Le Monde, El País, Financial Times são alguns dos jornais deste mundo
cujas opiniões contam. Suas palavras assentadas na reputação
intelectual e profissional legitimam ou não fatos ocorridos no âmbito
político, econômico e social. Esses três jornais europeus, neste final
de ano, colocaram o presidente Luís Inácio Lula da Silva no topo de
suas listas de personalidades do ano. O "filho do Brasil" transforma-
se em "filho do mundo".
O fato parece ter incomodado os jornais mais relevantes por aqui.
Talvez digiram mal outras visões de mundo, que nos chegam com
velocidade e sem controle.
Em outro tempo, as notícias sobre essa distinção internacional do
presidente Lula demorariam semanas para atravessar os mares e chegarem
para poucos. Agora, em um clique, milhões, ficam sabendo que, para
muitos, lá fora "Lula é o cara".
Para a mídia tradicional brasileira só resta publicar, no outro dia,
as boas e más notícias. Mas o atraso tecnológico midiático poderia se
transformar em oportunidade: interpretações e opiniões competentes,
embasadas em boa informação, a favor e contra, sobre os fatos do dia
anterior.
A mediação que a imprensa nacional fazia entre o mundo e o Brasil
enfraqueceu e perdeu a razão de ser. Hoje o brasileiro alfabetizado
vai direto aos grandes veículos de comunicação internacionais e
interage pela internet com a constelação formada pela rede social. E,
a partir daí, cria sua opinião.
Ainda sobre Lula, "o cara", a notícia nacional é quase sempre uma
opinião, que beira o esboço. Um estado jornalístico insustentável,
frente a um tipo de leitor, cada dia mais bilíngüe, que já não casa
com um determinado veículo de comunicação "até que a morte os separe".
As novas extensões do homem, articuladas a partir das inovações
tecnológicas e do novo social, transformaram a criação, a produção e
as formas de comunicação e de relacionamento. No novo ambiente sócio-
tecnológico é irrelevante pensar nas questões relacionais e
comunicacionais, entre elas as notícias, a partir de um instrumental
superado e adequado às guerras delineadas em territórios definidos,
defendidos por tropas identificadas e dependentes quase exclusivamente
de máquinas e orientadas por um comando e controle centralizados.
A notícia circula cada vez mais em um universo sem centro e sem
periferia. Quem discorda, por exemplo, dos rankings dos jornalões
europeus, têm liberdade e tecnologia para criar suas próprias listas.
Você se anima?
Por:Paulo Nassar professor da Escola de Comunicações e Artes, da
Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor-presidente da Associação
Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE).