A escolha de um livro para leitura no obrigatria pode passar por vrios critrios, mas no tenho dvida que a intuio um elemento importante. Claro que a intuio pode ser domesticada e capturada por uma capa atraente, indicaes de especialistas ou influenciadores, ou uma frase que te chame a ateno ou que traga aproximaes com elementos de interesse.
O importante que existem livros para comunicar conhecimentos, livros de distrao e assim por diante. Escolhi o romance Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom, para me divertir com um personagem complexo num ambiente em que a realidade e a fico so conectadas na estratgia do romance. O Nietzsche do livro algum complicado, chato, egosta, potencial suicida, enfim, o Nietzsche do Yalom. Por outro lado, o dr. Josef Breuer algum cuidadoso, obstinado com o compromisso do tratamento de seus pacientes. Sua misso seria salvar o paciente Nietzsche e o problema que o paciente no entendia que precisasse ser salvo. A sacada foi o dr. Breuer, o terapeuta, se apresentar como paciente, pedindo ajuda para Nietzsche, que se transformaria no terapeuta. Uma transformao se instala no relacionamento entre os dois e o inesperado se apresenta: com a troca de papis o nvel crtico muda de lugar.
O paciente se transforma no terapeuta e o terapeuta em paciente. No isso que acontece quando um autor se torna revisor de artigos acadmicos, a mudana de papis? Os editores convidam autores que produzem trabalhos entendidos como de qualidade para revisar artigos submetidos aos peridicos. O papel do revisor, normalmente, consultivo, cabendo ao editor analisar e decidir a partir do parecer. A lgica que um autor competente saber analisar e contribuir para o aperfeioamento de uma comunicao de pesquisa de outrem. O inverso tambm pode ser inferido: um revisor competente pode ser um timo autor e o editor tenta atrai-lo e gerar a percepo de comunidade.
O autor vital para o ecossistema de comunicao cientfica, mas, sem o revisor, o sistema perderia, alm da legitimidade, a chance de aperfeioamento. Dentre as vrias possibilidades de atrao de um revisor, muito interessante quando nele o desejo de aprender percebido. Ainda bem que temos revisores maravilhosos em termos de competncia e compromisso. Contudo, se por um lado ele tem o poder de proporcionar condies de aperfeioamento do conhecimento, por outro tambm pode destruir uma abordagem proposta dependendo de como entender o seu papel.
Gostei de um comentrio de uma revisora reconhecida como um dos destaques na revista que eu contribuo como editor, que disse que analisava os artigos como se fossem os seus prprios, apenas lidos com outros culos. Uma Nietzsche convertida humanidade! Sonho de editor!
Voc quer saber como a histria do livro termina? Bom, a histria do livro tem o desfecho a partir da pgina 348. E o choro do editor? Depende de entender a tcnica do dr. Breuer e conseguir colocar o seu Nietzsche na dosagem adequada do seu papel.
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Graduada em Cincias Biolgicas (PUCPR) e Pedagogia (em curso), tem especializao em Educao Especial: sndromes e deficincias mltiplas; Psicomotricidade na Prtica Educacional. professora h 6 anos de Educao Especial.
em seu consultrio, josef breuer, psicanalista, recebe um carto de lou salom, dizendo que precisa v-lo no caf sorrento.
s nove horas em ponto l estava dr. breuer, tomando caf no sorrento, mas lou salom no havia chegado ainda.
durante o caf dr. breuer pensa sobre veneza, da beleza da cidade, das embarcaes, das gndolas.
fala para si mesmo, percebe o quanto era tolo, do quanto da vida ele havia perdido.
durante uma caminhada na ilha de murano, sua ateno se prendia a bertha, uma paciente encantadora, da qual ele tratava.
nesse instante seus pensamentos misturavam-se a vrios outros, quando lou salom entrou no caf.
breuer se encantou pela beleza da jovem que queria conversar com ele. ela chegou se apresentou e sentou a mesa.
durante a conversa, salom contou o seu temor em relao a um amigo que poderia se matar no futuro. tinha muito medo de isso acontecer, pois de certa forma se sentiria culpada.
breuer perguntou quem era seu amigo. ela respondeu que era friedrich nietzsche. disse que ele estava muito doente, com dores de cabea, nuseas, cegueira, problemas estomacais, insnia. consultou com diversos mdicos, em vrios pases, mas nenhum deles resolveu seu problema.
foi ento que ela ouviu falar do dr. breuer, atravs de seu irmo jenia salom, e resolveu procur-lo.
tambm ouviu falar de seu tratamento com uma paciente chamada anna o. , que obtivera bons resultados.
nesse instante breuer se assustou. como ela sabia de anna o.?
anna o. era o codinome de bertha, sua paixo.
esse caso intrigava breuer, pelo fato de bertha e de lou salom saber do caso dela. ento resolveu aceit-lo, quem sabe assim conseguiria arranc-la da mente.
breuer aceitou atender o professor nietzsche, mas ressaltou que talvez o caso dele ultrapasse o alcance da cincia.
deu-lhe um carto e marcaram um novo encontro.
em seu consultrio aguardando salom. despachou trs pacientes do dia e a esperava.
quanto ela chegou, comearam a tratar da doena de nietzsche.
salom comeou a relatar sobre sua convivncia com o filsofo. disse que seu relacionamento era mais intelectual do que carnal. viviam uma relao a trs. paul, salom e nietzsche. mas depois de um certo tempo o professor nietzsche a props casamento.
mas salom no aceitou. nietzsche ento fez uma outra proposta sem casamento efetivo. viveriam os trs, sem problema nenhum.
relatou sobre a viagem a tautenberg, com nietzsche e sua irm elizabete, que era anti-semita, e criou caso com paul com era judeu.
o sr. perlroth entra pela porta. sua histria: cinqenta anos atrs sofrera de uma tonsilectomia traumtica. sua vinda para o consultrio foi o problema de eliminar a urina. atravs do exame descobriu-se que ela estava com um alargamento esponjoso benigno. breuer indicou seu cunhado max, que era urologista.
dr. breur fazia duas visitas domiciliares por dia, uma de manh e outra a tarde.
tarde quando voltava para casa pegou uma carona com o amigo fischamann, encostou-se no banco e teve pensamentos relacionados com bertha, casamento e filhos.
no caminho avistou sigmund freud. ofereceu carona, e foram conversando pelo caminho. breuer perguntou a freud se ele conhecia jenia salom. ele respondeu que no se lembrava. freud tambm lecionava na faculdade e poderia ter conhecido o irmo de lou salom.
quando o carro parou, os dois continuaram a conversa na casa de breuer. sua esposa mathilde estava esperando com o jantar na mesa.
breuer no vivia muito bem com a esposa. isso porque ela descobriu sobre bertha e desde ento o relacionamento esfriou.
durante o jantar falaram sobre sonhos e suas interpretaes. freud era especialista em decifrar sonhos.
salom manda uma carta para breuer dizendo que o plano dera certo e que nietzsche iria consult-lo.
entusiasmado com a carta e com salom, breuer comeou a se olhar no espelho e ver a idade pesar. pensou nos seus 42 anos. ser que agentaria mais 42?
a secretria anunciou nietzsche. o filsofo entrou e se apresentou ao dr. breuer. depois conversaram um pouco e nietzsche tirou da mala alguns papis, que eram exames feitos durante anos e que no indicavam nada.
no prximo encontro o dr. breuer iria fazer uma anamnese e um exame antes de ver seus registros.
breuer atendia seus pacientes escutando-os. investigava cada parte de seu corpo, em seguida fazia uma anamnese. o passo final era a formulao de toas as outras perguntas. com nietzsche ele anotou tudo e pediu que ele aprofundasse mais sobre sua mudana de humor.
nietzsche relatou que seus ataques de humor duravam doze horas at dois dias. comeou a relatar suas dores e que raramente tinha momentos de bem estar.
depois da anamnese comeou a fazer o exame fsico, constatou anemia, problemas visuais.
breuer perguntou sobre sua rotina diria e que importante associar o bem estar social do psicolgico.
dr. breuer tambm falou de traio. nietzsche foi pego de surpresa com essa afirmao, pois se sentia trado e confirmou ao dr. breuer trs traies.
nesse instante o filsofo disse que seu problema de sade vinha antes mesmo das traies.
a outra consulta ficou para a semana seguinte.
no outro encontro nietzsche fez algumas perguntas: se ficaria cego? se os ataques seriam sempre? e se ele tinha uma doena cerebral?
dr. breur ficou mudo. as perguntas foram diretas e objetivas. respondeu que a tarefa de um mdico era reduzir a tenso de seu paciente e aumentar a capacidade de cura dele.
nietzsche disse que a verdade sempre deve prevalecer mesmo que seja dura demais. e que a relao entre mdico e paciente de ser der total verdade.
entraram no assunto das escolhas, do direito do paciente em saber o estado de sade seja ele ruim ou no. conversaram sobre a morte e de como encar-la. dr. breuer falou sobre a esperana, mas nietzsche disse que esperana era o pior de todos os males.
os temas da conversa entraram em polmicas que levariam a discusso por horas ou talvez dias interminveis. foi ento que dr. breuer entrou num assunto polmico: suicdio.
nietzsche disse que cada um dono de sua morte, mas no admitiu alguma vez tentar suicdio.
breur pediu alguns livros de nietzsche e ele se comprometeu a emprest-los. o prximo encontro ficou marcado para sexta-feira.
Foi com incrvel rapidez que devorei esse exemplar, o que pode ser facilmente explicvel em algumas colocaes. O que falar de um livro que trata de um possvel comeo da psicanlise de forma sria e profunda? O que dizer de uma clarificao da personalidade de um dos mais cativantes e solitrios filsofos do fim do sculo XIX? E o que dizer de um possvel embate psicolgico entre o Dr. Breuer (verdadeiramente um dos pais da psicanlise) e o poderoso e reservado Fiederich Nietzsche?
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