Convento para mulheres que atraiçoavam maridos?

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fernando teixeira

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Dec 16, 2007, 2:27:33 AM12/16/07
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Convento para mulheres que atraiçoavam maridos?

Germano, Silva, Jornalista

N idos de quarenta, um verdadeiro cataclismo arrasou o bairro da Sé que ao
longo dos séculos se foi amontoando em torno do vetusto edifício da
catedral
- fortaleza.Tudo para que as celebrações dos centenários (1140-1640-1940)
tivessem "a dignidade" que os políticos de então entendiam que deviam ter.
Desapareceram
ruas, algumas seculares e típicas, como a Rua das Tendas; destruíram-se
casas, incluindo solares senhoriais como o dos Montenegros. Até capelas
levaram
sumiço, como foi o caso de uma que ficava à entrada da Rua Escura, do lado
direito para quem desce, antes de chegar à Travessa de S. Sebastião, uma
artéria
que, primitivamente, teve a designação de Viela do Forno e, mais
modernamente, era conhecida pela popular designação de Viela dos Gatos.

A capela atrás referida, chamava-se, inicialmente, Capela da Senhora do
Ferro mas, posteriormente, foi também conhecida por Capela de S. Sebastião -
por causa de uma imagem que nela havia do santo protector contra a peste.
Essa imagem, segundo uma velha tradição, estivera numa edícula situada na
parte
cimeira da porta da cerca velha que, por isso mesmo, tinha o nome de Porta
de S. Sebastião.

Nos finais do século XVIII, ou começos do seguinte, aquela porta foi
demolida e a imagem do seu patrono entregue aos cónegos da Sé que a
colocaram na
Capela da Senhora do Ferro.

Em 1854 a terrível cólera-mórbus invadiu a cidade. Aterrados, os moradores
da Sé colocaram-se sob a protecção de S. Sebastião e tendo escapado,
"milagrosamente",
segundo eles, aos malefícios da peste, organizaram de imediato uma grande
festa em louvor do seu santo protector manifestação de regozijo e de
reconhecimento
que passou a repetir-se todos os anos a 20 de Janeiro por ser a data
dedicada especialmente a S. Sebastião no calendário litúrgico.

Os devotos chegaram, inclusivamente, a substituir a antiga imagem de S.
Sebastião por uma mais moderna que, após a demolição da capela, em 1928,
foi levada
para a Capela de Nossa Senhora dos Anjos ou de Santa Catarina, em Lordelo do
Ouro.

Depois deste breve intróito, em que tentei explicar o porquê das duas
denominações que teve a capela da Rua Escura, imprescindível para a
compreensão
do que vem a seguir, vou entrar no assunto propriamente dito da crónica e
que me foi suscitado pela carta de um excelente amigo e fiel leitor desta
página
que me faz a seguinte pergunta "… onde e em que época existiu no Porto (se é
que existiu, claro !) um convento ou hospício para internamento de mulheres
casadas que fossem infiéis aos maridos ?"

Essa é uma história equivalente, digamos assim, àquela das mulheres
emparedadas na Senhora da Silva, aos Caldeireiros. Que se saiba, nunca lá
existiram
as tais celas onde, por castigo, se metiam mulheres que ali ficavam até que
a morte as levasse. No que respeita ao convento para mulheres que tivessem
sido infiéis aos maridos, a confusão é evidente.

A Capela da Rua Escura era antiquíssima. Junto dela, muito antes da
fundação do Colégio dos Órfãos, pelo padre Baltasar Guedes, funcionou uma
instituição
destinada a recolher "meninos abandonados". Mais tarde essas mesmas
instalações serviram para acolher os "coreiros", ou seja os moços do coro
da Sé que
ali se mantiveram por pouco tempo.

Com a saída destes os anexos da capela, que eram muito modestos e
relativamente pequenos, foram ocupados por mulheres sem recursos ou viúvas
pobres. A
partir de 16 de Maio de 1681, ano em que se restaura a capela, o anexo onde
se recolhiam as mulheres passa a denominar-se Recolhimento do Ferro e assim
se mantém até à sua transferência para novas instalações nas Escadas do
Codessal adoptando então a extensa denominação de Recolhimento do Ferro de
Nossa
Senhora do Patrocínio da Mãe de Deus e Santa Maria Madalena.

Aqui as internadas viviam muito modestamente, sustentando - se "com o
produto do seu trabalho, conforme a suas prendas..." Observavam regras de
vida muito
rígidas. As regentes da instituição eram eleitas por todas as internadas mas
os estatutos da instituição, ao contrário do que sucedia, por exemplo, com
os mosteiros, não permitiam a realização de quaisquer festas " como
luminárias, repiques de sinos e outros divertimentos nunca próprios de
pessoas honestas
e recolhidas a que se dá o nome de Outeiros" - uma referência claro às
festas dos abadessados ou outeiros com que nos mosteiros femininos se
festejava
a eleição da abadessa.

A confusão a que atrás se alude teve origem numa passagem de um
"Apontamento" sobre o Porto, de J. M. Pinto, em que este, referindo-se ao
Recolhimento
do Ferro, diz que nele "… se recolhiam mulheres casadas com autorização de
seus maridos dando-lhe 80 reis diários… e as propinas a cada uma exigente…"


A partir daqui tiraram-se conclusões precipitadas que ganharam alguma
credibilidade quando nos começos do século XX um articulista escreveu que,
entre
outras atribuições o recolhimento também servia para "receber as mulheres
casadas que atraiçoavam os maridos…" Um evidente exagero sem qualquer
fundamentação.

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