Ano passado (2009) fui até a Chapada dos Veadeiros em uma louca viagem que começa por causa de uma carta do Tarot, seguindo uma série de coincidências... Talvez só um pretexto para viajar.... Mas somente agora é que me dei conta que não havia publicado nada. Então estou postando o meu diário de viagem na integra, em um post super completo e especial! Alguns nomes foram trocados para preservar as identidades e outros são tratados carinhosamente pelos apelidos! Aproveite e viaje livre por ai...
Explorando o Paralelo 14
A Preparação
Dias antes de partir, comecei a me preparar para esta viagem. Além dos compromisso agendados
durante as férias, que me deram a sensação de não desligar, ainda tive que lidar com a avalanche
de situações inusitadas que aconteceram.Mas ao mesmo tempo uma série de fatos me levaram a
uma preparação que só agora posso compreender melhor. Uma conversa com um amigo. Uma
pequena crise psicológica. Um café. Puxei do fundo da gaveta minha receita de floral. O amigo me
levou para uma terapia. Obtive ajuda, talvez por intermédio do "Dissipador de todas as
Dificuldades", afinal era uma quinta feira, seu dia.O resultado foi expresso através de um Arcano
do Tarot:
O Louco

O Louco é o vigésimo segundo Arcano maior do Tarot, ou, simplesmente, o número 0, conforme os
baralhos. Esta carta representa um jovem leve e solto, que caminha a tocar flauta. À sua frente
está um precipício. Tem uma trouxa às costas, há uma borboleta que voa por ali e um cão que lhe
morde o calcanhar. A carta tem o número XXII e a letra hebraica TAU (no Tarot de Thoth / Crowley
a letra ALEPH).Simbolismo, busca, irresponsabilidade, desapego, desligamento, impulso,
inexperiência. No louco, tudo é leve e solto. Isto pode trazer inquietação e atividade, pode trazer
mudanças àquilo que está estagnado. O cão tenta avisá-lo do precipício que tem à frente, mas
parece que ele nem percebe, por estar distraído a olhar a borboleta, livre. Simboliza o
desligamento da matéria, uma história a ser vivida, o ir embora deixando tudo para trás. Pode ser
interpretado como irresponsabilidade, busca e abandono. Também pode significar que o Louco
partiu em busca de algo que procurava, como um desejo que de repente extravasa, uma busca que
foi sufocada durante muito tempo.Na caminhada espiritual, o Arcano representa o momento em
que a caminhada pode ser retomada, pois a busca interior volta a pressionar o iniciado. A nova
caminhada vai ser feita a um nível diferente da anterior, proporcionando crescimento e evolução. Nos atribulados dias que se seguiram, um outro amigo me perguntou: - Mas o que você quer
aprender com esta viagem? Fiquei pensando... É claro, que obtive muitas respostas, mas nenhuma
conclusão. Não consegui porque uma viagem é por si mesma, um aprendizado, muito maior.
Podemos limitá-la se colocamos limite as possibilidades. Para onde ir?Norte, sul, leste, oeste. Sair
do país... possibilidades que me confundiam. Muitas possibilidades, nenhuma definição.Então, por
um exercício de "magia", simplesmente arrumei as malas. E ai, exatamente neste momento, minha
viagem estava começando, apesar de não saber pra onde.
A insegurança
A insegurança, a falta de informação, o desconhecido. Mas era o momento de ir. Assim, como o
Louco, jogar-me no abismo do desconhecido. Simplesmente sair. Fui para a Rodoviária comprar a
passagem, o destino ainda incerto, mas precisava tomar uma decisão: ir para algum lugar que
pudesse me dar mais possibilidades de caminhos e escolha. Resultado: BH - Belo Horizonte. Havia
9 anos que não ia a BH. Da última vez a minha passagem foi circunstancial, rápida, para um
congresso, e como não gosto de cidades grandes, logo providenciei minha saída, para o Santuário
do Caraça, mas esta é uma outra história. Dessa vez, cheguei ainda de madrugada, coloquei minha
mochila no guarda volume e sai para descobrir a cidade. As ruas ainda vazias, as lojas fechadas. O
primeiro lugar que vi aberto: a Igreja de S. José. Entrei. Um linda igreja, muito antiga, toda pintada,
tetos e paredes com afrescos. Alguns monges franciscanos me fizeram lembrar uma atmosfera da
idade média. Fiquei ali, curtindo uma mistura de sono e cansaço da viagem, recuperando as
minhas energias, através de alguns exercícios de respiração. Estava lá concentrado quando
derrepente sinto alguém ao meu lado. Era uma senhora que amavelmente me perguntou: - Você
costuma fazer leitura? Olhei dentro dos olhos dela, era realmente uma pessoa muito terna, e
respondi com um positivo SIM. E, então ela me disse: você gostaria de fazer a leitura da missa
hoje? Ai, neste momento eu me dei conta de que ela não estava se referindo a leitura que eu normalmente faço, mas a leitura dos textos do evangelho. Eu então disse: - sinto muito amiga –
pois amizade era mesmo a conexão, a energia que foi transmitida - mas acabo de chegar de
viagem e estou cansado. - Mas se eu não achar ninguém? Pode ser você? - ela perguntou mais
uma vez. E então eu disse: Sim, tudo bem! Assiti a missa e considerei esta a benção da Boa
Viagem. Sai da Igreja, o comércio ainda não estava aberto. Parei na banca de jarnais e perguntei a
que horas as lojas abririam. - Hoje, acho difícil -disse o jornaleiro - é feriado aqui em Belo
Horiozonte. É dia da Padroeira: Nossa Senhora da Boa Viagem! A igreja dela é loga ali na frente,
atrás da loja do Carrefour. Acho que você deveria ir lá! Bem depois, dessa... não tive dúvidas, nada
acontece por acaso! uma idicação dessa para um viajante solitário e sem destino! Não havia feito a
leitura na missa anterior. Minha amiga havia conseguido alguém que também fazia leituras. Na
Igreja de N. S. da Boa Viagem, não fui convidado a nada. A igreja é muito bonita também. Toda
branca por dentro, em estilo neoclássico. Recebi minha segunda benção e sai quando achei que
devia.
O próximo destino
Passei um excelente dia no Parque Municipal, visitei o Palácio das Artes. Uma exposição de
fotografias francesas desde a primeira foto obtida em 1826 até fotos atuais: Exposição França
100x. Imperdível e fonte de inspiração.Por sinal, não fiz fotos, fiquei com receio de andar por ai
com uma câmera fotográfica nada discreta. Abençoado para continuar o meu caminho, estava
apenas buscando que o próximo destino se apresentasse, viajando livre por ai.
14 N
O paralelo 14 N é um paralelo que está 13 graus a norte do plano equatorial da Terra.Novo Destino
O dia em Belo Horizonte acabou. O viajante, o louco, estava de volta, penasando em seu rumo.
Mas que rumo tomar? Um mapa a sua frente. O paralelo 14.
O Paralelo 14
Sai de BH, a noite, de ônibus, em direção a Brasília. A capital federal me esperava. Seria para mim
uma passagem. Exata transição entre os poderes. Entre a situação atual, de trabalho com o poder
público, para um outro tipo de trabalho, mais profundo, mais pessoal, mais conectado com meu
ser interior. Isso representaria uma transmutação, na minha vida, assim, como predizia a carta do
torat.
As 12 horas de viagem até a rodoviária de Brasília transcorreram sem problemas. Dormi
anestesiado pela mascara "tapa olhos" de ervas que havia comprado em BH, na banca de jornal do
homem que me mandou visitar a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
O poder do 7 ou coincidências?
Quando já estava no ônibus, esperimentando minha nova máscara, cheirosa e calmante, de 7
ervas, fiquei pensando sobre o significado do sete. Comprei a minha passagem na rodoviária e
escolhi a poltrona 27, mas o vendedor do guichê, olhou para mim e disse: - poltrona sete, né
amigo? - eu falei: - não 27 - ele me disse: - Isso! Número ímpar, né, amigo? - e me vendeu a
poltrona 07. Bem, já ia pedir par trocar a passagem, quando pensei: número impar o que isso tem
haver? Vou ter que fazer o cara trocar a passagem, isso vai dar trabalho, deixa pra lá. Aceitei o
destino e fiquei na poltrona 07, com a minha máscara de 7 ervas. Neste momento tive um insight e
vi que o horário do embarque tinha sido ás 19: 15 mim - que coincidência, pensei, eram quase 7
horas da noite. Então, somei os números: 1+9+1+5 =16, que por redução: 1+6 = 7. E quando pensei
nisso, um outro insigth: o dia era 15/08/2009. Que todos somados e reduzidos novamente vai ser
igual a 7. O ônibus chegou em Brasília as 07h da manhã. Coincidências?
O significado do 7
É um número cabalístico. (qual que não é, não é verdade?). Além de estar ligado às profecias do livro
Apocalipse, sete são os dias da semana, sete são os pecados capitais, sete são as notas musicais, sete são
as cores do arco-íris, sete são as maravilhas do mundo...
Rodoferroviária
Esse é o nome da rodoviária de Brasília. Não acreditei quando desembarquei. É a rodoviária mais
feia que já vi na vida. Os banheiros são nojento. Parece que agora o governo vai construir uma
rodoviária nova. Mas enquanto isso, você tem que aguantar "aquilo" lá. Já cheguei com destino, o
Paralelo 14, ou 2 x 7. Encontrei um hipe gringo, que estava tentando se comunicar em espanhol
com o pessoal das Informações. As Informações se resumiam a um livro encadernado com os
horários de ônibus e as companhias. E o gringo dizia em espanhol: Ajer! e os informantes não
entendiam nada. Ele repetia: Ajer!!! E, ninguém se entendia. Então eu me aproximei com meu
portunhol e disse: - Ontem! E as coisas começaram a ficar mais claras com minha tradução. O
Louco - este era louco mesmo - queria chegar a Chapada Diamantina, na Bahia e os camdangos
informantes, queriam vender para ele uma passagem para Diamantina em Minas Gerais! O Hippe,
inconformado, não conseguia se fazer entender e pior, estava indignado, não acreditava que na
Capital do Brasil, não se sabia dar informações, nem tinha ninguém que sabia falar uma outra
lingua. Fiquei pensando, deve ser porque político só anda de avião as custas do dinheiro do povo!
Também me indignei. Bem, a única solução parecia fazer o hippe ir para Salvador e de lá pegar
outro ônibus para a Chapada Diamantina. Ele olhava para o mapa e dizia: - mas como, se estamos
na metade do caminho?
Mais 240 km até o Paraíso
Comprei minhas passagens com destino ao Paraíso. Enquanto isso via o meu mais novo amigo
hipie andando de um lado para o outro da Rodoviária, indo de guiichê em guichê, tentando
encontrar um destino mais próximo que Salvador. Fiz um lanche. Fui para Lan house e encontrei
meu amigo mais tranquilo! Tinha conseguido uma passagem com destino a uma cidade próxima a
Lençois.
Esperei mais um pouco, fazendo hora, enquanto lia o jornal do homem que estava sentado ao meu
lado. tinha que acompanhar a leitura dele. Parecia que ele não gostou muito quando percebeu que
lia junto com ele, só que mais ráido que ele. Mas ele não disse nada, eu também não.
O ônibus chegou. Saimos no horário e pouco a pouco foi avançando para o interior. A paisagem foi
mudando a estrada também. Tudo seco, terra vermelha. A parada para o almoço em uma pequena
cidade do interior, desta que as vezes a gente vê em filme, mas só sabe mesmo o que é, quando
você chega.
O Paraíso
Mais duas horas e cheguei a Alto Paraíso. Lugar pequeno, mas bem melhor que cidade do almoço,
São João da Aliança. Alto Paraíso está localizado no Paralelo 14, o mesmo que passa por Machu
Pichu, no Perú, e por esse motivo e, mais a grande quantidade de cristais na região, foi escolhido
pelos exotéricos, como um lugar especial, um portal para a nova era. Mal cheguei na rodoviária e
desembarquei, vi uma garota conversando com um senhor, ela perguntava pelo ônibus de São
Jorge. Eu disse: - Eu também vou para lá. E ela me perguntou qual era meu esquema? também não
sabia do ônibus, talvez uma carona, mas bem, eu viajo livre, então para mim tanto faz. E ai
conversamos um pouco e ela me disse que estava vindo através de um convênio, uma espécie de
plano de hospedagem, onde ela paga todo mês uma mensalidade que lhe dá direito a se hospedar
em hotéis e pousadas conveniadas. No caso, a pousada que ela ia ficar, tinha direito a
acompanhante e se eu quisesse poderia ficar com ela, afinal estava sozinha, pagando pra dois. Eu
disse que ia acampanhar e agradeci muito pelo convite, que foi reiterado, principalmente se eu
passasse um "perrengue" e precisasse de um lugar para ficar.
Vila de S. Jorge
Tinhamos uma hora em Alto Paraíso até o ônibus chegar. saímos para conhecer a cidade e uma
hora foi mais que suficiente! Viajamos juntos para Vila de São Jorge e 32km depois de estrada de
chão chegamos. A rua principal é de terra e a vila, realmente uma vila é constituída de poucas
casas, uma padaria, uma venda, um restaurante de comida à Kilo, umas duas lojinhas de
artesanato, várias pousadas emmuitos campings. O que justifica isso, é que S. Jorge é a porta de
entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A Ju, minha amiga, afinal, depois de uma
hora no ônibus, já havíamos nos apresentado, me perguntou se eu gostaria de conhecer a pousada
e saber onde ela ficaria, para que depois pudéssemos nos encontrar. Eu fui com ela, antes de ir
para o camping. Cheguei na pousada e, ai, fui ficando.
Parque Nacional
O Parque Nacional é o grande chamariz de turistas. A pequena Vila de S. Jorge, que é porta de
entrada do parque, se transformou em um lugar do mundo. Durante a semana, o lugar é bem
tranquilo. Mas é durante o fim de semana que os turistas invadem a vila. De uma hora para outra a
pousada em que estava ficou lotada. Podia ouvir sotaques diversos do nosso português-brasileiro,
além do inglês, francês, italiano, espanhol, alemão e as indecifráveis.
Da mesma forma, é claro, não podia ser diferente, a Vila de S. Jorge, de rua de terra, está plugada
ao mundo. Pousadas e restaurantes com Wireless e uma lan house conectam a vila. Não pude
acreditar.
A semana transcorreu com muitas caminhas e visitas a cachoeiras. Levantava cedo, tomava café da
manhã reforçado, a pousada fazia um ótimo Yogurte natural, e saía para a portaria do parque,
encontrar outras pessoas, para formar um grupo. No primeiro dia de parque, conheci, o Tiago e
Adriana, do RJ, e o Walter e a Bia, de BH. Também, encontramos a Cecília, da Bolívia. Juntos
percorremos as trilhas e quando nos decidíamos por destinos diferentes, sempre marcávamos uma
hora em uma restaurante, para no final do dia contarmos as nossas aventuras e partilhar da boa
mesa.
Saltos
No Parque Nacional, existem duas opções de trilhas, os Saltos e os Cânions. No Primeiro dia,
escolhemos os Saltos, na minha opinião, foi o melhor passeio. O sol escaldante sobre nossas
cabeças. Me vi rodeado de montes e montes de pedras de todas as cores. Isso me fez lembrar a
estória do "dissipador de todas as dificuldades". Esta área do Parque havia sido um garimpo, que
chegou a reunir mais de 4 mil pessoas. As pedras eram cristais de quartzo. E o tempo todo você
caminha sobre eles. O sol castiga. Caminhava com um lenço sobre a cabeça, parecia um árabe. A
primeira visão de um salto, que é como o povo local chama as grandes quedas aqui, é realmente
impressionante. Grandes quedas, me refiro a 120 mts. O que mais me chamou a atenção é o
contraste. Tá tudo seco, as árvores retorcidas, o capim estala de tão seco. A humidade do ar é
baixíssima. Você caminha o dia todo bebendo água, muita água e não tem vontade de urinar.
Derrepente, água, um salto, o verde brilha intensamente nas folhas das árvores, o mundo fica
colorido e ganha vida. Água, pura, cristalina, assim como os cristais da região. Você tira a roupa
correndo, ansioso por entrar na água, para sair do mundo ressequido e ai, recebe outro choque, a
água é gelada. Um choque térmico incrível. Não dá para entender como a água pode ser tão
gelada num lugar assim. Entro na água, molhando os pulsos, a cabeça e a nunca para não sofrer
um choque térmico de verdade. Aprendi com a minha avó que tinha que fazer assim antes de
entrar na água fria. Peixinhos a minha volta. Muitos, um cardume inteiro de lambaris. Brinco com o
guia: - fritinho com cerveja são ótimos. Ele olha sério para minha cara e responde: - os últimos
que disseram isso ficaram com o nome escrito no livro negro do IBAMA, lá na porta do Parque.
Mas foi nas corredeiras que encontrei o meu lugar ao sol, ou melhor, na água. Ali a água não é tão
fria e consegui suportar mais tempo. Talvez já estivesse me acostumando com os contrastes desta
terra. Sentei numa pedra, com uma hidromassagem natural, formada por uma pequena queda d
´agua, que valeu por qualquer sacrifício que havia passado pra chegar ali. Me senti descansado,
aliviado, as pressões da vida ali não faziam o menor sentido. Era apenas eu mesmo conectado com
a natureza.
Plantas
Plantas do cerrado. Incrívelmente adaptadas ao meio. Fico imaginando como podem sobreviver
ali. Camdombá, Tibosna, Pirex, chuveirinho, Palipalan entre outras que nunca tinha ouvido falar.
Um mundo novo se abriu. Um interação, uma sintonia com a natureza, brotou em mim. Seres
sobrevivendo em condições tão ásperas, sem perder a beleza das cores, das formas. Uma das
flores mais bonitas, em minha opinião, o chuveirinho, uma espécie de sempre viva pode ser vista em toda a região. Me encantei, fotografei. A natureza manifesta a sua beleza mesmo onde
achamos improvável a vida.
As condiçoes da vida moderna são ásperas. Existe uma pressão muito grande. Tudo precisa ser em
regime de urgência. Estresse, desgastes, violência. Vida sobre pressão. As flores do cerrado me
mostraram que ainda assim é possível viver sem perder a singeleza das cores. Adaptar é preciso,
mas com sabedoria, ternura, muita força e fé.
Turismo fora do Parque
Bem não poderia deixar de fazer uma observação, com olhar de um especialista em turismo, já que
essa é a minha profissão, graças a Deus. O turismo beneficia imensamente a comunidade nesta
região e é um exemplo de como o turismo é sustentável, quando implantado corretamente.
Existem vários outros passeios pela região. E aqui, todos os caminhos levam a cachoeira (s). Várias
propriedades da região se estruturaram para receber visitantes. Os passeios mais conhecidos são:
Vale da Lua, Raizama, Morada do Sol. Para quem não tem pressa, e aqui, recomendo não ter
mesmo, vale a pena perder, ou ganhar, um dia inteiro em cada um deles, para curtir de verdade.
Os guias da região ofercem passeios guiados e dizem que estes 3 podem ser visitados em um só
dia, pois são bem próximos. Não entrei nessa. Curti bastante cada um deles.
Vale da Lua
Um dos lugares mais diferentes que já visitei. A beleza está nas pedras esculpidas pela força das
águas que acabam lembrando uma paisagem lunar. E ainda guarda um segredinho: a última
cachoeira tem um poço com uma grande pedra, que ajuda a represá-lo, na saída da água,
escondida embaixo da pedra tem uma das melhores hidromassagens naturais que conheci. Fiquei
um dia todo aqui. Não se a lua é tão bonita de perto. Nunca fui lá! Só quando crianças, nos sonhos.
Mas o Vale da Lua, que fica na Terra é explendorosa.
Morada do Sol
A morada do Sol é um cachoeira – novidade – era de se esperar... Como sou um aventureiro fui a
pé a partir da pousada, aproximadamente 4km. Eu e a santa Ju que me acolheu de graça e que me
acompanhava, ou seria o contrário? Por sorte quando chegamos na estrada conseguimos uma
carona, o sol já estava implacável. havíamos levantado tarde, neste dia. O cabloco que nos deu
carona, era uma mistura de baiano, com goiano e falou o tempo inteiro até a entrada da Morada
do Sol e só parou porque eu interrompi e disse: -É aqui, para por favor! Não sei se estava pedindo
para parar o carro ou para que ele parasse de falar.
Caminhamos da entrada até o primeiro poço, cerca de 2km. O Sol torrando os miolos, a água do
hidrate tinha acabado. Minha boca estava seca, assim, como as árvores em volta. Senti um gosto
amargo e um leve enjoo. Achei que ia desidratar. Perguntei a Ju se ainda havia água na garrafinha.
Ele me deu um resto de água quente, mas que naquele momento me pareceu ótima. Não disse
nada para ela. Apertei o passo, tinha que chegar rápido a beira do rio. Descemos uma trilha de
pedras. Senti tontura - disse para mim mesmo: Preciso resistir. Um pouco mais a estava o rio.
Cheguei correndo, mas já estava me sentindo sem forças. Fui até a beira da água, me molhei muito e tomei água gelada do rio. Busquei uma sobra e me joguei em uma pedra. Estava exausto. A Ju
chegou, também cansada, mas bem melhor que eu, obviamente, foi logo indo para água
mergulhar e me perguntou - você não vai? - Daqui a pouco disse, vou refrescar um pouco aqui na
sombra - um pouco depois olhei e lá estava ela, esticada na pedra pegando sol. Pensei: como é que
pode? Ela deve ser muito mais resistente ao sol do que eu. Deve ser porque está acostumada a
pegar praia.
Depois que me reanimei, mergulhei e fotografei o lugar, resolvi conhecer os outros atrativos dali. A
cachoeira Morada do Sol, propriamente dita, o cânion das Andorinhas e a Barra do dourado, ainda
me aguardavam. Mas a Ju preferiu ficar no frescor das águas e não seguiu comigo.
Na morada do sol. Simbolismos. O Sol, astro Rei. A vida para existir depende do Sol. O Sol aquece.
É luz. É fonte de energia. É um centro de atração. Fogo. O Sol orienta. É direção, ponto cardial. A
Terra gira em torno do Sol. O Sol é uma estrela. Meditei sobre o trabalho das estrelas. Tudo no
Universo cumpre o seu papel e o seu destino. Até os homens debaixo do Sol, onde tudo é
impermanente.
Força e Paz profunda
O Cânion das Andorinhas foi o primeiro que vi na vida. Fiquei extasiado com a força da água neste
lugar. Desci um despenhadeiro, por uma trilha difícil e sem segurança. e derrepente me deparei
com este espetáculo da Natureza. Toda a força e energia da água estava ali. O som forte dá água,
que caia agitadamente entre as pedras, a altura do cânion, tudo em um movimento "destruidor"
do universo. Me lembrei de Shiva, o deus indiano. Também estava agitado, empolgado,
impressionado. Mas não me demorei muito ali. Era um pouco pertubador para mim. Resolvi seguir
para a próxima.
Quando cheguei em Barra do Dourado, 1 km depois, me deparei com um rio tranquilo, sereno,
águas quase paradas, um grande espelho refletindo a vida em volta. Me aproximei da água, os
peixes se aproximaram de mim. Uma atração natural. Curiosidade. Muitos peixes. Um aquário
natural, pensei. Fui envadido por um enorme sentimento de paz, após passar pelo tumulto do
canion. Sentei e por um tempinho fiquei ali procurando absorver toda a paz daqule lugar.
Depois, a noite, em conversa no restaurante com as outras pessoas do nosso grupo de
desbravadores que também estiveram lá, me confirmaram a mesma impressão tive.
Fim do dia
O fim deste dia, em que conheci A Morada do Sol, terminou com a visita ao Raizama e uma outra
aventura: a volta para a Vila de S. jorge. A noite havia caído e ainda tínhamos 4km de estrada de
chão e muita poeira pela frente. Tentamos várias vezes pedir carona para os carros que passavam
em alta velocidade por nós na estrada. Mas quem é que vai parar em uma estrada deserta, a noite
para dar carona. A diversão , ou melhor a distração, para esquecer a dureza do caminho, depois de
um dia cansativo, foi ficar olhando as estrelas. Um céu estrelado, o tapete da Via Láctea sobre
nossas cabeças. Subiamos a ladeira andando de costa. Estavamos cansados, empoeirados até a
alma e com fome. Chegamos "marrons" de poeira e nem pensamos duas vezes em correr para o
restaurante para comer.
Águas Calientes
Quando conheci os dois casais de amigos, entrou em cena um componente facilitador: o carro. Isso
fez alguma diferença para conhecermos outros atrativos. Depois de um dia inteiro de caminhadas,
quando chegamos de volta na portaria do parque, sugeri um açai, bem gelado. Eu estava seco,
cansado e com fome. O sol havia me torrado bastante, mas Bia foi logo convencendo a todos que
deveríamos ir para as águas quentes. São duas opções, Jardins do Éden e Morro Grande. A
indicação era de que morro grande era melhor. Quando nunca lembrava o nome passei a chamar
as termas de "'aguas calientes".
Chegamos pedimos cerveja e peixe frito. Estava escrito em um cartaz, feito de papelão,
"geladinho", que no estado do Rio, chamamos de picolé. havia sabores exóticos para mim, Cagaita
e Buriti, ambos frutas típicas do cerrado. Buriti tem um gosto forte e cagaita é mais suave e doce.
Preferi o segundo. Depois de saciarmos a sede e a fome, descemos pela trilha para as piscinas de
águas quentes. A propaganda é que são naturais, mas algumas pessoas dizem que esquentam a
água. Deve ser a concorrência, pensei. Ficamos ali, vendo o céu de estrelas, contando histórias e
aventuras dos dias anteriores, boiando e relaxando na água quentinha, no meio da mata,
ouvindo os barulhos da noite.
Pequi para turista ver
Prato típico. Não poderia deixar de experimentar. A culinária me atrai e experimentar pratos
exóticos é para mim imprescindível. O que acho, mais engraçado, que é exótico para mim, porque
por lá é comida típica, normal. Não sei da onde surgiu o assunto do Pequi, mas me disseram que
era para passar no restaurante da Nenzinha e pedi para que ela preparasse. Mas é claro que
primeiro saímos para uma trilha. E as pessoas que encontrávamos falavam do pequi. O guia do
parque, Bil, como era conhecido, nos mostrou uma árvore de pequi. Neste dia , entrei no grupo de
uma pessoal de brasília. Esperamos até as 10h da manhã na entrada do parque. Queríamos um
bom guia. No dia anterior, o guia havia apressado um pouco as coisas. além de ter ficado mais
cansativo correr atrás do guia, ele atendia o celular: - pousada X bom dia. Concluí que ele devia
trabalhar para a pousada ou era mesmo o dono. Isso começou a me irritar, mas acho que em
algum momento saímos de área porque o telefone parou de tocar. A correria continuou. Já que é
assim -pensei- fico para trás, afinal quero fotografar e para fotografar é preciso ter paciência. Foi
neste dia que conheci os dois casais de amigos. Eles corriam atrás do guia e eu corria atrás do
grupo. Várias vezes vi que dobravam, em uma trilha e não olhavam para ver se eu estava junto do
grupo ou se passaria direto. Mas como já havia percebido a tendência do guia em chegar logo,
fiquei de olho. O inverso aconteceu no dia seguinte com o Bil. Ele era paciente até demais. havia
sido garimpeiro e erveiro. Por isso mesmo nos contou tudo e mostrou, sobre a exploração de
cristais, plantas e ervas do cerrado. A própria Ju, que reclamou de um picada de inseto foi salva por
uma msitura de alcool com arnica.
Chegamos tarde, esfomeados, e como nos dias anteriores corremos para o restaurante, fomos
direto para a Nenzinha. Chegamos lá e descubrimos, que havia arroz branco e uma compota de
Pequi, uma espécie de molho, em um vidro grande, de onde se extraia o líquido amarelo com um
canudo. As frutinhas estavam lá dentro do pote. Como o pessoal de brasília nos havia alertado, é
muito perigoso comer o Pequi, porque no meio dele, a semente, é cheia de espinhos, e se você
morder pode ir parar no hospital com a poca cheia deles. Pinguei algumas gotas no meu arroz e
gostei do gosto. Logo, um guia, que estva almoçando com agente, junto com algumas moças que
estavam em Alto Paraíso foi buscar mais e trouxe um copinho plástico de café cheio de molho de
Pequi, que espalhamos sobre o nosso arroz.
Cânios
Os Cânios são uma outra opção de caminhada dentro do Parque. Por essa trilha, o Bil nos guiou
contando suas histórias. Pude fotografar a vontade, uma vez que o guia era tranquilo e o povo
andava devagar. fiz foto de tudo que consegui pelo caminho, até dos guias. Um deles, o Kleyton,
que acompanhava as moças de Alto Paraíso, caminhava com uma canga, que tinha estampado
desenhos de fitas coloridas do Nosso Senhor do Bonfim. As fitas são muito conhecidas e são um
tradição especialmente na Bahia. Quando vi ele estava mergulhando as fitas, ou melhor, a canga,
nas águas do rio. Aquilo era um ritual ou se ele estava lavando a canga? Como não sou nem um
pouco curioso fui perguntar: - você também caminha com uma canga? - também porque a Ju
carregava a dela para se proteger do sol nas horas mais intensas, quando já estávamos implorando
uma sombra e isso lhe conefria uma aspecto de indiana - Sim, ele disse, uso para me proteger do
sol. Quero ser guia aqui por muito tempo ainda - respondeu - compreendi claramente a resposta
dele, passei mais protetor solar mais do que costume e cubri a minha cabeça com meu lenço
indiano, que me dava um aspecto árabe, já que o padrão de quadriculado nele é o mesmo
utilizado pelo Hamás, mas o comprei mesmo assim, sabendo que poderia ser confundindo com um
terrorista. Quanto exagero! Mas juro que adquiri este lenço antes da moda chegar ao Brasil, um
ano antes. Outro guia, chamado Elton John, também caminhava com sua canga preta, só que
amarrada em volta da cabeça, em forma de turbante. Fiquei sabendo depois, pela Ju, que o Elton
John, chegou acompanhado um casal e disse para eles: - vocês podem ficar aqui, meio hora, uma
hora, duas horas, quanto tempo vocês quiserem, fiquem a vontade que eu vou ali no mato
conversar com Jah! - o cara era rastafari mesmo.
Caminha-se mais para chegar aos Cânios do que para chegar nos Saltos. Preferi a primeira trilha.
Igrejinha de S. Jorge
É claro que na Vila de S. Jorge, não poderia faltar uma igreja dedicada ao santo. Já havia me acostumado a ver aquela igrejinha, lá, aberta. Parecia que não fechava nunca. Agente saia cedo
para a trilha e a Igreja já estava aberta. Voltava tarde e a igreja estava aberta. Ia para a pousada
descansar e saía para o restaurante, os bares fechavam, a vila parecia que ia dormir e a igreja
aberta. Agente voltava para a pousada para dormir e não víamos a Igreja fechar.
Uma oração a S. Jorge
Um hora resolvi entrar na igreja, afinal ela estava sempre de portas abertas mesmo. Entrei, sentei,
olhei para a imagem do grande santo guerreiro matando um dragão. Disse: - grande S. Jorge!
Lembrei, nesse exato momento, de uma oração que minha amiga Sabrina havia me dado a um
tempo atrás. A oração de S. Jorge estava na minha carteira. Abri e tirei o pedacinho de papel e
então recitei a oração:
"Jesus adiante paz e guia
Recomendo-me a Deus e a Virgem Maria,
Minha Mãe e 12 Apóstolos meus irmãos.
Andarei tão livre como Jesus andou
Nove meses no ventre da Virgem Maria Amém.
Os meus inimigos terão olhos e não me verão,
Terão boca e não me falarão,
Terão pernas e não me alcançarão,
Terão mãos e não me tocaram.
O meu corrpo não será preso,
Nem meu sangue derramado".
(Pai nosso que estás no céu...)
Mais uma coincidência pensei. Olhei para o lado e vi um desenho bem diferente representando S.
Jorge matando o Dragão, mas na lua, com a terra ao fundo. Coisas que só se encontra na Vila de S.
Jorge, assim como o Tótem e o Moacir.
Café com Araras
A primeira atitude do dia era tomar café. Primeiro, porque sou viciado e digo que só sou eu mesmo
depois que acordo e tomo umas duas boas chícaras de café. Outra, é que o café da manhã era a
principal refeição dia. Posso dizer que normalmente acordo com fome, mas aqui acordava sempre
"brocado". Parecia que havia um buraco no estômago. Comia tudo que via pela frente. O café da
manha da pousada era bem legal, pão de queijo, frutas, mais dois tipos de pão, bolos, geléia,
manteiga, mel granola e um iogurte natural especial. Durante a semana, nesta época de baixa
temporada o movimento cai bem. Praticamente ficamos eu e a Ju na pousada, sozinhos a semana
inteira. O melhor do café, era poder estar saboreando esta refeição, ouvindo pássaros cantando as
mais diversas melodias e o estardalhaço das araras e maritacas que passavam voando sozinhas ou
em bando.
Pizzas Interplanetárias
A pizzaria do E.T. era uma opção a fome. mas só conseguimos comer lá um dia. Acho que depois os
Etês abduziram todo mundo. Ficou fechada pelo resto da semana. A região havia ficado conhecida,
principalmente pela ação de ufólogos, místicos e outros sabe-se lá o que, pelo avistamento de
naves e alienígenas. Eu só os vi na pizzaria, um boneco de um Etê. E depois, também, em Auto
Paraíso e Pirinópolis, coincidentemente, todos estavam em restaurantes. Acho que admiram muito
a nossa culinária terráquea, principalmente das bandas daqui.
Pedi o cardápio e vi as opções de pizzas: alcachofra, shiitake, shiimeiji, etc, etc, Pera aí, não dava
para acreditar. Eu estava no meio do cerrado, em um lugar que a rua principal era de terra e as opções do cardápio eram refinadíssimas, coisa de cidade grande, nem na minha cidade, com mais
de cem mil habitantes, havia uma pizzaria capaz de me oferecer essa variedade de pizzas. Isso me
fez refletir mais uma vez sobre o impacto do turismo. Onde estavam as comidas típicas, a
valorização da cultura local? Bem, esses pensamentos ficam para depois, vamos comer primeiro.
Depois fui descobrir em outra pizzaria sabores que utilizavam por exemplo a carne de sol, por
preços estrelares, mas com alta qualidade.
Pinturas indescritíveis
Outro dia, saimos do restaurante - falo muito de restaurante e comida, mas é preciso entender que
depois de andar o dia inteiro comendo barras energéticas, passas e biscoito, bebendo água do rio,
sendo perseguidos por moscas vorazes, sob um sol de mais de 40 graus, a primeira coisa que você
pensa é comida e particularmente no meu caso, em coca cola, nunca tive tanta vontade de
tomar refrigerante - É bom, me disse uma vez o Tiago - Coca é hidratante! É claro que concordei.
Passamos na casa do famoso artista plástico Moacir. Já havia visto alguns quadros deles na
pousada e já já havia visto a figura sentada na porta da casa dele, parecia uma entidade, assim
como o Tótem. A casa dele é toda pintada por fora com figuras estranhas que a princípio pensei
que fossem demônios mas depois observando melhor o trabalho dele entendi que eram seres
misógenos, meio homens, meios animais, vacas, bois, cavalos, etc. Quando chegamos lá, vimos
que se tratava de alguém ainda mais bizarro e que parecer uma entidade é pouco. O sujeito estava
sentado na porta da sala da casa, que também é o seu atelier, consertando uma caixa de som.
Chegamos, procurando ver como o abordaríamos. Perguntamos se ele podia nos ver as obras deles
e ele balbuciou algum som gutural que interpretei ser um sim. Ainda bem que a Ju é psicóloga -
pensei. O Moacir é surdo do ouvido direito. Já havíamos sido avisado na pousada pelo massagista.
Mas ele não nos disse que o cara também tinha dificuldades para falar. Um aspecto ainda mais
impressionante, havia uma senhora que estava na casa com ele. Não perguntei se era mão, esposa,
ou irmã. Mas os cabelos brancos e em pé da senhora, me deixaram em estado de choque. Aquilo
era algo surreal. Nas paredes da sala folinhas e fotos de mulheres peladas. Dizem que todo artista
é excentrico. Não estava acostumado com esse mundo. Moacir tirou então uma pasta, seu
portfólio, da prateleira e colocou em cima de uma mesa e nos deixou à vontade para ver os seus
desenhos feitos a cera em grande folhas de papel. Posso dizer que o cara é um gênio! Sua obra é
única e achei um tanto psicodélica, mas não sou nem um crítico em artes para dizer o que é ou
não. Ele retrata pessoas ou animais em formas humanas, e as vezes dá a isso uma expressão
sexual, mas sem ser algo agressivo ou imoral. Por exemplo, um desenho de flores, você olha e vê
uma flor, mas se perceber bem, elas são formadas por uma série de bundas unidas, no centro, no
lugar do botão da flor, um olho. Pênis e vaginas em séries ou soltas entre outras figuras. Se
genealidade e exentricidade estão ligadas eu não sei, mas gostei do trabalho dele. Sabemos que
ele já é reconhecido internacionalmente. Pergutamos o preço, duzentos e cinquenta reais.
Agradecemos e saímos. Estava ainda perplexo, quando Ju me disse: - loucos somos nós!
A Chapada dos Veadeiros
Descobri mais tarde que a Chapada dos Veadeiros inclui 5 municípios, Alto Paraíso de Góias,
Colinas do Sul, S. João D 'Aliança, Teresina de Goiás e Cavalcante. A região é um planalto
montanhoso. O Parque Nacional possui 65 mil hectares e foi criado em 1961. Chegou a existir um
garimpo dentro do Parque, onde trabalharam cerca de 4.000 homens, extraindo cristal, segundo
informações do meu guiaparque. Também segundo ele a troca da atividade econômica do
garimpo para o turismo foi importantíssima, para preservar a região e também porque o garimpo
não faz ninguém feliz - disse o guia. Ele contou um pouco de sua história pessoal como garimpeiro,
enquanto mostrava um buraco, que parecia não ter fundo, em um dia achou que era um homem
rico, porque havia encontrado uma mina de determinado minério, no dia seguinte, outros
garimpeiros já haviam tomado a sua mina. Ele confessou que adora trabalhar com turismo e que
nunca mais quer mudar de atividade. Está até pensando em abrir uma empresa de turismo.
A vegetação da Chapada é estremamente adaptada ao clima, formando florestas, savanas e
campos. Me chama muita atenção aqui as árvores com seus troncos retorcidos que parecem
nascer das pedras e com cascas grossas. Não vi árvores muito altas, mas quando via uma árvore
grande era para valer e se destacava em meio as outras.
As Veredas
Só agora entendi o que é uma Vereda. Sempre achei o nome bonito. Me lembrei do livro "Os
Grandes Sertões Veredas". Mas agora vi e experimentei e sei como é bonita e inspiradora uma
Vereda. Certas coisas na vida não adianta falar, nem descrever, nem ver por foto, é preciso
vivenciar. Assim como dizia Santo Agostinho: "A vida é como um livro. Quem não viaja lê apenas
uma página". As Veredas são grandes campos, onde predominam os Buritis, que são uma espécie
de palmeira. Aprendi que onde há Buriti, tem água,então se ficar perdido no cerrado com sede,
procure um Buriti, que terá água por perto.
Convite a La Paz
O fim de semana estava próximo, era quinta feira, na manhã seguinte, minhas amigas Cecília e Ju
partiriam rumo aos seus respectivos destinos. Durante o dia cada um havia seguido o sua trilha.
Eu e a Ju no Parque, nossos outros amigos nas cachoeiras e Cecília descansando na pousada. Nos
encontramos a noite, trocamos idéias, falamos do dia, bebemos cervejas. Então Cecilia disse: -
estou muito decepcionanda partindo sem ver o Tótem.
Conversamos mais um pouco sobre a diversidade de culturas entre Brasil e Bolívia. Cecília estava
partindo para Campo Grande, de lá para Corumbá, onde atravessaria a fronteira para Santa Cruz
de La Sierra. Em Santa Cruz tomaria um avião para chegar aos 3 mil metros de atitulde onde mora,
em La Paz. Então, getilmente, ficou o convite para conhecer La Paz e visitá-la. Eu disse que
certamente seria a minha próxima viagem.
Totem
Um dia, a noite fui ao mercadinho comprar água e lanche para a caminhada do dia seguinte. Passei
então em frente a uma casa e via uma figura fantasmagórica, a meia sombra, projetada pela luz do
portão. A princípio achei que fosse uma estátua, sentada em posição de lótus, segurando um livro
com as mãos, a altura do peito. Chegando um pouco mais perto percebi que era uma pessoa
mesmo, real, de carne e osso, um rastafari, que tentava ler um livro naquela luz fraca do portão.
Me aproximei um pouco mais e ele permaneceu assim, paralisado, concentrado, como um iogue
em estado de transe. Passei em sua frente e ele nem desviou o olhar do livro, aliás, nem piscou,
nem virou a página do livro. Achei aquilo bem interessante. Fui ao mercado e fiz minhas compras.
Encontrei a Ju e quando estávamos voltando, lhe chamei a atenção para aquela figura, paralisada e
imediatamente veio a expressão que caiu como uma luva: - "Tótem"! Assim o apelidados. O Tótem
faria outras aparições em outras partes da Vila, em seu estado de extase, sempre sentado em
posição de lótus com um livro aberto na mão. Durante o dia pudemos observá-lo caminhando na
ponta dos pés pela rua, como se estivesse levitando. Contamos para os nossos amigos. Eles não
conseguiam ver o Tótem. Começamos a achar que era uma aparição, uma entidade, que só nós
víamos. Comecei a ficar preocupado com o que nossos amigos estávam pensando sobre nós e essa
história. Talvez o Tótem fosse uma invenção nossa. Então um dia, enquanto estávamos no
restaurante conversando sobre o assunto, virei para o guarçon e perguntei: - Você já viu o Tótem?
Um que fica sentado no meio da rua lendo um livro, como se fosse uma estátua? - para minha
sorte ele disse que sim. E que se tratava de um hippe que estava a pouco tempo na cidade.
De Carona
Estava conversando com o Tiago e disse: - daqui pretendo ir para Goiânia. Então, ele olhou para
mim e falou: - Estamos indo para lá no sábado. Se você quiser podemos te dar uma carona - A sim
obrigado! - respondi. Mais uma vez a coincidência estava operando. Mas nesse momento já estava
me acostumando a isso. Eu pensava alguma coisa, decidia o que iria fazer e em seguida a resposta
aparecia. Acho incrível a sincronicidade que existe quando estamos seguindo o nosso coração.
Saimos cedo de Vila de S. Jorge e voltamos ao Vale da Lua e depois, no caminho, fomos conhecer
as cachoeiras Almécegas I e II, na Fazenda S. Bento. Decidimos almoçar em Alto Paraíso. Entrei em
uma loja para comprar o guia de plantas medicinais da Chapada dos Veadeiros. Estava pensando,
nesse momento, que a cidade era conhecido pelo grande números de esotéricos e até agora eu
não havia encontrado nenhuma bruxa pelo caminho. Havia um grande números de cristais e outras
pedras na loja, além de souvinirs de todas as formas, tipos e cores, para todos os gostos. Comprei
algumas lembraças, entre elas uma camisa da Chapada. Fui atendido por uma mulher, vestida de
branco, senhora de olhos penetrantes e brilhantes. Quando estava pagando ela me deu o seu
cartão de visita e entre outras descrições de suas atividades estava escrito selos. O que significa
selos? - perguntei - ela me disse que era um trabalho que fazia com o calendário Maia.
Humano Ressonante Amarelo?
José Francisco
06/03/79
12 luas
KIN 72
Selo: Humano Ressonante Amarelo
VE: Entrelaçador de Mundos
PG: Semente
Humano: Livre arbítrio. O humano veio para aprender a espiritualizar a matéria.
Entrelaçador de mundos: Morte (transformação); lapidação do EGO; Desapego; Perdão.
Semente: Florescimento da Consciência. plante as sementes essenciais.
Este é o meu selo no calendário Maia. Ela ainda me disse que o Kin 72 é Portal. Perguntei o que
isso significava. Ela disse: - significa que você não precisa pedir permissão para falar com Deus.
Meu contato é direto. E me deu a frase: "Eu sou um Portal de ativação galáctica".
Mas é claro, como sou muito cuirioso, fui para a internet procurar o sgnificado de tudo isso e
encontrei um resultado diferente, digitando a minha data de nascimento e fazendo o cálculo
através da página do Calendário da Paz:
José Francisco Matulja
06 / 03 / 1979
Crono-Psi: 173
Kin 92
Humano Magnético Amarelo
Unifico com o fim de influenciar
Atraindo a sabedoria
Selo o processo do livre-arbítrio
Com o tom magnético do propósito
Eu sou guiado pelo meu próprio poder duplicado
'Inicia-se meu propósito de comunicar-me e cooperar com livre-arbítrio.'
Achei tudo isso muito interessante porém muito complicado. O que muda na minha vida a pratir
de agora?
A Maior Feira, o pior hotel
Cheguei em Goiânia e não coseguia ligar para o contato que tinha. O que estava acontecendo? Por
que a sincronicidade que havia funcionado até agora não estava dando certo? Liguei para a minha
amiga que havia passado o contato de Goiânia. ela me disse: - me liga de novo daqui a 1 hora que
vou tentar fazer contato com ela. - Enquanto isso, fui para a internet. Apesar de viajar de carona
até Goiânia, pedi para me deixarem na Rodoviária, afinal, uma rodoviária, assim como um
aeroporto, são templos de todos os viajantes e lugar onde as oportunidades podem acontecer.
A rodoviária de Goiânia é um contraponto a de Brasília. Enquanto a de Brasília é um lixo a daqui é
um shopping, com grandes lojas, como Americanas, Mc Donalds, etc. Os banheiros são limpos. Há
opções de entretenimento e até cinema.
Uma hora depois, liguei e obtive a resposta: - ela foi para um retiro só volta amanhã. Você vai ter
que se virar por ai. Tem vários hotéis baratinhos ai em volta da rodoviária. - respondi; - tudo bem -
afinal parecia não ter outra solução, ou dormia na rodoviária ou ficava em um hotel barato. E
nesse hora, as minhas costas já estavam gritando, com o peso da mochila que estava carregando.
Sai em busca de um hotel barato. Esse condicionamento ficou na minha cabeça: BARATO! Eu não
estava disposto a gastar dinheiro em uma pernoite. Fui em três hotéis e cheguei em um onde
consegui uma diária de R$ 15,00 com café da manhã. Era barato demais! Mas, era exatamente isso
que queria, fazer o meu dinehiro render ao máximo. O recepcionista me levou para ver o quarto,
mas estava hipnotizado pelo preço e nem olhei direito. - Tá fechado! - disse. Fui até a recepção
paguei, botei a mochila nas costas. Alguma coisa estava errada!. Entrei no
quarto, joguei a mochila no chão. Não estava aguentando de dor. Ia me jogar na cama - Meu Deus -
onde me meti - pensei - nesse momento a ficha caiu. Olhei em volta e vi que estava em um lugar
deprimente. Um quartinho azulejado, que mais parecia uma cozinha, nos fundos de um hotel
barato, realmente barato. Comecei a reparar na sujeira daquele lugar. Havia lixo atrás da porta. O
forro do teto estava quebrado em vários lugares. Uma sacola plástica entupia um burado entre o
forro e a parede. O chão estava imundo. Não tive coragem de pular na cama. Quem teria usado
aquela roupa de cama antes de mim? Certamente não havia sido lavada. Fiquei ali contemplando,
quase em estado de choque, a minha decadência. Mas a C7 me tirou do choque, tanto que doia.
Olhei para a minha mochila, minha salvação! Peguei o isolante térmico e estendi no chão. Era a
superfície mais limpa que poderia ter contato. Me joguei no isolante e comecei a alongar as
minhas costas, pedindo para que a dor passasse. Os alongamentos começaram a fazer efeito. me
senti melhor. Agora a sensação era de fome. Precisava sair para comer. Encontrei na esquina uma
barraquinha vendeno churrasquinho. Era ali mesmo. Estava cansado demais para voltar a
rodoviária. Um churrasquinho com coca cola. Aprendi que na dúvida, carne grelhada é um
alimento que certamente é mais difícil fazer mal. Voltei para o espeluncão, aceitando a minha
sorte, e que afinal era ali que teria que passar a noite. Estava óbvio que não poderia mais carregar
a minha mochila cargueira, com as costas do jeito que estava. Não havia banheiro no quarto, era
coletivo, no corredor. Necessitava de um bom banho quente, mas o meu nojo do lugar era tão
grande que não cogitei tomar banho aquela noite. Os banheiros da rodoviária eram mais limpos.
De volta ao isolante térmico, peguei minha máscara para dormir, coloquei borrachinhas nos
ouvidos, pois sou um viajante experiente e muito chato para dormir. Já aprendi que estes ítens são
importantíssimos para mim. Meu último pensamento antes de dormir foi: - amanhã de manhã
tenho apenas que ter forças de levar a minha mochila até a rodoviária, lá, eu a deixo no guarda
volumes.
Acordei as 7h, peguei a mochila, e parti correndo para a rodoviária, louco para jogar água limpa no
rosto e respirar um ar melhor. É claro que nem quis ver a cara do café da manhã. Dexei a mochila
no guarda volume e fui alugado pelo funcionário que me identificou como carioca e me perguntou:
- você é flamenguista, né? - Claro que não! - respondi - sou botafoguense - para que fui dizer isso...
O cara era botafoguense fanático e foi contar toda a sua história. Só quando consegui sair da
situção fui ao banheiro. O legal é que a minha mocilha foi muito bem guardada.
Tomei café. Já me sentia melhor de estar em um ambiente maias limpor e organizado como a
rodoviária de Goiânia! Então como queria conhecer a cidade, sai para dar uma volta. Primeira
parada, a feira ao lado da rodoviária.
A feira é algo incrível. barrracas e mais barracas de roupas de todas as espécies por R$ 10,00. Além
de roupa havia de tudo um pouco. É considerada uma das maiores feiras do Brasil. Começa de
madrugada e vai até as 14h, todos os domingos. Como aquilo tudo ali podia ser usado apenas
algumas horas do domingo? Pelo tamanho pensei que funcionasse todos os dias. Vem gente do
Brasil todo para comprar. Além das barracass vendendo de tudo, também há ambulantes que
transitam pelos já espremidos corredores da feira, vendendo absulutamente de tudo.
Inacreditável. Gente, crianças, famílias inteiras, carrocinhas com frutas, água, ursinhos de pelúcia,
pamonha, tudo. Nunca estive em uma feira oriental, mas isso realmente parecia cena de filme. A
princípio tudo me pareceu muito diferente, mas havia acabado de sair do meio do cerrado, pleno
contato com a natureza e derrepente estava no mundo do comércio de rua, após uma noite do cão
em um hotel de quinta, comecei a ficar irritado. Sentia fobia, não sei qual, mas queria sair
rapidamente dali. Cmecei a procurar a saida e um pouco mais à frente estava em uma rua larga,
principal de Goiânia. Dei uma volta na cidade. O comércio estava fechado, era domingo.
 |
| Thiago meu Sherpa, por onde andarás? |
O Sherpa
Voltei correndo para a Rodoviária e já havia tomado minha decião. Goiânia podia ser uma cidade
moderna, muito bonita, mas queria sair dali. Realmente eu e cidade grande não combinam. O
novo destino havia sido traçado lá mesmo em S. Jorge quando a Ju me indicou ir para Pirinópolis.
Ela queria ir, mas não teria tempo. Então jogou em cima de mim, toda a pesuqisa que havia feita
na internet. Comprei a minha passagem. Almocei. Fiquei esperando o ônibus na área de embarque
perto de uma lanchonete. Me sentei em uma cadeira onde havia uma televisão pasando
o desenho animado "A última onda do imperador". Olhei para lado e havia um rapaz, vestido
simplesmente, que parecia também esperar um ônibus fazia tempo. Provoquei uma conversa e o
retorno foi tímido. Mas alguma coisa me chamou atenção nele. Insisti no papo e aos poucos ele
começou a falar. Em pouco tempo havia tirado informações sobre sua vida. Trabalhava com
reciclagem, ou seja, catava lata, papelão e plástico pelas ruas. Morava em uma favela dos sem
terra, em um barraco de lona, improvisado. O teto era de folhas de papelão sobrepostas. Mas a
conta para mim não fechava, havia alguma coisa diferente nele. Fui mais fundo e comecei a
perguntar de onde era e como foi parar lá. Então ele contou que era de Apiacás- MT, que se
chamava Thiago e que tinha ido para Goiânia de carona, para rever seus documentos perdidos,
pois havia nascido lá. Antes de sair de casa teve um discussão com sua mãe. Mas depois de tudo
que estava passando em 3 meses que estava em Goiânia, tudo que mais queria era voltar para
casa. Não tinha coragem para ficar na rodoviária pedindo dinheiro. Então, um homem que havia
conhecido arromou para ele trabalhar com reciclagem, como dizia.
Não posso dizer que fiquei chocado com a história dele, mas alguma coisa, um intuição me disse
para chamá-lo para ir para Pirinópolis comigo. Achei isso uma loucura total da minha cabeça, mas
como o destino já havia operado várias vezes durante a minha viagem, tomei coragem e perguntei:
- Quer ir para Pirinópolis comigo? - Quando? - me perguntou – Agora. O ônibus está saindo daqui a
meia hora – então ele paralisou por alguns segundos pensado e disse : - Sim eu vou! - Então vamos
comprar uma passagem para você - respondi.
Estava se aproximando o horário do ônibus e eu disse para o meu novo amigo: - tenho que pega a
minh mochila no bagageiro. É uma mochilinha - disse brincando - então a C7 reclamou, pensei no
peso nas minhas costas, olhei para o Thiago e disse: - Puxa você pode me ajudar a carregar? - É
claro - ele disse. Fomos até o guarda volume pegamos a mochila. Quando eu olhei para ele com
mochila nas costas, sorri e falei: -você agora é o meu sherpa! - bem, tive que explicar o que era um
sherpa. Pelos próximos 3 dias ele carregara minha mochila pesada sem reclamar.
Pirinópolis
Ainda no ônibus para Prinópolis, uma senhora me chamou: - são vocês que estão de mochila? -
Sim, eu disse - Ah! eu vi pelo isolante térmico, acabei de chegar do Caminho de S. Tiago de
Compostela! - A partir daí trocamos muitas idéias sobre o Caminho. Ela me contou suas
experiências maravilhosas. Contei para ela que a tempos atrás eu também havia decido fazer o
Caminho. Mas não havia chegado a ir a Compostela, pois o que estava buscando lá começou a
acontecer por aqui, a partir do momento em que havia decidido fazer a caminhada. E que agora eu
tinha que ir lá pagar a promessa! Mas essa é uma outra história.
A viagem para Pirinópolis foi mais longa do que eu pensava. Chegamos tarde, embaixo de uma
tempestade. Esperamos a chuva melhorar. Qaundo estiou, fui com o meu sherpa em busca de
alimento. Descubrimos uma lanchonete e comemos dois grandes e saborosos X - tudo. Saciada a
fome, tinha que encontrar um lugar para ficar. A decisão havia sido acampar. Quando encontramos
o camping, voltou a chover forte, ficamos ainda esperando algum tempo para chva diminuir de
novo. Por insistencia minha, tentamos montar a barraca sob a chuva forte, mas seu interior ficou
molhado muito mais rápido do que podia imaginar. A solução então foi arrastar a barraca para
debaixo do pequeno telheiro de uma casinha que havia no camping. Foi decisão certa. Nos
arrumamos, nos esprememos dentro da barraca e dormimos ouvindo o barulho da chuva.
Na manhã seguinte, levantei com disposição. O sol estava forte, eram 7h. Fomos descobrir a
padaria. Normalmente acordo com fome, mas estava com uma fome indecritível. Da
padaria partimos para conhecer a cidade e fazer muitas fotos.
Pirinópolis é uma cidade histórica, faz lembrar Ouro Preto - MG, mas não tem nada haver. Ouro
Preto é muito maior, mais movimentada, com mais atrativos. Pirinópolis é pequena, acanhada.
Lojas e restaurantes abrem mais tarde do que o de costume. Algumas deixam aviso na porta:
"estou na loja ao lado" ou " abrimos depois das 15:30".
Vendo a vida passar
Me sentei na padaria do centro da cidade. Estava movimentado, mas o movimentado de uma
pequena cidade do interior, de costumes e tradições. Comecei a observar jovens que estavam
saindo do colégio, os velhos sentados no banco da esquina, conversando ao sol em frente a uma
banca de frutas, os carros passando sem pressa, a carroça puxada pelo burrico, as mulheres que
pareciam ir para a Igreja. Por um instante, me vi observando a vida tranquila de uma cidade do
interior passar pelos meus olhos. Simplesmente, calmamente, observando. Uma sensação de
tranquilidade também me invadiu. Ao meu lado o meu anjo da guarda, o sherpa, parecia entender
o meu silencio e o respeitou profundamente. Como o ambiente que nos cerca influencia no estilo
de vida que levamos - fiquei filosofando - Qual seria o horizonte daquelas pessoas? Qual a visão de
vida que teriam? Onde queriam chegar? Quais seriam os seus sonhos? O que aqueles jovens
estudantes fariam de suas vidas? Provavelmente teriam que sair dali, da cidade pacata do interior,
para concluírem seus estudos em um grande centro. Teriam que se adaptar a uma nova realidade.
Passariam por dificuldades, mas veriam o mundo com novos olhos, através de outras perspectivas.
Se por um lado os jovens me preocupavam os velhos sentados do outro lado da rua, pegando sol e
conversando me davam a sensação da estagnação, de um mundo parado, de lembranças do
passado. Pessoas que nunca sairam dali, que nunca conheceram outras realidades, cérebros e
mentes condicionados. O meu tempo também passou, enquanto eu divagava sobre realidades que
não eram minhas. Derrepente me dei conta da hora e despertei do meu sonho. Era hora de ir.
O Retorno
Havia chegado a hora de partir. Era o fim dessa aventura recheada de encontros, coincidências ou
sincronicidades, reflexões e amizades. Me sentia ligeiramente cansado, mas muito feliz e tranquilo
para retornar para casa e encarar os desafios do cotidiano e fazer as mudanças que tanto tempo
almejava, mas que faltava coragem para fazer.
Fiquei por algum tempo pensando no futuro do Sherpa. Um cara relamente legal, simples, de bom
coração. Fiz um convite para ele voltar comigo, ir para minha casa. Certamente, na minha cidade
poderia conseguir um emprego melhor para ele e ajudá-lo a melhorar de vida. Mas ir para o Rio de
Janeiro parecia muito longe. Nunca havia visto o mar. Mas essa curiosidade também não pareceu
ser estímulo suficiente. Elel mesmo havia reconhecido seus medos e limitações. Respeitei. Era
direito seu decidir o que queria fazer sobre a sua vida. Afinal, ele era autor de sua própria história,
assim como qualquer um de nós. A diferença só se dá quando temos consciência disso. Ser autor
da história da vida é assumir a responsabilidade pela sua própria trajetória. Isso elimina
totalmente as desculpas, as justificativas, falsas e sem sentido para o que fizemos e não deu certo
ou para o que deixamos de fazer. Certo e errado passam a ser a mesma coisa.
Nesse dia, ganhei o melhor retorno que poderia ter dessa viagem. O Sherpa me disse que eu o
havia ajudado muito. Que ele estava com a autoestima muito baixa e que conviver comigo
naqueles dias o havia feito recuperar a dignidade. Sinceridade e gratidão são coisas que não tem
preço.
Fui ao banco sacar dinheiro. Por algum motivo extraordinário ainda havia. Limpei a conta. Era o
suficiente para voltarmos para casa. Eu e o sherpa. Eu para minha e ele para a dele. Chegamos na
rodoviária. Comprei a passagem para o ônibus que já estava encostado com destino a Brasília. Não
gosto muito de despedidas e também não tivemos muito tempo para isso. Tive que correr até o
ônibus. Nos demos um abraço meio tímido. Então dei para o meeu amigo um presente. O dinheiro
que ele precisava para retornar para a terra dele, rever a sua família. Cerca de R$ 300,00. Ouvi
mais um muito obrigado.Olhos cheio d'agua. Subi no ônibus correndo porque já estava saindo.
Não olhei para trás. E aqui o Sherpa abandona a minha história.
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Postado por J.F.Matulja no
Viaje Livre por ai em 8/10/2010 09:50:00 AM