DESPRENDIMENTO

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Gilberto Adamatti

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May 10, 2026, 5:01:31 AM (3 days ago) May 10
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45 - DESPRENDIMENTO - Judas Iscariotes


Judas Iscariotes gostava, de certo modo, da grandeza. E nesse penhor, que se sucedia todos os meses e anos, admirava o rei Salomão pelo seu talento, sua fortuna e seu poder. Achava esse rei o máximo que um ser humano poderia atingir. Salomão era, de fato, o personagem mais admirado em todo o mundo no seu tempo e Judas se fascinava quando pensava nele ou ouvia sua história.

Salomão subiu ao trono com vinte anos e governou quarenta. Foi o último filho de Davi e sua mãe chamava-se Bate-Seba. Nasceu em Jerusalém e era considerado como homem pacífico por natureza. Pela significação de seu nome, seu destino era florido de todas as nuances que a felicidade poderia soprar na face da Terra e era isso que Judas Iscariotes idealizava. Salomão reinou há quase mil anos a.C.. Era poeta por natureza, conhecia profundamente a botânica, sobre a qual escreveu tratados de muita profundidade. Colecionou animais e plantas de todas as espécies em seu palácio e era portador de sabedoria incomparável, aliada a um discernimento incomum.

Judas Iscariotes era muito amigo de um sacerdote que também admirava Salomão. O nome desse religioso era Paliotila-Sem-Ju, mais conhecido por Ju. Judas gostava de conversar com o sacerdote sobre assuntos referentes ao rei mais imponente que a Terra conheceu em sua época. Um dia Ju chama Judas e fala-lhe ao pé do ouvido:

- Judas, eu quero te revelar uma coisa, meu filho, de que tu irás gostar imensamente.

- O que é? - perguntou Judas ansioso.

Ju puxa-o para um canto do templo onde estavam e balbucia:

- Olha, Judas, fiquei conhecendo uma pitonisa do Baixo Egito que é uma maravilha! Sabes quem fala por ela?

Pára um pouquinho para que Judas pense.

- Não, não sei! Quem é?

- Meu filho, é o rei Salomão, eu assisti! Mas que sabedoria, mas que encanto a sua palavra! A moça é realmente divina em seus dons de falar com os mortos! É bom que vejas! É bom que vejas!

- Mas como posso ver?

Ju atende com presteza:

- Ela vem aqui em Jerusalém nos próximos meses e talvez fique em nossa casa. Ela se tornou muito amiga minha, porém precisas de muito tato no caso, por causa dos príncipes dos sacerdotes. Eles não podem desconfiar das nossas intenções, ainda mais com a tua participação, entendeu?

- Sim, sim! Compreendo... Continua.

- Vamos dar um jeito, somos muito íntimos um do outro, fui eu que dei conhecimento dela aqui nas sinagogas e o interesse é geral no seio das igrejas. Todavia, o segredo está sendo a maior intenção de todos.

A pitonisa era uma linda egípcia na flor dos seus dezessete anos. Esplendia em seu sorriso e suave encantamento e seu olhar magnetizava todas as criaturas. Tinha a palavra também cativante. Seu nome era Flor de Lótus ou FlorindaFlor. Ficava em casa especial, muito vigiada, mas podia sair acompanhada de certas aias, treinadas especialmente pelos sacerdotes de lá, para que o cerco não fosse rompido por pessoas indesejáveis. Além disso, pela sua vestimenta, até os populares dariam cobertura a ela, caso fosse atacada por marginais. E, além disso tudo, era contemplada com o acompanhamento em que mais confiava: o espiritual.

Ju conversou com ela acerca de Judas - que já a admirava mesmo sem conhecê-la - explicando que o rapaz era ardoroso admirador do astro que se manifestava através dela: Salomão. Flor teve pressa em conhecer Judas e combinou tudo com Ju. Seria na sua casa, iria com as aias. O sacerdote preparou tudo, ornou o ambiente de flores e arranjou até música, dentro do gosto do rei. No dia aprazado se fizeram as apresentações, com Judas se sentindo o homem mais feliz da Terra, por conhecer aquela beldade, podendo falar ainda com o rei mais venerado de Jerusalém, mesmo depois de séculos após sua morte. Flor, que já parecia estar tomada por alguma força, adequadamente vestida, desliza pelo centro da sala com vários lápis coloridos. Desenha um grande círculo no piso e fica no meio dele. Rabisca outros emblemas e uma estrela onde apóia seus pés, esticando seus braços para cima, ao som da música. Faz uma oração em aramaico e, em minutos, vai se transformando, como por encanto, saudando todos os presentes e senta-se em uma cadeira toda ornamentada para aquela cerimônia. Conversou com aqueles que já o conheciam através de Flor e deparou-se com Judas - nessa hora um pouco melancólico - falando, serenamente:

- Meu filho, queres me conhecer?

- Sim, senhor! É o meu maior prazer!

- Pois, na verdade, eu digo que te conheço há muito tempo. Por vezes, sigo teus passos para ajudar-te nos espinhosos caminhos do teu mundo íntimo. Querias o desconhecido e eu queria falar com quem muito já falei. Pois bem, a roda gira sem parar e os seus raios mudam de posição na freqüência dos movimentos. Assim somos nós em relação às nossas vidas. Assim como ninguém morre, igualmente ninguém pára no posto em que se encontra. Basta dizer que até o que falamos hoje é diferente do que falamos ontem e do que vamos dizer amanhã. Mas somos os mesmos na estrutura com a qual fomos feitos pelo Todo Poderoso. Se crês em Deus, crê também em mim e no que eu vou te dizer, para teu próprio bem: trabalha, Judas, por dentro da tua consciência, limpa os entulhos que jogaste nos vales da tua mente, por preguiça de queima, porque cada vez que deixares passar o tempo, a podridão aumenta e te toma o corpo todo. És meditativo até a melancolia. Nunca levantas pela manhã com alegria de viver. Achas a vida um fardo de mau agouro e nunca estás satisfeito com as tuas companhias. Quando te alegras um pouquinho é com coisas abstratas que fogem à realidade. Começa a trabalhar no teu coração, modifica teus sentimentos. Se as forças não te protegem, não esmoreças, que alcançarás o que queres, porque a ajuda dos céus jamais faltará aos homens de boa vontade. O sacrifício que te serve atualmente é esse, o sacrifício das paixões. Nos traços da minha existência terrena, fiz coisas que não deveria ter feito como um rei político-religioso, mas alcancei muita glória que me deu plena satisfação. Eu trabalhei pela alegria, mas alegria com justiça. Estudei e fiz justiça. Até quando fui condenado pelos sacerdotes, o meu lema era a justiça. Essa moça pela qual falo contigo foi uma das vítimas da minha vaidade, mas eu a acompanho hoje nessa sua tarefa de redenção, dando-lhe meu apoio em toda a difusão da verdade. O que é meu é meu, e o que pertence aos outros eu estou entregando pelos processos da caridade, no silêncio das faculdades, dons abençoados por Deus. Judas, eu estava esperando esta hora de te perdoar. Mesmo que não te lembres, não importa. Eu falo mais para dentro de ti do que para fora. O tempo haverá de ensinar-te esse processo de conversação. Se te alegras conversar comigo, a mim alegra muito mais falar contigo, de coração para coração. Ninguém pode se esconder do outro, porque as leis não o permitem. Sempre estamos nos encontrando, nos caminhos da vida.

Iscariotes chorava sem interrupção. Os presentes não atinavam com o ocorrido, achando que era a emoção que tomava conta do amigo de Ju. A sala parecia uma festa.

O Espírito de Salomão, sorridente, continua a falar com Judas, mudando um pouco na sua dialética imperturbável:

- Meu filho, está para chegar a tua hora de decisão. Serás amparado por um profeta e até eu queria estar em teu lugar para ouvi-lo. Quando fui rei em Jerusalém e meus feitos brilharam no mundo inteiro, um velho adivinho já tinha me dito da vinda de um Messias para salvar a humanidade, esclarecendo ser da raiz de Davi, meu pai. Quase não dei crédito, mas sua profecia era certa. Digo-te que está para chegar a hora de seres chamado para o reino da misericórdia e do amor. Serás tentado por todos os meios para desfazer os trabalhos desse Mestre, mas nunca conseguirás, nem que tivesses a força de todos os homens, porque Ele está sendo enviado por Deus. Mas na verdade te digo que mesmo não suportando a fidelidade, não serás desamparado, e terás novas oportunidades até que, por ti mesmo, te ajustes com a consciência para que ela libere os teus feitos e para que tenhas paz e venhas trabalhar conosco neste reino em que me encontro para a eternidade que nos une pelo amor, pela justiça e pela sabedoria.

Judas quis entrar no círculo para beijar os pés da pitonisa revestida de Salomão, mas foi aconselhado a não fazê-lo. Alguém que assistia puxou-o com rapidez, fazendo-o assentar-se novamente no banco. Salomão, sorrindo, saúda os presentes, desejando-lhes muita prosperidade paz, e saúde e trabalho. Despede-se de um por um, e novamente fala a Judas:

- Nunca queiras ser o que eu fui; essas intenções são irrealizáveis e perderás o tempo em ilusões que não se concretizam. Deves ser tu mesmo diante do Todo Poderoso e te movimentes naquilo que podes ser. Um profeta novo já se encontra na Terra, mas na verdade Ele é mais velho do que este planeta, porque assistiu seu nascimento e deverá assistir a sua morte. Esse sim é o maior de todos em todas as programações da vida. Nós somos os Seus agentes eu e um dos menores. Tenho prazer em servi-Lo e a maior alegria em amá-Lo. Sê feliz e não esmoreças na tua jornada, que o Deus de misericórdia nunca se esquecerá de ti, onde estiveres.

E a pitonisa vai balançando as mãos como se estivesse se despedindo - e estava mesmo, - dando adeus aos que ficavam...

Vamos encontrar Judas Iscariotes na igreja dos pescadores, onde assiste Tiago de Alfeu fazer uma prece profunda a Deus, de impressionar os corações os sensíveis. Nisso depara com o olhar magnânimo de Jesus e entende que deveria perguntar algo naquela noite, e assim o faz, com desembaraço:

- Mestre! O que podes nos dizer sobre o Desprendimento?

O Cristo, sentado no cepo, como de costume, apruma as vistas e perpassa os olhos suavemente em todos os seus discípulos, dizendo:

- A paz seja com todos!

Em seguida fala com sabedoria:

- Judas! Desprendimento, no tocante aos bens terrenos, é uma arte de difícil assimilação. Não devemos nos esquecer das grandes necessidades que temos dos valores materiais e do quanto eles nos servem na jornada terrena. Porém, é muito útil que não nos deixemos ser tomados pela usura que, por vezes, nos cega o entendimento. Cada criatura tem missão diferente nas hostes da vida e, de conformidade com sua tarefa, ela requer determinadas condições materiais. No entanto, a vigilância não deve ser esquecida em todos os momentos, para que não se afogue em nós o poder de servir e a fraternidade que nos nivela a todas as criaturas. Querer ser rico somente apenas por ser, sem que o destino nos escolha para tutor dos bens materiais é forçar a natureza, o que nos leva a nos dar mal na conjuntura dos nossos ideais. O ouro em si não é bom nem ruim, ele é o que é no reino a que pertence. A inteligência do homem é que o transforma em carrasco ou em santo, dependendo das intenções e do modo pelo qual emprega as suas forças. Judas, ainda temos o ouro interno, de muito maior valor, o ouro da capacidade de servir, de ajudar, de amar e de perdoar. Nós temos os valores da compreensão, da alegria e do bom ânimo, do olhar e da palavra, enfim, dos pensamentos e das ações. Nós estamos trabalhando para saber fazer uso dessas fortunas que existem, com abundância, no reino da Terra. Quase todos os homens vivem à procura das glórias efêmeras, dos poderes temporais, que a política do mundo oferece. Esquecem-se do custo que pode ser exigido pela própria humanidade. Desprendimento, meus filhos, não é abandonar os bens que se possui... A verdadeira renúncia é aquela em que se pode viver dentro das maiores glórias, sem que a vaidade e o orgulho comandem o coração. É aquela em que se pode estar de posse de muito ouro e dono de muitas propriedades, mas fazer uso dessas possibilidades para o progresso dos homens e a felicidade de todas as criaturas, dando serviço digno aos que procuram trabalhar, instrução elevada aos ignorantes, teto aos que dormem ao relento, pão aos que sentem fome, roupas aos que precisam delas e, acima de tudo, quando esse tesouro material possa incentivar os necessitados a ganhar o seu próprio sustento com os seus próprios esforços. Esse é o verdadeiro Desprendimento. Diante da posse de muitos bens, mesmo ajudando os outros em alta escala, nunca deves fazer aos outros o que não pretendes para ti mesmo. Deves vigiar e orar, para que a prepotência não perturbe a serenidade da consciência. Orar e vigiar, para que a violência não castigue a mansidão e o ódio não maltrate o amor; e que o amor próprio não persiga a fraternidade. Desprendimento é um bem universal que faz tu dares sem que falte em tua mesa; que faz tu pensares sem cansar a consciência; que faz tu receberes sem prejudicar o próximo; que faz tu sorrires ajudando os tristes; que faz tu teres gratidão sem bajular ninguém. Que faz tu trabalhares em benefício de todos. Desprendimento é a liberdade, e liberdade é amar a todos e a tudo, sem que o apego nos escravize.

O Mestre falara de um só fôlego. E valeu a pena, porque Judas saiu alegre da reunião, mais ou menos desanuviado das suas habituais preocupações.

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Livro AVE LUZ - 45 - Por Shaolin e João Nunes Maia

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