13:26 O QUE ESPERAR DA INFLAÇÃO NO SEGUNDO SEMESTRE?
Por Jankiel Santos - AE
A divulgação do IPCA de junho surpreendeu positivamente os agentes econômicos no tocante ao quadro inflacionário brasileiro, principalmente por conta da
desaceleração observada no grupo serviços, que é considerado um dos principais fatores de influência na condução de política monetária. Tal comportamento,
juntamente com o recuo registrado em demais itens, fez com que as medidas de núcleo inflacionário voltassem a rodar em patamar condizente com a meta de
inflação de 4,5% pela primeira vez desde outubro de 2009. Embora alentador, o resultado relativo ao mês de junho não pode ser tomado como o início de uma
tendência. Ou pode? Julgamos que a avaliação do padrão de comportamento dos grupos que compõem o IPCA entre o primeiro e o segundo semestres é uma
ferramenta que poderá ajudar na solução do questionamento anterior.
Concentremo-nos inicialmente, porém, na evolução do grupo de preços administrados, que representa aproximadamente 30% do IPCA. Dado que grande parte
dos seus itens tem seu reajuste atrelado à variação do IGP-M do ano anterior, seu comportamento acaba sendo reflexo direto desta indexação. Tanto que,
embora a baixa variação do IGP-M em 2006 (3,8%) tenha resultado em inflação de preços administrados mais baixa no segundo semestre de 2007 do que no
primeiro, vimos comportamento oposto acontecendo em 2008 e 2009 na esteira de elevações mais intensas do IGP-M em 2007 (7,8%) e em 2008 (9,8%).
Para 2010, dada a deflação apresentada pelo IGP-M em 2009 (-1,7%), julgamos que os preços administrados crescerão ao longo do segundo semestre em
ritmo menos intenso do que o registrado na primeira metade do ano, tal qual o padrão observado em 2007. Isto é, este grupo deverá contribuir positivamente
para a dinâmica inflacionária nos próximos meses.
Já no tocante ao comportamento dos preços livres, que comportam os 70% restantes do IPCA, diante da alta heterogeneidade dos seus componentes, faz-se
necessário a seguinte subdivisão: bens duráveis, bens semiduráveis, bens não duráveis e serviços. De acordo com nossas estimativas, cada um dos dois
primeiros subgrupos representa aproximadamente 9,0% do IPCA, enquanto o terceiro responde por 29% e o último por 24% do índice. Nos últimos três anos,
apenas em 2008 a média mensal de inflação dos duráveis no segundo semestre foi inferior a do primeiro semestre, algo que pode ser atribuído à eclosão da
crise financeira internacional. Portanto, supor-se-ia que este grupo tem tudo para ser um empecilho à materialização de quadro inflacionário benigno, não fosse
pelo seu baixo peso no índice e pela pouca aceleração que se registra de um período para outro. Já no caso dos bens semiduráveis, o padrão inflacionário é
bastante uniforme entre as duas metades do ano, algo que pode até não ajudar, mas que também não atrapalhará a dinâmica inflacionária. Resta-nos, portanto,
avaliar o comportamento dos bens não duráveis e do grupo serviços.
Novamente, tomando por base os últimos três anos, exceto por 2007 - quando havia clara tendência ascendente nos preços das commodities agrícolas - o
comportamento dos preços dos produtos não duráveis tende a ser mais favorável na segunda metade do ano do que o registrado nos primeiros meses, muito
provavelmente por conta do menor impacto de intempéries climáticas. Portanto, parece-nos improvável que a pressão derivada do comportamento dos produtos
alimentícios na primeira metade do ano vá se repetir daqui até o final do ano, algo que ajudará a fazer com que as variações mensais do IPCA sejam mais
baixas em comparação aos primeiros resultados de 2010.
Por fim, avaliemos o padrão de comportamento do grupo serviços. É curioso notar que, a despeito do momento econômico em que estivéssemos nos últimos
três anos, este conjunto de itens apresentou um desempenho uniforme, que foi o de desaceleração na segunda metade do ano frente à variação média
registrada no primeiro semestre. Ou seja, a despeito da aceleração econômica que vivíamos entre o final de 2007 e início de 2008, e da breve retração entre o
final de 2008 e início de 2009, a inflação média de serviços desacelerou na segunda metade de 2007, subiu na primeira metade de 2008, recuou na segunda
metade daquele ano e voltou a crescer no primeiro semestre de 2009 para cair em seguida. Esta ausência de variância nos sinaliza que o grupo serviços deverá
registrar variações menores do que as observadas até então ao longo dos próximos meses, embora o dinamismo corrente da economia brasileira possa fazer
com que este recuo seja menos pronunciado do que em anos anteriores.
Isto é, de maneira geral, os grupos que compõem o IPCA apontam na direção de variações menos intensas daqui por diante e nos deixa mais confiantes de que
poderemos encerrar 2010 com uma alta do IPCA abaixo de 5,5% (nossa estimativa atual é de 5,3%). Logicamente que este patamar ainda demandará que o
Banco Central permaneça retirando estímulo monetário nos próximos meses. Contudo, parece-nos que tal dinâmica reforça a sinalização de que a magnitude
total do ajuste poderá ser menos intensa do que se supõe.
*Jankiel Santos é economista-chefe do BES Investimento do Brasil. O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor. Esta seção não se responsabiliza
por operações decididas a partir das informações e opiniões divulgadas neste artigo.