Liberdade para fazer, sem pedir permissão
É com orgulho que Daniela Silva define-se como “hacker”. Ou seja,
entende-se como uma cidadã “que não pede permissão para agir”. O
termo, geralmente mal empregado na mídia, é resgatado pelos ativistas
de internet, que o diferem de “craker”, este sim, um agente que usa a
internet para fins criminosos.
O discurso anárquico, no entanto, é afirmativo. “Sou uma ativista pelo
direito de se fazer as coisas”. Seu engajamento político tem como alvo
a transparência no governo e mais participação nas políticas públicas.
Com uma juventude inconteste, aos 25 anos Daniela é a cara de um novo
tipo de participação política. Fundadora e membro ativo de um coletivo
de cerca de 750 pessoas que se intitula Transparência Hacker, já
lecionou Teoria da Comunicação, é jornalista, mestre em Comunicação.
A jovem circula com desenvoltura entre desenvolvedores, hackers,
profissionais de Internet, ativistas, representantes de ONGs,
pesquisadores, comunicadores e advogados. E defende a internet como
uma dimensão da vida pública essencial ao cidadão do século XXI.
“Nunca as pessoas tiveram a mesma relevância de poder em nenhum outro
meio de comunicação”, ressalta. Por isso mesmo, acredita que o meio
deva estar acessível a todos. Entusiasta do Plano Nacional de Banda
Larga (PNBL) – “ele não é só positivo, como absolutamente necessário!”
– teme que o acesso à Internet venha a ser regulado pelas leis do
mercado. Para evitar este cenário, defende o Marco Civil da Internet
com entusiasmo, antes de o Congresso tipificar os crimes no âmbito da
internet, a exemplo do que preconiza o PL 84/99, também conhecido como
AI-5 digital.
“Temos de dar uma carta branca ao internauta”, afirma. “Precisamos
dizer para ele: “Boa sorte, cidadão. Vá atuar no seu país”. Ninguém
deve achar que você é um ladrão porque nasceu pobre e brasileiro.”
Nesta entrevista, fomos ouvir Daniela para entender melhor esta nova
geração de ativistas digitais, como enxerga a política e como quer
construir o Brasil. Confira, a seguir, a conversa que tivemos em São
Paulo.
[Zé Dirceu] Muito se fala sobre os hackers. Para vocês, o que é um hacker?
[Daniela Silva] A ética hacker tem a ver com a liberdade de fazer
coisas sem a necessidade de se pedir permissão a ninguém. É descobrir
como as coisas funcionam. Por isso, o hacker consegue construir coisas
muito legais. Consegue desmontar para ver como algo funciona e
reconstruí-lo de um jeito melhor. Um membro da nossa comunidade
definiu muito bem o hacker: ele é um cidadão curioso. Os hackers são
agentes. Não dá para dizer “esses caras são todos criminosos”. Esse é
o discurso que está na mídia, na política e em vários espaços. Hacker
não é criminoso. Quando as pessoas dizem isso, estão deslegitimando a
prática do hackear.
[Dirceu] Tenho acompanhado algumas das ações do Transparência Hacker.
Mas, como muita gente não conhece esse coletivo, vou pedir que você
nos conte um pouco sobre essa experiência.
[Daniela] Eu e o meu sócio, Pedro Markun, acompanhamos o movimento
internacional de abertura dos dados dos governos na Internet. E
pensamos: “Precisamos criar essa cultura no Brasil”. Montamos um
encontro - o primeiro “Transparência Hacker Day”, em outubro de 2009,
na Casa de Cultura Digital, onde trabalho. Hoje somos hoje um grupo de
mais de 750 pessoas organizadas em uma lista de discussão. Discutimos
e criamos projetos para divulgar a informação pública na Internet.
Ressaltamos a ideia da participação.
[Dirceu] Mas como você vê os ataques virtuais aos sites governamentais?
[Daniela] Esse não seria o foco da minha ação cidadã. Acho pouco
construtivo. É muito mais a nossa cara entrarmos num site
governamental e solucionarmos os seus problemas. Há um cara nosso que
encontrou falhas de inserção de html em uma dezena de sites públicos.
Ele publicou um post na Internet elucidando essas falhas, mas ninguém
consertou os problemas...
Mas acho que é legítimo fazer ataque de negação de serviço e tirar um
site do ar. Quando se faz um protesto na rua, você atrapalha a vida de
muita gente. É o preço que se paga por se viver em uma sociedade
democrática. O mesmo vale para os ataques via Internet. Você não pode
tirar o direito de as pessoas protestarem.
E se cai o site do Ministério dos Esportes? E daí? É a vida. Amanhã o
site volta ao ar. Na verdade, ele é absolutamente inútil. Eu quero
informação pública de qualidade num site do governo. Onde está a lista
dos aparelhos esportivos públicos do Brasil? Como um menino vai saber
onde tem uma pista de skate que ele possa frequentar? Nem quero que o
governo faça um site lindo, mas simplesmente que ele me dê as
informações de interesse. Essa é a lógica.
“Quem controla a camada técnica não
pode controlar a camada do conteúdo”
[Dirceu] Muito se fala sobre a importância da neutralidade da rede.
Como você vê essa questão?
[Daniela] O princípio da neutralidade da rede é o seguinte: quem
controla a camada técnica não pode controlar a camada do conteúdo. Ou
seja, quem controla a tecnologia para acessar, não pode bloquear o que
eu acesso.
A forma como a Internet funciona hoje permite que uma pessoa no
interior do Brasil navegue com a mesma relevância dentro deste sistema
técnico que uma pessoa que está nos Estados Unidos. Do jeito que a
rede foi arquitetada, a tecnologia não tem controle sobre o que você
está fazendo e nem sobre o seu conteúdo. Todos trafegam dados pela
rede. Isso é muito positivo, porque nunca essas pessoas tiveram a
mesma relevância de poder em nenhum outro meio de comunicação.
[Dirceu] E como o mercado enxerga a neutralidade?
[Daniela] O objetivo das operadoras é que - para navegar em certos
destinos - você tenha que pagar mais caro por isso. Ou, que lhe seja
fornecida menos velocidade de banda. Isso possibilitaria uma série de
acordos de mercado.
Quando uma operadora oferece acesso gratuito às redes sociais no seu
celular, isso é legal? Há quem diga que é muito legal. Mas não é. A
Claro, por exemplo, não pode definir que você vai acessar Orkut,
Twitter, Youtube, Facebook de graça... Esse é o fim do princípio da
neutralidade da rede. Você não pode cobrar por esse serviço.
[Dirceu] Dá para explicar melhor?
[Daniela] Nos Estados Unidos durante a transmissão ao vivo de um show
do Pearl Jam. O Eddie Vedder, vocalista do grupo, fez um protesto anti
Bush muito pesado e a AT&T derrubou a transmissão. Foi outro caso
típico de ameaça ao princípio da neutralidade da rede.
O princípio que permitu que a AT&T tirasse aquele show do ar reside no
fato de a operadora ter o poder de bloquear a transmissão daquele
conteúdo específico. É o mesmo caso da Claro, quando oferece o acesso
gratuito às redes sociais.
[Dirceu] Mais do que isso, é uma censura.
[Daniela] Sim, isso é uma censura.
[Dirceu] Vale para a rede o que vale sobre a censura e a garantia da
liberdade de expressão.
[Daniela] Esse é o problema porque para todas as demais formas de
comunicar que temos a camada técnica e a de conteúdo são muito mais
próximas. Você tem um jornal na mão que é físico.
[Dirceu] Cada pessoa tem um jornal nas mãos.
[Daniela] Sim.
“A Internet é um espaço fantástico para
a emergência de vontades coletivas”
[Dirceu] Essa é uma questão complexa, porque, inclusive, a Internet é
uma rede mundial...
[Daniela] Exatamente. Imagine o Brasil nesse cenário. Quem você acha
que vai navegar muito bem na rede se essa prática se legitimar? Será o
Brasil? Claro que não. Serão os Estados Unidos e a Europa. Alguém
acredita que os conteúdos do Brasil serão os conteúdos priorizados
para a navegação? Conteúdo em português? O mundo lá fora verá o que o
Brasil está produzindo?
[Dirceu] Pipocam no mundo inteiro do Chile à Itália, passando pelo
Oriente Médio, manifestações convocadas pela Internet. Que
características têm esses movimentos? Como vê a militância
cibernética? Que características introduziu nos movimentos sociais?
[Daniela] A Internet é um espaço fantástico para a emergência de
vontades coletivas. Todos esses processos não começaram na rede, mas
ela foi o elemento catalizador dessas vontades. Não tem nada de muito
diferente das mobilizações tradicionais. Mas, na Internet, as
mobilizações que deram mais certo aconteceram em cima de vontades que
já estavam latentes na sociedade. Jovens do Egito e do Oriente Médio
encontraram na Internet um espaço que eles poderiam usar para
manifestar sua vontade, para falar, e não apenas ouvir e receber
informação.
[Dirceu] Algo semelhante já aconteceu no Brasil?
[Daniela] O Churrasco da Gente Diferenciada (em protesto que reuniu
centenas de pessoas, realizado em maio, contra o movimento de alguns
moradores do bairro de Higienópolis, em São Paulo, que não queriam uma
estação de Metrô na região) é um exemplo brasileiro desse fenômeno.
Uma menina falou uma bobagem inaceitável em um jornal. O episódio
representou uma batalha de valores entre a meninada que usa metrô e
elite paulistana. Aquela declaração da menina (que alegava que o
bairro de Higienópolis era habitado por “gente diferenciada”) ficou
latente na cabeça das pessoas como algo muito difícil de engolir. Na
outra ponta, alguém fez uma proposta (de um ato público) bem humorado
na Internet, que tinha a ver com essa vontade de tantas pessoas de se
manifestarem contra uma fala bizarra. E, por fim, havia o Facebook,
que junta milhares de pessoas, que resolveram ir às ruas em São Paulo
falar sobre aquilo e afetar o mundo no qual elas vivem. (leia mais
neste blog)
[Dirceu] Como vocês exercem sua militância no Brasil?
[Daniela] No caso da Transparência Hacker , tem gente que é de
partido, tem gente que é de governo. Tem muito mais gente que não é de
partido e há os apolíticos. Nossa principal bandeira é a liberdade de
ser assim mesmo, de ser diferente e de fazer. Somos ativistas pelo
direito de fazer as coisas. A gente enfrenta muito “não” na sociedade.
Para a captação de recursos de um projeto nosso, o Ônibus Hacker,
fizemos um ônibus de papelão e estávamos na Av. Paulista com ele e
fomos estacioná-lo no Conjunto Nacional. O segurança disse “você não
pode fazer isso”. Eu respondi “isso o quê”? Há alguma regra de que eu
não possa estacionar o meu ônibus de papelão no Conjunto Nacional?”
“O acesso à Internet não pode ser uma questão regulada pelo mercado”
[Dirceu] Como você avalia o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) do governo?
[Daniela] O PNBL não é só positivo, ele é absolutamente necessário.
Acesso à Internet não pode ser uma questão regulada pelo mercado.
Justamente para evitar essas anomalias. Eu, por exemplo, quando mudei
de escritório para trabalhar no Centro de São Paulo, fiquei três meses
sem Internet. Na época, a Telefonica não podia vender porque o serviço
de Speedy era tão ruim que a Anatel o bloqueou. E até hoje a operadora
não oferece todas as opções de plano empresarial na região. Por quê?
Porque não tem mercado.
Tenho certeza que há fibra ótica passando bem em baixo da minha
calçada e, ainda assim, enquanto é o mercado que está regulando, ele
só vai onde lhe interessa. O mesmo acontece com a periferia de
Guarulhos, com os morros cariocas, com as comunidades no Centro-Oeste
brasileiro. Quem vai querer levar a rede para essas pessoas? Como o 3G
(banda larga por meio da tecnologia de celular) é uma operação muito
mais barata, pode até ser que o mercado tenha interesse em levar a
Internet sem fio a essas regiões. Mas quando? Precisamos de uma
iniciativa pública de acesso à rede porque ela é uma questão pública.
[Dirceu] E o PNBL...
[Daniela] Neste sentido, o PNBL é muito importante para quebrar essa
lógica do mercado. O problema é que o PNBL não pode se pautar pelo
interesse das empresas que vão fornecer os serviços para o plano. Por
exemplo, a cota de acesso mensal que prevê para cada usuário, de 1
giga, por 29 reais, é muito pequena. Fizemos a conta: não dá para uma
pessoa sequer baixar no seu computador o resultado das eleições, do
Tribunal Superior Eleitoral. Depois se quiser mais, terá que pagar o
excedente. Olha o prato cheio que estamos dando para as operadoras!
Nós vamos criar cultura de uso junto a um público que ainda não tem a
Internet doméstica.
Em política pública não pode ter essa de Internet de baixo perfil para
pobre. Alegam que 1 giga por mês é o suficiente para navegar. Mas é
muito pouco! Nós não queremos levar a Internet para o interior do
Brasil para as pessoas apenas navegarem. Queremos que elas possam
criar coisas na rede. Do que adianta levar a Internet para elas apenas
consumirem o que já foi produzido? Continua a mesma relação de poder
de sempre se perpetuando. Essas pessoas precisam ser autoras,
protagonistas. Precisamos quebrar esse conceito. Essa é uma quebra que
o mercado, obviamente, não fará por nós. É o Estado que precisa fazer
isso. Isso é política de Estado.
[Dirceu] E o PL 84/99, de autoria do deputa federal Eduardo Azeredo
(PSDB-MG), também chamado pelos militantes da Internet de AI-5
digital. O que acha dele?
[Daniela] Não dá para tipificar crimes na Internet antes de deixar
claro quais são os direitos das pessoas. Temos, ainda, de diferenciar
essa história do crime de Internet e do crime comum. Roubar dinheiro
de alguém em uma conta bancária já é crime. Não preciso criar um novo
tipo de crime para isso. Nem para pedofilia. O projeto foi alterado
para que obrigasse os provedores a guardar o IP (endereço lógico dos
usuários) e os logs de usuários para prevenir crimes....
[Dirceu] Exatamente. Exige guardar essa informação por três anos…
[Daniela] É como legitimar permitir que a polícia possa entrar na casa
das pessoas sem mandato judicial. É como se o Correio xerocasse suas
cartas para deixá-las guardadas e, caso haja alguma investigação sobre
você no futuro, elas estivessem lá para consulta. Já existem formas de
rastrear os IPs e logins quando o crime acontece. A Polícia Federal já
tem como investigar crimes na Internet. (Não há necessidade de uma lei
para isso).
[Dirceu] Existe uma delegacia e divisão especial para isso, com
equipamento e equipe...
[Daniela] A guarda dos logs pelos provedores, na prática, impõe a
carga de quem comete crimes na Internet sobre todos os cidadãos. A
filosofia que está por trás desse conceito é que todos nós estamos na
Internet fazendo alguma coisa de errado. Tudo o que a rede tem de
potencial democrático, de produção e acesso à cultura, de processo
educativo é descartado. A lógica do PL pressupõe que, se você está na
Internet, está pirateando, derrubando o site das pessoas... Então, é
preciso controlar. Que diabo de democracia pode se orientar por um
princípio como esse?
“O Brasil é um país que combina muito com a internet”
[Dirceu] O que deveria nortear essa discussão?
[Daniela] O Brasil é um país que combina muito com a Internet e tende
muito à liberdade. Defendo que temos de dar uma carta branca ao
internauta. Precisamos dizer para ele: “Boa sorte, cidadão. Vá viver a
sua vida, vá empreender, vá criar coisas, vá atuar no seu país!”
Ninguém deve achar que você é um ladrão porque nasceu pobre e
brasileiro. Isso não pode existir num estado democrático de direito.
Boa parte dessas discussões sobre a rede não passa apenas pela
imaturidade da Internet, como dizem. Elas passam pela imaturidade do
Estado democrático no Brasil. O fato é que vivemos em uma democracia
há muito poucos anos e as pessoas ainda estão acostumadas ao controle.
[Dirceu] Quem está apoiando o conceito de controle na Internet?
[Daniela] Nós sabemos que essa proposta tem a ver com o lobby
antipirataria. Há, ainda, quem quer vender cultura (e cobrar por
direitos autorais, tornando ilegal o consumo livre de conteúdo).
Estamos no Brasil e não na Dinamarca. Temos condição de dar tanta
moral a quem quer vender cultura, em um país que tem uma carência
enorme de cultura como a nossa? São essas decisões que temos que
tomar.
Durante uma viagem que fiz ao interior de Alagoas, numa cidadezinha
que tinha uma lan house, ao lado deste estabelecimento havia uma
locadora de DVD. Se você entrar naquela loja com um pedaço de papel
com o nome de qualquer filme escrito, o dono baixa na Internet e o
grava para você. Eu quero ver você conseguir comprar um filme do Woody
Allen no norte de Alagoas se não for desse jeito.
Se, em Cuba, o bloqueio à transmissão dos filmes americanos é feito
por conta do bloqueio estatal, aqui, no Brasil, essa impossibilidade
de ver um filme é dada por conta de um bloqueio de mercado. Só se leva
às pessoas a cultura que interessa ao mercado. “Vamos levar a Ivete
Sangalo para as massas”, decidem. E quem quiser assistir a outra
coisa?
[Dirceu] A solução para isso é Internet pública e gratuita. O governo
tem que dar o mínimo ou subsidiar.
[Daniela] É isso. E, voltando ao chamado AI-5 Digital... O projeto tem
muitos problemas. Além de transforma uma série de práticas comuns da
sociedade em práticas criminosas, outro problema é ele atinge o
provedor. Quando você responsabiliza o provedor de tecnologia pelo que
ocorre na rede, você tem um problema, porque ele vai ser obrigado a
tirar do ar conteúdos e o fará indiscriminadamente.
[Dirceu] E as propostas alternativas a essa lei?
[Daniela] Continuo achando que elas têm problemas. O substitutivo para
essa lei também não é bom. Na realidade, não há como salvar essa lei.
Primeiro temos que fazer o marco civil.
[Dirceu] O argumento do Azeredo é que a lei já está tramitando há onze
anos e neste período ninguém fez o marco civil.
[Daniela] O projeto dele mudou muito desde a primeira redação. Não há
como votar. É muito difícil entender o processo legislativo. É
engraçado pensar que, no processo legislativo atual, não temos como
nos livrar desse PL! Ou teremos um projeto substitutivo, ou ele vai
voltar ao texto original. Parece estranho que não possamos nos livrar
dele.
A sociedade não sabe o que fazer com esse PL porque desconhecemos como
funciona o processo legislativo. Seria muito importante sabermos e
entendermos o que aconteceu nesses onze anos que esse projeto ficou
por lá. Quando falamos em Transparência Hacker e em transparência
pública, também estou falando em transparência do processo. Em
entender como o funciona o processo legislativo.
“A internet é um bem público da mesma
forma como o é o espectro da TV”
[Dirceu] O que você propõe?
[Daniela] Antes de qualquer outra coisa, precisamos de um Marco Legal
que debata os direitos do usuário na Internet. Esses direitos estão em
risco muito facilmente, por muitas forças. Principalmente pelas forças
do mercado. Não precisamos nem mencionar as forças políticas nesta
discussão. A forma como o mercado quer que a Internet funcione não é a
forma como a Internet precisa funcionar. Ela é um bem público da mesma
forma como o espectro de TV o é. É um direito de as pessoas se
comunicarem.
Quando falamos dos direitos das pessoas na Internet, estamos falando
do direito de criar coisas. Não é só o direito de usar serviços já
prontos. A Internet é um meio tão fantástico, porque quem imaginou o
Twitter não precisou ligar para alguém para pedir permissão ao
criá-lo. Contanto que você saiba como os protocolos da rede funcionam,
você desenvolve o projeto e o coloca no ar, sem pedir satisfação a
ninguém.
[Dirceu] Recentemente houve o caso de um homem que entrou na caixa
postal pessoal da presidenta Dilma Rousseff enquanto era candidata e
na minha também...
[Daniela] Quando usamos e-mail e Internet temos que estar atentos para
garantir nossa segurança. Há um trabalho no usuário aí. É possível
encriptar um e-mail, assim como a navegação. Infelizmente, o usuário
não conhece essas regras. O anonimato é um dos pilares da liberdade de
expressão. É preciso ensinar as pessoas a usar a Internet.
Hoje, a maior parte das pessoas utiliza os serviços oferecidos pelas
empresas. A Internet não é isso. Ela é uma rede aberta que tem muitas
formas de controle. Você navega por meio de um protocolo. A segurança
que o serviço do seu email não é a segurança da Internet, mas a
segurança que o seu provedor lhe dá. O melhor jeito de fazer parte
deste serviço é ativamente, conhecer e descobrir como ele funciona. É
ter mais controle, criar você mesmo a sua segurança.
[Dirceu] Minha caixa de email foi invadida. O serviço de atendimento
ao usuário do provedor, que é da mesma empresa de um grande jornal de
São Paulo, permitiu que alguém trocasse minha senha a partir de dados
meus, boa parte públicos...
[Daniela] Isso não é trabalho de hacker, mas de estelionatário, o
cidadão que pegou seus dados e o telefone…
[Dirceu] É gravíssimo, o sistema foi muito vulnerável. A imensa
maioria das pessoas tem seus dados pessoais - como CIC, RG, data de
nascimento e endereço - em cadastros que podem ser comprados.
[Daniela] Hoje saber o CPF e o RG de uma pessoa pode ter muito valor,
porque você ainda consegue trocar o e-mail de alguém com essas
informações. Em breve, quando o RG e o CPF de todos foram conhecidos,
os serviços terão de se atualizar. Duvido que hoje, depois do que lhe
aconteceu, você consiga trocar sua senha junto a seu provedor com a
mesma facilidade.
A interface que este provedor específico criou para você lidar com a
rede foi o que permitiu essa falha de segurança.
“Os prestadores de internet não estão
obrigados a nenhuma regulação”
[Dirceu] Não existe regulação nenhuma para os prestadores de serviços?
[Daniela] Eles não estão obrigados a nenhuma regulação. E, pior, não
existe nada que defina os direitos do usuário em relação à rede. Daí a
importância do Marco Civil da Internet. E dependemos dos prestadores
de serviços para realizar uma série de atividades que não estão
reguladas. Por exemplo, políticas de segurança dos seus dados. Existe
um projeto de lei de dados pessoais que determina como uma pessoa pode
pegar os dados, o que uma empresa pode ou não fazer com eles.
[Dirceu] Gostaria que você contasse a experiência do Ônibus Hacker.
[Daniela] A Transparência Hacker tem um projeto de levar um ônibus
Hacker para viajar pelo Brasil. E ensinar as pessoas a usarem a
Internet, a terem emails seguros e não deixarem rastro ao navegarem na
rede. Queremos tirar o grupo que funciona no eixo Rio-São
Paulo-Brasília e ir para outros lugares. Como trabalhamos com
transparência pública e com dados muito sensíveis, é importante que
tenhamos autonomia. Fazemos o que podemos sem depender de ninguém. Por
isso queremos comprar o ônibus. Criamos o projeto Catarse, uma pequena
ferramenta que permite que, ao invés de termos um grande patrocinador,
nós possamos ter vários pequenos doadores por meio da Internet.
[Dirceu] É uma ferramenta excelente para financiamento.
[Daniela] Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. Eu prefiro votar num
candidato que eu financiei com R$ 10,00 e que foi financiado por muita
gente da mesma forma do que em alguém que recebeu um milhão de reais
de uma só pessoa.
[Dirceu] Temos que aprovar primeiro uma forma de poder doar pela
Internet. Assim como aprovar que se possa assinar projetos de lei e da
iniciativa privada pela rede. Vocês precisam desenvolver ferramentas
neste sentido.
[Daniela] Eu não sou a favor do financiamento público de campanha,
mas, sim, do financiamento cidadão de campanha. E ele deve ter um teto
de doação. Uma plataforma de financiamento cidadão de campanha é uma
excelente ideia. Precisa ser feito.
[Dirceu] É possível fazer uma campanha eleitoral se tiver uma
ferramenta dessas...
[Daniela] Você entra nos dados das doações e percebe que muita gente
pequena fez doações com dez, vinte reais.
[Dirceu] O governo já se entregou a vocês, afirmou que vai contratar
os hackers para fazer a segurança de seus sistemas.
[Daniela] Conversamos com o (ministro da Ciência e Tecnologia,
Aloísio) Mercadante.
[Dirceu] O gabinete militar falou a mesma coisa.
[Daniela] Essa é a política de todas as grandes empresas de
tecnologia. É preciso haver uma estratégia de defesa do setor público.
http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=2&Itemid=3
--
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "Transparência Hacker" dos Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para thac...@googlegroups.com.
Para cancelar a inscrição nesse grupo, envie um e-mail para thackday+u...@googlegroups.com.
Para obter mais opções, visite esse grupo em http://groups.google.com/group/thackday?hl=pt-BR.
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/jose-dirceu-mostra-que-ainda-manda-em-brasilia
Como se existisse hora inoportuna nesse caso, mas temos q escolher
melhor as companhias para entrevista se quisermos ser levados a sério.
Não vai dizer q a entrevista foi no hotel em Brasília tb. :P
Cleber
2011/8/27 Daniela B. Silva <daniel...@gmail.com>:
Não é o caso de tu fazer o que quiser, estavas representando o movimento ou ñ ?
Ou qualquer um pode fazer o que quiser em nome do movimento ?
Isso tem q ficar claro, dependendo da posição duvido muito que
ocorreriam tantas doações para o ônibus hacker, inclusive a minha.
Se fosse só texto eu ñ confiaria tb. A Veja ñ é nem de longe
totalmente confiável, o q ñ impede de termos senso critico para
analisar as reportagens, etc.
Cleber
2011/8/27 Pedro Belasco <pbel...@gmail.com>:
A Transparência Hacker como movimento é favorável a manter contato com
gente de reputação tão duvidosa ? Sem direitos políticos inclusive e
chefe de quadrilha de acordo com a acusação ?
Não é o caso de tu fazer o que quiser, estavas representando o movimento ou ñ ?
Ou qualquer um pode fazer o que quiser em nome do movimento ?
Não acho saudável esse tipo de "patrulha". Acredito que a Daniela não
fez nada de errado. O fato de conceder uma entrevista a uma pessoa
acusada de corrupção (e muito provavelmente culpado, a julgar pelos
fatos amplamente noticiados) não quer dizer que ela corrobora com os
prováveis ilícitos do personagem em questão, nem tampouco que ela
empresta solidariedade a ele.
E mais, acredito que essa entrevista não compromete em nada a
independência do movimento. Se assim fôssemos pensar, ninguém
concederia entrevista à Rede Globo de Televisão (cúmplice de primeira
hora da ditadura militar), à Rede Record (mantida pelo rico
dinheirinho dos fiés da Igreja Universal) ou a tantos outros veículos
de comunicação de passado pouco ilibado em nosso país.
Para mim o que importa é a mensagem que foi passada e a oportunidade
de levar a nossa mensagem aos mais variados públicos.
E antes que eu me esqueça, parabéns Daniela pela belíssima entrevista!
Grande abraço
--
Hélio Teixeira
IHT/Brasil
http://InstitutoHT.com.br
http://ComunicacaoChapaBranca.com.br
http://twitter.com/helioteixeira
Em 27 de agosto de 2011 13:53, Daniela B. Silva
<daniel...@gmail.com> escreveu:
A independência do movimento não está em jogo, muito pelo contrário,
está em jogo a credibilidade. No meu caso procuro escolher melhor as
companhias.
Não tem sentido não concordar com o veículo e mesmo assim
corroborá-lo, ajudá-lo com conteúdo.
Cleber
2011/8/27 Hélio Teixeira <heliolt...@gmail.com>:
Pq querendo ou não estamos sim ajudando a promover ñ apenas nossa
mensagem mas tb a mensagem do veículo que a está promovendo, estamos
ajudando a legitimar corruptos se contribuirmos e publicamos
informações dentro de suas fronteiras.
Cleber
2011/8/27 Cleber Gouvêa <cle...@gmail.com>:
Respeito a sua opinião e entendo a sua preocupação, mas não concordo
com a afirmação "Não tem sentido não concordar com o veículo e mesmo
assim
corroborá-lo, ajudá-lo com conteúdo", pois se fôssemos fazer esse tipo
de juízo que você sugere sobre esse ou aquele veículo de comunicação,
certamente não concederíamos entrevistas a nenhum deles, pois
certamente nunca concordaríamos, ao pé da letra, com nenhum.
E repito, acredito que a entrevista da Daniela não compromete nem a
independência nem a credibilidade do movimento.
Mas como já disse no início, respeito a sua opinião, mesmo não
concordando com ela!
Grande abraço
--
Hélio Teixeira
IHT/Brasil
http://InstitutoHT.com.br
http://ComunicacaoChapaBranca.com.br
http://twitter.com/helioteixeira
Em 27 de agosto de 2011 14:20, Cleber Gouvêa <cle...@gmail.com> escreveu:
A Transparência Hacker como movimento é favorável a manter contato com
gente de reputação tão duvidosa ?
Sem direitos políticos inclusive e
chefe de quadrilha de acordo com a acusação ?
Não é o caso de tu fazer o que quiser, estavas representando o movimento ou ñ ?
Ou qualquer um pode fazer o que quiser em nome do movimento ?
Isso tem q ficar claro, dependendo da posição duvido muito que
ocorreriam tantas doações para o ônibus hacker, inclusive a minha.
Cleber
Quando ñ temos essa informação ñ tem o que fazer, mas quando de
antemão sabemos que a fonte ñ é confiável, é incoerente quanto aos
propósitos do grupo ajudar a legitimá-la.
Não precisamos promoção a qualquer custo, os caminhos para a
informação ñ tem mais porteiras, a entrevista publicada no blog do
Thacker seria digamos mais orgânica, desse jeito é como se vendessemos
o Thacker como um tomate com agrotóxicos.
Cleber
2011/8/27 Patrícia Cornils <patrici...@gmail.com>:
Deixe o Zé Dirceu e a Veja pra lá e comece a reconhecer que imparcialidade não existe, e que ter uma diversidade cada vez maior de fontes é importante pro diálogo — até pra acusados de tráfico, assassinato e corrupção terem espaço pra contar sua versão da história (ou você não acredita em liberdade de expressão para estes? Os coroneis do nosso Brasil Varonil vão se orgulhar...)
Ou não faça nada disso e não converse jamais com ninguém que não faça parte do seu clubinho da ética e da moral incontestáveis (boa sorte pra encontrá-lo).
É contigo, você faz o que quiser. A diversidade é uma característica importante do nosso grupo. Assim como eu vou continuar fazendo o que eu achar correto e não aceitando patrulha. Entendeu?
Só que no caso acontceu o inverso, o Thacker deu entrevista para o
chefe do mensalão segundo denúncia e que tem seus direitos políticos
cassados, ajudou a legitimar seu blog.
Se no caso tivesse como contrapartida entrevistar ele tb, fazer
perguntas cabeludas de tudo que aconteceu para sua cassação, como
espera com estas atitudes mudar o Brasil, etc, tudo bem.
Mas ñ foi isso que aconteceu, um movimento que prega transparência
teve ao seu lado uma pessoa acusada de chefe de quadrilha e ñ
aproveitou a oportunidade, apenas ajudou a legitimar seu espaço na
Internet.
Parabéns.
Transparência é inútil sem cobrança!
Toda entrevista de membros aqui para políticos acusados de corrupção
tinha q ter como contrapartida a exigência de resposta de perguntas
realizadas pela comunidade. Que tal ?
Não podemos perder a oportunidade de questionamento e cobranças quando
estivermos frente a frente com políticos do gabarito do Dirceu (veja
só muita coisa passa por ele no pt/governo ainda, só eu acho isso um
absurdo?). Tem q rolar mais transparência aqui quando realizar este
tipo de entrevista.
Muito interessantes suas sugestões, mas de forma nenhuma pense que você tem o direito de cobrar isso de mim (lembrando que que a entrevista era comigo, sobre ativismo na internet, o que obviamente na minha visão inclui a Thacker), mas não era com você. Isso é patrulha de pensamento e eu não aceito.
Crie relevância no mundo, dê as suas entrevistas, e aí coloque suas regras.
Enviado via iPhone
...
[Message clipped]
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[Mensagem cortada]
Oi Pedro
Acho que visto a carapuça, mas digo com firmeza que a carência que sinto é muito menor do que a abundância. Saldo muuuuuuuito positvo. Portanto, não foi no sentido de criticar (mesmo considerando o sentido positivo da palavra "crítica").
Ao vestir a carapuça, faço uma promessa: vou puxar uma ação educativa, se mais alguém topar. Esse aprendizado sobre o Processo Legislativo, e sobre LDO, LOA e PPA, é um nodo de conhecimento importantíssimo para a sociedade, nas escolas, no movimento de voluntariado etc. Bora fazer um workshop público. Topo puxar, e vou conversar individualmente com algumas pessoas para começarmos a construir isso. Vamos marcar uma horinha pra eu poder ter uma ideia do quanto já é conhecido? Vou ver se consigo alguém também de modelagem de processos para acompanhar e poder traduzir em fluxogramas didáticos. De repente até podemos conseguir um funding para um curso em EaD...?
Um abração, e obrigado pelo retorno.
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Emerson Vinicius (Duke)
du...@riseup.net
11 7030-9216
evinicius.com
Cleber
2011/8/28 Duke <du...@riseup.net>:
Storch,Topo ajudar e até arrumar um espaço de EaD para umacapacitação sobre estes assuntos (PPA, LOA, LDO, OrçamentoPúblico etc) e outros que sirvam para ajudar a avançar na suaproposta.
Em 28 de agosto de 2011 15:37, Sérgio Storch <sergio...@gmail.com> escreveu:
Oi Pedro
Acho que visto a carapuça, mas digo com firmeza que a carência que sinto é muito menor do que a abundância. Saldo muuuuuuuito positvo. Portanto, não foi no sentido de criticar (mesmo considerando o sentido positivo da palavra "crítica").
Ao vestir a carapuça, faço uma promessa: vou puxar uma ação educativa, se mais alguém topar. Esse aprendizado sobre o Processo Legislativo, e sobre LDO, LOA e PPA, é um nodo de conhecimento importantíssimo para a sociedade, nas escolas, no movimento de voluntariado etc. Bora fazer um workshop público. Topo puxar, e vou conversar individualmente com algumas pessoas para começarmos a construir isso. Vamos marcar uma horinha pra eu poder ter uma ideia do quanto já é conhecido? Vou ver se consigo alguém também de modelagem de processos para acompanhar e poder traduzir em fluxogramas didáticos. De repente até podemos conseguir um funding para um curso em EaD...?
Um abração, e obrigado pelo retorno.
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