RÁDIOS
COMUNITÁRIAS OU COMERCIAIS?
(espaço
comunitário x ambiente de negócios)
glauco c. marques 25/02/2012
O projeto
de lei que instituiu as rádios comunitárias é uma das
consequências da luta travada por diversos movimentos sociais pela
democratização dos meios de comunicação, iniciada na década de
80 do século passado, ao final da do período de ditadura
civil-militar. Esta luta partiu do princípio de que a população
tem o direito de gerar cultura e informação através dos meios de
comunicação, sem estar submetida a lógica comercial. Isto porque
as concessões para rádio e tv no país são autorizadas seguindo
critérios econômicos e políticos no interesse de quem esteja no
poder ou tenha maioria no Congresso Nacional. Cheia de entraves,
burocracias e limitações, mesmo assim, a criação das rádios
comunitárias foi um passo importante.
A
regulamentação desta lei tem alguns pontos centrais que diferenciam
as rádios comunitárias das rádios comerciais:
1- As
rádios comunitárias só podem ser constituídas a partir de uma
associação de caráter comunitário.
2- As
rádios comunitárias não tem fim lucrativo. Isto significa que não
são ambientes para negócios que visem apropriação de receitas por
parte de quem a administra.
3-As
rádios comunitárias não vendem espaço para patrocinadores. Isto
significa que não podem fazer propaganda como as rádios comerciais
fazem. Os valores recebidos a título de apoio cultural para
divulgar a atividade comercial ou profissional e o endereço dos
doadores, custearão as despesas com a manutenção e operação da
rádio, não gerando nenhum excedente para ser apropriado pela sua
direção. Isto reforça o caráter de ação voluntária não
remunerada como central para tocar as atividades da emissora
comunitária.
Mas, se é
verdade que a legislação tem que ser alterada para efetivamente
permitir que a população tenha acesso e possa gerir meios de
comunicação comunitários, por outro lado, são justamente os
pontos da legislação que diferenciam estas emissoras das rádio
comerciais que são descumpridos por grande parte das rádios
comunitárias. A realidade é que a maioria das rádios comunitárias
existentes transgride abertamente ou se utiliza de artifícios para
burlar os pontos descritos acima.
Grande
parte delas são constituídas a partir de associações comunitárias
de fachada, as quais na realidade atuam como pequenas empresas de
propriedade de uma ou mais pessoas que auferem lucro através da
venda de espaços para quem deseja fazer programas ou para o
patrocínio explícito. Apesar da regulamentação das rádios também
não permitir sua utilização com fins partidários ou religiosos,
muitas delas são utilizadas por igrejas para suas pregações ou com
objetivos eleitoreiros de candidatos ou partidos.
Aqui é
preciso diferenciar o legítimo direito que a população tem de
expressar e fazer política do ponto de vista de classe social, ao
contrário de uma prática de aparelhamento eleitoreiro partidário
ou do proselitismo religioso.
Grande
parte das rádios comunitárias inclusive defendem o direito de
fazerem propaganda como as rádios comerciais, sem estarem sujeitas a
eventual fiscalização. Propõe inclusive alterações na
legislação para serem enquadradas como empresas quanto a questão
fiscal.
Alguns
dos que defendem estas alterações o fazem com um discurso político
demagógico de que é preciso ter recursos para a luta pela
democratização, quando na realidade estão tentando justificar o
crescimento e ampliação de seu negócio.
Constituem-se
em exceções emissoras como a Rádio Comunitária Campeche, de
Florianópolis, que busca atuar como rádio efetivamente comunitária,
enfrentando as dificuldades inerentes a esta opção mas também
colhendo os frutos do reconhecimento dos movimentos sociais da região
onde está instalada.
Se
continuar este processo das rádios comunitárias atuarem como
pequenos negócios, em pouco tempo, seguindo as leis de mercado que
determinam que uma empresa ou cresce ou definha, teremos redes de
rádios comerciais com a fachada de comunitárias, agrupadas como
efetiva “propriedade” privada destinada a gerar lucro para seus
donos, empresários ou igrejas. Portanto, o rumo que está sendo
apontado, em que pesem as exceções, é o de completo desvirtuamento
dos princípios que levaram a criação das rádios comunitárias
como espaço para que a população possa refletir sua vida e
realidade num meio de comunicação, sem que isto seja um produto a
ser vendido aos ouvintes.