Por João Anacleto // Fotos: Leo Sposito
Quando Camile Jenatzy atingiu os 105 km/h em terra pela primeira vez, na França, em 1899, o mundo se espantou. Não pela velocidade em si – por mais que os três dígitos fossem uma marca histórica, já haviam chegado até os 93 km/h –, o grande feito de Camile foi alcançar a velocidade a bordo de um carro elétrico, o quase desconhecido La Jamais Contente. Ele superou o recorde de um bólido movido a recém-chegada gasolina, um novo subproduto do petróleo descoberto justamente porque a eletricidade, impulsionada pela corrente alternada de Nicola Tesla, substituiu os lampiões nas ruas, e por consequência o querosene.
Porém, o feito do La Jamais Contente não iluminou a história da locomoção por eletricidade, como pôde-se ver nas ruas nos últimos 115 anos. Karl Benz e Ferdinand Porsche foram duas figuras emblemáticas que tentaram subverter a lógica dos motores a combustão sem sucesso. Isso até 22 de junho de 2012, quando a Tesla – que não tem esse nome por acaso, diga-se – entregou os dez primeiros Model S aos compradores. E esses caras nunca mais foram vistos com outros carros. Sabe o por quê?
Porque o Tesla Model S é, sim, o melhor de todos os elétricos que o mundo já teve notícia. Não bastasse essa percepção, ele desafia a elite automotiva que queima gasolina em três pilares que os elétricos nunca se aventuraram: estilo, desempenho e autonomia.
O Tesla dessa reportagem é o primeiro Model S a desembarcar no Brasil. Seu proprietário é o empresário Dimas de Melo Pimenta, dono da Dimep, vanguardista no ramo de tecnologia. Dimas decidiu pagar US$ 132.670 (sem impostos) na versão P85 Performance, com todos os opcionais, porque para ele o Tesla é mais que o futuro, é o caminho mais inteligente para a mobilidade. “Como explicar para uma criança, que liga um tablet por um botão, que um motor funciona injetando combustível, e que uma faísca provoca a explosão, que empurra o pistão, gira o virabrequim... Não dá! Toda essa geração que nasceu depois dos smartphones só vai entender a simplicidade da eletricidade, e o Tesla é exatamente isso”.
Já a mistura de cupê e sedã desenhado por Franz Von Holzhausen, ex- Volkswagen e Mazda, faz com que o Tesla trilhe o caminho inverso ao de outros elétricos e híbridos. Ele não se destaca como Toyota Prius ou Honda Insight, que são reconhecidos por terem a beleza de um gnu. Já o Model S tem traços de desenho que poderiam pertencer a em um Jaguar, Aston Martin ou Maserati.
Essa fórmula lhe rendeu um coeficiente aerodinâmico de plástico bolha (Cx 0,24), o que ajuda qualquer massa a deslizar pelo ar, ainda mais com uma área frontal de apenas 0,57 m, a mesma do pavoroso Prius. Olhando assim, nem parece que o Tesla tem os cantos da carroceria e para-choques pronunciados para desviar o ar dos pneus – que calçam imensas rodas de 21 polegadas –, nem que o contorno mais saliente sob a grade frontal serve para manter o fluxo de ar preso ao carro continuamente sob o assoalho.
Mas o choque de realidade que a Tesla evita por fora, é inversamente proporcional ao que se tem lá dentro. Ao entrar seus olhos são guiados apenas para o imenso monitor de 17” que vai no meio do console e comanda todas as funções que nos outros carros você faz por botões. Como dois iPad emendados, ele é tão bem feito que depois de experimentar você passa a estranhar que outros carros não tenham um desses.
Com a mesma sensibilidade da tela do seu telefone, pode-se deslizar os dedos e regular coisas corriqueiras por ele, como a abertura do teto panorâmico, a altura da suspensão, desligar o controle de tração, escolher a firmeza da direção e até se quer que os freios recuperem a energia das frenagens para carregar as baterias, ou não, algo incomum a outro híbrido ou elétrico. Isso porque com os freios regenerativos o carro pode frear só de você tirar o pé do acelerador, algo que requer costume. A Tesla também sabe disso.
Há um GPS ali, e quando você abre o aplicativo imagina a sensação que os seus avós tinham quando paravam na estrada e estendiam o mapa sobre o capô do carro. A marca também oferece de um roteador para que você acesse a internet, tanto no monitor, como no seu celular, já que o carro passa a emitir sinais wi-fi em 3G. Ele traz bancos esportivos decentes, dignos de estarem em uma missão espacial, acabamento em fibra de carbono e som hi-end com 12 alto- falantes.
Nos detalhes, O Model S volta ao mundo real. Os botões de acionamento dos vidros elétricos, a haste de seta e o seletor de marcha são de Mercedes-Benz Classe C. A fibra de carbono no painel também já existe na concorrência. O espaço interno é como o de um sedã grande e ele ainda tem dois lugares extras no porta-malas traseiro (há outro na frente) para crianças, contudo, o Denatran não permite que você os use. O painel é de TFT, com grafismos próprios, mas para quem já dirigiu um Classe S ou um Range Rover Vogue, não há tanta novidade. Ao lado do velocímetro há um mapa com o consumo de energia, para que você saiba até onde pode chegar.
Mas essa é uma preocupação boba, afinal são 426 km de autonomia com o sistema 100% carregado, na estrada e 338 km na cidade. A estrutura que abriga as baterias de 10 cm de altura, e compostas por sete mil células de íon de lítio (as mesmas do seu celular), fica no assoalho e é separada do habitáculo por uma camada de borracha de 17 mm. A recarga é feita pelo carregador de série, que deve ser plugado a uma tomada 240V e leva 10 horas para “encher o tanque”, ou em um sistema opcional, com carregador duplo que reduz o tempo para 4 horas e meia. O Tesla necessita de 85 kWh, o que significa que a cada recarga completa um morador de São Paulo pagaria R$ 23,90, valor de 8,5 litros de gasolina, o suficiente para rodar uns 60 km com um BMW M5.
A terceira parte da revolução elétrica do Model S foi feita para nós, que nos acostumamos a tratar a emoção aliada a borbulhas, estampidos e roncos que parecem abrir as portas do inferno. Ele consegue ser extremamente rápido sem alarde. O Model S P85 gera potência equivalente a 422 cv, o torque dessa usina de força é de 61,3 mkgf a partir do momento em que você toca no acelerador. Isso faz com que o P85 entregue uma aceleração parecida à de uma queda livre, onde a força empurra você constantemente em acelerações ou retomadas. Não à toa conseguiu chegar aos 100 km/h em 4,6 s, mesmo pesando 2.170 kg. A velocidade máxima não passa dos 214 km/h, mas não é exatamente uma decepção, porque você chega até lá sem gastar praticamente nada. E sem poluir.
No entanto, ao volante você ouve tudo o que está à sua volta. Dá até para achar que ele não tem um acabamento assim tão bom, pois se escuta demais o atrito dos pneus, cada solavanco da suspensão, e o vento que bate nas janelas lembra a chegada de uma chuva de verão. Como se você estivesse em um bosque, ouvindo seus passos, o vento nas folhas e cada topada que der em uma pedra. Se isso acontecer, não se engane, é que você já se acostumou com o silêncio.
A capacidade dinâmica também impressiona. Equipado com o pacote extra de desempenho, ele vem com um sistema que entende o que você precisa depois de algum tempo em movimento. Se você estiver rodando tranquilo na cidade, ele ergue a suspensão e deixa motor e transmissão mansos para economizar energia. Em uma pista, ele enrijece os amortecedores e o controle de tração fica bem mais esperto .
Apesar do peso elevado, o carro pendula pouco, ajudado por uma distribuição de peso de 47% na frente e 53% no eixo traseiro. Mas é capaz de escapadas de traseira dignas dos Classe E AMG da geração anterior e de queimar pneus quase na mesma proporção. Quase porque o controle de estabilidade não desliga, mas permite com que a traseira escape até um ponto em que você abusou da física e não controlou direito tanto torque chegando de uma vez só.
Nessas condições, você percebe que a direção elétrica não disfarça o peso do carro nem consegue filtrar tudo de ruim que o carro encara lá fora. Os freios também são pesados e, apesar de eficientes, exigem mais força para parar. Detalhes que não merecem críticas e que a Tesla deve corrigir em poucos anos. Sim, ou você acha que tudo começou com o nome La Jamais Contente à toa?
É fácil ter um?
Segundo o DENATRAN (Departamento Nacional de Trânsito) o processo de homologação “é baseado no atendimento ao que determina a Portaria nº 190/09”. Nela “o procedimento para permitir que o cidadão importe um carro 100% movido a energia elétrica é exatamente o mesmo exigido aos demais veículos movidos a outros tipos de propulsão”, segundo o departamento. O DENATRAN afirma que não há uma legislação específica para a importação dos carros elétricos. Contudo, entre a entrada do processo e a emissão do Certificado de Adequação ao Trânsito (CAT), que permite o emplacamento, o órgão levou 66 dias, 30 dias a mais do que a média do processo normal.
Qb..po..