PUC-Rio
Michel
Foucault no
Brasil
40 anos depois
PUC-Rio debate
palestras de
Michel
Foucault no
Brasil 40 anos
depois
Filósofo
francês causou
frisson em
ciclo de
conferências
realizada em
plena
ditadura, na
Gávea
Karine Rodrigues
RIO - Se fosse
verão, com o
Píer de Ipanema
fazendo as vezes
de cenário, a
sunga usada pelo
filósofo Michel
Foucault, em
maio de 1973,
poderia ter
antecipado o
estardalhaço
causado, em
1980, pela tanga
de crochê do
ex-deputado
Fernando Gabeira
no Posto Nove. O
francês, porém,
chegou ao Rio no
outono e
escolheu as
areias do Leme
para mergulhar
os pés. E,
assim, passou
desapercebido.
Já o ciclo de
conferências que
ele fez à época,
na PUC-Rio,
causou frisson e
produziu um
valioso debate
em um período de
silenciamento
forçado pela
ditadura
militar.
Quarenta anos
depois, a
universidade da
Gávea promove um
colóquio, nestas
terça e
quarta-feiras,
com entrada
franca, para
discutir os
reflexos
daqueles cinco
dias de troca
com um dos
grandes
pensadores da
contemporaneidade,
morto em 1984,
aos 57 anos, em
decorrência de
complicações
causadas pela
AIDS.
Então chefe do
Departamento de
Letras e Artes
da PUC-Rio, o
escritor Affonso
Romano de
Sant’Anna fez o
convite ao
filósofo, que o
aceitou
prontamente, mas
lembra que, até
o último
momento, não se
sabia se
Foucault
compareceria ao
evento:
— O SNI (Serviço
Nacional de
Informações) e o
Dops
(Departamento de
Ordem Política e
Social) faziam
uma certa
pressão. Havia
muitos boatos de
que, talvez, o
SNI não o
deixaria falar.
Vivíamos,
afinal, em um
regime de
repressão. E o
Departamento de
Letras, ainda
assim, estava
fazendo uma
revolução, pois
a vinda de
Foucault fazia
parte de um
programa muito
amplo, por meio
do qual a PUC
virou um lugar
de debate. E
Foucault veio
para falar sobre
a verdade, uma
coisa que
incomodava.
Segundo o
escritor,
Foucault, que,
em sua extensão
produção
teórica, tratou,
por exemplo, da
associação entre
o poder e o
saber nas
relações
sociais,
analisando os
micropoderes
disciplinares
exercidos
instituições
como prisões,
hospitais,
fábricas e
escolas,
mostrou-se muito
generoso ao vir
ao Brasil — país
que visitou
cinco vezes,
entre 1965 e
1976, para
ministrar cursos
e palestras em
universidades
como a PUC-Rio e
a USP, além de
instituições de
Salvador, Recife
e Belém. Apesar
de já ter
publicado livros
como “Doença
mental e
psicologia”, “As
palavras e as
coisas” e “A
arqueologia do
saber”, pediu,
de acordo com
Sant’Anna, um
“cachê mínimo”
fazer as
conferências.
Foucault, então
com 47 anos, só
avisou que havia
chegado ao
Brasil dias
depois, lembra
Sant’Anna.
Antes, foi
conhecer a Lapa,
onde vivia um
amigo que morara
na França. O
bairro, na época
em ritmo de
decadência, era
costumeiramente
visitado pelo
filósofo em suas
vindas ao Rio.
Em 1973, além da
área central da
cidade, ele
circulou em
jantares, como o
promovido pelo
próprio diretor
do Departamento
de Letras da
PUC-Rio, e ficou
hospedado no
Hotel Sol
Ipanema, estadia
paga com o
dinheiro
arrecadado no
ciclo de
conferências. A
cobrança de
ingresso, porém,
não impediu a
imensa procura.
— Muita gente
compareceu.
Tanta que nem
cabia no
auditório. Havia
uma excitação
muito grande.
Ele veio falar
sobre asilo,
sobre o lugar do
louco, num
regime
ditatorial,
dentro de uma
universidade
católica.
Naquele momento,
o Departamento
de Letras era
muito
interdisciplinar
e tinha como
política
discutir a
cultura
brasileira, não
apenas a
literatura —
recorda
Sant’Anna,
contando que a
plateia assumiu
uma atitude de
certa referência
diante do
pensador
francês,
classificado
como um “hábil
conferencista”.
O mesmo não pode
ser dito sobre o
debate promovido
ao fim do ciclo
de conferências,
organizado por
Sant’Anna e
aberto apenas
para convidados.
O evento reuniu
gente como os
psicanalistas
Hélio Pellegrino
— com quem ele
travou um embate
sobre a questão
do Édipo — e
Samuel Chaim
Katz, o filósofo
Roberto Machado
e o crítico
literário Luiz
Costa Lima. Todo
o material foi
gravado e virou
o livro “A
verdade e as
formas
jurídicas”,
cujos direitos
autorais foram
cedidos por
Foucault à
PUC-Rio. A obra,
inúmeras vezes
editada, ganha
amanhã mais uma
reedição.
Hoje responsável
pelo
Departamento de
Letras da
PUC-Rio, o
professor Karl
Eri Scholhammer
observa que o
colóquio de hoje
e amanhã
objetiva
discutir o
impacto causado
pela visita de
Foucault, que
foi além dos
muros da
instituição e
reverberou em
inúmeras áreas
do conhecimento
além da
Filosofia, como
o Direito, a
Educação, a
Arquitetura e a
Psicologia. Por
isso, os
participantes do
evento são de
áreas igualmente
múltiplas. Entre
eles, figuram
Sant’Anna, Erik,
os filósofos
Mathieu
Potte-Bonneville
(Colégio
International de
Filosofia) e
Peter Pál
Pelbart
(PUC-SP), o
doutor em
Comunicação
Paulo Vaz
(UFRJ), a
socióloga Vera
Malaguti (Uerj)
e a doutora em
Educação Rita
Cesar (UFPR).
—Vamos dar um
relato de como
tem sido a
presença dos
estudos de
Foucault dentro
de várias
disciplinas nas
últimas quatro
décadas. Para
nós, é muito
importante
comemorar uma
iniciativa da
PCU-Rio, que, em
plena ditatura
militar, foi, de
certa maneira,
audaz – diz
Erik, destacando
que o pensamento
do francês,
nascido em 1926,
está no
currículos
básicos de quase
todas as
disciplinas de
Ciências Sociais
e Humanas.
Para a área de
educação, avalia
Erik, o filósofo
francês trouxe
uma contribuição
particularmente
importante, ao
pensar sobre as
condições e
possibilidades
da produção de
conhecimento:
— Ele questiona
como o saber é
produzido
discursivamente
e quais são os
condicionantes
históricos,
sociais e
políticos para
que alguma coisa
seja conhecida.
A educação
aproveita, em
primeira
instância, a
contribuição de
Foucault na
medida em que
ela se
conscientiza do
seu próprio
papel de
produtora do
conhecimento
passado aos
alunos.
As palestras
proferidas no
colóquio de
logo mais
serão
disponibilizadas,
posteriormente,
no portal da
PUC-Rio. O
evento começa
às 9h, no
auditório do
Departamento
de Direito, no
Edifício
Amizade, Ala
Frings, 6º
andar.
URL: http://glo.bo/ZObWpL
Notícia
publicada em
7/05/13 - 7h00
Atualizada em
7/05/13 - 20h25
Impressa em
08/05/13 -
09h04
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