"Eis a tragédia do espetáculo, ou o espetáculo da tragédia
Eu mal vejo TV. Mas outro dia peguei uma chamada pro novo
*humorístico* da Globo, o Pé na Cova, tendo à frente um dos caras mais
abomináveis que já vi, o Miguel Falabella (que triste sina, a da
competente atriz Débora, ter o mesmo sobrenome desse infeliz).
Comentei no Facebook, só a título de registro, sobre o mau gosto, pra
dizer o mínimo, do tema escolhido pro humorístico.
Fiz uma pesquisa rápida, e achei no site da Globo o release sobre o
programa. A chamada:*O negócio deles é de morte! Saiba mais sobre Pé
na Cova*. Sim, o negócio deles é de morte. Independentemente de
qualquer tragédia, pensei em como o *show da vida* (ou da morte, como
queiram) vale mais do que qualquer vida.
É a *força da grana que destrói coisas belas*, diria o Caê. E, aqui,
destrói o que de mais belo e valioso temos: a vida. Mas a grana fala
mais alto: ouço, aqui, de orelhada, outro ser abominável, o Fausto
Silva, anunciar: *veja daqui a pouco no Fantástico a reconstituição
completa da tragédia em Santa Maria*. Sim, triste sina a da cidade
gaúcha, ter o nome da Santa. Mas o *show da vida* tem que continuar,
atiçando a morbidez espetacularizada, dando o close nos rostos dos
familiares, exibindo o perfil de cada um daqueles jovens...
O negócio deles é de morte. Se, todos os dias, alguém perde um ente
querido, o que motiva um pretenso humorístico a escrachar a morte?
Mesmo o executivo da Globo mais prático, digamos, pensando em termos
comerciais, não considerou que são centenas (milhares?) de
telespectadores a menos naquele dia do programa?
Essa semana, no dia desse fatídico *humorístico*, a Globo vai perder a
audiência de pelo menos umas 240 famílias (isso numa contabilização
direta, sem contar os amigos, colegas de trabalho etc.). Se a
sensibilidade moral, humana, solidária já não existe mais, que sintam,
portanto, a *força da grana*. É o que lhes resta, infelizes e pobres
seres (eu ia escrever *almas*, mas seria contraditório demais -- eles
não as têm).
Não sei quem são os culpados pela tragédia de Santa Maria, mas tenho
algumas suspeitas: a grana, falando mais alto do que a vida. Quando a
morte vira piada comercial, insensível, o riso que essa mesma piada
pretensamente deveria provocar só gera lágrimas. E doloridas,
irrecuperáveis.
O poeta John Donne já disse, e Hemingway apropriou-se do verso: *a
morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por
ti*. Choro, porque os sinos já nem mesmo dobram -- ou, apenas, na TV,
pra compor a trilha sonora do show..."
Paulo Bicarato