(história) "Calheta" e "Espalamaca"

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sextante II

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Sep 13, 2010, 3:13:14 AM9/13/10
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"Calheta" e "Espalamaca"

Mais do que lanchas


A "Espalamaca" e a "Calheta" foram mais do que lanchas, defende o
intelectual picoense Manuel Tomás: "Hoje são pedaços perdidos da gente
e desta ilha e, com elas, esvai-se uma forte memória coletiva da nossa
própria essência, lembrando outros tempos, quando transportavam tantas
viagens que foi só quase nelas que chegámos ao mundo e, por elas, o
mundo chegou até nós".

Imaginem-nas recuperadas. Os cascos de madeira pintada de branco, os
pormenores a azul. Cruzam as ondas com grupos de turistas,
interessados num passeio à volta da ilha, mas em lanchas históricas.
Ou então, se a vontade de investimento for menor, estão apenas em
museus para serem apreciadas como as últimas testemunhas das ligações
realizadas por embarcações de madeira no grupo Central.
Imaginem, porque não é essa a realidade, embora fosse possível. As
lanchas "Calheta" e "Espalamaca" estão a apodrecer nos estaleiros da
Madalena do Pico. Ao abandono está também a memória de décadas a
assegurar o transporte de passageiros e carga ligeira, muitas vezes
contra a autêntica fúria do mar, nas mãos de mestres experientes.
Recuperar a "Calheta" para passear turistas não seria uma novidade.
Segundo a obra "Maresias", de Goulart Quaresma, desde a década de 30
que a lancha foi a embarcação mais utilizada em excursões nas ilhas do
Grupo Central.
As duas lanchas remontam às primeiras décadas do século passado. A
canoa H139SP, depois H200TL, "Maria Utília", comprada em 1919 pela
Sociedade Hortense de Navegação Ldª ao construtor Manuel Maria Gambão,
das Velas, São Jorge, veio a dar origem à "Espalamaca".
A "Maria Utília" foi transformada no Cais do Pico por Manuel José
Silveira em abril de 1949 (as embarcações contam também a história da
outrora efervescente construção naval da ilha). Tem, de acordo com a
obra "O Homem e o Mar - Embarcações dos Açores", de João A. Gomes
Vieira, 14,6 metros de comprimento. Na década de 50 foi adquirida pela
Empresa Lanchas do Pico. Estava licenciada para o transporte de 100
passageiros, número que era limitado a 75 em caso de mau tempo. Como a
"Calheta", deixou as ondas na década de 90. Muito antes disso, em
1964, durante a crise sísmica de São Jorge, esta lancha foi a primeira
a chegar às Velas, em resposta ao pedido de socorro emitido,
transportando depois várias pessoas para a Horta.
A "Calheta", que Goulart Quaresma classifica como a "Rainha das
Lanchas", navegou até 1996, tendo sido retirada, como demonstram
fotografias da época, em excelentes condições, pelo menos exteriores.
Segundo o livro de João Gomes Vieira, foi construída em 1925, pelo
Mestre Manuel Bento, de Santo Amaro do Pico. Tinha 13,58 metros de
comprimento. Esteve primeiro nas mãos da Empresa Calhetense de
Navegação e Pesca, com sede na Calheta do Nesquim, ilha do Pico,
destinando-se ao serviço de portos e pequenos reboques. Foi depois
adquirida, em 1931, por Miguel Zeferino, das Angústias, Horta,
passando no ano seguinte para a Empresa Açoriana de Navegação e Pesca,
Ldª. Só em 1950 fica na Empresa de Lanchas do Pico.
Esta lancha teve várias peripécias. Escreve Goulart Quaresma que "Em
'O Dever' de 9 de outubro de 1926 somos informados que: 'A gasolina
Calheta, da Calheta do Nesquim, esteve quasi perdida, fugindo para as
Lages, onde já não pode entrar pelo muito mar, tendo de procurar o
porto da Horta onde chegou depois de muitas contingências e riscos".
O futuro destas lanchas parece traçado. A Transmaçor- Transportes
Marítimos Açorianos, Ldª, resultou da fusão, em 1987, da Empresa de
Lanchas do Pico, armadora da "Calheta" e da "Espalamaca", da Empresa
de Transportes Marítimos Ldª e da Transcanal. A "Espalamaca" ainda
está nas mãos da Transmaçor, que adianta não ter capacidade ou
interesse direto na recuperação, mas cujo diretor, Emanuel Pacheco,
afirmou a DI ter recentemente mantido uma reunião com a secretaria
regional da Economia e direcção regional dos Transportes, em que a
empresa se disponibilizou para ceder a embarcação ao executivo.
Emanuel Pacheco disse ainda ter ficado com a "impressão" de que os
membros do Governo Regional presentes na reunião "ficaram
interessados", mas que ainda não foi tomada qualquer posição
definitiva. Antes, contactada por DI, a secretaria regional da
Economia expressou apenas que a lancha é propriedade da Transmaçor,
remetendo quaisquer responsabilidades para esta, apesar do Governo
Regional ser sócio minoritário da empresa.
A "Calheta" está nas mãos da Câmara Municipal da Madalena desde o
mandato de 1993-97. O atual presidente da autarquia adiantou não haver
ainda qualquer projeto para este património.
Entretanto, a "Calheta" e a "Espalamaca" são hoje sombras do que
foram. As suas peças de navegação foram roubadas. Os casos destruídos
e vandalizados.

As lanchas e as gentes
A história das duas lanchas não é feita de páginas frias. Há uma marca
emocional deixada nas gentes do Pico e do Faial. Contra chuva, vento e
ondas, transportaram-se pessoas, muitas vezes doentes que precisavam
de assistência. Estudantes deixaram o Pico para prosseguir estudos e
eram as lanchas que reuniam as famílias.
O intelectual picoense Manuel Tomás diz isso mesmo. Que as lanchas não
eram apenas barcos, mas mais do que isso. "E hoje são pedaços perdidos
da gente e desta ilha e, com elas, esvai-se uma forte memória coletiva
da nossa própria essência, lembrando outros tempos, quando
transportavam tantas viagens que foi só quase nelas que chegámos ao
mundo e, por elas, o mundo chegou até nós", escreve, numa entrevista
concedida através de correio eletrónico
Afirma que o peso das duas embarcações na história do transporte entre
o Pico e o Faial é incontornável. "Fundamental e primordial. Sem elas,
não teria tido a ilha do Pico a mesma vida. Sem elas, o Pico não teria
encontrado as vias para comunicar com o exterior. Mesmo tendo existido
outras embarcações anteriores a ligar o Pico ao Faial, a Espalamaca e
a Calheta foram as lanchas que mais tempo operaram no Canal e foram
sendo adaptadas, dentro das limitações da época, na preocupação de
melhorar as suas condições de navegabilidade. A dependência do Pico,
para sair, para ir ao hospital, para demandar outros serviços
existentes na sede do distrito, e, sobretudo, para podermos estudar
depois do 1º ciclo, era total, de tal modo que, significativamente, o
nome da proprietária das lanchas do Canal, era o de Empresa de Lanchas
do Pico", conta.
Quanto ao avançado estado de degradação das duas embarcações,
interpreta a visão da população, e tem a sua. Diz que o Canal está
hoje sozinho. Perdeu todos os seus barcos. "Agora foram abandonadas no
cais. Varadas e apodrecidas já só navegam os nossos afetos A maioria
das pessoas, como em quase tudo, está apática. Mas é preciso salvar a
Espalamaca e a Calheta, salvar o património do Canal, como fizeram com
o património baleeiro, por exemplo, mas até ao presente ninguém esteve
interessado e o abandono é vergonhoso, vil e triste. Perderam-se todos
os antigos barcos deste Canal, sem que alguém, com o poder necessário
para o fazer, os tivesse considerado dignos de permanecer, como parte
viva da nossa história - ainda que em raros exemplares , como se faz
em todo o mundo com o devido respeito pelas memórias históricas".
Lança um olhar sobre o destino desses barcos. "Jazem mortos e
arrefecem, como o menino de sua mãe, já sem préstimo, sobre os plainos
abandonados ou reduzidos a cinzas mortas ou lixo em decomposição. São
as malhas que o império tece, mas não é de Pessoa que falamos, mas de
uma Espalamaca, de uma Calheta, de um Rival, de um Adamastor, de uma
Maria Eugénia ou da rápida Velas, ao lado do Santo António ou do
Picaroto, sem esquecer o Terra Alta, que era o nosso maior barco, que
frequentava, com regularidade, o porto velho da Madalena, em dias de
festa de Santa Maria Madalena ou do Espírito Santo. Uns, como o Terra
Alta foram destruídos aos pedaços e nem uma pequena peça foi recolhida
para o Museu do Pico. Outros, como a Espalamaca e a Calheta, foram
vandalizados e roubadas todas as suas peças de navegação. Uma
vergonha".
Tem uma última reflexão. "Há um lado escuro da cultura que alguns, por
ignorância ou por maldade, teimam em não fazer ver a luz, por isso
quando um jornal da Terceira me pede para falar deste assunto dá-me um
enorme, forte e entusiasmado sentimento motiva...DOR".
Sobre as belas lanchas do Pico, Almeida Firmino escreveu: "No cais/
Deitados sobre o ventre/ Os barcos /Repousam /.../As quilhas/ Escrevem
um poema".

Em 2008, Manuel Tomás punha também em poesia:

Os barcos foram abandonados
"Ler Almeida Firmino
É ver a Calheta a escrever
Um poema
Em mar de medos e aventura
Ditado nas ondas
Pelo mestre em manobra segura
Sem medo
Em dias de invernia
E a lancha parava vezes sem conta
E era essa a conta
Que ditava
Nas nossas conversas
A categoria da travessia
"A lancha parou três vezes"
Era sinal de três ondas formidáveis
Na verdade e no imaginário
Maiores que as torres da igreja.

O cais
Era apertado
Tão apertado
Como a ansiedade vivida
Só de pensar que não era a Espalamaca
A maior
A lancha grande
Oh! Como era grande a Espalamaca!
Hoje
No cais
Já não canta
Esvai-se em apodrecido esquecimento
E tem saudades
Das viagens de outrora
Quando esguia, bela e solene
Se atirava
Ao mar
E nos levava de um lado para o outro
Do Canal
Enquanto
Ronceiro, o barco fugia
Em outra direcção
Mas também chegava ao porto

O Manuel José, o Caridade, o Picaroto, o Santo António
Apodreceram
No silêncio do poema
Em noites de lua triste

O Picaroto navegava
A palavra
Por entre os ilhéus
Da meia broa
Quando passava atormentado
Com soldadas
De fome
E pão ainda farinha

Os barcos
São como a gente
Só morrem uma vez por ano
E chegou essa vez
Jazem
No cais
Adormecidos para sempre
Sem imagem
Sem a cor das suas linhas
Sem os aparelhos
Da nossa navegação
Sem a memória do que fizeram
Mas guardados
Na lembrança perdida
Dos dias de outrora

E eu fico
Rapazinho
A saborear aquele nome
Pela primeira vez
Em uma tarde de passeio
Junto a uma araucária da Areia Larga
Quando ouvi o canto melancólico
Do Picaroto
Antes de um pôr-de-sol
Envolto em poesia
Atravessar os salgueiros
E pintar de roxo
A cor do destino

Sentir aqueles barcos
Aquelas lanchas
Dormindo sobre os seus ventres
Esvaídos no caruncho
Da sorte
É perder o passado
É matar a história
É perdermos tanto
De quase tudo
De muito

Quero ouvir o canto
Dos barcos e das lanchas
Nas travessias de outrora
Onde
Tantos pedaços de nós
Navegam
Ainda.

Quero ver a lancha
A subir a vaga
A cavalgar a onda do norte
Na destreza de uma manobra
Do mestre
E descer a prumo
O cabeço imenso
Que o maroiço encerra
Entre o ilhéu-deitado
E o ilhéu-em-pé.

Ouvir a campainha
Tocada pelo mestre
E o maquinista distraído
Deixando a lancha dormente
E a gente
Sem saber do perigo
E de novo
A Calheta a erguer a proa
Ao fim de um século
De angústia
Rasa de água
Derramada na alma da gente
E o José Medeiros
A dizer que o mar da popa
Era pior
E a gente respondia
"Mas íamos mais depressa..."

Depois
Chegados à doca
No mar manso do cais:
"Graças a Deus que chegámos!"
E o mestre Feijó
A rir:
"E graças a mim, nada?!"

Ajudar o Gilberto
Na procura do melhor nome
Para o cabaz
Pela cidade do primeiro exílio
E de tantos amores perdidos...

Aqueles barcos
E aquelas lanchas
Levam-nos nos seus corações
E nós a eles
Nos nossos.

Os barcos já não são
Os de Almeida Firmino
Não escrevem mais poemas
Com as quilhas
Mas fica a mesma vontade
De partir
Ficar
Mas não esquecer.

Os marinheiros passaram
As marés hão-de vir sempre
Mas os barcos foram
Esquecidos
Apagaram-se as velas
Do Rival e do Adamastor
Ficou o vento
E as folhas secaram.

Já não há barcos
Mas há poemas para dar vida
Às lanchas atravessadas
No mar do esquecimento."

A construção naval no Pico
Já se construíram grandes barcos nos Açores. Segundo a obra "O Homem e
o Mar - Embarcações dos Açores", de João A. Gomes Vieira, no início do
século XVII florescia a construção naval em São Miguel. Exímios
carpinteiros multiplicavam-se na Povoação, Ponta Delgada, Vila Franca
do Campo e outros locais da ilha.
Segundo o mesmo livro "são conhecidas encomendas de galeões e navios
grandes", para a Madeira ou Setúbal.
"É de supor que nas restantes ilhas existiram oficinas que dariam
resposta às necessidades locais", pode-se ler.
A obra determina também que Santo Amaro do Pico, concelho de São
Roque, torna-se depois o centro da construção de barcos de tráfego
local e da cabotagem inter-ilhas até depois de meados do século XX.
"No caso da ilha do Pico, a construção de embarcações de grande porte
manteve-se até ao início da década de 90 do século XX. No local da
Prainha do Galeão, foi construído um galeão chamado 'Trindade', em
tempos de D.João III. O galeão foi construído pelo calafate Garcia
Gonçalves Madruga, para saldar dívidas que devia a monarca. Foi
mandado lançar ao mar por Francisco de Mesquita, crê-se que por volta
de 1580", conta o livro.
Santo Amaro do Pico ganha também relevo na construção de embarcações
de grande porte na época da exportação da laranja, um dos ciclos
económicos dos Açores. "Aqui foram construídos quase todos os iates de
cabotagem como o 'Andorinha', ´Santo Amaro´, chalupa ´Helena´, ´Maria
Eugénia', o NM ´Terra Alta´, o último navio de madeira a estabelecer
carreiras regulares com escalas em todas as ilhas do grupo Central".
Ainda nos três estaleiros de Santo Amaro, ao longo de 20 anos, foram
construídas sete dezenas de traineiras de pesca à albacorra, "sem
falar de ampliações, reconstruções e reparações nas frotas de tráfego
local, cabotagem, baleação e pescas".
Já a Vila das Lajes destaca-se na construção de botes baleeiros.
De galeões a lanchas, a história da construção naval no Pico e nos
Açores é rica. O Governo Regional anunciou recentemente uma parceria
com os estaleiros de Peniche para reativar esta atividade na Madalena,
onde estão os esqueletos da "Espalamaca" e da "Calheta".
(DI)

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