gisele sobreira
unread,May 6, 2026, 3:11:17 PM (7 days ago) May 6Sign in to reply to author
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A casa da minha mãe nunca ficou pronta
ANDO COM VONTADE de ligar para minha mãe. Mas minha mãe já morreu.
Meu filhinho me perguntou hoje: "Cadê sua mãe, aquela que mandou seu mico embora
porque ele mordeu seu dedo?"
"Ela já foi para o céu...", respondi-lhe com o velho lugar-comum.
"E seu papai, aquele que andava no aviãozinho que ia até a lua ? "
"Também foi para o céu...", repito, pensando que um dia ele vai descobrir que
vamos para baixo e não para cima. Mas tenho mesmo vontade de ligar, pois, talvez, no
telefone, possa haver um milagre e sua voz soar em meu ouvido: "Alô? 284858?
Mamãe?" Na época desse número remoto do Méier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi
enfraquecendo por outros números, até o tempo em que, já velhinha, atendia triste e
doente ao 478378: "E aí, meu filho, tudo bem?.." Como seria bom o telefone me salvar e
alguém me chamar de "meu filho"... Seria bom entrar pelos fios do passado e fugir das
dores que sinto com o país, o mundo e comigo mesmo. Confesso que, em momentos de
desespero, eu já liguei escondido para números antigos. Ouvia a voz anônima e falava:
"Desculpe, é engano...", com a sensação de, por instantes, ter visitado minha velha casa.
Minha mãe era linda. Parecia a Greta Garbo. Um dia, meu avô bateu nuns
vagabundos que mexeram com ela, ainda mocinha, na base do "Tem garbo mas não tem
greta" e outras sacanagens de época... Meu avô, malandro e macho, pegou a bengala e
cobriu-os de porrada.
A vida de minha mãe foi a tentativa de uma alegria. Sorria muito, trêmula,
insegura e, nela, eu vi a história de tantas mulheres de seu tempo tentando uma felicidade
sufocada pelas leis do casamento, pela loucura repressiva dos maridos. Meu pai que era
um homem bom e a amava, nunca conseguiu sair do espírito autoritário da época e,
inconscientemente, enrolou-se numa infelicidade que oprimia os dois.
Na classe média carioca dos anos 50, cercados de preconceitos, medos e ciúmes
nas casas sombrias, os casais estavam programados para tristezas indecifradas. Eram
cenários estreitos para o amor: a casa do subúrbio, o apartamento "mixa" de Copacabana,
onde vi minha mãe enlouquecer pouco a pouco, tentando manter um sonho de família,
tentando manter a cortina de veludo, a poltrona coberta de plástico para não gastar, os
quadros de rosas e marinhas e a eterna desculpa para os raros visitantes: "Não reparem,
que a casa não está pronta ainda..." (isso, com 50 anos de casada). A casa nunca ficou
pronta, como ela, Greta Garbo do subúrbio, sonhou: a casa feliz, com bolos decorativos
nas festas, seu orgulho, a única coisa que ela sabia fazer; eram bolos em forma de avião,
para homenagear meu pai-piloto; em forma de livro, para me fazer estudar; ou em forma
de piano, para minha irmã tocar, naqueles aniversários em que os sofás de cetim marrom
e branco eram descobertos com discreta vaidade.
Na juventude, minha mãe era infeliz e não sabia, pois todas as suas forças eram
convocadas para esquecer isso. Cantava fox, para desgosto de meu pai, e ria com medo --
se bem que ninguém era feliz naquela época. Não havia essa infelicidade esquizofrênica
de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lâmpada fraca, uma infelicidade de
novela de rádio, de lágrimas furtivas, de incompreensões, de conceitos pobres para a
liberdade. Eu via as famílias; sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz, depois
dos casamentos esperançosos com buquês arrojados para o futuro que ia morrendo aos
poucos.
Não era a tristeza da pobreza; dava para viver, com o Ford 48 sendo consertado
permanentemente por meu pai sujo de graxa nos domingos, com o rádio narrando o
futebol, dava para viver com uma empregadinha mal paga, dava, mas era uma tristeza
obrigatória, quase uma "virtude" que as famílias cultivavam, sem horizontes.
Toda minha vida consistiu em fugir daquela depressão e em tentar salvá-los. Eu
queria dizer: "Saiam dessa, há outras vidas, outras coisas! " -- logo eu, que achava que ia
descobrir mundos luminosos feitos de revoluções e de prazeres, eu que achava que viveria
numa vertigem de alegrias modernas, do sexo que se libertava, da bossa nova, da arte,
ilusões que foram logo apagadas pelo Golpe de 64, que, com apoio do meu pai, restaurou
a luz mortiça das famílias, das esposas conformadas em seus cativeiros.
Minha geração se achava o "sal da terra", tocada pela luz da modernidade. Mal
sabíamos do outro desamparo que viria; não a melancolia do rádio aceso no escuro, não a
televisão Tupi ainda trêmula, não as esquinas cheias de mistério, não o apito do guarda-
noturno, mas a nossa impotência diante do excesso de acontecimentos, do inferno das
expectativas, das informações sem conhecimento.
Hoje, vivemos essa liberdade desagregadora, com a esperança de paz da classe
média destruída, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas, que não havia, quando
mamãe ia visitar a médium de "linha branca" que lhe prometia progresso e alegria nas
cartas. Antes, minha mãe e meu pai tinham a ilusão de uma "normalidade". Hoje, todos
nos sentimos sem pai nem mãe, perdidos no espaço virtual, dos e-mails, dos contatos
breves, da vida rasa sem calma.
Que vai nos acontecer nesse mundo de Bush e Osama, neste país de crimes e de
riscos Brasil, onde nada se soluciona, onde tudo é impasse e encrenca?
Será que nunca mais teremos sossego? Por isso, me dá essa vontade profunda de
pegar o telefone e discar, não num celular volúvel, mas num aparelho preto, velho, de
ebonite, discar e ouvir a voz de minha mãe entrar pelo fio e aparecer na salinha de móveis
Chippendale e Luís XV falsos e vê-Ia sempre querendo ser feliz, mas com vergonha das
visitas: "Não reparem que a casa não está pronta..."
Na verdade, tenho vontade de discar, mas é para saber quem sou eu. E quando
disserem "Quem fala?", pensarei: "É o que me pergunto..." Mas sei que vou desligar,
dizendo: "Desculpe, é engano...".