Borges, Jorge Luis, sobre aprender japonês.
Ou muitas vidas em uma vida. Ou...
Só porque estou lendo e isso me lembrou demais a THacker.
"(...) a palavra varia segundo o que se conta. Por exemplo,
ichi é um, mas esse
ichi se usa para operações matemáticas; para dizer "um minuto" não se fala
ichi, mas
ippun; agora,
ni é dois, de maneira que "dois minutos" se diz
nifun, e "em trê minutos" volta-se de novo à primeira forma, que é
pun (
sanpun). Isso se repete pra quatro, mas quatro se diz
yon. Depois, quando se diz "cinco minutos", também muda: é
gofun. Ou seja, os plurais mudam segundo o número de objetos, e o número de objetos varia conforme os objetos. Agora, tudo isso, bem, tudo isso me indica que, ao estudar japonês, estou entrando em uma aventura infinita. Eu senti algo parecido quando estudei anglo-saxão; pensei: "Bem, nunca o saberei, mas, justamente, existe um encanto no fato de se tratar de uma aventura infinita", ou seja, no fato de saber que esta aventura está destinada ao fracasso; da mesma forma que o Satanás de Milton sabia que lutava contra o Todo-Poderoso, e isso faz com que sua guerra fosse heroica, já que estava condenado ao fracasso, mas é bem mais heroico se isso se sabe de antemão, de modo que continuarei a estudar japonês, sabendo que nunca o saberei. Eu escrevi um poema quando comecei a estudar anglo-saxão, com um título que escandalizou muita gente: "
Al iniciar el estudio de la gramática anglosajona". Me disseram que esse não poderia ser o título de um poema, mas por que não? Por que não supor que essa circunstância também é poética? Então, eu procurei outra solução; disse a mim mesmo que a alma sabe, de uma forma secreta, que é imortal, e por isso podemos empreender qualquer empresa, já que se não concluirmos nesta vida, a concluiremos em outra, ou nas outras."
Borges| Osvaldo Ferrari
Sobre a Filosofia e Outros Diálogos
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Patrícia Cornils
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