"E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem nalguma palavra.
E, chegando eles, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és homem de verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas à aparência dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deus; é lícito dar tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos? Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja. E eles lha trouxeram. E disse-lhes: De quem é esta imagem e inscrição? E eles lhe disseram: De César. E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E maravilharam-se dele" (Marcos 12, 13-17).
Nos dias em que Jesus esteve encarnado na Terra, divulgando a palavra de Verdade, o povo de Israel era dominado pelo Império Romano. De tradição religiosa, os israelitas acreditavam cegamente na promessa de Deus à Abraão, de que seriam possuidores e dominadores daquelas terras.
O fato de estarem sob o domínio de um outro povo, era para eles motivo de grande revolta, que se agravava pelos duros impostos ou tributos cobrados pelos Romanos.
No trecho bíblico que nos serviu de introdução para este texto, os fariseus, religiosos da época e inimigos do Mestre, questionam Jesus a respeito da licitude do pagamento do tributo tão odiado pelos israelitas, buscando pegá-lo em erro.
Se Jesus tivesse dito que não era lícito pagar o tributo, os herodianos, servos do Império Romano, que na ocasião acompanhavam os fariseus, teriam-no preso; ou se simplesmente respondesse que deveriam pagar, estaria dando crédito aos romanos, contrariando a tradição religiosa e a vontade daquele povo, que passaria a odiar-lhe e não mais lhe daria ouvidos, podendo inclusive tentar contra a sua vida. Mas Jesus faz uma sábia separação entre as coisas de Deus e as convenções humanas, demonstrando que o cumprimento do dever é obrigação que não se limita a um plano, material ou espiritual, mas que busca atender à melhora do espírito, pelo esforço que faz para atingir tal objetivo.
Jesus nos mostra que pode o homem viver dignamente aos olhos de Deus, cumprindo com as obrigações instituídas pelos homens. Para que possamos compreender melhor este ensinamento do Cristo, é necessário que nos lembremos da razão pela qual estamos encarnados e sujeitos a estes constrangimentos. Somos ainda criaturas imperfeitas que encontram na Terra dificuldades que lhe servirão de exercícios e testes para suas virtudes. Compactuar com o erro não é a postura correta do cristão, mas a correção do erro não pode se originar de um outro erro.
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A desonestidade tem sido freqüentemente justificada pela própria desonestidade. Pessoas justificam-se por não pagar impostos dizendo que o governo é corrupto, que verbas são desviadas, que os governantes recebem altos salários sem nada produzir. Funcionários lesam patrões considerando que seu salário é baixo e que o patrão vive na regalia. Cônjuge trai cônjuge por julgar-se traído, e desta forma a sociedade humana, dotada de inteligência e dos exemplos de Jesus, entrega-se à hipocrisia semelhante aos fariseus, que procuravam o mal fingindo estarem preocupados com o bem. Nenhuma desonestidade pode ser justificada senão pela ignorância ou pelo arrependimento. Crer que um mal justifica outro é um grave engano, que se refletirá futuramente quando de nós forem cobrados valores que não estão ligados à matéria.
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Há no nosso mundo diversas coisas com as quais não concordamos e que muitas vezes são de fato erradas, como no passado a exploração dos romanos sobre os israelitas, ou as injustiças atuais que afligem nossa sociedade. Mas para corrigi-las devemos buscar os meios justos e legais. Com isso, estaremos produzindo o bem-social e o nosso bem-individual através do esforço que faremos para superar o nosso comodismo, nossa preguiça, nosso egoísmo, melhorando nosso conhecimento para bem argumentarmos, enfim, aprendendo o que é bom para superar o que é ruim.
Quando porventura estivermos diante da possibilidade de falhas como as citadas anteriormente, não nos enganemos com falsas justificativas que servem somente à nossa má vontade, mas façamos de acordo com a doutrina cristã, que nos ensina a analisar a situação e a buscar a solução inteligente e pacífica para o problema, considerando o progresso da criatura e o amor ao próximo.
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Fonte: Jornal Boa Nova - Edição 16 – janeiro/fevereiro-1998 - Marcos Antônio Nogaroto
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