Gilberto Freyre no início de seu texto capta a atenção do leitor mostrando os reais significados das palavras. O interessante é que esses significados foram deturpados ao longo do tempo. Em nossas mentes, o ócio é na verdade um tempo vago, sem algo de positivo. A recreação é o tempo usado para o lazer de qualquer forma, “um tempo frívolo”. Freyre nos mostra que o ócio é o estudo no tempo livre e a recreação é o re-criar, ou seja, criar novamente. A partir daí, fundamenta suas teorias a respeito do trabalhador, do tempo livre e do comercial, das novas relações humanas e novo tempo em que vivemos a respeito da substituição do homem pela máquina. Esse último, um dos fatos mais marcantes comentados, é discutido a que consequências pode se levar. A substituição do homem pela máquina, leva com que o trabalhador tenha mais tempo livre, o que faz com que ele possa produzir mais em diferentes áreas, seja elas relacionadas ao seu trabalho diário ou não. Essa nova produção ajudará indiretamente seu emprego de maneira positiva. Essa teoria é bem antiga. Maria Stella Martins Bresciani, em seu livro Londres e Paris no Século XIX: o espetáculo da pobreza, relata que no século XIII, na Inglaterra, onde as condições de trabalho eram extremamente precárias, algumas empresas de Manchester começaram à auxiliar seus empregados, aumentando a produtividade de maneira significativa, além de ajudar indiretamente os empregados fora do seu trabalho diário.
Gilberto Freyre discorre em seu texto sobre as mudanças ocorridas na sociedade em face aos avanços da automação. O autor discorda do que, segundo ele, preocupa os governos que a automação trará junto consigo o desemprego e defende que este é um processo vantajoso para a sociedade, pois ele tira o emprego do trabalhador não especializado e emprega o especializado o que obrigaria, então, a sociedade a se especializar para não ficar às margens do desenvolvimento. Discordo neste ponto, pois Gilberto Freyre não leva em conta que para que a sociedade se especialize, invista em sua educação, deve haver por parte dos governos oferta de educação e especialização. Hoje convivemos com uma Universidade inchada que não suporta o número elevado de alunos que os governantes empurram pelas portas das Universidades Federais sem se preocupar com a qualidade do ensino oferecido, fato que exemplifica o meu ponto de vista.
Por outro lado o concordo com o autor quando ele leva a sua linha de pensamento para a análise dos benefícios de ser ter mais tempo-ócio disponível. A automação do trabalho permite que as pessoas trabalhem por menos horas e invistam o seu tempo livre para atividades do seu prazer, desligadas do negócio ou do trabalho. Concordo também que este tempo fará com que os trabalhadores se sintam mais dispostos a trabalhar e, além disso, a capacidade intelectual é elevada. Porém, para que este tempo livre seja verdadeiramente aproveitado os governantes devem incentivar a população a ser adepta das atividades de seu gozo.
Hoje em dia é notável o esforço que algumas (as maiores, diga-se de passagem) empresas ao redor do mundo investem no tempo livre de seus funcionários. O Google é o maior exemplo disso: as salas, escritórios e edifícios desta empresa se diferem muito daqueles sóbrios edifícios comerciais e insalubres fábricas a que estamos acostumados. A recreação tem papel principal na vida de trabalho destes funcionários que se sentem melhor no seu trabalho e assim criam produtos muito mais eficientes e criativos.
TEMPO, ÓCIO E ARTE
Num contexto onde o moderno se caracterizava pela glorificação do trabalho, esta fomentada pela emergência do capitalismo, surge um novo conceito de sociedade, um avanço considerável em termos de valorização do trabalhador. Tal mudança está intimamente ligada à automação que permitiu a redução do tempo de trabalho das pessoas, oferecendo assim, um tempo livre para lazer e o consequente aumento da qualidade de vida do funcionário. Não só no sentido de momentos de descanso, mas também, em momentos de lazer e aproveitamento de programas culturais e artísticos até então pouco conhecidos.
Muito interessante quando o autor coloca o conceito de ócio. Na sociedade atual, a palavra é visto num sentido pejorativo, como um tempo desperdiçado com coisas inúteis. Gilberto Freyre apresenta o sinônimo de ócio como o lazer, significando aquele momento onde se permite o “estudo livre de preocupações utilitárias e comerciais”. Ou seja, o ócio, admitido nessa nova sociedade moderna, vem para a realização de atividades necessárias, tais como leitura de livros, teatro, cinema e até mesmo o consumo (aumento do mercado consumidor com consequente aumento da economia). O ócio é positivo e o negócio é negativo.
Mais interessante, quando Freyre relaciona recreação, ou melhor, re-creação, com arte. À medida que há tempo para atividades culturais e lúdicas, há o conhecimento e a ampliação de uma visão artística mais aprofundada o que acaba por incentivar a criatividade e por fomentar os movimentos artísticos.
No texto, o autor nos insere ainda mais no contexto onde o tempo de lazer é cada vez mais motivado, citando exemplos em vários países da Europa principalmente, mas posso colocar o tema num contexto atual. Hoje existe o conceito de qualidade de vida do trabalhador. Não só no sentido de mais direitos trabalhistas, com férias e recessos, as também na motivação de atividade lúdicas dentro do próprio trabalho. Com isso, sua saúde é favorecida, as relações entre os próprios trabalhadores se tornam mais harmônicas e, é claro, o desempenho do trabalhador aumenta.Em termos de arte, está bem claro que o consumo e uso de atividades artísticas são bem quistos e até mesmo necessários.
Ao logo do texto ‘Tempo, Ócio e Arte’, Gilberto Freyre escreve sobre o desenvolvimento tecnológico e as mudanças que vem acontecendo na sociedade devido ao maior uso da automação no trabalho.
O autor conceitua ócio como estudo de preocupações utilitárias e recreação como contínua criação, re-criação, desfrute recreativo que implicaria em criações de arte, para explicar esse o problema das relações entre ócio e trabalho.
Segundo ele, a valorização excessiva do trabalho resultado da emergência do capitalismo urbano-industrial vem perdendo força, proporcionando uma maior valorização do trabalhador. A automação permite a menor participação do trabalhador, que tem maior tempo livre, ócio. Mas aqui o ócio não deve ser confundido com ‘fazer nada, descansar’, mas como um tempo de dedicação a outras atividades que contribuem para o crescimento intelectual pessoal.
Já podemos perceber vários exemplos dessa revolução de tempo-ócio atualmente. As pessoas tem se preocupado mais com hobbies e quebrando convenções sócio-culturais e de sexo do indivíduo. Homens estão aprendendo a cozinhar e costurar e já as mulheres desenvolvendo habilidades de marcenaria e carpintaria. Também podemos ver o aumento de idosos nas universidades que, após a aposentadoria, se dedicam a um segundo curso.
Segundo Freyre, ‘é o fim de uma época de que a motivação predominante de vida foi o trabalho e no início de outra época em que o gozo do lazer é que começa a ser o motivo central de vida.’
A obra enfoca pensamentos que relacionam tempo, ócio e arte, com o intuito de gerar significados para estas palavras em meio às mudanças sociais geradas pelos avanços tecnológicos. Achei diferente o fato de Gilberto Freyre ter definido ócio positivo ( sem trabalho e sem preocupação de negócios) como uma ferramenta essencial para haver contínua criação. Freyre definiu o lazer como sinônimo de ócio, no qual a arte seria desfrute recreativo ou lúcido de tempo para a criação. Acredito que o método de unir trabalho e ócio utilizado por muitas empresas de hoje (que possuem ambientes para jogos, pilates, etc) é um exemplo que se contrapõe à ideia de Freyre, pois para ele não seria possível tal união, ao passo que ócio se encaixaria na noção de liberdade em manusear o tempo como bem entender e não ser direcionado pela empresa que visa qualificação do técnico para obter frutos. Enfim, o autor acha vantajoso o aumento do "tempo livre" e a diminuição do tempo destinado ao trabalho para a ampliação do conhecimento. A obra de Freyre me fez refletir sobre o real o sentido da vida, ao envolver otimização do tempo para obtermos cada vez mais o auto-conhecimento.
No texto Tempo, Ócio e Arte: Reflexões de um Latino-Americano em Face do Avanço da Automação, Gilberto Freyre diz que o ritmo vivido pelo homem contemporâneo não o permite analisar os problemas do mundo em que vive e que cria, tanto na produção, quanto na tecnologia e nas questões sociais. A glorificação do trabalho desenvolvida nos tempos modernos é ultrapassada. A partir daí o autor faz uma interessante definição a respeito do ócio e da sua relação com o trabalho. Ele diz que o ócio é o positivo, já que está livre de “preocupação com assuntos apenas úteis”, enquanto o negócio é negativo. O ócio está relacionado com o tempo livre e o tempo livre deveria estar relacionado com o prazer, com a arte, e sendo assim, com a criação e a recriação a partir de um momento lúdico.
A proposta do autor é a de uma “revolução social”, que está ligada à automação do trabalho e ao aumento do tempo livre, tempo no qual somos realmente produtivos e temos a capacidade de recriar. Ele diz que este é o tempo que deve ser valorizado pelo ser humano. Também afirma a visão da vida como arte, fato que eu achei extremamente importante. Ele vê as coisas de uma maneira extremamente positiva, ao contrário de Ortega no texto lido anteriormente. Ás vezes pode parecer uma visão um pouco utópica e idealista da vida, mas é bastante interessante para a reflexão de como lidamos com o nosso cotidiano e de como organizamos o tempo que temos independente do trabalho que devemos exercer diariamente.
O autor defende que estamos vivendo um momento de modernidade em crise, que está perdendo seu valor inicial, quando se originou no início do capitalismo: o desenvolvimento tecnológico não está sendo suficiente para resolver os problemas atuais, e todo o foco das atividades do ser humano está sempre em resolver essas questões imediatas, caracterizando um “moderno efêmero”.
O trabalho passou a ser muito valorizado, o que o autor chama de “trabalhismo”, tomando o lugar do tempo livre, o ócio, que o homem teria de estudar livremente, refletir, e expressar sua criatividade. Essa valorização do trabalho se intensifica a partir da ideia de que tempo significa dinheiro, e a valorização do trabalho pelos princípios éticos e religiosos em contraposição à critica do tempo livre. O que era inicialmente uma qualidade, a priorização do trabalho, hoje se apresenta de forma nociva e pejorativa. Outro conceito que também foi perdendo a credibilidade foi o desejo (excessivo) de prosperidade e status. Desde o início da industrialização essa divisão de tempo de trabalho e de lazer foi um problema resolvido, e que até ainda continua em pauta, pois são os trabalhadores, através desse trabalhismo que estão possibilitando a mudança da mecanização para a automação.
O autor defende que esta era da automação irá substituir o trabalho e o controle humano, revolucionando as relações entre os indivíduos, tanto econômicas, quanto sociais, culturais, pois o homem enquanto aumenta cada vez mais sua expectativa de vida, aumentando consequentemente o seu tempo livre em relação ao trabalho, que será aproveitado com muito mais opções de lazer; nesse caso, existiria uma relação mais próxima entre pessoas de diferentes níveis de inteligência, saber e cultura. O autor destaca também que essa mudança gerará uma necessidade de qualificação de operários, pois aquela imagem antiga de trabalhador irá desaparecer, exigindo um nível maior de conhecimento. Os governos de todo o mundo se preocupam com essa necessidade e de alguma forma tentam controlar essa rapidez da mudança da era para a automação, porém ele afirma que o controle excessivo, como ocorreu com a União Soviética e com a China, acabam gerando limitações muito grandes nas artes e nas ciências, gerando obras pobres, sem originalidade. Essas mudanças de eras também se refletem nos países em desenvolvimento como o Brasil, que sofreu com a mudança rápida e brusca do trabalho escravo para o trabalho industrial e agora também irá sofrer da era industrial para a de automação, em que será uma época mais marcada pelo tempo livre que pelo tempo de trabalho, então as pessoas deverão começar a ser educadas para aprender a aproveitar o seu tempo livre. O autor afirma que com esse novo contexto a área de humanas voltaria ser mais expressiva no ensino em relação às exatas, gerando na população uma noção mais aguçada de valores político-sociais; se o ensino continuasse priorizando as exatas, teria a possibilidade de o governo se assemelhar aos totalitários anteriormente citados, comandando pessoas mais parecidas a máquinas.
O autor afirma que haveria a revalorização da arte, principalmente da música, no contexto brasileiro, e posteriormente às outras atividades como esculturas, marcenarias, e atividades de fazer renda ou cozinhar. O autor também defende que haveria uma quebra do preconceito de divisão de atividades de acordo com o sexo, adotada no decorrer da história, haveria maior liberdade na escolha das atividades a serem praticadas. Da mesma forma, quebrando paradigmas, os idosos passaria a cursar mais a universidade e não seria apenas um lugar para jovens. As pessoas iriam também ter uma prévia de estudos relacionados a humanas antes de qualquer faculdade, para que um lazer identificado seria desenvolvido ao longo do aproveitamento do tempo ócio da vida. A falta desse ensino à população geraria monotonia, como ocorre na Suécia, onde há grandes índices de suicídio.
Vejo essa opinião do autor como algo um pouco distante da realidade. Até hoje as pessoas adequaram seu dia a rotinas cada vez mais pesadas, mesmo com as facilidades que a tecnologia trouxe. Acredito que haja uma relação inversamente proporcional: quanto mais a tecnologia diminui o trabalho do homem, mais ele aumenta sua carga de trabalho, para que haja resultados cada vez maiores. O ser humano já está se assemelhando cada vez mais a um robô, não é uma realidade distante, que se realizará apenas com a completa automação. A nossa era já exige cada vez mais capacitação profissional, qualificação de funcionários, e mesmo com todas essas mudanças, o ser humano não passou a ter mais tempo livre, pelo contrário, ele se atola cada vez mais de trabalho. Acho que essa visão de o ser humano ter mais tempo livre, ter um estudo recreativo e se manter produtivo com atividades de lazer seriam o ideal, a esperança de um futuro mais equilibrado, porém vejo essa ideia como uma utopia, um sonho que aparentemente não será realizado. Vejo um futuro em que o ser humano terá dois caminhos: ou superar cada vez mais os seus limites, tentando de alguma forma ter um tempo de lazer, ou chegar a um ponto em que suas condições humanas (físicas e psicológicas) não serão mais suficientes para conduzir um comportamento cada vez mais semelhante a máquinas, caracterizando o fim dos seres humanos.
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O texto de Gilberto Freyre trata de uma visão de futuro, aonde é feita uma crítica da glorificação do trabalho na sociedade moderna. Falando de um futuro aonde a automação predominará nas relações trabalhistas, provindo disto menos horas de trabalho e mais tempo de ócio, Freyre desenvolve um narrativa bastante positiva em relação ao uso desse tempo livre, embora admita que tanto como a sociedade moderna foi ensinada moldada à esse cultura trabalhista existente ela precisaria de educação sobre o que fazer além de sua profissão com tanto tempo livre. Assumindo a ocorrência desse tempo livre o autor chega a conclusão de que haveria muito mais tempo para assuntos humanísticos, que ficam em segundo plano numa sociedade regida pela técnica e pela produção, o que daria do homem médio ao grande pensador uma capacidade muito maior de reconhecer problemas marginalizados e que muitas vezes essa mesma sociedade trabalhista aliena aos indivíduos, como é descrito explicita e detalhadamente no texto de Theodore Adorno, ressaltando que os dois textos são de épocas muito distintas o que pode aumentar os diferentes tons utilizados. Essas contemplações proporcionadas pelo ócio também afeta a disposição das pessoas em suas camadas interpessoais, em geral é uma ideia que coloca uma visão muito otimista do caminho que nossa sociedade produtora virá a tomar. Quando muitas vezes o caminho mais nítido é o de Adorno do controle da indústria e da produção sobre o comportamento social de forma a mumificar as relações interpessoais e sociais e não libertá-las como sugere Freyre.