A PEDRA GRANDE E A CACHU DO MESTRE
Fazia quase uma década que não pisava no alto Pedra Grande de Quatinga, granito de 100m de altura que coroa uma respeitável montanha de 1120m, e a oportunidade de levar um amigo lá foi a deixa pra conhecer um novo acesso ao pico. Sim, pelo que recordo
vagamente havia duas trilhas bem tradicionais a este belo maciço encravado no meio da Serra do Mar paulista, situado pouco depois da divisa de Paranapiacaba com Mogi das Cruzes: um ao norte, pela Faz. Itaguacira; e outro a oeste, na Faz. Pólvora, de propriedade
do Exército. Pois bem, este é o relato de um acesso pelo sul, saindo do Rancho da Cleusa, que além dos altos visus do alto da pedra nos brinda com refrescantes banhos da Cachu do Mestre.
Já levava um tempo que estava combinando de levar o veterano montanhista Alberto Ortenblad pra Pedra Grande de Quatinga, lugar que ele nunca tinha ouvido falar e ansiava conhecer, mas toda hora que fechávamos uma data ocorria ou do tempo virar ou pintar
algum compromisso inadiável na véspera. Mas felizmente surgiu uma compatibilidade de nossas agendas neste último final de semana e, pela meteorologia, uma boa brecha de bom tempo no sábadão pós-feriado. Pronto, combinamos sair bem cedinho e o melhor, motorizados.
Isso agilizaria enormemente os deslocamentos e a trip como um todo, ainda mais quando a previsão era do tempo trazer algumas pancadas meados de tarde.
Assim, eu e a Lau embarcamos no possante carro do Alberto assim que ele passou nos buscar em casa no horário combinado, pontualmente ás 7:30hr. Dali foi um piscar de olhos pela Av. Dos Bandeirantes, Rod. Anchieta (SP-150), Rod. Caminhos do Mar (SP-148)
e Rod. Indio Tibiriçá (SP-031), trecho que passou despercebido em meio a muita conversa e fofoca colocada em dia. Não tardou pro cinza da urbe de São Bernardo do campo dar lugar ao espelho dágua das represas do trajeto e ao verde pulsante da vegetação em volta.
Como era co-piloto do motorista, só comecei atentar melhor ao trajeto quando tomamos finalmente a Rod. Dep. Antonio Adib Chammas (SP-122), após a rotatória que dá acesso á Rio Grande da Serra.
Abandonamos o asfalto então pra entrar no acesso da Estação Campo Grande, marcado pelo Monumento ao Divino Redentor que coroa um pequeno cocoruto rente a estrada. Dali tomamos a precária, enlameada e sinuosa Estrada para Paranapiacaba, que após quase
5 trepidantes kms nos deixou na parte baixa da ilustre vila inglesa. O dia se mostrava bastante convidativo, com sol iluminando fortemente as encostas da Serra da Comunidade ao lado de um firmamento límpido e de pouca nebulosidade. A vila mesmo parecia acordar
naquele mesmo instante, com pouquissimo movimento nas ruas naquela manha úmida porém promissora.
Dali nos pirulitamos pra nordeste por mais 4kms, pela sinuosa Estrada do Taquarussú, ladeando a mata verdejante do Parque das Nascentes até chegar na vila do mesmo nome, que tem ares de cidade cenográfica. Ali tivemos uma breve parada pra fotos na simpática
Igreja de Santa Luzia e seu coreto, e qual minha surpresa que agora a passagem pelo meio da vilarejo é proibida, sendo necessário contorná-lo pela direita pra prosseguir na via principal! Uma cerca fechava o perimetro do lugar e uma placa avisava da vila
agora ser propriedade particular, mas que está disponivel pra realização de eventos ou locação de suas casas. Daí expliquei pro Alberto que o vilarejo nasceu durante a 2º Guerra Mundial, com a vinda de trabalhadores italianos que trabalharam na extração de
carvão pra suprir a SP Railway, de dominio inglês.
Prosseguimos pela trepidante via, agora cercados de um farto eucaliptal num trecho que integra o “Caminho do Sal” cercado de montanhas e muito verde, até chegar numa bifurcação importante. Abandonamos então a via percorrida por outra que nasce pela direita,
acompanhando a sinalização que diz “Camping Simplão”, agora serpenteando uma área de várzea na direção leste. Dali já se consegue avistar uma serrinha escarpada elevando-se a nordeste, sendo que o majestuoso pico situado no extremo sul desta cadeia corresponde
á Pedra Grande de Quatinga. Chegamos então noutra bifurcação, onde agora ignoramos aquela que leva ao “Camping Simplão” e tocamos pela precária via da esquerda, onde uma rústica placa diz “Vende-se almoço e CEVEJA”, que é nosso destino.
Dali se anda coisa de alguns minutos e pronto, chegamos no Rancho da Cleusa. Sim, foram quase 8 intermináveis kms da vila inglesa até ali. O lugar parece saído do interior, com sua simplória casinha de paredes pintadas de rosa, fumaça saindo pela chaminé
e galinhas e porcos circulando livremente ao redor. Ali conhecemos a jovem Cleusa e seu marido, o João, que recebem muito bem os visitantes da pedra. “É, o pessoal vai na pedra e depois voltam com muita fome! Daí a gente serve bebidas e refeições pra quem
quiser!”, dizem. Alberto pergunta, com curiosidade, se eles são os proprietários ou caseiros do lugar e estes respondem: “A gente é caseiro mas o dono a gente não vê a muitos anos!”, diz o João.
Pois bem, as 10hrs e na cota dos 780m de altitude, ajeitamos as mochilas de ataque e lá fomos nós, seguindo as indicações da simpática Cleusa. Do Rancho nascem duas veredas: a que sobe ao alto da pedra, que ganha a encosta da morraria ao lado; e a da Cachu
do Mestre, que parte de trás da residência e toca na direção do vale alocado nas dobras serranas. Resolvemos conhecer inicialmente a queda dágua, tocando pelo caminho supracitado em nivel, mas que depois de passar pelo lado dum galpão abandonado mergulhou
enfim no frescor da exuberante e verdejante floresta. Simbora!
A vereda então desce suavemente até o um borbulhante córrego que é cruzado saltando pedras cuidadosamente. Na outra margem a picada ganha a encosta oposta em suave aclive, cruza um cano de captação e se mantém assim, tocando pra nordeste, acompanhando
o vale do córrego supracitado, rio acima. A vereda então desvia abruptamente pro sul e ganha a encosta esquerda do vale acima citado, pra dali começar a perder altitude de forma imperceptível e ir de encontro novamente ao tal córrego. No caminho o som de
muita água correndo indica a proximidade da queda.
E assim, após menos de 1km de trilha e quase 10:20hrs, chegamos na bucólica Cachu do Mestre. A queda é uma simpática cascata onde um dos inúmeros afluentes do Córrego Taiaçupeba que nascem da serra e despenca de quase 4m de altura por uma sequência de
grandes rochedos. Na base, o precioso liquido é represado por uma muretinha de pedras bem baixa, corroborando o fato da queda ser utilizada pra captação. Dali o córrego segue seu curso serra abaixo, pra depois formar o Ribeirão Taiaçupeba que por sua vez toca
na direção norte e deságua na Represa do mesmo nome. Pausa pra fotos e do primeiro descanso, claro. E enquanto a Lau e o Alberto ficaram em baixo eu resolvi escalaminhar rapidamente a lateral da cachu pra ter uma vista privilegiada do alto dela. Mais fotenhas,
claro!
Satisfeitos, retornamos rapidamente pro Rancho pra finalmente tocar em direção ao alto da Pedra Grande. Como mencionado, não ha placa nenhuma seja pra cachu seja pra pedra, mas não tem segredo pois os caminhos são óbvios e bem evidentes! Tomamos então
a larga vereda que sai próxima do inicio da outra e que logo ganha a encosta suavemente inclinada e cercada de mata. O caminho logo de cara é largo, evidenciando que já fora uma antiga estrada de extração e basicamente toma a direção nordeste, serpenteando
a encosta naquela direção com pouca variação de rota. Não tem erro de se perder, embora em todo trajeto existam marcações de fitas no arvoredo por segurança.
E lá fomos nós, as vezes juntos as vezes mais distanciados uns dos outros naquela trilha que ganha aos poucos, sempre na diagonal, o contraforte oeste da serra. No geral o trajeto se dá numa linha reta interminável, com poucos desvios e eventuais trechos
nivelados, mas sempre acompanhando o abaulado vale do córrego da cachoeira, que vai aos poucos se estreitando conforme se avança. Dito e feito, pouco tempo depois o canto metálico das arapongas alerta do momento em que chegamos no vértice do supracitado vale,
interceptando o trecho onde a água borbulhante do supracitado córrego corta nosso caminho. Uma breve pausa ali, na cota dos 915m, nos dá o direito de bebericar toda água de nossos cantis e depois enchê-lo com o precioso liquido que ali corre por pequenas lajes
e pedras, e depois irá abastecer a Cachu do Mestre, morro abaixo, antes de juntar suas águas a outros afluentes no Ribeirão Taiaçupeba.
A chinelada prossegue em nível um tempo mas não tarda pra aumentar de aclive logo depois. Não bastasse, a vereda se torna muito mais acidentada e erodida que antes, com pedras soltas, pequenas valas e trechos enlameados preenchendo o caminho. No mais,
o silêncio de nossa descompromissada jornada só é rompido por algum pássaro ou pequenos lagartos escapulindo-se na mata, reclamando de nossa intromissão em seu habitat. A vegetação, por sua vez, alterna-se entre mata secundária e ciliar, e alguns respeitáveis
e frondosos representantes legítimos da Serra do Mar, que teimam em filtrar a luz do sol e iluminar nosso caminho de forma tão bela quanto impar.
Nossa pernada se mantém firme e compassada até a cota dos 1000m, onde finalmente atingimos um selado de ligação da crista serrana. Ali não somente a direção da vereda muda abruptamente pro norte como também aperta vigorosamente em declividade. E tome se
firmar no arvoredo em volta ou em qualquer coisa que o valha pra dar impulso trilha acima ou simplesmente evitar os trechos lisos e íngremes feito sabão. Mas logo mais acima a pirambeira suaviza e é preciso se equilibrar pra não cair nas enormes valas e buracos
provocados por motocicletas. Sim, marcas no barro denunciam a presença delas a todo momento, infelizmente.
Mais acima o caminho se mostra mais amigável em todos os sentidos. O chão se torna firme e compacto, repleto de raízes sobressalentes (sinal que estávamos sobre o granito), e a vegetação a nossa volta diminui consideravelmente de tamanho, limitando-se
a arbustos e pequenas arvores de caule fino. “Estamos quase no lá!”, falo pros demais uma vez que não vejo mais nada pra subir a nossa frente. Foi neste trecho que tropeçamos com os únicos andarilhos daquele dia, no caso, um casal acompanhado de um cachorro
da fazenda. Perguntei se faltava muito e eles apenas confirmaram minhas suspeitas.
E assim, por volta do meio-dia emergimos no alto dos 1125m do amplo cume descampado da Pedra Grande de Quatinga, conforme o altímetro do Alberto. Felizmente o tempo fora generoso conosco, uma vez que a nebulosidade opaca predominante daquele horário evitava
que um Sol infernal cozinhasse nossos miolos, como já ocorreu noutras ocasiões. Um vasto capinzal, uma clareira com vestígios de fogueira e alguns pequenos trechos lajotados (fincados de grampos) dividem espaço no amplo cume.
A paisagem por sua vez é bem generosa e merece um parágrafo a parte. Ela é forrada de tons verdes e escarpas que destoam onde quer que se dirija o olhar, seja nos abruptos vales vizinhos ou nos mais afastados, onde uma ou outra fazenda surge em meio daquela
paisagem natureba como indício da presença humana. No quadrante norte, por exemplo, destacam-se os espelhos dágua das represas de Taiaçupeba e de Jundiaí refletindo o ânimo do firmamento; enquanto no setor sudoeste se vê as torres que coroam a Serra da Comunidade,
além de todo caminho feito até ali; já a leste é possível ter uma noção das Cabeceiras do Quilombo e das escarpas que se elevam de Cubatão, além da continuidade do espigão serrano que culmina no Pico Itaguacira, que se ergue apenas 80m acima de nossa atual
posição. Enfim, uma vista realmente de respeito.
E assim ficamos ali descansando, deitados no fofo gramado e donos absolutos do cume, enquanto a brisa soprava do leste e refrescava nossos rostos suados. Mastigamos um delicioso lanche e bebericamos o restante de água em nossos cantis, sendo atentamente
observados por um trio de urubus que planava silenciosamente no céu. Ah, sim. Um detalhe que me chamou a atenção foi que a entrada da picada que dali parte em direção á Faz. Polvora, propriedade particular do Exército, agora virou uma pista radical de mountain
bike e uma placa reforça o fato da proibição de motoqueiros circular nela. E trilheiros, são ainda bem recebidos nela ou não? Fica a dúvida pruma outra visita.
Creio que ficamos coisa de 15min no topo e nos pirulitamos logo a seguir, afinal não queriamos que o negrume que se avizinhava pelo sul nos surpreendesse na volta do caminho. A previsão tinha sido bem clara que meados de tarde o tempo mudaria radicalmente
e por esse motivo começamos a voltar pelo mesmo caminho, sem muita pressa embora a descida geralmente se dê com muito mais agilidade e rapidez que na ida. E apesar da cautela dos trechos íngremes e escorregadios, infelizmente não pude escapar a dois inevitáveis
tombos que carimbaram devidamente meu “quinto apoio”.
Pisamos novamente no Rancho da Cleusa quase 13:15hrs, envoltos num forte mormaço e algum vento que parecia avisar de chuva iminente. Ficamos ainda um tempo ali conversando com os donos da casa, degustando das bebidas que ali são oferecidas, na maior vontade
de almoçar a deliciosa comida caipira que parecia estar sendo ali cozinhada num tradicional forno a lenha. O cheiro denunciava que uma boa galinhada estaria saindo em breve, mas infelizmente estávamos com relativa pressa em voltar. Mas não fosse por isso,
o Alberto anotou o contato do João pra encomedar um porco no tacho na próxima visita ao Rancho, que deve ser em breve. Pelo visto ele gostou do lugar.
Nos despedimos do simpático casal prometendo retorno e tomamos rumo em direção á Sampa, e a chuva realmente veio bem depois, quando nos surpreendeu lá pela Rod. Anchieta. Sim, e todos voltamos satisfeitos: eu por conhecer um novo acesso ao pico; o Alberto
por conhecer a pedra, e a Lau por simplesmente sair no feriado. E pra finalizar este relato queria apenas frisar que a Pedra Grande de Quatinga está localizada no bairro rural mogiano que empresta seu nome á montanha, mas que o acesso por Paranapiacaba é muito
mais prático e próximo, seja por carro ou transporte coletivo. Agora a trilha pra chegar ao alto dela fica a seu critério, seja pelo norte ou pelo sul. Mas tendo em vista as vantagens turísticas, logísticas e de infra-estrutura proporcionadas pelo “Rancho
da Cleusa” esta última pedida é a mais que certeira, em todos os sentidos.