Política Nacional de Resíduos Sólidos levará empresas a tratarem sustentabilidade seriamente e não somente como elemento de marketing.
Computerworld 06 de maio de 2010
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente, pode transformar a política de sustentabilidade das empresas de tecnologia do País. O projeto de lei, que tramita no Senado Federal, obriga o gerador do resíduo a dar a destinação final adequada, com critérios ambientalmete corretos.
A nova legislação nacional também deve limpar o mercado brasileiro do ‘marketing verde de fachada’, mais conhecido como ‘greenwash’, alerta o diretor de operações da HP para o Mercosul, Kami Saidi , que é responsável pela sustentabilidade ambiental da companhia. “Há empresas que vendem a ideia de sustentabilidade, mas não aplicam os processos corretos”, critica.
Na visão de Saidi, com as novas regras do governo, a separação entre o marketing e a prática sustentável deve ficar mais visível ao consumidor. “O fato de você plantar uma árvore para cada produto vendido não é sustentável. Você pode estar fazendo bem à natureza, mas tem de contar ao cliente o que está fazendo com o seu produto”.
O Greenpeace está na cola das empresas que não cumprem metas de redução de componentes tóxicos em seus equipamentos. Além de divulgar seu ‘ranking verde’ atualizado, a organização não-governamental chega a cobrar pessoalmente que as empresas sigam suas metas.
Com uma regulamentação,
observam os especialistas, o
grande ativista do mercado
brasileiro será o
consumidor. Além de
questionar o destino
ambiental da próxima máquina
que adquirir para sua casa
ou empresa, também será
responsável pelo descarte
adequado de seus
eletrônicos.
O gerente de
sustentabilidade da Itautec,
João Carlos Redondo,
acrescenta que grande parte
dos clientes já tem colocado
características ambientais
entre as exigências para a
aquisição de novos produtos,
entrando em conformidade com
características ambientais
internacionais. “E não custa
mais caro”, garante o
executivo. O ciclo
sustentável ideal, segundo
ele, não deve afetar o bolso
do cliente.
Campanhas de incentivo junto ao consumidor são fundamentais para que o ciclo de reciclagem ganhe força no Brasil, afirma o diretor de diretor de pós-venda da Nokia do Brasil, Luiz Xavier. “Hoje, apenas 3% dos aparelhos são destinados pelo consumidor para reciclagem. A empresa vai fazer o papel dela, mas o usuário também precisa ter um pouco de conscientização sobre a escolha e o descarte destes produtos”, completa Ricardo, da Umicore. “Um pequeno gesto faz com que a gente faça a coisa certa”, finaliza.
Para o sociólogo e cientista político Sergio Abranches, a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos deve ocorrer a curto prazo e alinhar o Brasil a regulamentações ambientais já existentes há anos em países da Europa e nos Estados Unidos.
Autor do blog Ecopolítica e comentarias da rádio CBN, Abranches lança em agosto um livro com o título provisório de “Depois de Copenhague” (Editora Civilização Brasileira /Record), analisando a situação ambiental do mundo a partir do debate da Conferência de Copenhague, realizado em dezembro de 2009.
Em entrevista à Computerworld, Abranches destaca que as novas regras também vão acabar com a ‘fachada verde’ adotada por muitas empresas apenas como estratégia de marketing. Segundo ele, a adoção de políticas sustentáveis sérias tende a trazer economia, não representar custos, além de atrair o consumidor brasileiro sempre em busca de um diferencial.
Com uma legislação
apropriada, o descarte
correto de eletroeletrônicos
deve transcender estratégias
de marketing?
Chegamos ao limite da
possibilidade de qualquer
empresa fazer ‘greenwash’
porque o consumidor também
está mais exigente. Além
disso, é impossível termos
uma disparidade de regras
ambientais em diferentes
países – a maior parte das
empresas de
eletroeletrônicos é
transnacional e o consumidor
lá fora também cobra uma
postura desta empresas.
Há ainda uma parcela
considerável de consumidores
corporativos que também é
pressionada por exigências
de mercado e compliance com
mecanismos globais. isso não
fi ca mais da porta para
dentro. É preciso fazer
cálculos de sustentabilidade
e prestar contas ao mercado.
Por este motivo, acabou a
fase do marketing e passamos
para a obrigação. Toda a
gestão de uma empresa deve
ser sustentável.
O fabricante que
reajustar os preços de seus
produtos por conta da
adequação ao Plano Nacional
de Resíduos Sólidos está
sendo sustentável?
Há uma especificidade no
mercado brasileiro que
envolve a cultura da
transferência de preço
diante de qualquer custo
extra que a empresa tenha de
absorver. Temos uma
tolerância peculiar a preços
mais altos neste sentido.Nos
setores mais competitivos, a
empresa que praticar este
reajuste pode perder mercado
– assim como ocorre no
exterior. Acho que o
consumidor não tem de ‘pagar
um prêmio’ porque a empresa
é sustentável. este não é um
‘serviço’ que você tem de
comprar.
Por outro lado, quando a
empresa faz um trabalho
realmente sério de redução
de pegadas – emissões de
carbono, lixo eletrônico e
uso de componentes tóxicos
em produtos – vai observar
ganhos em economia de
energia e reaproveitamento
de materiais, por exemplo. e
mesmo que a empresa passe a
usar um material não tóxico,
que seja mais caro, o
consumo deve ser menor. na
maioria dos casos, a
‘iniciativa verde’ significa
redução de custos, quando se
trata da visão integral do
ciclo de vida do produto.
Qual é a sua opinião
sobre políticas de incentivo
fiscal para empresas que
possuem programas de
reciclagem, como créditos em
IPI (Imposto sobre produtos
industrializados), por
exemplo?
A questão é que toda a
estrutura de incentivos
fiscais no Brasil está
errada. Temos incentivos
para o uso de combustível
fóssil, quando o correto é
que eles sejam direcionados
a empresas que investem em
energia renovável. no
Brasil, o incentivo faz
sentido em questões
fundamentais como esta, mas
acabamos gerando uma
política do ’desconto’.
O consumidor
brasileiro já é mais
consciente em relação a
produtos ‘verdes’? Ele vai
forçar as empresas a
adotarem boas práticas de
sustentabilidade?
o Brasil tem um
comportamento de consumo
variável. Assim como nos
Estados Unidos, há um
processo vertiginoso de
renovação de status – um
consumidor da classe D no
supermercado mira sempre o
produto da classe A. É uma
sociedade que também está
disposta a comprar
qualidade, mas tem um
orçamento limitado.
Pesquisas indicam que o consumidor com maior renda é mais consciente quanto à escolha de produtos sustentáveis, mas você encontra consumidores das classes c e D que também gostariam de comprar estes produtos. se o item for mais caro, somente a faixa de alta renda vai optar por ele. se o preço for o mesmo, os consumidores vão optar pelo ‘verde’ que também é sinônimo de status, sofisticação e distinção na sociedade.
Agora que foi
aprovado na Câmara dos
Deputados, o Plano Nacional
de Resíduos Sólidos (PNRS)
pode ser regulamentado ainda
este ano?
Acho que a legislação vai
ser aprovada em curto prazo
porque não há muito o que
contestar. ela passou agora
– após 19 anos em tramitação
– porque a maior parte dos
setores que oferecia
resistência já faz
reciclagem. os bancos, por
exemplo, tinham problemas
com o descarte de ATMs e
hoje o destarte já é
auditado pelas empresas. no
setor corporativo, a questão
dos resíduos sólidos já está
incorporada. só que entramos
em fase eleitoral este ano,
o que torna o processo
lento. Acredito que logo no
início da nova legislatura
teremos a regulamentação.
Fonte: http://computerworld.uol.com.br/gestao/2010/05/06/legislacao-pode-acabar-com-ti-verde-de-fachada/