CIRCUITÃO PELO MORRO DA PLACA
Decididamente este semestre foi o de refazer roteiros a muito esquecidos, como o do Pico do Bonilha, Pedra de Quatinga, Cachu Putim, Serrote de São Roque e da travessia Elefante-Estudantes. Pra dar então continuidade a essa nostálgica retomada de antigas
pernadas, decidi retornar ao Morro da Placa, em Cajamar. E da mesma forma que nos rolês citados a idéia era arrolar o máximo de atrativos de modo a otimizar o bate-volta. Sendo assim, o circuitão dominical de quase 20kms que não apenas atingiu os quase mil
metros de altitude deste serrote, que se caracteriza pela sua “orelhinha metálica” cuja finalidade é servir de referência ao tráfego aéreo; contemplou também a refrescante cachu do Britão, os históricos Fornos de Ponunduva, os dois mirantes da pedreira e o
belvedere do Morro da Chapada. Sim, tudo isso a apenas 45km da Grande São Paulo!
Encontrei pontualmente a Ana e a Lu no centrão da Lapa por volta das 8hrs, onde não demorou pra embarcar no latão intermunicipal “055 – Cajamar/Lapa”, da EMTU. Aquela manhã estava perfeita, limpa e sem nebulosidade alguma, sinal que a previsão acertara
em cheio. A viagem de busão logo deixou a urbe paulistana pra ganhar o asfalto da Rod. Anhanguera (SP-330), tocando sempre pro norte e sob o olhar altivo do Pico do Jaraguá, á nordeste. Mas não demorou pra abandonar a rodovia pra adentrar nos domínios de Polvilho,
distrito cajamarense onde o cinza urbano dá lugar a um cenário mais natureba, composto por verdejantes morrotes ao redor.
Saltamos as 9:15hr no centro da pacata Cajamar, mais precisamente do lado da minúscula pracinha Benedito Martins da Cruz, na cota dos 730m de altitude. Dali basta seguir até a esquina da Diretoria de Educação de Cajamar e tocar pela Rua Pedro Domingues,
que o asfalto logo se torna uma precária e empoeirada via de chão que toca sunuosamente pra direção noroeste. Daí em diante não tem muito erro pois basta seguir sempre sentido oeste, isto é, pela via principal e ignorar qualquer bifurcação menor ou que perca
altitude.
A pernada pela estrada de chão transcorre então sem grandes intercedências e sempre em nível, e se a região já transpirava ar interiorano ele se intensifica ainda mais ao passar por uma ou outra chácara. Mas não tarda pra deixar toda civilidade pra trás
de vez e o silêncio reinar absoluto pela larga vereda, que alterna lama e poeira seca, ao mesmo tempo em que serpenteia a morraria florestada e ganha altitude de forma imperceptível. Só por volta das 10hr, depois de acompanhar um córrego que marulha á nossa
direita é que trombamos com a última casinha do trajeto, na cota dos 770m, onde somos recebidos por estridentes cães. Pergunto pro tiozinho dali do nome do local e ele responde, enquanto acalma os pulguentos: “Aqui é a Faz. Capuava, mas o pessoal também conhece
como Iracema!” .
É somente após esta simplória casinha que a subida aperta de vez, e o que era uma larga estrada de chão se torna uma vala íngreme e erodida que serpenteia a encosta da serra morro acima. Num piscar de olhos a vegetação reduz seu tamanho, ganha altitude
considerável e os horizontes abrem-se consideravelmente a minha volta, permitindo avistar tanto as três cristas que acedem o maciço principal, paralelas entre si, como o próprio maciço, forrado de reflorestamentos e corado por sua “orelhinha metálica”, a famosa
“Placa de Cajamar”.
Mas após um tempo por esta via, que sobe de forma imperceptível pra oeste, logo surge a primeira bifurcação de muitas e, ao invés de seguir pela principal morro acima, tomo a vertente da direita que acompanha a dobra da serra na direção norte, descendo
suavemente. O caminho se estreita um pouco mas ele é bem evidente, sem segredo. Mas não demora a nossos ouvidos serem inundados pelo som inconfundível de água, e esta é de fato encontrada logo adiante, mais precisamente numa dobra estreita da encosta serrana,
ás 10:20hrs. É a “Cachu do Britão”, na cota dos 820m, onde a água despenca duma lajota de quase 2m de altura pra depois seguir seu curso morro abaixo. Sim, está mais pra bica que cachu, mas nesta serra agreste, seca e árida qualquer fonte deste precioso líquido
é valioso. Breve pausa pra cliques, beber goles de água e molhar o rosto.
Revigorados, retomamos a pernada ainda tocando pela via palmilhada, sempre pro norte, que se alternava num chão terrivelmente erodido e uma via cascalhada. Foi aqui que a subida apertou de vez e nos separou uns dos outros, mas nos presenteou com uma vista
generosa de todo caminho percorrido até então. Uma vez no alto deste espigão transversal ao maciço da placa bastou acompanhá-lo sem problemas e com mansa declividade pela sua descampada cumieira, retomando a direção oeste. Olho de sopetão pra placa e vejo
ela cada vez mais perto da gente.
Dessa forma chegamos finalmente ao alto do maciço principal, marcado por muitas clareiras gramadas, arbustos e algum arvoredo aqui e ali. Evitamos a vertente que toca pro norte, em direção ao Morro do Matheus, aquele coroado por uma torre de telefonia,
e retomamos a chinelada pelo restante que temos de cumieira, porém agora pro sul. A vereda alterna chão erodido e pedras cascalhadas, se mantém nesse ritmo e sem pressa alguma pela abaulada crista. O vista é generosa pro quadrante norte, recheada de vários
mirantes e cocorutos privilegiados. O detalhe deste trecho é a presença de adeptos de quadriciclo no trajeto e de boa parte do pasto da encosta norte da serra encontrar-se queimado.
E assim, as 11:10hrs pisamos no alto dos 1080m do Morro da Placa, também chamado de Mirante da Placa, onde temos uma pausa mais que merecida pra descanso e lanche na cia dum trio de bikers, dois motoqueiros e uma família que estava no local. Distancia
percorrida até ali? Coisa de 8kms, com desnível de quase 400m! Sim, o desnível é baixo, mas isso é o de menos. O que importa é o visu. Diferente da placa de retransmissão do Ciririca (PR), esta daqui serve de referência ao tráfego aéreo. Com aproximadamente
25m de altura por 15m de largura, quadriculada em branco e laranja, a estrutura metálica salta aos olhos dos pilotos da aeronaves. Localizada num dos pontos mais altos da região, a visão e o panorama que este pico proporciona são realmente dignos de nota:
a leste temos todo trajeto feito até ali, além de Cajamar, Jordanésia, Polvilho e, bem atrás, a sulhueta inconfundível do Pico do Jaraguá; enquanto o quadrante norte escancara todo o recorte esmeralda da Serra do Japi, Jundiaí, Franco da Rocha, Caieiras e
Pirapora do Bom Jesus. Sem muito esforço é possível ainda avistar a Serra do Voturuna, o Morro do Capuava e a Serra dos Cristais a oeste.
Depois de descansar, comer alguma coisa e bater aquela selfie básica no topo, por volta do meio-dia decidimos colocar o pé na trilha, pois ainda tinhamos um bom chão pela frente. Tomamos então a mesma via pela qual viemos só que no sentido sul/sudoeste,
agora nos sempre mantendo na crista da serra, descendo suavemente enquanto a paisagem revelava nova vista do quadrante a nossa frente. No trajeto, abandonamos a via palmilhada por outra bastante erodida que descia forte pela esquerda, onde infelizmente tropeçamos
cum um grande foco de incêndio que consumia a vegetação daquela encosta serrana. A descida aqui foi feita não apenas com cautela no caminho, mas com a mão cosntantemente no nariz de modo a não inalar a maledita fumaça.
Por volta das 12:10hr pássamos pela frente do “Bar do Antonio”, um modesto e improvável boteco alocado bem nas entranhas da serra que é point carimbado da galera motorizada em duas rodas. O lugar, na cota dos 950m, é um oásis em meio aquele inicio de tarde
de calor escaldante e a vontade de ali ficar é grande, mas como sempre o dever fala mais alto e assim prosseguimos nossa jornada sempre descendo, agora na direção sudoeste e por uma precária e poeirenta via de chão. No caminho, ignoramos varias ramificações
pra esquerda ao mesmo tempo que se revela uma bela perspectiva dos dois imponentes morros da Serra dos Cristais, bem á nossa frente.
A estrada terminou nos deixando numa larga via de chão que atende pelo nome de Estrada Municipal Flávio Benedutti, já em território de Pirapora do Bom Jesus. Uma vez nesta via bastou tocar por ela, agora descendo ainda mais porém na direção sudeste, até
que chegamos por volta das 12:45hr nos pitorescos “Fornos de Ponunduva”, situado no fundo do vale do Ribeirão Ponunduva. Ali, na cota dos 780m, decidimos fazer nova parada, e enquanto as meninas descansavam eu fui clicar aqueles antigos fornos de cal. Feito
uma fortificação ou até um castelo, três imponentes torres se elevam de forma imponente a margem da estrada. Pausa pra fotos, muitas!
Aqui vale um parágrafo exclusivo pra explicar o que são essas ruínas, que nada mais são testemunhos da pré-industrialização de Sampa, datadas do inicio do século passado e que funcionaram até a década de 70. Suas torres queimaram muito cal, que ali era
levado pelos vagonetes da “EF Perus-Pirapora”, construída unicamente pra esta finalidade. Contudo, o tempo foi cruel pra outrora hiperativa fábrica de cal. As enormes torres de tijolos – ou caieiras – sentem o peso do abandono que, com rachaduras, umidade
e até mato crescendo em volta, se mantém ainda em pé e resiste, como por milagre. Uma delas parece até que ancorada numa árvore, enquanto outra logo se parte ao meio por conta dum enorme tronco emergindo pela boca duma das chaminés. Dos trilhos só restam os
que se encontram no alto do forno, uma vez que o trem abastecia a caieira por cima. A arquitetura impressiona e o silêncio da mata ao redor torna o lugar ainda mais misterioso. Perto dali uma bem-vinda bica sacia a sede de biker e andarilhos como nós. Do lado,
uma trilha me chama a atenção e percorrendo os menos de 300m dela chego num lindo lago, fruto do represamento das inumeras nascentes da serra ao redor e que provavelmente deve ter sido de grande importância no rescaldo dos fornos.
Retomamos a chinelada pouco depois, ainda nos mantendo na supracitada estrada de chão, que se manteve em nível serpenteando a base da serra em meio a muito, mas muito verde. Eventualmente surgiam mais ruínas antigas a margem da via, mas o cenário predominante
era do mais puro verde. Mas depois de um tempo abandonamos a estrada por outra óbvia vereda á esquerda que retomava novamente a ascensão gradual das serras ao norte, no caso do espigão serrano do Morro da Placa deste quadrante.
Uma vez no alto deste espigão bastou nos apegar a qualquer vereda que tocasse pra leste, e assim foi. Foi aqui que tivemos nosso último vislumbre do Morro da Placa, agora visto de outro ângulo, uma vez que começamos a percorrer cocorutos serranos consecutivos
que o ocultaram em definitivo conforme avançávamos. Surgem bifurcações a toda horas mas aqui basta se manter na principal, isto é, sempre pra leste pela vereda mais larga e pisada. O cenário é predominatemente aberto, uma vez que a mata a margem da via se
resume a arbustos, capim e uma ou outra árvorezinha de porte médio.
Mas foi ao perder cada vez mais e mais altitude que a vereda fez uma curva pro norte, bem antes de passar sob a linha de alta tensão, e nos tomamos uma ramificação pro sul. Esta precária via penetra no frescor da floresta alocada nas dobras mais íngremes
da serra deste quadrante e, meio que num piscar de olhos, nos leva a um dos vários mirantes que basicamente privilegiam a enorme Pedreira Votorantim, na cota dos 780m. Nova pausa ás 14hrs pra apreciar e clicar aquele gigantesco buraco no solo, cujo destaque
maior era o lindo lago esmeralda que reluzia lindamente ao sol das 14hr da tarde. Também chamado de Morro da Pedreira, a altura dali impressiona, uma vez que de onde me encontro até o fundo daquela enorme jazida de pedra granítica preta certamente passa dos
100m!
Na sequência pusemos novamente pé na trilha, agora singrando a espessa floresta em nivel, pra leste. O frescor da mata contrasta com o calor daquele início de tarde e a vontade é que o restante da chinelada se mantenha desse jeito, sem calor e sem desnível
algum. Mas eis que a vereda desemboca noutra maior, do lado do segundo mirante da pedreira, onde temos outra perspectiva daquela enorme cava de mineração que não passa de uma mácula do ser humano na região serana de Cajamar.
Pois bem, se o frescor e ausência de aclive dominaram o trajeto até a pedreira, tudo mudou no trecho seguinte, isto é, na rota até o Morro da Chapada. Sim, a partir dali tivemos que vencer uma íngreme ladeira exposta que tocou pra nordeste, de modo a ganhar
o espigão serrano mais próximo do supracitado morro. Uma vez no alto bastou, na bifurcação seguinte, tomar aquela que fosse de encontro a um trio de antenas visíveis a leste. Pronto. O restante da chinelada se deu de forma bem mais amigável por uma cumieira
de pasto que logo nos largou num estradão de chão mais largo e batido.
Uma vez nesta via é mais que intuitiva a rota a ser tomada, que num piscar de olhos nos deixa no alto do Morro da Chapada, que noutra ocasião conheci pelo nome de Morro da Coruja. Ali, na cota dos 848m, três enormes torres de telefonia dividem espaço com
rochedos num enorme gramado salpicado de arbustos. Horário? Apenas 14:45hrs! E foi ali que nos brindamos com nossa última e breve parda de descanso, empoleirados nos pequenos rochedos a beira do morro. Bebericando os últimos goles de água de nossos cantis,
apreciamos a bela panorâmica de toda Cajamar, que se esparrama a nossos pés.
Missão cumprida, retomamos os finalmentes da pernada pra descer o restante da via principal, que contorna o morro pela encosta direita, na diagonal, desce forte numa reta só e termina desembocando na frente da “Igreja Apostólica Torre Forte”, pouco depois
das 15hrs. Dali pro centrão de Cajamar foi um piscar de olhos. Por sorte, mal chegamos ainda encontramos um hipermercado aberto, o que nos garantiu os “comes e bebes” necessários durante o tempo de espera de nossa condução, que foi literalmente no “banco da
praça” central. O latão passou pontualmente por volta das 16:15hr e dali zarpamos enfim em nosso retorno derradeiro pra Sampa, satisfeitos por mais uma aventurinha dominical bem-sucedida.
E assim findou mais um domingão improvisado nos arredores de Sampa, nestes cafundós de Cajamar. Sim, são altitudes e serras próximas que não se comparam, por assim dizer, a uma Mantiqueira ou Serra do Mar, apenas pra citar algumas. Mas são programas rápidos,
próximos e acessíveis que garantem a contento uma aventurinha básica ou algum desafio despretensioso por morrotes, mirantes, relíquias históricas e outros atrativos. Perto dali, inclusive, há uma profusão de outros pequenos serrotes que podem ser emendados,
como o Morro do Neli e o Morro do Rosário, este último situado em Jordanésia. Sem falar nas elevações que surgem na direção de Jundiaí. Resumindo, a “Placa de Cajamar” não é apenas a principal atração da região do município. Pelo contrário, é o ponto de partida
pra inúmeras outras aventuras bem próximas da urbe de Sampa.