Greg, acho que pra variar esse artigo segue promovendo uma ideia no mínimo ingênua, para ser gentil: a idoneidade da imprensa.
Ou mesmo outras relacionadas, a do jornalista enquanto paladino da verdade ou a imprensa como promotora do progresso ético e social das instituições.
Se há uma coisa tão brilhante como o sol e tão palpável como o chão que pisamos, desde que nasci e ao longo desses trinta e cinco anos de vida, essa coisa é o fato da imprensa brasileira ser completamente comprometida com o poder. Quem quer que seja esse poder.
Isso deveria ser óbvio, porque a imprensa, apesar do discurso progressista, é um negócio e não uma organização em prol dos direitos humanos. A imprensa não está defendendo a transparência pelo fim da corrupção e impunidade, tanto quanto pela garantia de acesso á mais básica matéria prima que movimenta seus negócios. Basicamente é como uma companhia mineradora lutando pelo acesso prioritário a um veio lucrativo.
Os grandes jornais brasileiros as televisões e as rádios ou já pertencem a algum político ou agem de acordo com o partido que seja mais conveniente apoiar, seja de forma veladamente paga, seja para defender os próprios interesses. Portanto a imprensa é parte integrante das "complicações partidárias do Brasil" A imprensa na prática não esclarece a opinião pública, mais do que a manipula. Ela tem sido ao longo dos anos uma ferramenta política que semelhante a muitos partidos que dela fazem uso, defende nobres ideais em público mas nos bastidores chafurda na lama.
Quando vejo a matéria da folha sobre circulou nesta lista sobre o sigilo das obras da copa, saltam aos olhos os detalhes de quem, simplesmente por ler jornais, está acostumado a identificar os aspectos políticos das matérias "idôneas". Um diagrama colorido, onde o ponto polêmico do texto original, já vago e de interpretação dúbia, é passado de forma simplificada e categoricamente alarmante, sem que o mesmo esteja lá para ser lido e confrontadas as interpretações possíveis. Logo em seguida, o mesmo diagrama destaca três grandes obras, todas fora de São Paulo, entre as quais a reforma do porto de Manaus, cidade desafeto dos interesses econômicos do PSDB, como seu candidato evidenciou quando era governador.
Oras, em uma rápida olhada é possível ver que a matéria não está lá para tão somente alertar o povo, mas para gerar uma polêmica que se transforme no que pouco depois aconteceu com o fato: uma moeda de troca na negociação entre governo e oposição. Depois que os acordos são feitos, longe dos olhos do povo, a notícia esfria e a própria imprensa deixa o fato no limbo até quando volte a ser necessário. Aí pergunto: estava a imprensa que divulgou o aviltante fato realmente preocupada com o fim da corrupção, ou simplesmente serviu como ferramenta aos donos do poder?
Observando a história da relação da mídia com o poder no Brasil (e não só aqui, claro) podemos inferir uma resposta.
Diante de tudo isso e do papel importante da imprensa nesse processo como você mesmo destacou, acredito que a ANJ deva dar o exemplo.
Veja, quando a imprensa vira uma ferramenta dos partidos ou dos interesses econômicos ligados ao poder, ela passa a fazer parte do governo, pois ela pode manipular a opinião publica. Então a imprensa também deveria ser alvo da transparência.
Eu como cidadão deste país, ciente das relações entre a imprensa e o governo quero a transparência dos jornais, revistas, televisão e outros meios de comunicação em massa.
Como passo inicial, eu gostaria que a ANJ, visto seu esforço em promover e proteger a lei de transparência, e também por declarar ter profundo interesse na proteção e melhora dos direitos do cidadão e na abertura das informações ao público, que por iniciativa própria faça o seguinte:
Peça a transparência aos seus jornalistas. Que os jornais brasileiros publiquem cadernos detalhando, desde a ditadura no Brasil ao menos, TODAS AS MATÉRIAS PAGAS, FORJADAS OU MANIPULADAS POR INTERESSE DE PARTIDOS, GRUPOS EMPRESARIAIS OU EMPRESÁRIOS. Em resumo, TODAS AS NOTÍCIAS E MATÉRIAS COM OBJETIVOS POLÍTICOS, bem como a relação de quem pagou ou influenciou tais matérias, ao menos a quem diretamente interessavam tais matérias;
Regule a transparência das associações de mídia. Que essas associações divulguem de forma transparente quem são seus fundadores e sócios efetivos, de onde procedem seus fundos e qual o nível de relação que estas associações possuem com políticos e grandes grupos empresariais, nacionais ou internacionais, de maneira que o público consumidor de mídia tenha condições de avaliar o quão idônea a organização de mídia realmente é.
Estimule um jornalismo realmente voltado a ética e não a notícia como negócio.
Quando eu ver a mídia assumindo onde e quando foi corrupta, em prol da abertura e transparência, poderei começar a acreditar que estamos efetivamente combatendo a corrupção.
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"Quem não compreende um olhar, tampouco
compreenderá uma longa explicação."
Mário Quintana