Judas Tadeu nunca se esquecera de visitar Cesaréia de Filipe, antiga cidade que fica no sopé das montanhas de Hermon, beirando as nascentes do Rio Jordão.
Essa metrópole, que buscara seu nome na condescendência de Tibério César e que reverenciava Filipe, o Tetrarca, valorizava muito aregião e fortalecia os lagos políticos. Chegou a ser um grande centro, onde o comércio de Roma se fazia esplender por toda a Palestina. Depois que o Imperador desapareceu dos cenários dos césares, a mesma cidade recebeu novo batismo, mudando seu nome de Cesaréia de Filipe para Nerônias, dada a sucessão de Tibério por Nero. Hoje, tem o simples nome de Banias, para esquecer um passado que sujara as águas do Jordão por muito tempo. Nos dias atuais, é uma simples e tranqüila aldeia, onde se vêem os restos de uma antiga civilização. O tempo passa e passam também os homens...
Judas Tadeu buscava de vez em quando a cidade de Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia, e ali ficava meditando, de forma que sua consciência parecia buscar no próprio tempo algo que sentia, pois a alma é, na realidade, um viajor incomparável. E a mesma consciência nunca se esquece de escrever, por métodos desconhecidos dos sábios, a história universal, capacitando cada a criatura os meios de, quando lhe aprouver, consultar-se nas coisas que se referem às suas vidas pregressas.
As ruínas de uma civilização não são propriamente a destruição de tudo, aos olhos de quem enxerga. As sensibilidades aguçadas são como uma espécie de verdadeira biblioteca, porque nelas estão registrados todos os fatos, que nos levam ao caminho de muitos dramas. A ciência do futuro irá provar essas verdades que, por enquanto, ficam qualificadas nos contos que a ilusão produz.
Tadeu era um pouco comedido. No entanto, as coisas do passado o fascinavam. Gostava de ficar meditando sobre objetos antigos, sentindo a presença deles e se alegrava só em tocar coisas que o tempo enfumaçara.
Tadeu já era discípulo de Jesus nessa visita a Cesaréia de Filipe. Certa noite, dormira em uma ruína antiga que lhe trazia recordações indeléveis. Ao sair voando para o infinito nos braços de Morfeu, adentra um casarão onde os personagens lhe lembravam um passado de grande glória, de feitos incomparáveis. Isso desfilava à sua frente como nos dias presentes se processa nos bem dotados documentários cinematográficos. Via, com certa emoção, o desfile de carruagens de guerra da antiga Assíria; as famosas lutas de egípcios judeus; e as glórias do Baixo e Alto Egito; de Mênfis; os grandes feitos sacerdotais da Caldéia; o Império Babilônico; a expressão formidável de Alexandre; as visitas consecutivas de grandes personagens da política; o aprumo de Cartago, da Grécia e de Roma; no cenário da filosofia e na disciplina religiosa como a India e a China se faziam presentes com valores inenarráveis.
Judas Tadeu sentiu-se no céu. Era isso que pedira a Deus. Mas, de vez em quando, lembrava-se de Jesus na sua mais pura simplicidade e a sua consciência verdadeira acicatava sua vigilância para que ele compreendesse o perigo da vaidade, que sempre foge das coisas concretas. Nisso surge um personagem com ares e falas estranhas que traziam desconfiança para uma alma que já havia respirado elevada a atmosfera de conceitos e vivência, como ocorrera com Tadeu quando, pela vontade dos céus, tornara-se discípulo do Cristo. O personagem vai chegando como um príncipe e logo se identifica, dizendo:
- Caro jovem! Diante de ti se encontra, para a tua felicidade e para recordações incomparáveis no futuro, o Conde Bel-Pre-Man, que te concedeu essa entrevista por dotes de que te soubemos possuidor. Tu poderás te tornar representante da nossa alta linhagem junto aos homens, desenvolvendo em meio a eles a nossa filosofia, que nada tem a ver com as fraquezas de conceitos de velhos e ultrapassados filósofos, famintos desprezados, e que correm, por vezes, todas as terras do oriente.
Judas ficou um pouco impressionado com a fala do Conde, mas conservou-se calado, por não saber de quem se tratava.
O Conde voltou a falar:
- Quero te propor uma aliança e, quando tiver certeza da tua fidelidade, não terás dificuldade para nada no reino dos homens. Dar-te-ei tudo, pela representação do mais puro gênio que se faz conhecer, por bondade, à tua frente, com poderes limitados. Gostas do passado e essa faculdade te faz remover, com facilidade, até as selvagens forças da natureza, cujo embrião precisamos mover para o mundo, sacudindo seus alicerces e colocando, nas posições estratégicas, o nosso povo, a nossa gente.
Quando Tadeu começava a vislumbrar nos pensamentos a presença de Jesus, o Conde notava isso e fazia o discípulo esquecer da idéia, por transmissões mentais que o mago negro dominava com facilidade. Judas Tadeu, na sua simplicidade, pergunta, com humildade:
- Que queres que eu faça, senhor, em benefício dos homens?
O mago, sagaz e faceiro, deixando transparecer a bipolaridade sensual, deixava desenhar, pelos gestos, o que lhe passava pela mente. Sorri gostosamente, achando-se no completo domínio da situação:
- O que eu quero? Eu quero muita coisa... eu quero muita coisa... Nós vamos por etapas, extraindo do passado as que nos oferecem os maiores prazeres selecionando as que, no presente, possam nos dar um gozo extraordinário. Ainda teremos seqüências dessas coisas, no futuro, que se encaixam em nossas mãos. Não esqueças que sou um gênio de mil cabeças, de incontáveis mãos e de muitas asas. Isso me favorece pensar em qualquer ambiente, trabalhar em qualquer situação e voar, estando presente em variados ambientes, se necessário.
O discípulo, meio engasgado com a situação, começou a ficar enredado com a presença do Conde das trevas. Pede licença para pensar no caso e lembra-se logo dos seus compromissos com o Cristo:
- Eu já trabalho com um Mestre. E com Ele as coisas parecem diferentes. Lá se fala no amor, na caridade e no perdão.
O Conde adiantou-se, cortando o assunto:
- Esqueçamos isso. Por enquanto, vamos ao que nos interessa.
E fez com que Tadeu esquecesse por um momento o que começara a falar. Nessa influência, parece que Tadeu estava meio preso.
O discípulo do Nazareno sente uma forte dor no pé, põe a mão por impulso instintivo e grita:
- Meu Jesus!
Acorda assustado e gemendo. Acontece que um bêbado inveterado, passando por ali, muito brincalhão, vê Tadeu dormindo e acerta-lhe uma bastonada no tornozelo e escapole, dando gargalhadas intermináveis. Tadeu, livrando-se do pesadelo, mesmo sentindo dores no pé, dá graças a Deus por ter acordado e procura o caminho de casa, ou seja, de Betsaida, enquanto aparecia forte em sua mente quase toda a conversa que tivera com o Conde negro, que estava por lhe instruir para que fosse seu agente, ou um deles, no meio dos homens.
À noite, Tadeu se encontrava no salão, onde todos os companheiros se encontravam a postos.
Tomé proferiu a prece de abertura do pequeno concílio. Tadeu, ainda com o pé inchado, não hesitou em perguntar:
- Jesus, queria que o Senhor me explicasse qual a posição da Verdade frente aos Teus discípulos e qual é a função dessa mesma Verdade para as nossas consciências individuais. E, ainda mais, qual o trabalho da Verdade perante a humanidade inteira.
O Mestre, na fulgência do Seu ser, movimenta o verbo admirável:
- Tadeu! A Verdade, na sua expressão maior, é Deus. Podemos compará-la ao sol que nos aquece e sustenta a vida na terra e em muitos mundos. Se chegássemos mais perto Dele, por certo que a nossa vida se perturbaria, perdendo a harmonia que nos é indispensável ao bem-estar. Quem pode negar que existam muitos obstáculos, do sol à Terra, para que a sua luz não chegue aqui como sai de lá? Pois na verdade te digo que quando a luz do sol banha a vida humana, os reinos animal e vegetal já passaram por muitos processos, a fim de que a brandura seja a sua peculiaridade para que possa beneficiar com mais profundidade. Assim é também o Sol espiritual e, muito mais que o astro que contemplamos todos os dias, seus raios são as Verdades que vêm até a humanidade, de mente a mente, abrandando as realidades no sentido de fazer o melhor em prol de todas as criaturas. A ciência espiritual é tão engenhosa e tão perfeita, que distribui Verdades tanto quanto existem consciências. Ela funciona do ponto mínimo ao máximo. É por isso e para isso que ensinamos, muitas vezes, por meio de parábolas, envolvendo as Verdades sob roupagens que possam garantir a todos a viagem para o futuro. A vós outros que conosco vos saciais neste banquete espiritual, tais parábolas têm sabor mais apropriado e podem saciar algumas das vossas necessidades. Quanto mais nos alimentamos da Verdade, mais responsabilidade teremos, mais testemunhos teremos que dar. Àquele a quem foi dado, mais lhe será pedido. A Verdade, na sua posição de luz, não depende dos homens para clarear. Ela, por si mesma, se faz conhecer. Entrementes, os homens se aproximam dela e se propõem a estendê-la por toda parte, não como caridade para a própria Verdade, mas para benefício próprio, atingindo, no mesmo instante, os outros homens.
Judas Tadeu acompanhava Jesus mentalmente em todos os tópicos de sua prosa e não deixava a distração perder os conceitos. O Nazareno alcançava o maior objetivo que o discípulo esperava. A dissertação continuou:
- Tadeu! Já notaste, nos antigos escritos sagrados, a descrição da mulher de Ló, virando estátua de sal quando tenta olhar para trás, para as ruínas de Sodoma e Gomorra? É certo que podemos admirar os feitos antigos, quando eles impulsionam o progresso e fazem um empuxo divino na escala das belezas imortais. Porém, é perda de precioso tempo viver de novo esse passado. É parar no próprio tempo e se petrificar como a mulher de Ló, às portas da grande catástrofe. O hoje te espera inflamado, dando-te oportunidades nunca antes oferecidas. Aquele que segue sem interrupção está sempre à frente dos que olham para trás. E na verdade te digo que sempre, nas sombras do passado, escondem-se víboras que projetam, nos que se demoram em suas contemplações, a peçonha, o prazer por acontecimentos que já se foram, propondo-nos que tomemos parte nos dramas em que o clima aromático e o sangue, o ódio, a vingança, a destruição. Se não atentamos aos nossos deveres, caímos em novas tentações, e o esquecimento cresce de maneira a ficarmos de passos lentos na subida que o progresso nos mostra, convidando-nos em todas as direções da felicidade. Quando nos deparamos com determinadas ruínas em forma de livros que o tempo escreveu, abençoemos suas lições e sigamos avante em busca de novas e mais vivas experiências, deixando, assim, a nossa cota de cooperação para outras gerações que irão nos suceder. As gerações são como ondas da vida, umas se sucedendo às outras, ao infinito, e, entre si, intercambiando experiências, incentivando vidas em seqüências intermináveis.
Se gostas da Verdade, começa a vivê-la na feição que podes suportar, pois a cada um pertence um quinhão dessa realidade. Assim como existem muitos raios do mesmo sol...
Jesus serenou Sua fala, dando tempo para que os apóstolos pudessem alcançar o perfume das Suas intenções e a força da Sua sabedoria. Judas Tadeu espera, ansioso, mais alguma coisa que lhe tocasse na alma, mais diretamente sobre o sonho que tivera. Quis falar, não sentiu coragem; mas se esquecera que pensar fortemente, para Jesus, era falar em uma dimensão que não tinha segredos para Ele.
O Mestre voltou aos seus conceitos:
- Os agentes das trevas estão impacientes, nos planos mais ligados à Terra. Eles se aproveitam de quaisquer esquecimentos que a vaidade e o orgulho fazem aparecer. Aproximam-se dos homens, espreitando caminhos que lhes abram o coração, na imprudência, na ambição, na maledicência. Chegam a perturbar até o repouso das almas e suas intenções avançam até sobre os que Deus abençoou com maior maturidade. Vós, que formais comigo um todo do Evangelho não podeis perder tempo em busca de facilidades, sonhos irrealizáveis, ganhos ilícitos, superioridades passageiras. Toda a nossa segurança está em Deus e na nossa consciência, quando ela se desperta para as feições do amor verdadeiro. As glórias do passado, nas lides humanas, tornaram-se pó que o progresso transforma em outras histórias. E o espírito, na sua consciência imortal, é um viajante que não regride nem pode parar mesmo que queira, pois a lei universal não o permite. A Verdade, para vós, é a mesma da humanidade e de cada um em particular. O que existe de diferente é que, para cada momento, ela veste uma roupagem de acordo com as necessidades, como os próprios homens da lei que, para cada tipo de cerimônia, usam vestes diferentes. O que deveis fazer, dormindo ou acordados, é usar a razão, em plena consonância com os sentimentos, para que bom senso possa falar com toda a certeza o que deveis aceitar, o que não deveis crer e o que não merece confiança; o que deveis provar é o que podeis comer, já que, na maior disposição acertar, Deus estará ao vosso lado, ajudando, pelos meios da inspiração, a selecionardes os vossos próprios caminhos. E não vos esqueçais de usar a oração como uma das maiores vigilâncias, que logo as tentações se desfarão, os céus e as estrelas aparecerão novamente, vos convidando aos espetáculos das belezas criação. E já que falamos em oração, é muito seguro que não vos esqueçais de, quando vos entregardes ao repouso, dirigirdes uma súplica a Deus, nos moldes em que a caridade se associa com o amor. Esse gesto, ao dormir, por certo nos desvia das sombras que nos espreitam o dia todo.
Tadeu estava envergonhado porque, apesar de ser dado à oração, sempre que se recolhia ao leito, naquele dia, em Cesaréia de Filipe, esquecera-se disso, envolvido profundamente em recordações do passado. Tinha uma certa indisposição para orar quando o sono chegava ao seu carro imantado de ilusões. Tadeu duvidava, até certo ponto, da eficácia da prece.
João exultou com a recomendação do Mestre, por ser convicto da força da súplica no descanso do corpo, como em todos os problemas.
Jesus vai saindo. Lembra-se de contar os discípulos.
Livro AVE LUZ - 39 - Por Shaolin e João Nunes Maia
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