Nascido em 1947, em Porto Alegre, onde passou a maior parte de sua vida e onde trabalha como professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Álvaro Valls cursou o segundo grau no Colégio Anchieta também em Porto Alegre, e graduação em Filosofia na Faculdade Medianeira, em São Paulo, para ingressar em 1973 no Departamento de Filosofia da UFRGS, onde atualmente é professor-adjunto. Tendo feito seus estudos de pós-graduação na Alemanha dedicou o trabalho de mestrado a Adorno e o de doutorado ao conceito de história em Kierkegaard. E mais tarde publicou vários artigos sobre temas filosóficos e educacionais.
A obra “O que é Ética” aborda as origens e a estruturação da ética aliada a aspectos e conceitos existentes desde os tempos remotos aos dias atuais buscando assim, retratar sua configuração histórica, política, religiosa, social, comportamental e filosófica frente à sociedade e aos indivíduos que a compõem. Dessa forma, o livro encontra-se organizado em sete capítulos, acrescidos por uma parte voltada às Indicações para Leitura, a qual sugere possibilidades e fornece dicas ao leitor, de como aprofundar-se em temas que foram anteriormente tratados na obra e, principalmente na questão da ética, indicando ao interessado um leque imenso de estudos para a expansão dos conhecimentos.
No primeiro capítulo denominado “Os problemas da Ética”, o autor inicia sua abordagem sobre a ética problematizando-a na vida do ser humano, tanto individualmente quanto coletivamente, e em suas atitudes, uma vez que a ética também é analisada como sendo o estudo das ações ou costumes e a realização comportamental de um ser . Segundo o capítulo, a ética assume vertentes distintas que terminam por si unir para compô-la. Vertentes estas comportamentais, teológicas, descritivas, referenciais históricos e culturais de determinadas épocas. Diante de indagações e exposição de idéias e fatos, o autor corrobora que a questão ética esteja ligada aos costumes e às mudanças que a cultura de um local sofre, demonstrando as diferenças acentuadas e a constante transformação de um dado meio social. Na ética, a variação dos costumes e dos valores éticos diferem em termos normativos, ideológicos e concretos de uma sociedade para outra, sendo assim caracterizada pela variabilidade do tempo e do espaço, e pela universalidade por estar incorporada e compreendida em diversas áreas do conhecimento. Então, os valores éticos podem acompanhar o ritmo das transformações ocorridas em uma sociedade. Faz-se presente na retratação da ética nomes como: Sócrates, filósofo grego (470 a 399 a.C.) conhecido como o “fundador da moral” por basear seu princípio ético tanto nos costumes do povo, dos ancestrais, em leis exteriores, quanto principalmente na sua convicção pessoal, ocupando-se exclusivamente consigo mesmo e com o seu agir; além de ser identificado como o questionador das leis e da justiça vigentes na época. E Kant, pensador racionalista alemão (1724-1804), cuja reflexão se firma na ética universal, apoiada na igualdade entre os homens, tendo sua filosofia como centro, o homem, e onde a questão da moral é igual para todos.
O capítulo seguinte retorna à Grécia Antiga para analisar as características e particularidades que a ética assumia na época em questão, onde três pensadores influenciaram nas formulações subseqüentes. Sócrates foi um deles (este já citado e comentado anteriormente) e logo depois seu discípulo, Platão (427 a 347 a.C.), partindo da idéias de que os homens estão em busca da felicidade refletida na imortalidade da alma, na idéia do Sumo Bem, nas virtudes como uma purificação do ser, na vida divina e na contemplação das idéias filosóficas buscando dessa forma a assimilação a Deus. Já a Ética Aristotélica (384 a 322 a.C.) pregava a variedade dos seres e respectivamente dos bens, conforme a natureza e a essência de cada ser, pautada no “viver racionalmente” ou simplesmente na razão, e valorizando a virtude - vista como a segunda natureza e adquirida pela razão livre - a vontade humana e a liberdade de escolha.
“Ética e Religião”, o terceiro capítulo discorre sobre a influência e colaboração da religião grega na construção das raízes éticas e no agir do ser humano, o qual passava a agir não mais de acordo com a natureza, mas conforme a vontade do seu Deus; estando o pensamento ético co-relacionado à religião. É fundamental mencionar de um lado, a moral revolucionária marxista, tendência que buscou a união entre a ética religiosa e a filosófica; e do outro, as práticas e teorias que ignoravam as contribuições religiosas, tais como: as concepções determinista e racionalista, o formalismo kantiano, o utilitarismo, o pragmatismo e etc. Sendo assim, o judaísmo (o homem deveria buscar sua vontade) e o cristianismo (o homem vive para conhecer, amar e servir a Deus) vieram para interagir e atrelar seus princípios aos ideais éticos pregados na época.
O quarto capítulo trata do diferentes enfoques dos ideais éticos e da variabilidade que estes podem assumir. O que vai garantir esta variação são os aspectos históricos, sociopolíticos, culturais e intelectuais de determinadas sociedades, podendo estes ideais se basearem na harmonia cósmica, na prática do Bem, na vida espiritual, na liberdade pessoal e social, no agir moralmente, no Estado livre e igualitário, entre outros. O homem vai agir conforme a razão e a liberdade seguindo o princípio da moralidade. A questão da liberdade pessoal / autonomia individual será pregada e estimulada no contexto sociopolítico e econômico renascentista e iluminista. Logo mais na Revolução Francesa, Hegel induz à reflexão da abstração da liberdade representada pelo Estado, pela harmonia entre consciência moral e leis de direito, e pelo próprio direito. A Era Moderna é marcada pela busca restrita da ética racional, pelo pensamento ético-filosófico e pela doutrina da Revelação advinda do cristianismo. E no século XX a liberdade é analisada como um ideal ético, evidenciando o pessoal, o poder da opção e da escolha.
No quinto capítulo, Álvaro Valls induz o leitor a “enxergar” a ética extremamente ligada à liberdade, isto é, a ética nos remete à normas e responsabilidades sobre as quais o homem é livre o suficiente para segui-las ou não. Referindo-se às ações humanas, se elas são estabelecidas de fora pra dentro não há liberdade nem autodeterminação, mas sim determinismo e objetividade dominando o homem e impedindo-o de ter seu espaço para expressar suas opiniões / posições, e conseqüentemente sua liberdade. E de nada adianta a liberdade do pensamento, se esta também não é concreta, praticada, questionada e colocada no campo do “agir livremente”, levando sim dessa forma à uma liberdade abstrata. Hegel, então fundamenta e expressa que a liberdade não pode ser apenas exterior, nem interior, entretanto deve se desenvolver conscientemente e nas estruturas, de modo a compor a consciência de liberdade. A partir daí pode-se dizer que a ética se movimenta entre o determinismo absoluto e o libertarismo absoluto. Karl Marx vai afirmar que a liberdade está sempre condicionada pelas possibilidades técnicas e pelas formações econômico-sociais, estando o agir ético interferido acentuadamente pelas relações econômicas. Já Kierkegaard, pensador dinamarquês vai relacionar a angústia com a experiência humana de ser livre, de poder optar e de ter de optar. Duas alas do pensamento ético totalmente diferentes e distanciadas a primeiro momento, mas que quando analisadas conjuntamente constituem uma o complemento da outra, especialmente por que o homem como portador do direito do livre arbítrio, se vê muitas vezes em impasses oportunizados pelas condições de vida e de trabalho submetidas pela sociedade. Sendo assim, o homem tem consciência ao preferir o Bem ou Mal, uma vez que ele conhece e sabe o melhor a seguir: agir bem ou agir mal.
Em “Comportamento Moral: o bem e o mal”, o sexto capítulo, o autor relata que o indivíduo procura agir de acordo com a sua razão natural, consultando sua consciência individual - a qual se organiza mediante à consciência e valores universais e válidos a todos - quando a ética mostra uma preocupação com a autonomia moral do indivíduo. Para o comportamento moral agir eticamente é agir de acordo com o bem, porém nem sempre é possível se distinguir o que é o Bem. Cabe ao homem identificar e escolher entre o verdadeiro caminho do bem ou mal. Mediante a isso, a moral se configura como ciência prática, cujo objeto é o estudo e direção dos atos humanos tanto coletivamente quanto particularmente.
No último capítulo é exposta a temática e o posicionamento da ética atualmente, considerando que a mesma foi rotulada como algo privado, estando a problematização da ética concentrada na família, na sociedade civil e no Estado, e nos acontecimentos e correlações acerca desses três momentos da eticidade e seus reflexos para com o meio social e principalmente na vida individual de cada ser humano.
Em aspectos gerais, a obra comporta alta especificidade por remontar peculiaridades, características, ensejos históricos, informações políticas, fundamentações religiosas e intelectuais, e temáticas sociológicas relacionadas às diversas questões da ética nos mais variados momentos cronológicos, as quais irão contribuir para a constituição da teorização acerca da ética em si e de suas condutas e questionamentos. Mesmo caracterizado por possuir um conteúdo de fácil entendimento expresso em uma linguagem bem facilitada, e estruturado gramaticalmente de forma adequada ao tipo de abordagem, o livro trata de um tema sério e polêmico, o qual requer dedicação e uma certa “malícia” para a compreensão dos pensamentos e reflexões explicitadas. Discorrendo assim, sobre a Ética desde a Grécia Antiga aos dias atuais, e com isso demonstrando a presença desta ciência em todas as sociedades, das mais distintas formas.
De modo implícito e discreto, o autor expressa suas reflexões e indagações sobre o tema tratado ao evidenciar os pontos principais e contributivos para a sistematização da Ética, e ao expor as contradições existentes neste campo em meio à sociedades muitas vezes incomuns, diferenciadas e até corrompidas, quanto ao modo de se pensar a respeito das mais variadas questões. Em suma, o autor enfatiza a extrema importância de se entender a Ética como algo próximo a nós, cuja prática nos respalda a respeito da nossa própria valorização quanto seres humanos, uma vez que ao agir conscientemente e moralmente para com alguém, agimos para conosco, e conseqüentemente essa atitude recai sobre a sociedade e sobre as pessoas que nos cercam e que a compõe. A importância da abordagem desse assunto se centra também no exercício do conhecimento em relação às origens éticas, sua seqüência e análise ao longo dos anos, aos pensadores e filósofos, e à sua configuração nos dias de hoje.
Ao reportar a Ética para a Assistência da Saúde em Enfermagem evidencia-se que esta não é meramente teórica nem se resume apenas à atitudes normativas incorporadas às leis e normas constantes no Código de Ética Profissional. É, portanto, pensada e considerada como sendo uma temática compromissada com o cotidiano humano e profissional, em que o exercício da saúde voltada para a qualificação da vida e justiça social é preconizado. Responsabilidade e competência no cuidado à saúde é dever ético de todo e qualquer profissional, e principalmente daquele ligado a área da saúde, uma vez que este zela pela vida do ser humano através da promoção e preservação da saúde.
Mediante às informações citadas e descritas na obra, a necessidade de se conhecer e se aprofundar no tema em discussão é notável, principalmente devido à possibilidade de cada vez mais se expandir o conhecimento e aplicá-lo diariamente na vida individual e social. Apesar da temática de fácil compreensão, “O que é Ética” se mantém voltada a um público familiarizado com as questões éticas, filosóficas e históricas, e principalmente àqueles que desejarem incluir a Ética e a Moral na vida cotidiana pessoal, profissional e social, unindo informações teóricas às atitudes comuns e diárias do homem, visando essencialmente o valor e o respeito ao ser humano.
|