Opa,
embaixo vai um texto escrito pela Dani pra uma das edições do Jornal de Debates que saiu na Campus Party. Tem ai algumas dicas de como desorganizar um hackday :)
Mas acho que o pessoal que participou do RhoK pode dar umas dicas também :D
abs,
Pedro Markun
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Como desorganizar um Transparência HackDay
por Daniela B. Silva
Sim, hackers servem para mudar o mundo. Com essa ideia na cabeça, nós, da Esfera (
esfera.mobi), organizamos, em novembro de 2009, o primeiro Transparência HackDay. Nerds, geeks e programadores já tem como prática corrente realizar hackdays, reunindo-se na madrugada em torno de código e pizza pelo puro prazer de resolver problemas. O que nós queríamos fazer era juntar a fome de codar, cumprir desafios e subverter sistemas com a vontade de trabalhar por questões interesse público. Nesse encontro, programadores, desenvolvedores e geeks se encontram com ativistas, comunicadores, acadêmicos e políticos, para juntos pensarem em como usar as tecnologias livres e a informação pública para criar aplicativos, sites ou projetos que gerem mais participação cidadã na rede. Disso, já saiu mapa com problemas da cidade de São Paulo (
sacsp.mamulti.com), API do processo legislativo brasileiro (
legisdados.org), API do banco de dados – até então, fechado a sete chaves – da Transparência Brasil (
github.com/pvalente/thackday-opentables/) e outras traquitanias (veja
blog.esfera.mobi/tag/thackday/ para saber mais).
Recentemente, a Sunlight Foundation – importante organização norte-americana, preocupada com a questão da transparência pública e das novas tecnologias nos EUA, e de onde nós tiramos a ideia do HackDay - lançou um documento chamado Como Organizar um Hackathon (
moourl.com/sunlighthackathon), rapidamente apontado como bastante útil pra gente.
Nossa primeira impressão, ao abrir o link, foi: "Legal. Fazemos tudo errado.". É que nosso processo de organizar coisas é um tanto quanto, digamos, caótico. Como mesmo (ou principalmente) do meio do caos pode sair muita coisa interessante, e como é essencial que mais encontros como esse aconteçam pelo Brasil afora, achamos que vale a pena "hackear" a lista da Sunlight Foundation \o/
Seguem, então, as nossas preciosas dicas de "Como Desorganizar um HackDay":
Não espere acontecer
Quando nós fizemos o primeiro HackDay, nós não tínhamos dados, não tínhamos dinheiro, não tínhamos ideia se as pessoas se interessariam pela proposta. Um mês depois, tínhamos uma lista com mais de 100 participantes e interessados, algumas bases de dados cedidas diretamente pelo governo para o evento (fora um mundo de site governamentais pra raspar) e condições básicas para fazer o que queríamos. Como processo, como experiência e como resultado, foi um sucesso.
Transparência pública e participação política são conceitos altamente relacionados ao plano local. Portanto, se você tem vontade de contribuir com a sua cidade ou bairro dessa forma, organizando um HackDay, não precisa esperar as condições ideais pra isso. Coloque uma data e corra atrás do resto: consiga uma locação, articule contatos, use e abuse da rede para angariar interessados. E também pode usar a lista (
groups.google.com/group/thackday) e a tag do #thackday a vontade.
Gaste pouco pouquíssimo dinheiro
O primeiro HackDay teve apoio da Associação de Software Livre, mas pelo timing, e até pelo nosso próprio caos de todo dia, esse patrocínio nunca se efetivou. Colocando na ponta do lápis: nós tivemos a sorte de usar o espaço da Casa de Cultura Digital, onde trabalhamos, gentilmente cedido pelos nossos colegas de cluster, com custo zero. Nós recebemos doações de material de escritório e pegamos emprestados flip-charts que serviram como murais de organização (valeu, pai!). Nós servimos bolachinhas caseiras com o café (valeu, mãe!). Nós pedimos que os participantes bancassem o próprio almoço. Posso dizer que o custo total da operação foi: R$ Zero.
Claro que, com mais estrutura, teria sido tudo melhor, mais confortável e mais fácil. Mas nós testamos e comprovamos: até sem grana nenhuma dá pra fazer um HackDay. Então, mesmo que você tenha grana, otimize recursos, que essa também é uma forma sensacional de mudar o mundo.
Comunique-se do melhor jeito
Não, definitivamente não precisa colocar uma propaganda no ar no horário nobre da Rede Globo pra divulgar o evento (thanks, internet). Posso dizer que boa parte da divulgação do primeiro Transparência HackDay foi feita pelo Twitter, por onde nós mandamos o link de um convite que estava no nosso blog (
moourl.com/thackdayconvite). Além disso, nós contamos com a propaganda-entre-amigos e com as listas de desenvolvedores. Eu também mandei e-mails pra uma série de jornalistas que cobriam política e novas tecnologias, mas como a mídia tradicional só cobre o que é quente, as notícias do HackDay só sairam na véspera, quando o blá blá blá já tinha se feito na rede e a lista de participantes já estava cheia.
Pra quem pensa que é importante abrir diálogo com o governo (nós achamos que sim), vale a pena bater na porta dos administradores públicos e legisladores, levantando a bandeira da transparência e pedindo dados públicos para mashupear ou a participação deles no evento. Pode surpreender muita gente, mas nós encontramos muitas portas abertas nesse sentido, e colhemos frutos interessantes dessa interação política (
moourl.com/thackdaydecreto).
Acredite na capacidade de auto-gestão das pessoas
O mais interessante é que eu estaria mentindo se disse que tivemos que trabalhar insanamente durante o HackDay. Estávamos lá, ajudando a tocar o barco, mas o papel de organizador, depois que o evento já está acontecendo, acaba se confundindo muito com o dos outros participantes. No meio do dia, deu tempo de participar ativamente das discussões e até de colaborar com um projeto (
mapadaeja.com.br). Muito do que fizemos foi dizer a que horas as discussões e atividades de desenvolvimento começavam e terminavam (o que, claro, não funcionou muito bem, fazendo com que felizmente o evento terminasse umas 3 horas depois do previsto).
Quando não estão sentadas num auditório de conferência, enforcadas pela gravata, as pessoas são altamente capazes de se auto-organizarem; e apesar da coisa fluir diferente do que quando está tudo bem produzido por alguns poucos, acreditamos que assim se faz um processo muito mais rico e divertido para todos.
Dê autonomia, cobre responsabilidade
Preciso dizer que existem problemas. Na quarta-feira depois do fim de semana do Transparência HackDay, ficamos sabendo que a porta de uma das casas da vila onde fica a Casa de Cultura Digital tinha sido depredada. Não ficou confirmado que isso aconteceu durante o evento, mas como justamente naquele fim de semana um fluxo de 100 novos visitantes tinha passado por ali, os indícios eram altos o suficiente pra comprometer a paz com nossos vizinhos. Foi um dia bem chato e foi difícil pensar no que fazer naquela situação. Mas dado que, de diversas formas, ficou claro que o evento era responsabilidade de todo mundo, não encontramos outra forma de agir a não ser liberar a lista de presença para a empresa que teve sua porta depredada, e informar os participantes por e-mail do acontecido.
É importante dar autonomia pras pessoas, mas também deixar claro que elas são responsáveis pelo espaço que ocupam e pelas relações que constroem durante um HackDay.
Entenda o processo como o melhor resultado
Muitos dos projetos criados ou empreendidos durante o primeiro Transparência HackDay ainda estão em versão super-beta, alguns já caminharam um bocado, outros nem tanto. Muito do que foi produzido é linha de código, ferramentas fantásticas para que outros desenvolvedores possam produzir aplicativos e sites baseados em informações públicas com muito mais facilidade. As discussões também são bastante válidas, mas dois dias obviamente não são tempo suficiente pra resolver as questões que ligam política e novas tecnologias no mundo contemporâneo.
O efeito demonstrativo dessas coisas, pra quem é leigo, pode ser pequeno, mas isso realmente não é um problema. O encontro, as conversas, as ideias e os desafios, tudo o que faz parte do processo do HackDay, são muito importantes. E mais ainda: a formação de uma comunidade de gente interessada em usar a rede pra hackear o mundo, com resultados inimagináveis em médio e longo prazo, é o principal resultado dessa iniciativa.