Coluna do Prof. Pasquale

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José Luiz Pereira da Silva

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Oct 25, 2013, 2:03:54 PM10/25/13
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Coluna do Prof. Pasquale, de 24/10;

Pasquale Cipro Neto

'E deixe os Portugais morrerem...'

Quem já teve dois segundos de interesse pelos fatos da língua sabe que o infinitivo é verdadeira cilada

Estava na capa da Folha do último dia 15: "Dilma manda rivais estudarem; Marina vê retrocesso no país". Alguns leitores reclamaram do emprego da forma "estudarem", ou seja, reclamaram do emprego da forma flexionada do infinitivo. Para esses leitores, a forma correta seria "Dilma manda rivais estudar".

Ai, ai, ai... Como diz uma querida senhora (que não está longe dos 80), "pode até pensar, mas não pode dizer". Tradução: é melhor eu não dizer o que penso da arbitrariedade dessas "autoridades linguísticas".

Quem já teve dois segundos de interesse pelos fatos da língua sabe muito bem que o emprego do infinitivo é verdadeira cilada. Vale a pena ver o que diz sobre o tema a sempre importante "Nova Gramática do Português Contemporâneo", dos queridos e saudosos Celso Cunha (brasileiro) e Lindley Cintra (português):

"O emprego das formas flexionada e não flexionada do infinitivo é uma das questões mais controvertidas da sintaxe portuguesa. (...) Em verdade, os escritores das diversas fases da língua portuguesa nunca se pautaram, no caso, por exclusivas razões de lógica gramatical, mas se viram sempre, no ato da escolha, influenciados por ponderáveis motivos de ordem estilística, tais como o ritmo da frase, a ênfase do enunciado, a clareza da expressão. Por tudo isso, parece-nos mais acertado falar não de regras, mas de tendências que se observam no emprego de uma e de outra forma do infinitivo".

Em seguida, os autores dão uma relação de algumas das tendências observadas, o que também se vê em outras boas gramáticas, que, como a de Cunha e Cintra, também se baseiam na observação das tendências.

Uma dessas tendências se refere ao caso em tela (o da manchete da Folha), em que há um verbo auxiliar chamado causativo ("mandar") + infinitivo ("estudar"). Dizem as boas gramáticas que, nesses casos, quando o sujeito do infinitivo é expresso por um pronome oblíquo, o infinitivo costuma ocorrer em sua forma não flexionada: "Eu as deixei entrar"; "Ele os mandou sair"; "Não nos deixeis cair..."; "Mande-os ler"; "Faça-os ficar"; "Deixai-as vir a mim".

Quando o sujeito do infinitivo é um substantivo, posto entre o verbo auxiliar e o infinitivo, qual é a tendência? Ocorrem as duas formas do infinitivo: "Deixai as criancinhas vir (ou virem') a mim"; "Quero (...) ver as águas dos rios correr" (como escreveu Candeia em "Preciso me Encontrar") ou "Quero ver as águas correrem".

No título desta coluna, há um trecho da antológica canção "Língua", de Caetano Veloso. Diz a letra: "E deixe os Portugais morrerem à míngua". Caetano optou por "morrerem", forma que enfatiza o sujeito do infinitivo ("Portugais"); poderia ter optado por "morrer", forma que enfatizaria o processo expresso pelo verbo, e não o seu agente.

Como se vê, o título da Folha ("Dilma manda rivais estudarem...") se apoia numa das tendências verificadas no uso do infinitivo. A outra tendência é a opção pela forma não flexionada ("estudar"), igualmente abonada nos registros cultos da língua.

Moral da história: é perfeitamente possível substituir a forma escolhida pelo jornal ("estudarem") pela não flexionada ("estudar"), mas é bom lembrar que "perfeitamente possível" não equivale a "obrigatório".

A esta altura, algum defensor do reducionismo geral talvez já esteja dizendo que bastaria dizer que tanto faz. Não "tanto faz", caro leitor. O que se diz, nesse caso (e em tantos outros), é "depende". E depende de quê? Repito um trecho do que dizem Cunha e Cintra: "...influenciados por ponderáveis motivos de ordem estilística, tais como o ritmo da frase, a ênfase do enunciado, a clareza da expressão". É isso.

José Luiz Pereira da Silva

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Nov 1, 2013, 1:06:34 PM11/1/13
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Coluna do Prof. Pasquale, publicada na FSP de 31/10.

Pasquale Cipro Neto

'Amigos em comum'

E de onde vem o hábito de dizer "Estava um tanto quanto nervoso" ou "um tanto quanto alterado"?

Há algum tempo, escrevi uma coluna para atender a um pedido de ninguém menos do que Mestre Ziraldo, que me sugeriu que abordasse um caso de concordância verbal que causou um certo "impasse" entre ele e alguém de uma editora.

Na semana passada, mais uma vez tive a subida honra de receber um telefonema do grande Ziraldo. Depois de trocarmos duas palavras sobre o que ocorreu na Feira de Frankfurt e sobre a internação dele na Alemanha, chegamos ao busílis: Ziraldo me falou da expressão "Somos amigos em comum", que em algum canto da internet aparece como correta. "Isso está errado, não?", perguntou-me ele, já sugerindo o caso como tema de uma coluna.

A mestres como Ziraldo obedece-se sem pestanejar. Vamos lá, pois. Como atestam os nossos bons dicionários, a expressão "em comum" significa "conjuntamente por dois ou mais, sem ser de nenhum deles apenas" ("Houaiss"); "de maneira conjunta ou coletiva" ("Aulete").

Como se vê, é perfeitamente possível dizer que Ziraldo e eu temos amigos em comum, isto é, Ziraldo tem um ou mais amigos que são meus amigos também, mas não se diz que Ziraldo e eu somos amigos em comum. A frase deve parar em "amigos": "Ziraldo e eu somos amigos".

A esta altura, talvez alguém queira saber de onde vem o uso da forma inadequada ("Somos amigos em comum"). Poder-se-ia pensar no processo de contaminação. Explico: em língua, é muito comum o falante se guiar por um processo mais comum do que outro e acabar usando o minoritário como usa o majoritário. Um exemplo concreto: a segunda pessoa do singular ("tu") de oito nos nove tempos verbais simples termina em "s". Tomemos como exemplo as formas do verbo "beijar": "tu beijas, tu beijavas, tu beijaras, tu beijarás, tu beijarias, que tu beijes, se tu beijasses, quando/se tu beijares". A única que não termina em "s" é a do pretérito perfeito ("tu beijaste").

Pois bem. O que fazem os falantes quando, por alguma razão, querem empregar uma dessas formas, pouco usuais hoje em dia? Guiam-se pela terminação mais comum, ou seja, lascam um "s", inexistente, e aí surgem formas como "tu te fostes de mim" (como diz Fafá de Belém em uma canção), "abismo que cavastes com teus pés" (como diz Cazuza em "O Mundo é Um Moinho", de Cartola), "tu me abandonastes" etc.

Nada de "s" nessas formas, que se referem à segunda pessoa do singular ("tu"). Essas formas existem, mas são da segunda do plural ("vós"): "vós fostes", "vós cavastes", "vós me abandonastes" etc.

Voltando à forma "Somos amigos em comum" (inadequada), é provável que o falante se deixe levar pela construção "em comum", que, quando adequada, tem uso mais frequente, em formas como "Temos amigos em comum", "Possuímos negócios em comum", "A decisão foi tomada em comum" etc.

Caso semelhante ocorre com a expressão "um tanto", que, quando significa "um pouco", quase sempre recebe a companhia (indevida) da palavra "quanto". É comum ouvirmos ou lermos formas como "Ele estava um tanto quanto nervoso naquele dia" ou "Ela ficou um tanto quanto alterada com a má notícia". Jogue fora o "quanto": "Ele estava um tanto nervoso naquele dia" ou "Ela ficou um tanto alterada com a má notícia".

E de onde vem o hábito de dizer "um tanto quanto nervoso" ou "um tanto quanto alterada"? Provavelmente do uso (muito comum) da expressão comparativa "tanto quanto": "Gosto de música tanto quanto de literatura"; "Dorme tanto quanto um urso"; "Sei disso tanto quanto você". É isso.

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