Qohélet – Capítulo 2
por Rolnei Bueno Tavares
tradução do texto hebraico de Haroldo de Campos
Este comentário tem como objetivo ressaltar algumas peculiaridades do texto original do livro Qohélet (Eclesiastes), para que possamos compreender um pouco mais da riqueza poética e da profundidade do texto bíblico.
A tradução utilizada nesse comentário foi feita pelo poeta concretista paulista Haroldo de Campos (1929-2003) e pode ser encontrada com os comentários originais do autor sobre Eclesiastes e com comentários sobre sua tradução no livro “Qohélet O-que-sabe”, (São Paulo, editora Perspectiva, 2004 – coleção Signos n º13). Nesta tradução, Haroldo de Campos procura manter a impressão que se tem ao ler o texto hebraico, mantendo jogos de palavras e aliterações na medida do possível: “Nesse sentido, tendencialmente, intentei 'hebraizar' o português”. As 27 pontuações do texto original introduzidas pelos massoretas foram simplificadas em 3 hierarquicamente. Ou seja, o / corresponde a uma pausa mínima, o // a uma pausa média e o /// a uma pausa mais alongada.
Na transliteração das palavras, que ocorrerão ocasionalmente nos comentários, o “ch” é pronunciado como o “J” no espanhol, como em “Juán”. O “sh” é como no inglês “Shopping”, e o “h” como o “r” duplo do português em “carro”. O “r” sempre terá o som do “r” português entre vogais, como “varejo”. O “s” sempre terá o som do “s” duplo em português, como “massa”.
1. Eu disse / para o meu coração //
vem / vou provar-te no prazer /
e prover-te do melhor(1) ///
E isto também isto / névoa-nada
2. Ao riso / disse: despautério ///
E ao júbilo / que faz de sério?
3. Do meu coração decidi //
vou largar ao vinho / o meu corpo ///
E o meu coração / mantém-se no saber /
e ligar-me ao delírio //
até que possa ver / que benesse / toca aos filhos do homem /
que lhes cabe fazer / sob o céu(2) //
nessa quota de números(3) / dos seus dias de vida
4. Engrandeci / nas obras do fazer ///
Fiz erguer para mim / mansões //
fiz plantar para mim / vinhedos
5. Fiz para mim // jardins / e paraísos ///
E neles plantei / árvores-de-toda-fruta(4)
6. Fiz para mim / lençóis d'água ///
Para irrigar com eles //
um bosque / verdecente arvoredo
7. Comprei / escravos e escravas //
e os da casa servos-de-nascença / eu os tinha para mim ///
Bois e ovelhas também gado farto / eu os tinha para mim //
mais que todos / os que antes de mim foram / em Jerusalém
8. Acumulei para mim / prata e ouro //
e riquezas de reis / e de províncias ///
Procurei para mim / cantores e cantoras /
e a delícia / dos filhos do homem /
uma princesa princesas(5)
9. E engrandeci e avultei // mais que todos /
os que antes de mim têm sido / em Jerusalém ///
Meu saber porém / persistia comigo
10. E tudo o que aprazia aos meus olhos //
a eles / eu não lhes recusava ///
Ao meu coração não deneguei / prazer algum /
pois meu coração se comprazia / em todo o meu afã //
e isto era o meu quinhão / em todo o meu afã
11. E eu me pus em face(6) / das obras todas /
que minhas mãos fizeram //
e do afã / do meu afã de fazer(7) ///
E eis tudo névoa-nada / e fome-vento //
e nenhum proveito / sob o sol
12. E eu me pus em face / do saber para o ver //
e à loucura / e à sandice ///
Que resta para o homem / o-que-virá / depois do rei //
fazer / o já feito?
13. E eu vi // que há mais proveito / para o saber /
do que para a sandice ///
Como na luz mais proveito / que na treva
14. O sábio / tem olhos na cabeça //
e o estulto / erra na treva ///
E eu sabia eu também //
que um destino uno / a todos se destina(8)
15. E eu disse / para o meu coração //
qual destino de estulto / a mim o igual se destina //
e porque fui sábio / eu / excesso inútil(9) ///
E eu disse para o meu coração //
também isto / névoa-nada
16. Pois nenhum memento(10) do sábio / junto com o estulto /
no eterno-sempre ///
Já que deveras / o devir dos dias / tudo oblitera //
e assim é / morrerá o sábio / junto com o estulto
17. E eu odiei / a vida //
pois para mim é ruim /
a obra / que se faz / sob o sol ///
Pois tudo é névoa-nada / e fome-vento
18. E eu odiei eu(11) / todo o afã de fazer //
do fazer que eu fiz / sob o sol ///
Que eu deixarei //
para o homem / o-que-virá / depois de mim
19. E quem sabe / será sábio / ou néscio //
e ele será dono / de todo o meu afã //
do meu afã de fazer e de saber / sob o sol ///
Mas também isto / névoa-nada
20. E eu dei voltas a mim(12) / para desesperar meu coração ///
Quanto a todo o afã // do fazer que eu fiz / sob o sol
21. Pois eis aí um homem / cujo afã se perfez /
com saber e ciência / e êxito ///
E a um homem / que não se afadigou /
doará seu quinhão //
Também isto é névoa-nada / e mal sem igual(13)
22. Pois / que advém para o homem / de todo o seu afã //
e da fome que esfaima / o seu coração ///
Da faina que o afadiga / sob o sol?
23. Pois o todo-dia são penas / e sofrimento / sua tarefa //
mesmo à noite / seu coração não se aquieta ///
Também isto é névoa-nada
24. Benesse alguma para o homem / fora comer e beber //
e fazer ver à sua alma / a benesse / no afazer ///
Também isto / vi em mim //
que / isto / é da mão de Elohim(14)
25. Pois a quem o comer / e a quem o gozar / senão a mim?
26. Pois a um homem / que é bom em face dele //
ele deu / saber e ciência / e prazer ///
E ao que peca ele deu por tarefa / colher e recolher /
para dar / ao bom / em face de Elohim //
também isto é névoa-nada / e fome-vento(15)
Comentários:
1- Literalmente, seria “Ver (reê) o que é bom (beTov)”. Essa expressão faz referência as obras da criação: “E viu (iarê) Deus que (...) era bom (kiTov)” (Gen 1:4, 10, 12 ...). Qohélet dá a intenção de experimentar todas as obras da criação, como é citado freqüentemente, “vi que isto também vem da mão de Elohim”.
2- Expressão variante de “sob o sol”. Felizmente, em português também se mantém a relação sonora entre as duas expressões, que está presente no texto original (principalmente nos versos 13 e 14 do capítulo 1, onde ambas são usadas): Tachat haShamaim(sob o céu) /Tachat haShamesh(sob o sol)
3- A palavra hebraica “Mispar” pode significar tanto “contar” quanto “números”. Em nossa tradução, Haroldo de Campos preferiu “quota de números” para manter ambas as idéias.
4- Mais uma vez, Qohélet faz alusão a criação com as palavras Jardim (“Gan”, usada para jardim do Éden, “Gan Eden”), Paraíso (“Pardes”, uma palavra persa que originou o grego “paradeisos”, e conseqüentemente o português “paraíso”), Árvore (Ets) e Fruto (peri). A idéia é que ele tinha a sua disposição toda a obra que Deus criou.
5- Expressão de difícil tradução, no original “shidá veshidot”. A maioria dos comentaristas judaicos, a partir de Ibn Ezra, entendem essa expressão (shidá) a partir do hebraico “shad”, que significa “seio”. Outros procuram sentido no árabe, língua-irmã do hebraico, na expressão “said” que significa “senhor” (que derivou, mais tarde, no espanhol “Cid”). De qualquer forma, a expressão se encontra também no plural, demonstrando seu gênero feminino pelo sufixo hebraico “ot” (shidot). É uma possível alusão ao imenso harém de Salomão.
6- O verbo de se pôr diante de algo no hebraico tem raiz na palavra “pane”, que significa “face”.
7- O “Afã” foi a expressão escolhida por Haroldo de Campos para traduzir “amal”, que significa trabalho feito com esforço, fadiga, como demonstra a maldição jogada sobre o homem após a queda (Gen 3:19)
8- As palavras “miqre” (destino) e “iqre” (encontrar) tem a mesma raíz. Nossa tradução preferiu manter essa relação.
9- Pode-se traduzir a expressão “az ioter” literalmente como “portanto, excesso”
10- “Memento” ou “lembrança”.
11- Nossa tradução mantém em alguns pontos o pleonasmo freqüente na primeira pessoa do texto de Qohelet no original. O texto diz “veSaneti ani”, sendo que o sufixo “i” no fim do verbo já é relativo a primeira pessoa, mas ainda é adicionado “ani” (eu). Alguns vêem nessa redundância a preocupação do autor em destacar o caráter de experiência pessoal do seu discurso. Este pleonasmo aparece também nos versos 1, 11, 12, 13, e 15
12- A idéia é de mudar de rumo, de sentido, mas a palavra tem uma raiz do verbo “shuv”, “voltar”, que nossa tradução manteve.
13- Literalmente “Muito mal”. Haroldo de Campos tenta aqui compensar a aliteração do original (“raá rabá”) com a rima “mal sem igual”.
14- A rima mim/ Elohim também compensa a assonância no original: “gam ze raiti ani ki miad haElohim hi”
15- Qohelet se preocupa em demonstrar a inutilidade dos bens materiais, mesmo quando são bênçãos divinas. No fim do livro ele conclui que servir a Deus é um bem em si mesmo, pois mesmo as eventuais bênçãos derivadas dele são “névoa-nada”.