Publicado na Sábado, dia 17 de Dezembro de 2011, por Alvaro Monjardino
Foi o «Alabama» que substituiu o «Sumter» na guerra de corso que a
Confederação continuava a manter. Mas desta vez era um navio novo,
para o efeito encomendado aos estaleiros ingleses de John Laird, em
Birkenhead. Tudo à socapa, claro, que a neutralidade britânica
obrigava a estas hipocrisias, mas sem deixar de ser gato escondido com
o rabo de fora – tanto que o governo dos Estados Unidos procurou, por
via diplomática, obstar-lhe à partida, mas já não foi a tempo[1]… E
assim, aquele que para os confederados era apenas o «290», fez-se
mesmo ao mar despachado para Nassau, nas Bahamas, vazio e desarmado
sob o inocente nome de «Erica» e pavilhão inglês, e rumo a onde
pudesse receber o que lhe faltava – armamento, munições, carvão e
víveres para longos percursos. Lugar bom para isso era a Terceira,
cujas autoridades se presumia serem suficientemente incapazes de
impedir tal armamento, aliás tão ilícito como em Inglaterra, visto
Portugal também haver declarado a sua neutralidade… Assim, em 10 de
Agosto de 1862 o «290» chegou ao porto da Praia da Vitória, aí
declarando ao serviço de saúde chamar-se «Barcelona» e destinar-se a
Havana. A 18 juntou-se-lhe a barca «Agripina», com carvão, provisões
várias, 6 canhões e munições de guerra. Raphael Semmes, que comandara
o «Sumter», chegou ali a 20, no «Bahama», quando já começara o
transbordo de toda aquela carga. Concluído tal serviço a 23 de Agosto
nos portos da Praia, Fanal e Angra, o «290», sob o comando de Semmes e
já em mar aberto, assumiu-se finalmente como o corsário que era,
arriou a bandeira inglesa, desfraldou a da Confederação ao som da
Dixie e de hurrahs dos tripulantes e partiu no seu cruzeiro de
destruição em que, desde perto das Flores[2], iria interceptar e
destruir em ano e meio nada menos de 65 navios federais, num percurso
que incluiu o Golfo do México, o Brasil, o Oceano Índico e, no
Oriente, Singapura, o norte de Bornéu e o Mar da China[3]...
Regressado então ao Atlântico, ainda, em 25 de Abril de 1864 e a
sudoeste de Cabo Verde, queimou o «Tycoon», sua última vítima. Tendo
arribado a Cherburgo para reparações, aí foi (pela primeira vez!)
descoberto pelo «Kearsarge», que enfrentou num dramático duelo de
artilharia de uma hora, até este o meter a pique. Cumprida (e pela
medida grande) a missão que lhe coubera, assim acabou o «Alabama» –
para a História naval, o maior dos merchant raiders da Confederação –
armado e municiado nos portos da ilha Terceira à margem das leis da
guerra e perante a aflita inoperância local, por obra do atrevimento
de quem, contando com isso mesmo, para aqui o havia encaminhado.
[1] Os Estados Unidos nunca esqueceram este e outros by-passes
britânicos e, finda a guerra, processaram o Reino Unido no que ficou
conhecido por «Alabama Claims», saldado em 1871 por um acordo que
incluiu desculpas e uma indemnização de US$ 15,5 milhões –
inicialmente queriam muito mais, chegando a exigir a aquisição do
Canadá, como dação em pagamento…
[2] Foi pelos sobreviventes dos primeiros navios destruídos, quase
todos baleeiros, que finalmente se soube, nos Açores, o verdadeiro
nome do corsário.
[3] Tudo isto vem contado, incluindo percursos e posições diárias dos
navios, no livro de Raphael Semmes «The Cruise of the Alabama and the
Sumter», New York/Londres, 1864, ainda nesse ano com outra edição em
francês.
(UN)