor apregoa seja reconhecida como tal. [...] Articula o combate s teorias racistas com a defesa da participao poltica do proletariado na cena poltica construda. [...]. Entrelaa o proletrio e o negro".
Apesar da afinidade com Freyre, em Jubiab a mulata ainda no a "tal". Um referencial que se modifica completamente com Gabriela, Cravo e Canela, que alguns intrpretes de sua obra (ALMEIDA, 1979; Matta, 1983) demarcam como sendo o ponto de ruptura com o "realismo socialista". Creio, entretanto, que esse deslocamento engendra, concomitantemente, uma mudana em sua concepo acerca das relaes entre negros e brancos e da prpria idia de nao presentes na sua obra. Da bomia, passando pelo crculo de "pensadores catlicos" (cuja influncia pode ser apreendida em O Pas do Carnaval), pela militncia em movimentos polticos de esquerda (com Jubiab), at a ruptura (cujo smbolo Gabriela...) vemos como o autor acaba por se legitimar como acadmico, com cadeira na Academia Brasileira de Letras e vnculos, como demonstrou Almeida, com o Estado, atravs dos "conselhos de cultura".
Na percepo de Matta (1983, p. 14), a primeira fase marcada por uma construo "monolgica", com nfase no registro marxista e em uma "dualidade moral" calcada na oposio entre estruturas feudais arcaicas e burguesas modernizadoras: "neles pode-se aplicar perfeitamente o modelo de Bakhtin, dizendo que so obras onde o autor fala do heri (ou heris)". Quando Gabriela ocupa o centro da cena, Amado inicia uma construo "dialgica" na qual "o autor no fala do heri mas com o heri" (BAKHTIN apud MATTA, 1983, p. 13). Na interpretao de Matta e de vrios outros autores, esse o momento em que Jorge Amado no opera mais com um olhar engessado por teorias explicativas sobre como o mundo deve ser. Antes, "assume uma posio emprica diante das coisas. Deixa de ditar normas e decide captar sentido, significado e valores por meio dos seus personagens" (MATTA, 1983, p. 16 grifos meus).
Se, por um lado, Jubiab enceta uma valorizao dos negros e da sua cultura; por outro, o compromisso com uma vertente socialista comprometeria, segundo seus crticos, sua autenticidade. A guinada que esse corte poltico representa com Gabriela, Cravo e Canela, no sentido de aproxim-lo mais de uma "posio emprica", na curiosa expresso de Matta, teve repercusses interessantes: "Gabriela [...] converte-se para os polticos num reflexo de reivindicaes populares, s quais se apressam em atender", diz Almeida (1979, p. 256). Como fica explcito no seguinte telegrama que Jorge Amado recebeu:
"No podia deixar de pedir ao prezado amigo o favor de comunicar oficialmente a Gabriela j haver sido aberta a concorrncia para a construo do porto de Ilhus. Cordiais saudaes. Ernani do Amaral Peixoto, Ministro da Viao e obras pblicas" (apud ALMEIDA, 1979, p. 257).
Com Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado ingressa e se legitima no establishment acadmico e estatal. Significativamente, atravs dessa obra e personagem inesquecvel na televiso na pele de Snia Braga que temos uma aproximao narrativa de Jorge Amado com Gilberto Freyre, ainda que, na distante dcada de 30, autor j influenciasse a concepo de "raa" daquele.
Nesse sentido, a literatura est, aqui, sendo compreendida tal como a concebe Edward Said (1995), como uma forma cultural que fornece "estruturas de atitude e experincias". Em resumo, uma forma cultural que veicula mas igualmente forma sentimentos e experincias. Muito do que veremos nas prximas pginas ocupa desde nossos livros escolares, passando pelos discursos polticos at os acadmicos, a despeito das mltiplas identidades disciplinares. Sssekind (1984) segue nessa direo quando destaca a forte tendncia presente na literatura brasileira de enfatizar o contexto "extralitrrio". Trata-se de uma literatura que se pretende, em inmeros casos, perodos e "escolas", ser um sismgrafo da "realidade".
7fc3f7cf58