Ex-diretor da Anvisa é contratado por farmacêutica que quer vender vacina Sputnik V no Brasil
Fernando Mendes cumpriu quarentena obrigatória após sair da agência antes de ingressar na União Química. Farmacêutica, que vai produzir vacina russa contra Covid-19, quer vender 10 milhões de doses ao governo federal.
Por Patrícia Marques, TV Globo
08/02/2021
O ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Fernando Mendes foi contratado pela farmacêutica União Química, que pretende fabricar no Brasil a vacina russa Sputnik V contra o coronavírus. O Ministério da Saúde já anunciou intenção de compra de 10 milhões de doses.
Mendes assumiu o cargo de diretor de Relações Institucionais da farmacêutica depois de cumprir quarentena de 6 meses após o fim do seu trabalho na Anvisa - período previsto pela legislação brasileira para que diretores de agências possam atuar na iniciativa privada.
Ele exerceu o cargo de diretor da Anvisa por cinco anos, entre 15 de outubro de 2015 e 31 de março de 2020. A reportagem apurou, porém, que Mendes continua, mesmo após o fim do mandato, frequentando a Anvisa, tendo "trânsito livre" com integrantes da atual direção da agência.
A vacina, que até então levantava dúvidas porque ainda faltavam estudos de peso, passou a ser uma opção aqui para o Brasil.
O executivo foi diretor-presidente, diretor de Coordenação e Articulação e diretor de Gestão da Anvisa.
Quando deixou a Anvisa, disse que iria sentir saudades, mas que desejava sucesso à agência na continuidade dos trabalhos.
"A vida é assim. Não há por que se iludir. Sentirei saudades, mas o momento não me é doloroso, porque considero ser natural, importante e inexorável a saída de cena, especialmente para quem sai, porque se reforça o entendimento de que a vida segue, independentemente da presença ou da vontade de quem quer que seja. Mantenham-se firmes no propósito de aumentar o acesso da população brasileira a serviços e produtos eficazes, seguros e de qualidade”, afirmou ao deixar o cargo.
A TV Globo pediu um posicionamento à União Química sobre o novo cargo de Mendes na iniciativa privada e a suposta influência dele no processo de aprovação da vacina russa no Brasil, mas, a empresa disse que "não comenta a seleção da área de RH dos seus quase seus 7 mil colaboradores”. Mendes também disse que não poderia falar sobre o assunto.
A Anvisa informou por meio de nota que "o ex-diretor Fernando Mendes, durante o período de quarentena, esteve na Agência resolvendo assuntos da área de recursos humanos, como devolução de documentos decorrente de seu desligamento".
"Após o período de quarentena, o ex-diretor cumpriu agenda institucional, sem realizar nenhuma reunião sobre processo de vacina. Quanto ao contrato do ex-diretor com uma empresa privada a Anvisa não irá comentar, por tratar-se de assunto pessoal", disse a agência.
Vacina Sputnik V no Brasil
No final de de novembro de 2020, a farmacêutica brasileira União Química anunciou acordo com o Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF) para produzir a vacina Sputnik V no Brasil. A União Química já está produzindo o IFA - ingrediente farmacêutico ativo - em Brasília. A empresa também pediu a realização de estudos clínicos da fase três no Brasil, instrumento necessário para que a vacina seja aprovada pela Anvisa, e aguarda maiores trâmites com a agência e com o governo federal para dar andamento ao processo.