As vezes passo horas pensando nas minhas próprias idéias. E esqueço que
outras pessoas também tem idéias. Se outras pessoas tem idéias. Boas
idéias. Por que não utilizá-las para destrinchar o emaranhado de
complexidades do meu pensar. Conhecimento livre é um atalho para o
sucesso do coletivo.
Mas qual é o significado disso para o meu cotidiano? Continuo vivendo
num mundo que valoriza o material antes do humano. Frases como: Não é
possível viver sem dinheiro ou o dinheiro move o mundo são contrapontos
fortíssimos ao conhecimento livre. Uma sociedade mercantilista,
capitalista, financista e conformista aponta para o direito de
propriedade como um norte magnético. A direção da agulha é sempre a
mesma. Bala na cabeça da sociedade marginal.
É nesse ponto que enxergo as diferenças. Um mundo proprietário tende a
desmoronar. Num desandar coeso. Um movimento silencioso rumo ao
declínio do império americano.
Com tantos baluartes contrários, minha teimosia emerge do caos interno.
A revolução reformata a vida. Liberdade para inovar. Liberdade para
teimar.
[Falso debate]
Um debate entitulado "Responsabilidade e Conteúdo Digital" promovido pelo estadão
só pode ser considerado piada. O estadão fez uma campanha furada
contrapondo o conteúdo responsável publicado, redigido e editado por
profissionais (normalmente, jornalistas recém formados) e os blogs.
Alguns se sentiram ofendidos. Talvez pelo fato que estão buscando no
mesmo espaço informacional a repercussão das vozes. Um debate
esquizofrênico onde um quer ser o outro e o outro quer ser um blogueiro.
Edney Souza, do blog InterNey.net,
diz "Quando alguém faz piada de português, o português não acha graça",
A apresentação de Edney como um blogueiro que vive de blog há dois anos
não acrescenta nada a esse debate. O Edney é um cara legal. Blogueiro
desde quando a blogosfera era alegre. Ou, como diz Mr. Manson...
o blog moleque, onde a arte da criação era mais importante que os
tostões. Edney virou um case. E, talvez por isso tenha uma
responsabilidade de se manter como tal. Eu, particularmente, acho que o
Edney escolheu o pior dos caminhos pois transformou o interney num mar
de publicidade, de adsense e links para o mercado livre.
Não vou nem comentar a afirmação do Carlos Merigo
- "Acho saudável a discussão sobre a qualidade da informação" (...)
"Mas a campanha reforça o estereótipo de que blog é coisa de
adolescente ocioso. Lutamos todo dia para ganhar credibilidade. A
mensagem que eu percebi foi: não leiam os blogs, porque o blogueiro é
um macaco que só copia informações." - Essa afirmação é completamente
datada. A afirmação é contrária, a grande imprensa busca nos blogs uma
fonte de inspiração.
O mais engraçado dessa estória é ver o João Levi, da Talent dizer que
"Não tem porque não corrigir alguns detalhes da campanha, mas a
essência é essa mesma", pois se fosse meu fornecedor de propaganda eu
buscaria outro. A talent vendeu a sutileza de um elefante furioso.
Outra afirmação pamonha foi do presidente do Interactive Advertising
Bureau Brasil, Osvaldo Barbosa de Oliveira, que disse que existe uma
espécie de seleção natural na internet, que, com o tempo, acaba criando
a credibilidade. "Se seu conteúdo é ruim, seu blog vai morrer." Cara,
você precisa ler um pouco mais. Talvez o Taz,
do Hakim Bey pode te trazer alguma luz. Blog convive com a
impermanência. Os blogs são criados para morrer. Não existe o objetivo
da sobrevivência eterna.
Outra afirmação que se deve ignorar é do professor Gilson Schwartz.
Sinceramente, não sei exatamente o que ele fazia no debate. Simpático
não é aplacar os macacos raivosos, alias, esse debate de macacos está sendo tema na blogosfera desde a publicação do livro
The Cult of the Amateur,
de Andrew Keen, que critica a blogosfera e suas raízes amadoras. Creio
que esse tema foi a fonte inspiradora do João Levi. Ele, no entanto,
mirou o lado errado da estória. A blogosfera emerge. É o poder da
multidão ecoando as vozes das pessoas comuns.
Bem, a única manifestação lúcida vem de Pedro Doria, colunista do
Estadão: "Falta impacto e relevância na internet brasileira", Ele
destacou que, em outros países, a blogosfera é capaz de derrubar
integrantes importantes do governo. "Essas coisas ainda não acontecem
no Brasil." Pois é, estamos preocupados em fazer da blogosfera um
remendo da mídia de massa. O importante não é se bancar como blogueiro.
A importância dos blogs está no protagonismo e nas possibilidades que
se abrem na criação de projetos pessoais.
[Power Laws]
Bem, não adianta apenas criticar. Nos comentários o Edney me chamou para a conversa HD, queria convidá-lo a aproveitar o espaço do Metapub no InterNey Blogs e falar qual seria o melhor dos caminhos pra um blog Achei ótimo. O Edney é aliado.
O interney.net é um caso importante. O Edney conseguiu o que todo
blogueiro quer, viver de blog. Ele é um hub no sistema. A pergunta do
Clay Shirky é pertinente: Is the inequality fair? Ele aponta 4 motivos que explicam que esse desequilibrio de forças na rede são quase sempre justos.
1. The first, of course, is the freedom in the weblog world in general.
It costs nothing to launch a weblog, and there is no vetting process,
so the threshold for having a weblog is only infinitesimally larger
than the threshold for getting online in the first place.
2. The second is that blogging is a daily activity. As beloved as Josh
Marshal(TalkingPointsMemo.com) or Mark Pilgrim (DiveIntoMark.org) are,
they would disappear if they stopped writing, or even cut back
significantly. Blogs are not a good place to rest on your laurels.
3. Third, the stars exist not because of some cliquish preference for
one another, but because of the preference of hundreds of others
pointing to them. Their popularity is a result of the kind of
distributed approval it would be hard to fake.
4. there is no real A-list, because there is no discontinuity. Though
explanations of power laws (including the ones here) often focus on
numbers like "12 percent of blogs account for 50 percent of the links",
these are arbitrary markers. The largest step function in a power law
is between the
Number One and Number Two positions, by definition. There is no A-list
that is qualitatively different from their nearest neighbors, so any
line separating more and less trafficked blogs is arbitrary.
Essa topologia de rede explica a atração do pessoal de marketing. Na
verdade, esse é um debate que começa em 1999. Bem, é aquele papo dos
mercados são conversações. Essas conversações em rede formam nós, hubs
e linkania. E, quem quiser sobreviver vai ter que aprender as regras
desse novo mercado.
Estamos vendo no caso de interney uma novidade. Um blog se torna um
canal de marketing importante. Imagine 1000, 10.000, 100.000 blogs
vendendo propagandas. O adsense é isso. Apreveita o canal que emerge na
rede.
No entanto, esse hub só é considerado hub quando ele cria uma reputação
nessa rede. A tendência para aqueles que exageram na propaganda, ou
seja, banner de adsense, mercado livre e o escumbau por todo o site,
inclusive entre comentários, vão gastar a reputação conquistada.
Reputação essa que ajudou o blog a ser um hub. Não digo que o interney
está perdendo reputação. Pelo contrário, o Edney tem sido íntegro. E,
sendo o primeiro goza de uma reputação extra. Eu me preocupo com os
seguidores.
[Sealand]
Um projeto pirata: A
história do "principado soberano" de Sealand está cheia de episódios
rocambolescos e até hoje o território continua a ser um caso
problemático de Direito Internacional Público no âmbito de disputas
territoriais. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha decidiu
estabelecer uma série de fortalezas marítimas ao longo da costa leste
da Inglaterra com vista a defender-se dos ataques aéreos alemães. Estas
plataformas eram capazes de abrigar um número suficiente de tropas e
armas para atacar os aviões e mísseis alemães. Uma dessas bases
chamava-se Roughs Tower(...) Em 1968, depois de tentativas da Marinha
britânica no sentido de demolir a Roughs Tower, um tribunal daquele
país sentenciou que não tinha soberania fora do território nacional
britânico, não podendo forçar Bates e a sua família a abandonar o
local. Deste modo, o Principado de Sealand constituiu-se a partir de
uma situação de facto, a partir de um facto consumado e sem o
reconhecimento legal (situação de jure). Em 1975 Bates elaborou uma
constituição para Sealand. Nos anos seguintes, a micro-nação adquiriu
hino, bandeira, moeda e passaporte próprios.(...) Mais recentemente,
Sealand ficou famoso porque a empresa HavenCo, especializada no
alojamento de servidores, adquiriu em 2000 a posse e o controle do
principado a Roy Bates. Os fundadores da HavenCo, um grupo de
cypherpunks libertários defensores da privacidade, pretendiam criar o
único abrigo seguro de dados em todo o mundo para proprietários de
sites bastante ciosos da sua segurança. O Sealand funcionaria assim
como um data haven, disponibilizando privacidade e anonimato absolutos
em troca de pelo menos 1500 dólares mensais. A companhia, que ganhou
projecção pública com um artigo na Wired que foi até capa da revista em
Julho de 2000, garantia a liberdade de expressão para todos os
utilizadores dos seus servidores, apenas proibindo que estes fossem
empregues para spam, ataques contra redes e pornografia infantil.
Essa abordagem sobre o suporte opensource é importante quando pensamos
num modelo de gestão autônomo e descentralizado. Ou, o que costumo
chamar de operação pirata. O suporte técnico de softwares ou de
projetos colaborativos são operacionados de forma diferente do que as
empresas estão acostumadoas. Pois, lidar com redes sociais pressupõe-se
uma visão da comunidade que é invisível para quem está fora. É muito
sútil esse relacionamento. Exige confiança, compromisso e reputação.
Clay Shirky, nesse vídeo,
faz uma apresentação do que significa o suporte opensource. Explica
como o impacto das redes sociais modificam a dinâmica básica dos
negócios e da criatividade coletiva.
[Radio Revolution]
Para quem trabalha com projetos de tecnologia social, inclusão digital e webeducação vale a pena ler Radio Revolution. Paper de 2003, de Kevin Werbach; Radio Revolution (New America Foundation working paper, December 2003)
"Internet access opens the door to educational, informational,
job-related, benefits, health, and other materials. However, the costs
of wiring lowincome facilities such as public housing complexes Radio
Revolution has traditionally been prohibitive, given that most
residents cannot afford to pay typical monthly broadband prices. WiFi
is one answer." Kevin Werbach | Radio Revolution
[Donos de nada]
Não somos donos de nada. O conhecimento é livre. O ser humano que é
besta. Pensa que pode mais do que o corpo. Logo, esse debate sobre
propriedade, direitos autorais não está acontecendo por acaso. Estamos
no limite. A entrada da internet vem romper exatamente o paradigma do
poder. Descentralizar o poder é muito mais efetivo do que a noção da
democracia. O caos e a incerteza são variáveis reais. Precisamos saber
conviver com esse desconhecido. A descentralização não é uma equação de
segundo grau. Exige o reconhecimento de que somos humanos, que amamos,
que odiamos, que erramos e acertamos. E continuamos humanos nas nossas
idiossincrasias. Reconhecer que somos tudo isso já é um grande passo.
Perceber que nossas idéias não são tão verdades, que somos
esquizofrênicos. Acordamos um e dormimos outros. E, como diz Toni Negri
temos uma multidão dentro de nós. Entender isso, e entender como essa
multidão se relaciona internamente nos facilita reconhecer o outro.
SubNews [a zine do subcomandante]
de Hernani Dimantas