Os banqueiros do século 21

Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco: escala para ser protagonista no mercado global
Durante décadas, o sistema financeiro brasileiro se assemelhou a um campeonato de segunda divisão - os times locais até podiam jogar bem, mas nunca estiveram em condições de disputar com as equipes realmente grandes. Há apenas cinco anos, nenhum banco brasileiro constava da lista dos 40 maiores do mundo por valor de mercado. Uma crise internacional depois, o mundo das finanças parece ter virado do avesso, e os brasileiros agora disputam palmo a palmo com alguns dos nomes mais tradicionais do mercado mundial. Pensou em Goldman Sachs, Barclays, UBS ou Deutsche? Pois os quatro hoje valem menos do que o Itaú Unibanco, o nono maior banco do mundo em valor de mercado. Além dele, outros dois estão hoje na lista dos 40 maiores - o Bradesco é o 18o, e o Banco do Brasil, o 33o. Na dança de cadeiras atualmente em curso, as instituições europeias e americanas perdem fôlego enquanto três bancos da China, país dono do maior sistema financeiro do mundo emergente, e um do Brasil, dono do segundo maior, acabaram entre os dez maiores do mundo. Bem-vindo ao mercado do século 21. Os bancos brasileiros subiram porque os outros caíram? Sim. O real valorizado ajuda a mantê-los no topo? Claro. Embora verdadeiros, tais fatores não explicam tudo. A forma como as instituições locais venceram a hecatombe financeira dos últimos dois anos evidenciou uma série de características admiráveis de nosso sistema bancário. "Os bancos brasileiros são administrados de forma responsável, e isso faz toda a diferença", diz Fabio Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos e do Santander Brasil, citando a enorme diferença em relação aos riscos assumidos pelos bancos lá fora. A mais recente demonstração de força do mercado local partiu do próprio Santander. Pelos cálculos de Emilio Botín, presidente mundial do banco, o braço brasileiro ultrapassará a matriz espanhola como operação mais lucrativa do mundo neste ano. Depois da debacle de grandes instituições americanas, vergadas pelo subprime, a crise da dívida europeia, iniciada na Grécia, colocou um ponto de interrogação sobre a saúde de vários bancos do continente quase ao mesmo tempo em que os grandes do Brasil voltavam a festejar a decolagem da economia local. "Parece que tínhamos de passar por uma crise de grande proporção para que todos acreditassem na solidez de nosso sistema", diz Domingos Abreu, vicepresidente do Bradesco, responsável pela área de controladoria.
Quando o assunto são rankings de bancos, há critérios para todos os gostos: ativos, risco, patrimônio, correntistas, número de agências... O que faz a lista por valor de mercado ser a mais levada a sério é o fato de melhor traduzir o poder de fogo dos bancos. Num processo de compra ou fusão, é raro uma grande instituição ter todo o dinheiro para cobrir os custos da operação e, por isso, é comum que os negócios envolvam a troca de ações. Nesse jogo, quanto mais valiosos forem os papéis, maior seu poder de compra. Há cinco anos, pensar que um banco brasileiro teria condições de crescer no mercado internacional soaria como piada. Hoje, sob o ponto de vista financeiro, não é mais. Oficialmente, a direção do Itaú Unibanco diz estar atenta ao mercado latino-americano, onde já tem presença nos países do Cone Sul. O Banco do Brasil, depois de absorver o argentino Patagonia, declarou que estuda aquisições no mercado americano. O Bradesco descarta qualquer compra internacional, mas consta que tenha avaliado um banco nos Estados Unidos depois da quebra do Lehman Brothers. "A internacionalização dos bancos brasileiros é apenas uma questão de tempo", diz Silvana Machado, vice-presidente da consultoria AT Kearney no Brasil. nal, mas consta que tenha avaliado um banco nos Estados Unidos depois da quebra do Lehman Brothers. "A internacionalização dos bancos brasileiros é apenas uma questão de tempo", diz Silvana Machado, vice-presidente da consultoria AT Kearney no Brasil.
Posição de destaque
O Brasil tem um dos mercados mais lucrativos...
A rentabilidade dos bancos brasileiros é uma das mais altas do mundo. Desde 2003, o Brasil esteve à frente na maior parte do tempo (retorno sobre o patrimônio em %)
...E seus bancos são mais sólidos
Os brasileiros se destacam no quesito capital próprio para cobrir eventuais problemas com os ativos (capital por ativos em risco em %)

Um mercado com força local...
A participação dos bancos estrangeiros é pequena no Brasil, Rússia, Índia e China ( fatia dos estrangeiros no total de ativos do setor em %)


Se os bancos brasileiros irão ou não às compras no exterior, só o tempo dirá. Mas ninguém duvida que continuarão a ganhar dinheiro - durante um bom tempo. No primeiro trimestre de 2010, o lucro líquido dos quatro principais bancos brasileiros foi de 8,7 bilhões de reais, uma alta de 50% em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com um estudo feito com exclusividade para EXAME pela consultoria AT Kearney, o Brasil foi o país mais rentável do setor entre 2003 e 2009, numa lista que inclui Estados Unidos e os demais integrantes do Bric. "As grandes instituições brasileiras têm alto desempenho mesmo em anos ruins, o que é raro. O padrão é o que vemos, por exemplo, em países como a Turquia, onde sempre que a economia entra no buraco os bancos vão junto", diz Peter Shaw, analista da agência de risco Fitch Ratings em Nova York. Numa perspectiva histórica, nota-se que as altas taxas de retorno foram mantidas em situações macroeconômicas diversas - seja na época da inflação, no período imediatamente após o Plano Real, ao longo de toda esta década ou mesmo no pior momento da crise mundial.
Bits e Bytes
Claro que o histórico de lucratividade no Brasil está intimamente ligado às altas taxas de juro e ao alto spread - embora ambos tenham caído de patamar nos últimos anos, ainda são muito elevados na comparação internacional. Ou seja, se o ranking de rentabilidade global fosse uma corrida de barcos a remo, daria para dizer que a raia brasileira conta com a ajuda de uma corrente mais forte em direção à chegada. Também parece pesar o fato de o Brasil contar com o mercado mais concentrado dos países do Bric. É por isso que fusões como as ocorridas nos últimos anos entre bancos locais geram uma sensação mista - alívio pelo ganho decorrente da união de forças, preocupação pela redução no número de competidores. Mas há uma série de qualidades genuínas do mercado local que parecem decisivas. "Os grandes bancos brasileiros têm uma diversifi- cação encontrada apenas nos mercados mais sofisticados, algo valorizado pelos investidores", diz Andréa Waslander, chefe do setor de análise da América Latina da consultoria McKinsey. "Além do varejo, são fortes em tesouraria, empréstimos para médias e grandes empresas, seguros, cartões de crédito e banco de investimento." O Sberbank, um dos maiores bancos russos, tem uma ação mais restrita - nesse sentido, se parece mais com a Caixa Econômica Federal do que com o Banco do Brasil, o Itaú e o Bradesco. O indiano ICICI Bank, com perfil semelhante ao dos grandes bancos brasileiros, é visto como uma ilha de eficiência em seu mercado. A diversificação ajuda a explicar as notas atribuídas pela agência de risco Standard & Poor's ao Itaú e ao Bradesco - superiores à do próprio Brasil. "Uma vantagem desses bancos é contar com milhões de clientes em todo o país", diz Milena Zaniboni, diretora da área analítica do escritório da S&P de São Paulo. Num cenário de forte turbulência, os correntistas funcionam como uma espécie de âncora para as instituições financeiras porque não costumam movimentar suas economias. É bom salientar: nenhum banco indiano, russo ou chinês tem rating superior ao de seu país.
O nefasto período de inflação legou uma herança bendita ao sistema financeiro brasileiro. Num ambiente de 50% de inflação ao mês, ou os bancos aderiam a sistemas tecnológicos sofisticados ou eram engolfados pela insanidade da economia. É esse histórico que faz com que o Brasil esteja à frente na vanguarda mundial nesse aspecto. "Na Ásia, não vi nada melhor do que o que é feito aqui", diz Conrado Engel, presidente do HSBC no Brasil, que por dois anos, entre 2007 e 2009, esteve à frente da área de varejo do banco em 19 países asiáticos - do Japão ao Cazaquistão, passando por Índia e Coreia do Sul. Aqui, 35 milhões de correntistas usam a internet para se relacionar com seus bancos. Juntos, respondem por 20% das operações bancárias - que envolvem da impressão de saldo à contratação de empréstimos. O percentual nos Estados Unidos é de 25%. Em todo o país, há 173 000 caixas eletrônicos - o número no México é 34 000, na Índia é 65 000 e, na Rússia, 80 000. "Em áreas como o varejo dos bancos, estamos à frente até de alguns países desenvolvidos", diz Marco Stefanini, presidente da empresa de serviços de tecnologia Stefanini IT Solutions, com sede em São Paulo e presença em 15 países. No Brasil, desde 2002 é possível fazer transferência de recursos entre contas de diferentes bancos e ver os valores creditados quase imediatamente. O tempo entre o débito na conta de um correntista e o crédito na conta do outro é de, no máximo, 1 hora e meia. Isso é mérito não apenas dos bancos mas também da autoridade monetária, responsável pela implantação do sistema brasileiro de pagamentos. A Inglaterra, dona do sistema financeiro mais avançado da Europa, só colocou em operação um sistema semelhante há dois anos.
O Banco Central também está por trás de muitas das regras que garantiram certo isolamento em relação aos problemas que atingiram boa parte do sistema financeiro mundial. "Existem vários itens em que a regulamentação brasileira adota padrões mais rigorosos do que a média internacional", diz Alexandre Tombini, diretor de normas do Banco Central. Entre outras coisas, o BC recebe informações diárias das instituições financeiras e monitora continuamente os riscos de mercado e liquidez. Fora isso, regula de perto o mercado de derivativos e exige que os bancos tenham um percentual alto de capital próprio para cobrir eventuais calotes.
Primeira Classe
Do ponto de vista prático, a mudança mais sentida até agora com a ascensão dos bancos brasileiros na cena global é o status conquistado junto aos investidores estrangeiros. Até a quebra do banco americano Lehman Brothers, que desencadeou a crise mundial em 2008, as instituições brasileiras chamavam a atenção de gestores de fundos de investimento especializados em América Latina ou em mercados emergentes. Desde então, entraram no jogo os gestores dos chamados fundos globais, maiores e com mais autonomia para aplicar. Em termos de liquidez, a diferença entre eles equivale à existente entre uma gota e um lago. De acordo com a empresa americana EPFR, especializada em informações sobre o mercado financeiro, os fundos globais têm 1,8 trilhão de dólares sob gestão, e os de América Latina, 69 bilhões. "Nos últimos tempos, passamos a levar representantes de grandes bancos brasileiros para encontros com investidores na Ásia e no Oriente Médio, gente que antes não olhava para o Brasil", diz Fabio Frischer, diretor da corretora e chefe de distribuição de renda variável do JPMorgan Chase. "Mesmo na Europa e nos Estados Unidos, criamos uma agenda com novos aplicadores."
Nos últimos três anos, os convites para o Itaú participar de encontros com investidores globais dobraram. Executivos do Banco do Brasil recentemente destacados para falar com aplicadores sobre um lançamento de ações da instituição previsto para julho não ficaram restritos ao roteiro Nova York-Londres. Segundo investidores ouvidos por EXAME, o road show para divulgar a operação incluiu cidades como Edimburgo, Frankfurt e Genebra - por estarem em período de silêncio, os executivos do Banco do Brasil não quiseram fazer comentários. Antes do estouro da crise nos Estados Unidos, era comum gestores de grandes fundos não saberem nada sobre os bancos brasileiros, o que não acontece mais. "No ano passado, fiz um giro por Singapura e ouvi o seguinte do gestor de um grande fundo local: 'Antes a gente só olhava para a Europa e os Estados Unidos. Agora o mundo mudou, temos de nos reinventar e queremos vocês' ", diz Rogério Calderón, diretor de controladoria e relação com investidores do Itaú. É. O mundo realmente mudou.