Câmara, enfim, instala comissão especial sobre lei contra corruptor
Um ano e meio após receber projeto do governo, Câmara cria comissão especial para votar punição a empresas corruptoras com multas e ações civis de devolução de dinheiro. Presidente, João Arruda (PMDB), e relator, Carlos Zarattini (PT), apoiam projeto e querem votar este ano. Para líder de Frente anti-corrupção, sociedade terá de pressionar.
André Barrocal
Data: 05/10/2011BRASÍLIA – A Câmara instalou nesta
quarta-feira (5) comissão especial sobre projeto que cria
punições administrativas e civis contra empresas
corruptoras, algo inexistente na legislação atual. A
comissão será presisida por João Arruda (PMDB-PR) e terá
relatoria de Carlos Zarattini (PT-SP). Os dois deputados
disseram que são a favor da proposta, enviada pelo governo
ao Congresso no ano passado, e que vão trabalhar para que a
votação ocorra até dezembro.
“O governo está certo. Tem que agir com mais rigor contra os
corruptores. O detentor do capital também tem de ser punido.
Temos de estabelecer essa cultura no Brasil”, disse Arruda,
jovem deputado (35 anos) de primeiro mandato.
“O projeto é hiper necessário. Critica-se muito a corrupção,
mas nunca temos a punição dos corruptores. Troca-se o
ministro, o secretário, o prefeito, e a empresa continua
trabalhando”, afirmou Zarattini, que está no segundo
mandato.
A comissão é composta por 26 titulares. PT e PMDB têm as
duas maiores bancadas, com quatro cadeiras cada. Fazem parte
deputados como Francisco Praciano (PT-AM), coordenador da
Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, Protógenes
Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal, Carlos
Sampaio (PSDB-SP), promotor de Justiça, e Osmar Serraglio
(PMDB-PR), relator da CPI dos Correios.
Segundo Zarattini, ainda não é possível identificar um
perfil da comissão para dizer se o projeto vai prosperar.
Mas o coordenador da Frente contra a corrupção mostrou
preocupação. “A relação capital-trabalho,
progressistas-conservadores, é desfavorável no Congresso.
Acredito que vamos ter um embate aqui na comissão e, se não
houver pressão da sociedade, é possível termos prejuízo”,
disse.
A reunião da comissão nesta quarta (5) foi formal, apenas
para eleger o presidente, o vice (Alberto Filho, do PMDB do
Maranhão) e definir o relator. A primeira reunião será dia
19, já que na próxima quarta (12) haverá feriado. Nela,
Zarattini deve propor um roteiro de trabalhos, com a
realização de cinco ou seis audiências públicas. “Vamos
tentar aprovar o projeto na Câmara até dezembro”, disse.
A comissão especial terá o poder de aprovar o projeto de
forma definitiva na Câmara. Caso aprovado, o texto só
passaria pelo plenário, antes de ir ao Senado, se ao menos
51 deputados (10% da casa) pedissem.
O projeto 6.826/2010 foi enviado pelo ex-presidente Lula ao
Congresso em fevereiro do ano passado. Desde então, estava
parado na Câmara, à espera de que uma comissão especial
fosse instalada – isso acontece sempre que uma proposta tem
conteúdo abrangente e precisa passar por quatro ou mais
comissões temáticas.
O projeto tenta contornar uma característica da legislação
brasileira. O Código Penal não prevê punição de empresas, só
de pessoas físicas. Em casos de corrupção, só estão ao
alcance da lei, de forma individual, os indivíduos que
agiram em nome das empresas.
Para punir empresas que patrocinam - e se beneficiam da - a
corrupção de agentes públicos, a Controladoria Geral da
União (CGU), que elaborou o projeto, propõe dois caminhos.
Permitir aos órgãos públicos lesados que punam os
corruptores administrativamente - com multas ou proibição de
assinar contratos com o setor público, por exemplo. E, na
área civil, libera o Ministério Público para entrar com
ações na Justiça para reaver o dinheiro roubado ou fechar a
empresa.
Segundo o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, as empresas
corruptoras têm tanta responsabilidade por desfalques no
erário, quanto os agentes públicos.
Leia Mais:
Faltam visão crítica e instrumentos legais
contra corruptores, diz Hage
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