Martin Claret e Plágio

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rob...@finnegan.com.br

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Sep 11, 2008, 4:21:16 AM9/11/08
to trad...@googlegroups.com

Um tradutor chamado Saulo Krieger deixou o seguinte comentário
gigantesco em um post antigo do meu blog que acho que vale a pena
compartilhar com os membros da lista. Não assino embaixo, mas vale a
pena dividir com esta lista:

http://ciscocosta.com/filisteu/?p=2242#comment-21880

Fui vizinho da Martin Claret, no bairro de Perdizes, São Paulo, e
tradutor antes durante e depois do episódio que narro em seguida:
Nos idos de 2000 ou 2001, ao oferecer meus serviços como profissional da
tradução na referida editora, fui tomado de uma desconfiança ante seus
procedimentos — livros sem autores (os tais “livros-clipping”) traduções
sem tradutores ou um mesmo nome para uma gama inabarcável de títulos e
gêneros.Aos poucos, foi-me revelado como todo o processo de
falsificações funcionava: para meu espanto, veio a se confirmar que
quase nenhuma tradução da Martin Claret era efetivamente realizada, nem
mesmo seus direitos autorais adquiridos. Eventualmente se aproveitava
alguma tradução que já estava em domínio público, ou, ao que me parece,
foram comprados os direitos autorais da tradução de Torrieri Guimarães
de uma obra de Kafka. Mas isso era exceção. Outra exceção: a tradução da
obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, foi
feita pelo Sr. Pietro Nasseti, mas as inúmeras notas de rodapé nela
constantes foram surrupiadas de outra edição havia muito existente no
mercado — o nome da editora eu não me recordo —, tanto que até erros
constantes na referida tradução, e reconhecidos por estudiosos da obra,
foram reproduzidos na edição da Martin Claret.
O que se fazia, como próprio Sr. Claret paulatinamente veio a me pôr a
par, era um “mix” ou “enjambramento”, ou seja lá o nome que tal ato de
pirataria leve, de algumas edições já existentes, em geral duas ou três.
Ou do que viesse na cabeça do profissional que faria o que ele chamava
de “copidesque” — qualquer pessoa com trânsito na área editorial sabe
que “copidesque” não era aquilo a que ele se referia, termo que servia,
pois, como um eufemismo para um procedimento desonesto que teria o
nobilíssimo intuito de divulgar a produção cultural, mais precisamente
obras clássicas, a preços populares. Uma vez que o Sr. Claret achava ou
acha que uma tradução é algo muito difícil e custoso de fazer — e
efetivamente o é —, que só pode traduzir do idioma X um nativo do idioma
X —, o que absolutamente não é verdade, até pelo contrário, em alguns
casos —, e em nome do seu propósito de lançar o maior número de títulos
no mercado em tempo recorde — os originais estavam em domínio público
(70 anos a contar da data da morte do autor), mas as traduções quase
sempre não — e fazer coleções com 100, 300 títulos ou mais, sem nenhum
critério que eu reconheça como propriamente editorial, era o caso de o
“revisor-copidesque” se munir de uma tradução lançada, por exemplo, por
uma editora como a Martins Fontes — apenas um exemplo —, por outra de
uma editora que já fechara as portas — “já faliu há muito, muito tempo”,
como o Sr. Claret, um verdadeiro “rato de sebos”, tinha especial prazer
em dizer — ou por uma terceira tradução, de editora portuguesa, como as
Edições Setenta — o Sr. Claret gostava muito das portuguesas, porque
estavam do outro lado do oceano e porque em todo o caso se teria de
adaptar o português de Portugal aqui e ali — para se ter o que seria a
“tradução” da Martin Claret. Essas edições eram fornecidas pela própria
Martin Claret, que tinha todo um acervo delas — uma extensa biblioteca,
que só não contava com livros em seus idiomas de origem, se este não
fosse o português. Traduções, as verdadeiras, de outros, eram escaneadas
— havia um “departamento” que o fazia, como em linha de produção — para
então receberem uma ligeira maquiagem.

Quem fazia o escaneamento era a neta do Sr. Claret, esta uma pessoa que
nitidamente não sabia o que estava fazendo e com visível deficiência mental.

Para mascarar o processo, a editora ou se mostrava muito reticente em
dizer nomes de autores, optando por “equipe de tradutores da Martin
Claret” — mas esta opção logo foi rejeitada pelos clientes-livreiros —,
ou usava, com o consentimento deste, o nome do Sr. Pietro Nasseti, um
senhor, dentista no exercício da profissão de dentista, muito amigo do
Sr. Claret, ou ainda simplesmente eram inventados nomes “estrangeirados”
que podiam dar a aparência de tradutores confiáveis e autorizados. Por
exemplo: “Jean Melville”. “Jean” é o nome do filho do Sr. Claret;
Melville, todos sabem, o sobrenome do autor de Moby Dick, esta uma obra
editada pela editora, que portando estava na ordem do dia. “Popov” deve
lhes ter ocorrido pelo seu desempenho nas piscinas, e daí transferi-lo
para as letras foi um pequeno passo; “Alex Marins”? Outra invencionice
do gênero. Certa vez o Sr. Claret chegou a me “pedir emprestado” o meu
nome, “Saulo Krieger”, para usá-lo como cover de tradutor de uma obra de
Nietzsche — a qual passara pelo mesmo processo — que eu não traduzira,
pois, até por não me sentir capacitado a fazê-lo, mesmo sendo eu
tradutor do alemão, e da qual eu não poderia nem ver o resultado —
vergonhoso, diga-se — antes de ser lançada no mercado editorial.
Constrangidamente eu recusei, e acho que nem é o caso de enumerar os
meus tantos motivos. Mesmo assim, por desonestidade ou por
desorganização da editora, acho que meu nome pode, eventualmente,
constar em edições que jamais passaram pelo meu crivo, nem como revisor
de textos, e muito menos como tradutor — o ofício de tradutor inexiste
em se tratando de Martin Claret. O Sr. Claret não respeitava nem as
traduções alheias nem o tempo de seus colaboradores-revisores, sempre
solicitando, aqui e ali, um serviço gratuito, para que “se colaborasse
com a editora”. Quanto aos tradutores-fantasmas, querem mais alguma
prova? Quem é Jean Melville? Quem é Alex Marins? Quem é o tal “Popov”,
não o nadador, mas pessoa que algum dia teve trânsito no mundo das
letras? Ora, se puserem, por exemplo, o meu nome, “Saulo Krieger”, no
Google, verão milhares de ocorrências, que remetem ou a meus trabalhos
como tradutor, ou como escritor em certa medida difundido na net.

Saliento ainda, que, no serviço, tal como era solicitado — e chegou a
ser chamado pelo Sr. Claret de “picaretagem ética” — a questão não era
exatamente a de trocar termos “rebuscados” por “fáceis”, “antigos” por
“atualizados” — embora isso fatalmente viesse a acontecer — mas sim por…
“sinônimos” — na literatura, como na filosofia, sabemos, sinônimos não
são exatamente “sinônimos”, e tudo depende do modo ou contexto como um
termo ou expressão foi usada (nada disso importa para Martin Claret) —
ou então, outro expediente de sua predileção, cortar parágrafos, e
abri-los, sem qualquer critério não fosse o de “escamotear”, onde não
existiam em outra tradução. Solicitava-se alterar sobretudo inícios e
finais de parágrafos, para que “não desse na vista”. O miolo, bem, este
poderia bem passar com muitas semelhanças, normalmente mais do que
improváveis entre uma e outra tradução.

Em obras como as de Machado de Assis, Castro Alves, Eça de Queiroz, José
de Alencar, por motivos óbvios, não se procedia a qualquer
irregularidade ou desonestidade.

As capas: as capas eram feitas por um indivíduo, terceirizado, ganhava
apenas R$ 200 por cada uma delas, era adepto da New Age e outras
maluquices que tais — daí também o mau gosto — e usava sempre o próprio
rosto e o do seu filho na tentativa de “retratar”, com aquelas
ambientações horrendas, o que estaria “a se passar” no conteúdo do
texto, o de muitas obras altamente abstrato, como sabemos. Claro, eram e
são completamente inadequadas: coluna grega em Descartes, igreja
católica em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, sistema
prisional em “Para além de bem em mal”, de Nietzsche” e a novelinha
adocicada que sugere a capa de “Crime e castigo”.

Mas voltando, dali para diante, após algumas visitas à editora, passei a
comunicar a outras pessoas do meu círculo ou mesmo do meio editorial —
como fiz, contando o ocorrido à Martins Fontes — sobre como as coisas
aconteciam naquela casa editorial. Editores me agradeceram, dizendo,
porém, que não havia nada que se pudesse fazer a respeito.

Tudo isso revelo agora porque, de lá para cá, minha indignação só fez
crescer ante tais procedimentos — e à indiferença do mercado editorial à
revelação dos “estratagemas” — e porque, afinal, lá estive oferecendo
meu trabalho como tradutor — do inglês, do francês e do alemão — e não
como profissional adepto de “picaretagem ética” em nome de uma
democratização da produção cultural que se fazia e se faz por vias
torpes e tortas.

A indigência mental sempre grassou na editora Martin Claret. Certa vez
um desavisado indivíduo — um “intelectual de escola de roça”, e que me
perdoem os intelectuais e as nobilíssimas escolas de roça, que fazem um
trabalho de base, exemplar — esteve na Martin Claret querendo adquirir
obras de autores… iluministas. Por que o Sr. Claret não acorreu à Barsa,
tantas vezes por ele surrupiada (vide textos introdutórios de todos os
livros da Obra Prima de cada Autor). E adivinhem se alguém lá dentro
tinha a menor idéia de quem podia ser, dentre os tantos editados, um
autor iluminista? Tiveram de pedir ajuda aos universitários… Lá havia
alguns, mas do jeito que a coisa vai, ninguém mais sabe nem o que
aprendeu no ensino fundamental, mas isso é outra história.

O Sr. Claret sofre de megalomania, entre outras psicopatologias. Ele se
dizia o “melhor editor do mundo” — alguém disse isso pra ele, e nada de
ficar vermelha a cara barbada e sem vergonha. Vergonha temos nós, agora,
e os que algum dia adquiriram seus livros. Sempre me perguntam: que
fazer com eles? Eu respondo: se no próximo inverno der um frio rigoroso,
e vc tiver uma lareira em casa… Taí uma boa utilidade. E ademais sempre
há a providencial indústria do papel reciclável.

Outra coisa: os colaboradores eram reiteradamente humilhados na editora,
mas lá permaneciam por questão de sobrevivência, até encontrarem posição
melhor — em ambiente de trabalho melhor — no disputadissímo, e fechado,
mercado editorial. Presenciei o caso de um funcionário que foi obrigado
a trabalhar dias e dias diante de um monitor vazado, com a tela toda
amarela, prejudicando — possivelmente de maneira indelével — a sua
visão, tudo em nome do “colaborar com a editora”, que jamais colaborou
com ninguém. Mas isso é outra história. Daria um livro. Um dia escrevo
esse livro, caso o mercado editorial tenha interesse em revelar a
picaretagem — não ética, como dizia o Sr. Claret, mas “da grossa” que
ele perpetrou, e que as editoras em geral, ajudaram, com seu silêncio
omisso, a fazer prevalecer no mercado de pocket books.

Bem, o Sr. Claret nunca esteve interessado em divulgar a cultura, e,
sim, em ganhar dinheiro e se promover como “editor”. Autorizo plenamente
a publicação desta denúncia, que não é anônima — pelo contrário, fico
satisfeito em poder desvelar a farsa, revelar minha experiência e
externar minha indignação.

Cisco
cisco...@uol.com.br
http://www.ciscocosta.com/

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