Crowdfunding recorrente [Era: Re: [thackday] Os atores mais bem pagos no palco político]

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Helder Ribeiro

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Jul 3, 2013, 3:00:24 AM7/3/13
to thac...@googlegroups.com
2013/7/1 Max Stabile <m...@maxstabile.com>
Sérgio,
 
as perguntas são pertinentes. Mas eu acho que não dá pra competir crowd sourcing com salvação humana, ou todos os argumentos religiosos...
 
Aí a história é outra...

Estava pensando a mesma coisa. Nenhuma quantidade de lábia, boa vontade e crowdfunding vai competir com "doe ou você vai pro inferno" ou "doe e você vai ficar rico/ser salvo/ganhar esse bilhete premiado de loteria meu" (peraí, isso não é estelionato?)

MAS, mesmo assim, acho que movimentos sociais ainda têm MUITO a aprender com marqueteiros (pastores ou não) sobre captação de dinheiro. Acho que existe um potencial muito grande de criar hábitos e ferramentas para incentivar as pessoas a "colocarem o dinheiro onde está a boca" e apoiarem financeiramente pessoas e grupos envolvidos em defender causas em que elas acreditam.

Exemplo simples: Wikipédia

Já está mais que testado e comprovado em negócios digitais que, na esmagadora maioria das vezes, se você pode cobrar por algo de forma *recorrente* em vez *transacional*, melhor. Para uma revista, por exemplo, é muito melhor ter um *assinante* do que ter alguém comprando *avulso* na banca. 

A decisão de compra é uma dor psicológica que as pessoas tendem a evitar, e no modelo recorrente você a toma uma única vez e continua pagando indefinidamente. 

Se toda vez você tem que ver a capa da revista, dar uma pensada se o contéudo te interessa, se você tá com grana, se já não tem coisas demais pra ler, etc., você vai acabar gastando muito menos na média com a revista. 

(Um outro exemplo nefasto disso é o quão difícil é cancelar serviços a la NET no Brasil. Eles fazem de tudo para impor uma barreira mental, pq vc pode simplesmente ficar com preguiça e continuar pagando por mais uns meses. Inércia financeira é a melhor coisa do mundo pra quem está do lado recebedor.)

Da mesma forma, com a Wikipédia, se todo ano você tem que parar e pensar "será que o jimmy wales está triste o suficiente? será que eles já não estão perto de conseguir a meta e não vão precisar da minha grana? será que eu já doei esse ano? será que já caiu meu salário desse mês?" etc, você vai doar MUITO menos. 

Agora, se fosse uma simples assinatura, que vc fala "vou dar cincão pra WIkipédia todo mês", você fez essa decisão uma vez e acabou. Vai continuar doando pra sempre, feliz da vida, sem ter que se preocupar com isso de novo. E não só vai doar com mais frequência, mas provavelmente uma quantidade absoluta maior também. "Cincão por mês" parece muito mais sussa do que fazer uma doação de 60 reais todo ano. Eu povavelmente daria uns 25-50 conto no máximo assim, de uma vez só.

Mas recorrente não é melhor só porque dá mais dinheiro no total (o que já seria ótimo). Outra razão ENORME pra pensar nesse modelo é a previsibilidade. Fluxo de caixa é importante, e saber que vai ter X (+- 0.1X) entrando na conta todo mês dá um alívio grande pra poder planejar as coisas. 

Tem gente que tem um modelo ainda pior que o "doação atômica, campanha anual", e faz "donation drives" todo mês. Isso é equivalente ao modelo recorrente, só que sem aquela parte linda e *crucial* de ser automático e não precisar pensar. Você tem que convencer a pessoa de novo *todo mês*. Não faz sentido! Vai gastar muito mais convencendo, receber muito menos, e ter previsibilidade zero. Como você consegue manter um funcionário que todo mês você não sabe se vai ter que demitir ou não?

O pior é que *tem* como doar de maneira recorrente pra Wikipédia. Eles simplesmente não dão evidência à coisa. O formato muda sempre, mas agora mesmo fui testar e precisei de 3 clicks até chegar à opção recorrente a partir da página principal de doações, que também não é tão óbvia de achar (preferi googlar "doar wikipedia"). 

Da primeira vez que tentei achar essa opção alguns meses atrás eu simplesmente não vi como, perguntei online e alguém me passou o link. Desde então criei um atalho mais mnemônico pra encorajar mais gente a doar mensalmente (http://bit.ly/wikipedia-assinatura-mensal) mas PQP né! Shut up and take my money!

Enfim, meu ponto é que captação de doações individuais tem um espaço muito grande ainda pra crescer. Acho crucial darmos apoio financeiro *recorrente* a quem nos representa, não importa em que esfera. E acho que ferramentas de marketing e pagamentos online podem ser muito exploradas ainda para esse propósito. (Este livro, por exemplo, é voltado pra vender software, mas tem dicas de ouro 100% aplicáveis a captação p/ fins sociais: http://www.amazon.com/Sell-More-Software-Optimization-ebook/dp/B00AHK02PG.)

Último exemplo: crowdfunding

Catarse é ótimo, você tem ideia de algo massa e autocontido, vai lá, junta uma grana e faz. Isso é ótimo pra festivais, albuns de bandas, enfim, coisas massa e autocontidas. Mas para esforços permanentes e persistentes, não serve. Você ganha a grana uma vez e depois vive do quê?

Digamos que eu tenha um projeto jornalístico: fazer um site onde pessoas possam postar questões específicas que querem perguntar aos vereadores. Todo domingo pego as mais votadas e passo o resto da semana na câmara entrevistando os vereadores com a questão. Filmo tudo, edito, transcrevo, adiciono contexto, referências, etc. posto no site.

Isso é um trabalho em período integral. Não dá pra fazer na boa vontade, tenho que largar meu emprego. O que eu faço? Uma campanha no catarse? O que eu peço? Um mês de salário? E no segundo mês, faço o quê?

"Catarse recorrente"

O que seria melhor? Faço uma campanha no hipotético "catarse recorrente":

"Tenho esse projeto animal que eu quero tocar em tempo integral pro benefício de todos. Atualmente ganho 5 salários mínimos por mês, mas se eu conseguir 3 por aqui eu largo o emprego pra me dedicar só a isso. A quantidade que você doar vai ser debitada todo mês da sua conta/cartão apenas se o valor de R$2034,00 for atingidos nos 30 dias dessa campanha. O progresso do projeto vai ser acompanhado pelo site e o trabalho vai ser accountable a todo mundo que contribuir. Você pode parar de pagar a hora que quiser, e se baixar de 2.5 salários/mês eu paro de recolher dinheiro de todo mundo de uma vez só e volto ao meu emprego — considere uma 'crowddemissão'."

Não parece tão difícil: catarse é open source, gittip também. É só juntar as pontas, meter uma fita isolante e boa =)

O que acham?
 
 
Daniel, eu acho que a pesquisa não é amostral, é? se não for probabilística essa conta sua aí não dá pra extrapolar para o universo... mas mesmo assim... deve ser muita grana.
 
abs
 
 
 

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Max Stabile
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http://maxstabile.com
http://metodologiapolitica.com



Em 1 de julho de 2013 14:47, Ser <sergio...@gmail.com> escreveu:

Olhando para o lado positivo (as vezes me chamam de Poliana)

1. Sera que o crowdfunding nao pode ser a maneira de universalizar processos como esse, que nas circunstâncias atuais dão vantagem -ainda- para instituições com as hierarquias mais eficientes?

2. Se sim, trata-se então de acelerar a apropriacao dessa e outras tecnologias para setores da sociedade que tem visões de mundo progressistas 

3. Nesse caso nao há motivos para pessimismo, se lembrarmos dados do Censo que mostram que evangélicos< 20%

4. Aí a questão se coloca em outros termos. E eu gosto de fazer perguntinhas incomodas : o q fazer para que a cultura digital seja apropriada com mais velocidade nos circuitos em q estão os atores sociais c maior capacidade de protagonismo nas mudanças q queremos?

Acho q temos q olhar p fora do nosso gueto de iniciados nas TICs.

Enviado via iPhone

Em 01/07/2013, às 10:24, Everton Zanella Alvarenga <evert...@gmail.com> escreveu:

É um futuro sombrio que nos aguarda. Toda vez que penso na crescente influência religiosa na política brasileira, me pergunto para qual país vou mudar, se a situação não tiver volta. 

Na América Latrina o Uruguai é o com mais ateus - coincidentemente o que está caminhando para algumas leis liberais ainda polêmicas por aqui.


Em 1 de julho de 2013 10:10, Daniel Bramatti <danielb...@gmail.com> escreveu:

Datafolha perguntou aos participantes da marcha evangélica de São Paulo quanto eles doam para suas igrejas. Com base nas porcentagens, fiz uma continha básica (e bem conservadora) e cheguei ao impressionante resultado de R$ 12,5 milhões por mês. Isso dá R$ 150 milhões por ano (metade do que os partidos ganham do Fundo Partidário). E isso só do microuniverso de 200.000 felicianos que saiu ontem às ruas. 

É a estrutura mais piramidal do mundo político. Mais bem financiada. Com maior capacidade de mobilização. Com mídia própria. Com representantes em todos os partidos e todos os governos. 
 
Para pensar no que vem por aí. 



.

.

Daniel Bramatti | Editoria Nacional - Estadão Dados - Blog Públicos | O Estado de S. Paulo

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+ 55 11 3856-4592

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