Chaui:
a opinião dos
especialistas
passa a ter o
valor de um fato
Chaui: PiG (*)
produz culpas e
condena sumariamente
Publicado
em 30/08/2012
Leia
a antológica
palestra de Marilena
Chaui.
Num
evento em defesa da
liberdade de
expressão e por uma
Ley de Medios,
realizado no
Sindicato dos
Jornalistas de São
Paulo, nessa segunda
feira, a professora
Marilena Chauí fez
uma palestra
antológica.

Vídeo - clicando
sobre a imagem
I. Democracia e
autoritarismo social
Estamos acostumados a
aceitar a definição
liberal da democracia
como regime da lei e da
ordem para a garantia
das liberdades
individuais. Visto que o
pensamento e a prática
liberais identificam a
liberdade com a ausência
de obstáculos à
competição, essa
definição da democracia
significa, em primeiro
lugar, que a liberdade
se reduz à competição
econômica da chamada
“livre iniciativa” e à
competição política
entre partidos que
disputam eleições; em
segundo, que embora a
democracia apareça
justificada como “valor”
ou como “bem”, é
encarada, de fato, pelo
critério da eficácia,
medida no plano do poder
executivo pela atividade
de uma elite de técnicos
competentes aos quais
cabe a direção do
Estado. A democracia é,
assim, reduzida a um
regime político eficaz,
baseado na idéia de
cidadania organizada em
partidos políticos, e se
manifesta no processo
eleitoral de escolha dos
representantes, na
rotatividade dos
governantes e nas
soluções técnicas para
os problemas econômicos
e sociais.
Ora, há, na prática
democrática e nas idéias
democráticas, uma
profundidade e uma
verdade muito maiores e
superiores ao que
liberalismo percebe e
deixa perceber.
Podemos, em traços
breves e gerais,
caracterizar a
democracia ultrapassando
a simples idéia de um
regime político
identificado à forma do
governo, tomando-a como
forma geral de uma
sociedade e, assim,
considerá-la:
1.
forma
sócio-política definida
pelo princípio da
isonomia ( igualdade dos
cidadãos perante a lei)
e da isegoria (direito
de todos para expor em
público suas opiniões,
vê-las discutidas,
aceitas ou recusadas em
público), tendo como
base a afirmação de que
todos são iguais porque
livres, isto é, ninguém
está sob o poder de um
outro porque todos
obedecem às mesmas leis
das quais todos são
autores (autores
diretamente, numa
democracia
participativa;
indiretamente, numa
democracia
representativa). Donde o
maior problema da
democracia numa
sociedade de classes ser
o da manutenção de seus
princípios – igualdade e
liberdade – sob os
efeitos da desigualdade
real;
2.
forma política na qual,
ao contrário de todas as
outras, o conflito é
considerado legítimo e
necessário, buscando
mediações institucionais
para que possa
exprimir-se. A
democracia não é o
regime do consenso, mas
do trabalho dos e sobre
os conflitos. Donde uma
outra dificuldade
democrática nas
sociedades de classes:
como operar com os
conflitos quando estes
possuem a forma da
contradição e não a da
mera oposição?
3.
forma
sócio-política que busca
enfrentar as
dificuldades acima
apontadas conciliando o
princípio da igualdade e
da liberdade e a
existência real das
desigualdades, bem como
o princípio da
legitimidade do conflito
e a existência de
contradições materiais
introduzindo, para isso,
a idéia dos direitos
(econômicos, sociais,
políticos e culturais).
Graças aos direitos, os
desiguais conquistam a
igualdade, entrando no
espaço político para
reivindicar a
participação nos
direitos existentes e
sobretudo para criar
novos direitos. Estes
são novos não
simplesmente porque não
existiam anteriormente,
mas porque são
diferentes daqueles que
existem, uma vez que
fazem surgir, como
cidadãos, novos sujeitos
políticos que os
afirmaram e os fizeram
ser reconhecidos por
toda a sociedade.
4.
graças à
idéia e à prática da
criação de direitos, a
democracia não define a
liberdade apenas pela
ausência de obstáculos
externos à ação, mas a
define pela autonomia,
isto é, pela capacidade
dos sujeitos sociais e
políticos darem a si
mesmos suas próprias
normas e regras de ação.
Passa-se, portanto, de
uma definição negativa
da liberdade – o não
obstáculo ou o
não-constrangimento
externo – a uma
definição positiva – dar
a si mesmo suas regras e
normas de ação. A
liberdade possibilita
aos cidadãos instituir
contra-poderes sociais
por meio dos quais
interferem diretamente
no poder por meio de
reivindicações e
controle das ações
estatais.
5.
pela
criação dos direitos, a
democracia surge como o
único regime político
realmente aberto às
mudanças temporais, uma
vez que faz surgir o
novo como parte de sua
existência e,
conseqüentemente, a
temporalidade é
constitutiva de seu modo
de ser, de maneira que a
democracia é a sociedade
verdadeiramente
histórica, isto é,
aberta ao tempo, ao
possível, às
transformações e ao
novo. Com efeito, pela
criação de novos
direitos e pela
existência dos
contra-poderes sociais,
a sociedade democrática
não está fixada numa
forma para sempre
determinada, pois não
cessa de trabalhar suas
divisões e diferenças
internas, de orientar-se
pela possibilidade
objetiva de alterar-se
pela própria práxis;
6.
única forma
sócio-política na qual o
caráter popular do poder
e das lutas tende a
evidenciar-se nas
sociedades de classes,
na medida em que os
direitos só ampliam seu
alcance ou só surgem
como novos pela ação das
classes populares contra
a cristalização
jurídico-política que
favorece a classe
dominante. Em outras
palavras, a marca da
democracia moderna,
permitindo sua passagem
de democracia liberal á
democracia social,
encontra-se no fato de
que somente as classes
populares e os excluídos
(as “minorias”)
reivindicam direitos e
criam novos direitos;
7.
forma
política na qual a
distinção entre o poder
e o governante é
garantida não só pela
presença de leis e pela
divisão de várias
esferas de autoridade,
mas também pela
existência das eleições,
pois estas (
contrariamente do que
afirma a ciência
política) não
significam mera
“alternância no poder”,
mas assinalam que o
poder está sempre vazio,
que seu detentor é a
sociedade e que o
governante apenas o
ocupa por haver recebido
um mandato temporário
para isto. Em outras
palavras, os sujeitos
políticos não são
simples votantes, mas
eleitores. Eleger
significa não só exercer
o poder, mas manifestar
a origem do poder,
repondo o princípio
afirmado pelos romanos
quando inventaram a
política: eleger é “dar
a alguém aquilo que se
possui, porque ninguém
pode dar o que não tem”,
isto é, eleger é
afirmar-se soberano para
escolher ocupantes
temporários do governo.
Dizemos, então, que uma
sociedade — e não um
simples regime de
governo — é democrática
quando, além de
eleições, partidos
políticos, divisão dos
três poderes da
república, respeito à
vontade da maioria e da
minoria, institui algo
mais profundo, que é
condição do próprio
regime político, ou
seja, quando institui
direitos e que essa
instituição é uma
criação social, de tal
maneira que a atividade
democrática social
realiza-se como uma
contra-poder social que
determina, dirige,
controla e modifica a
ação estatal e o poder
dos governantes.
Se esses são os
principais traços da
sociedade democrática,
podemos avaliar as
enormes dificuldades
para instituir a
democracia no Brasil. De
fato, a sociedade
brasileira é
estruturalmente
violenta, hierárquica,
vertical, autoritária e
oligárquica e o Estado é
patrimonialista e
cartorial, organizado
segundo a lógica
clientelista e
burocrática. O
clientelismo bloqueia a
prática democrática da
representação — o
representante não é
visto como portador de
um mandato dos
representados, mas como
provedor de favores aos
eleitores. A burocracia
bloqueia a
democratização do Estado
porque não é uma
organização do trabalho
e sim uma forma de poder
fundada em três
princípios opostos aos
democráticos: a
hierarquia, oposta à
igualdade; o segredo,
oposto ao direito à
informação; e a rotina
de procedimentos, oposta
à abertura temporal da
ação política.
Além disso, social e
economicamente nossa
sociedade está
polarizada entre a
carência absoluta das
camadas populares e o
privilégio absoluto das
camadas dominantes e
dirigentes, bloqueando a
instituição e a
consolidação da
democracia. Um
privilégio é, por
definição, algo
particular que não pode
generalizar-se nem
universalizar-se sem
deixar de ser
privilégio. Uma carência
é uma falta também
particular ou específica
que se exprime numa
demanda também
particular ou
específica, não
conseguindo
generalizar-se nem
universalizar-se. Um
direito, ao contrário de
carências e privilégios,
não é particular e
específico, mas geral e
universal, seja porque
é o mesmo e válido para
todos os indivíduos,
grupos e classes
sociais, seja porque
embora diferenciado é
reconhecido por todos
(como é caso dos
chamados direitos das
minorias). Assim, a
polarização
econômico-social entre a
carência e o privilégio
ergue-se como obstáculo
à instituição de
direitos, definidora da
democracia.
A esses obstáculos,
podemos acrescentar
ainda aquele decorrente
do neoliberalismo, qual
seja o encolhimento do
espaço público e o
alargamento do espaço
privado. Economicamente,
trata-se da eliminação
de direitos econômicos,
sociais e políticos
garantidos pelo poder
público, em proveito dos
interesses privados da
classe dominante, isto
é, em proveito do
capital; a economia e a
política neoliberais são
a decisão de destinar os
fundos públicos aos
investimentos do capital
e de cortar os
investimentos públicos
destinados aos direitos
sociais,
transformando-os em
serviços definidos pela
lógica do mercado, isto
é, a privatização dos
direitos transformados
em serviços,
privatização que aumenta
a cisão social entre a
carência e o privilégio,
aumentando todas formas
de exclusão.
Politicamente o
encolhimento do público
e o alargamento do
privado colocam em
evidência o bloqueio a
um direito democrático
fundamental sem o qual a
cidadania, entendida
como participação
social, política e
cultural é impossível,
qual seja, o direito à
informação.
II. Os meios de
comunicação como
exercício de poder
Podemos focalizar o
exercício do poder pelos
meios de comunicação de
massa sob dois aspectos
principais: o econômico
e o ideológico.
Do ponto de vista
econômico, os meios de
comunicação fazem parte
da indústria cultural.
Indústria porque são
empresas privadas
operando no mercado e
que, hoje, sob a ação da
chamada globalização,
passa por profundas
mudanças estruturais,
“num processo nunca
visto de fusões e
aquisições, companhias
globais ganharam
posições de domínio na
mídia.”, como diz o
jornalista Caio Túlio
Costa. Além da forte
concentração (os
oligopólios beiram o
monopólio), também é
significativa a
presença, no setor das
comunicações, de
empresas que não tinham
vínculos com ele nem
tradição nessa área. O
porte dos investimentos
e a perspectiva de
lucros jamais vistos
levaram grupos
proprietários de bancos,
indústria metalúrgica,
indústria elétrica e
eletrônica, fabricantes
de armamentos e aviões
de combate, indústria de
telecomunicações a
adquirir, mundo afora,
jornais, revistas,
serviços de telefonia,
rádios e televisões,
portais de internet,
satélites, etc..
No caso do Brasil, o
poderio econômico dos
meios é inseparável da
forma oligárquica do
poder do Estado,
produzindo um dos
fenômenos mais
contrários à democracia,
qual seja, o que Alberto
Dines chamou de
“coronelismo
eletrônico”, isto é, a
forma privatizada das
concessões públicas de
canais de rádio e
televisão, concedidos a
parlamentares e lobbies
privados, de tal maneira
que aqueles que deveriam
fiscalizar as concessões
públicas se tornam
concessionários
privados, apropriando-se
de um bem público para
manter privilégios,
monopolizando a
comunicação e a
informação. Esse
privilégio é um poder
político que se ergue
contra dois direitos
democráticos essenciais:
a isonomia (a igualdade
perante a lei) e a
isegoria (o direito à
palavra ou o igual
direito de todos de
expressar-se em público
e ter suas opiniões
publicamente discutidas
e avaliadas). Numa
palavra, a cidadania
democrática exige que os
cidadãos estejam
informados para que
possam opinar e intervir
politicamente e isso
lhes é roubado pelo
poder econômico dos
meios de comunicação.
A isonomia e a isegoria
são também ameaçadas e
destruídas pelo poder
ideológico dos meios de
comunicação. De fato, do
ponto de vista
ideológico, a mídia
exerce o poder sob a
forma do denominamos a
ideologia da
competência, cuja
peculiaridade está em
seu modo de aparecer sob
a forma anônima e
impessoal do discurso do
conhecimento, e cuja
eficácia social,
política e cultural está
fundada na crença na
racionalidade
técnico-científica.
A ideologia da
competência pode ser
resumida da seguinte
maneira: não é qualquer
um que pode em qualquer
lugar e em qualquer
ocasião dizer qualquer
coisa a qualquer outro.
O discurso competente
determina de antemão
quem tem o direito de
falar e quem deve ouvir,
assim como pré-determina
os lugares e as
circunstâncias em que é
permitido falar e ouvir,
e define previamente a
forma e o conteúdo do
que deve ser dito e
precisa ser ouvido.
Essas distinções têm
como fundamento uma
distinção principal,
aquela que divide
socialmente os
detentores de um saber
ou de um conhecimento
(científico, técnico,
religioso, político,
artístico), que podem
falar e têm o direito de
mandar e comandar, e os
desprovidos de saber,
que devem ouvir e
obedecer. Numa palavra,
a ideologia da
competência institui a
divisão social entre os
competentes, que sabem e
por isso mandam, e os
incompetentes, que não
sabem e por isso
obedecem.
Enquanto discurso do
conhecimento, essa
ideologia opera com a
figura do especialista.
Os meios de comunicação
não só se alimentam
dessa figura, mas não
cessam de institui-la
como sujeito da
comunicação. O
especialista competente
é aquele que, no rádio,
na TV, na revista, no
jornal ou no multimídia,
divulga saberes, falando
das últimas descobertas
da ciência ou nos
ensinando a agir,
pensar, sentir e viver.
O especialista
competente nos ensina a
bem fazer sexo,
jardinagem, culinária,
educação das crianças,
decoração da casa, boas
maneiras, uso de roupas
apropriadas em horas e
locais apropriados, como
amar Jesus e ganhar o
céu, meditação
espiritual, como ter um
corpo juvenil e
saudável, como ganhar
dinheiro e subir na
vida. O principal
especialista, porém, não
se confunde com nenhum
dos anteriores, mas é
uma espécie de síntese,
construída a partir das
figuras precedentes: é
aquele que explica e
interpreta as notícias e
os acontecimentos
econômicos, sociais,
políticos, culturais,
religiosos e esportivos,
aquele que devassa,
eleva e rebaixa
entrevistados, zomba,
premia e pune calouros
— em suma, o chamado
“formador de opinião” e
o “comunicador”.
Ideologicamente, o poder
da comunicação de massa
não é um simples
inculcação de valores e
idéias, pois,
dizendo-nos o que
devemos pensar, sentir,
falar e fazer, o
especialista, o formador
de opinião e o
comunicados nos dizem
que nada sabemos e por
isso seu poder se
realiza como manipulação
e intimidação social e
cultural.
Um dos aspectos mais
terríveis desse duplo
poder dos meios de
comunicação se manifesta
nos procedimentos
midiáticos de produção
da culpa e condenação
sumária dos indivíduos,
por meio de um
instrumento psicológico
profundo: a suspeição,
que pressupõe a
presunção de culpa. Ao
se referir ao período do
Terror, durante a
Revolução Francesa,
Hegel considerou que uma
de suas marcas
essenciais é afirmar
que, por princípio,
todos são suspeitos e
que os suspeitos são
culpados antes de
qualquer prova. Ao
praticar o terror, a
mídia fere dois direitos
constitucionais
democráticos,
instituídos pela
Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão,
de 1789 (Revolução
Francesa) e pela
Declaração Universal dos
Direitos Humanos, de
1948, quais sejam: a
presunção de inocência
(ninguém pode ser
considerado culpado
antes da prova da culpa)
e a retratação pública
dos atingidos por danos
físicos, psíquicos e
morais, isto é,
atingidos pela infâmia,
pela injúria e pela
calúnia. É para
assegurar esses dois
direitos que as
sociedades democráticas
exigem leis para
regulação dos meios de
comunicação, pois essa
regulação é condição da
liberdade e da igualdade
que definem a sociedade
democrática.
III.
Faz parte da vida da
grande maioria da
população brasileira ser
espectadora de um tipo
de programa de televisão
no qual a intimidade das
pessoas é o objeto
central do espetáculo:
programas de auditório,
de entrevistas e de
debates com adultos,
jovens e crianças
contando suas
preferências pessoais
desde o sexo até o
brinquedo, da culinária
ao vestuário, da leitura
à religiosidade, do ato
de escrever ou encenar
uma peça teatral, de
compor uma música ou um
balé até os hábitos de
lazer e cuidados
corporais.
As ondas sonoras do
rádio e as transmissões
televisivas tornam-se
cada vez mais
consultórios
sentimental, sexual,
gastronômico,
geriátrico,
ginecológico, culinário,
de cuidados com o corpo
(ginástica, cosméticos,
vestuário,
medicamentos), de
jardinagem, carpintaria,
bastidores da criação
artística, literária e
da vida doméstica. Há
programas de entrevista
no rádio e na televisão
que ou simulam uma cena
doméstica – um almoço,
um jantar – ou se
realizam nas casas dos
entrevistados durante o
café da manhã, o almoço
ou o jantar, nos quais a
casa é exibida, os
hábitos cotidianos são
descritos e comentados,
álbuns de família ou a
própria são mostrados ao
vivo e em cores. Os
entrevistados e
debatedores, os
competidores dos
torneios de auditório,
os que aparecem nos
noticiários, todos são
convidados e mesmo
instados com vigor a que
falem de suas
preferências, indo desde
sabores de sorvete até
partidos políticos,
desde livros e filmes
até hábitos sociais. Não
é casual que os
noticiários, no rádio e
na televisão, ao
promoverem entrevistas
em que a notícia é
intercalada com a fala
dos direta ou
indiretamente envolvidos
no fato, tenham sempre
repórteres indagando a
alguém: “o que você
sentiu/sente com isso?”
ou “o que você
achou/acha disso?” ou
“você gosta? não gosta
disso?”. Não se pergunta
aos entrevistados o que
pensam ou o que julgam
dos acontecimentos, mas
o que sentem, o que
acham, se lhes agrada ou
desagrada.
Também tornou-se um
hábito nacional jornais
e revistas
especializarem-se cada
vez mais em telefonemas
a “personalidades”
indagando-lhes sobre o
que estão lendo no
momento, que filme foram
ver na última semana,
que roupa usam para
dormir, qual a lembrança
infantil mais querida
que guardam na memória,
que música preferiam aos
15 anos de idade, o que
sentiram diante de uma
catástrofe nuclear ou
ecológica, ou diante de
um genocídio ou de um
resultado eleitoral,
qual o sabor do sorvete
preferido, qual o
restaurante predileto,
qual o perfume desejado.
Os assuntos se
equivalem, todos são
questão de gosto ou
preferência, todos se
reduzem à igual
banalidade do “gosto” ou
“não gosto”, do “achei
ótimo” ou “achei
horrível”.
Todos esses fatos nos
conduzem a uma
conclusão: a mídia está
imersa na cultura do
narcisismo.
Como observa Christopher
Lash, em A Cultura do
Narcisismo, os mass
media tornaram
irrelevantes as
categorias da verdade e
da falsidade
substituindo-as pelas
noções de credibilidade
ou plausibilidade e
confiabilidade – para
que algo seja aceito
como real basta que
apareça como crível ou
plausível, ou como
oferecido por alguém
confiável Os fatos cedem
lugar a declarações de
“personalidades
autorizadas”, que não
transmitem informações,
mas preferências e estas
se convertem
imediatamente em
propaganda. Como escreve
Lash, “sabendo que um
público cultivado é
ávido por fatos e
cultiva a ilusão de
estar bem informado, o
propagandista moderno
evita slogans
grandiloqüentes e se
atém a ‘fatos’, dando a
ilusão de que a
propaganda é
informação”.
Qual a base de apoio da
credibilidade e da
confiabilidade? A
resposta encontra-se num
outro ponto comum aos
programas de auditório,
às entrevistas, aos
debates, às indagações
telefônicas de rádios,
revistas e jornais, aos
comerciais de
propaganda. Trata-se do
apelo à intimidade, à
personalidade, à vida
privada como suporte e
garantia da ordem
pública. Em outras
palavras, os códigos da
vida pública passam a
ser determinados e
definidos pelos códigos
da vida privada,
abolindo-se a diferença
entre espaço público e
espaço privado. Assim,
as relações
interpessoais, as
relações intersubjetivas
e as relações grupais
aparecem com a função de
ocultar ou de dissimular
as relações sociais
enquanto sociais e as
relações políticas
enquanto políticas, uma
vez que a marca das
relações sociais e
políticas é serem
determinadas pelas
instituições sociais e
políticas, ou seja, são
relações mediatas,
diferentemente das
relações pessoais, que
são imediatas, isto é,
definidas pelo
relacionamento direto
entre pessoas e por isso
mesmo nelas os
sentimentos, as emoções,
as preferências e os
gostos têm um papel
decisivo. As relações
sociais e políticas, que
são mediações referentes
a interesses e a
direitos regulados pelas
instituições, pela
divisão social das
classes e pela separação
entre o social e o poder
político, perdem sua
especificidade e passam
a operar sob a aparência
da vida privada,
portanto, referidas a
preferências,
sentimentos, emoções,
gostos, agrado e
aversão.
Não é casual, mas uma
conseqüência necessária
dessa privatização do
social e do político, a
destruição de uma
categoria essencial das
democracias, qual seja a
da opinião pública.
Esta, em seus inícios
(desde a Revolução
Francesa de 1789), era
definida como a
expressão, no espaço
público, de uma reflexão
individual ou coletiva
sobre uma questão
controvertida e
concernente ao interesse
ou ao direito de uma
classe social, de um
grupo ou mesmo da
maioria. A opinião
pública era um juízo
emitido em público sobre
uma questão relativa à
vida política, era uma
reflexão feita em
público e por isso
definia-se como uso
público da razão e como
direito à liberdade de
pensamento e de
expressão.
É sintomático que, hoje,
se fale em “sondagem de
opinião”. Com efeito, a
palavra sondagem indica
que não se procura a
expressão pública
racional de interesses
ou direitos e sim que se
vai buscar um fundo
silencioso, um fundo não
formulado e não
refletido, isto é, que
se procura fazer vir à
tona o não-pensado, que
existe sob a forma de
sentimentos e emoções,
de preferências, gostos,
aversões e predileções,
como se os fatos e os
acontecimentos da vida
social e política
pudessem vir a se
exprimir pelos
sentimentos pessoais. Em
lugar de opinião
pública, tem-se a
manifestação pública de
sentimentos.
Nada mais constrangedor
e, ao mesmo tempo, nada
mais esclarecedor do que
os instantes em que o
noticiário coloca nas
ondas sonoras ou na tela
os participantes de um
acontecimento falando de
seus sentimentos,
enquanto locutores
explicam e interpretam o
que se passa, como se os
participantes fossem
incapazes de pensar e de
emitir juízo sobre
aquilo de que foram
testemunhas diretas e
partes envolvidas.
Constrangedor, porque o
rádio e a televisão
declaram tacitamente a
incompetência dos
participantes e
envolvidos para
compreender e explicar
fatos e acontecimentos
de que são
protagonistas.
Esclarecedor, porque
esse procedimento
permite, no instante
mesmo em que se dão,
criar a versão do fato e
do acontecimento como se
fossem o próprio fato e
o próprio acontecimento.
Assim, uma partilha é
claramente estabelecida:
os participantes
“sentem”, portanto, não
sabem nem compreendem
(não pensam); em
contrapartida, o locutor
pensa, portanto, sabe e,
graças ao seu saber,
explica o acontecimento.
É possível perceber três
deslocamentos sofridos
pela idéia e prática da
opinião pública: o
primeiro, como
salientamos, é a
substituição da idéia de
uso público da razão
para exprimir interesses
e direitos de um
indivíduo, um grupo ou
uma classe social pela
idéia de expressão em
público de sentimentos,
emoções, gostos e
preferências
individuais; o segundo,
como também observamos,
é a substituição do
direito de cada um e de
todos de opinar em
público pelo poder de
alguns para exercer esse
direito, surgindo,
assim, a curiosa
expressão “formador de
opinião”, aplicada a
intelectuais, artistas e
jornalistas; o terceiro,
que ainda não havíamos
mencionado, decorre de
uma mudança na relação
entre s vários meios de
comunicação sob os
efeitos das tecnologias
eletrônica e digital e
da formação de
oligopólios midiáticos
globalizados (alguns
autores afirmam que o
século XXI começou com a
existência de 10 ou 12
conglomerados de mass
media de alcance
global). Esse terceiro
deslocamento se refere à
forma de ocupação do
espaço da opinião
pública pelos
profissionais dos meios
de comunicação. Esses
deslocamentos explicam
algo curioso, ocorrido
durante as sondagens de
intenção de voto nas
eleições presidenciais
de 2006: diante dos
resultados, uma
jornalista do jornal O
Globo escreveu que o
povo estava contra a
opinião pública!
O caso mais interessante
é, sem dúvida, o do
jornalismo impresso. Em
tempos passados, cabia
aos jornais a tarefa
noticiosa e um jornal
era fundamentalmente um
órgão de notícias. Sem
dúvida, um jornal
possuía opiniões e as
exprimia: isso era
feito, de um lado, pelos
editorais e por artigos
de não-jornalistas, e,
de outro, pelo modo de
apresentação da notícia
(escolha das manchetes e
do “olho”, determinação
da página em que deveria
aparecer e na vizinhança
de quais outras, do
tamanho do texto, da
presença ou ausência de
fotos, etc.). Ora, com
os meios eletrônicos e
digitais e a televisão,
os fatos tendem a ser
noticiados enquanto
estão ocorrendo, de
maneira que a função
noticiosa do jornal é
prejudicada, pois a
notícia impressa é
posterior à sua
transmissão pelos meios
eletrônicos e pela
televisão. Ou na
linguagem mais
costumeira dos meios de
comunicação: no mercado
de notícias, o
jornalismo impresso vem
perdendo competitividade
(alguns chamam a isso de
progresso; outros, de
racionalidade inexorável
do mercado!).
O resultado dessa
situação foi duplo: de
um lado, a notícia é
apresentada de forma
mínima, rápida e,
freqüentemente, inexata
– o modelo conhecido
como News Letter – e, de
outro, deu-se a passagem
gradual do jornal como
órgão de notícias a
órgão de opinião, ou
seja, os jornalistas
comentam e interpretam
as notícias, opinando
sobre elas. Gradualmente
desaparece uma figura
essencial do jornalismo:
o jornalismo
investigativo, que cede
lugar ao jornalismo
assertivo ou opinativo.
Os jornalista passam,
assim, o ocupar o lugar
que, tradicionalmente,
cabia a grupos e classes
sociais e a partidos
políticos e, além disso,
sua opinião não fica
restrita ao meio
impresso, mas passa a
servir como material
para os noticiários de
rádio e televisão, ou
seja, nesses
noticiários, a notícia é
interpretada e avaliada
graças à referência às
colunas dos jornais.
Os deslocamentos
mencionados e,
particularmente, este
último, têm
conseqüências graves sob
dois aspectos
principais:
1)
uma vez que o jornalista
concentra poderes e
forma a opinião pública,
pode sentir-se tentado a
ir além disso e criar a
própria realidade, isto
é, sua opinião passa a
ter o valor de um fato e
a ser tomada como um
acontecimento real;
2)
os efeitos da
concentração do poder
econômico midiático. Os
meios de comunicação
tradicionais (jornal,
rádio, cinema,
televisão) sempre foram
propriedade privada de
indivíduos e grupos, não
podendo deixar de
exprimir seus interesses
particulares ou
privados, ainda que isso
sempre tenha imposto
problemas e limitações à
liberdade de expressão,
que fundamenta a idéia
de opinião pública.
Hoje, porém, os
conglomerados de alcance
global controlam não só
os meios tradicionais,
mas também os novos
meios eletrônicos e
digitais, e avaliam em
termos de
custo-benefício as
vantagens e desvantagens
do jornalismo escrito ou
da imprensa, podendo
liquidá-la, se não
acompanhar os ares do
tempo.
Esses dois aspectos
incidem diretamente
sobre a transformação da
verdade e da falsidade
em questão de
credibilidade e
plausibilidade. Rápido,
barato, inexato,
partidarista, mescla de
informações
aleatoriamente obtidas e
pouco confiáveis, não
investigativo, opinativo
ou assertivo, detentor
da credibilidade e da
plausibilidade, o
jornalismo se tornou
protagonista da
destruição da opinião
pública.
De fato, a desinformação
é o principal resultado
da maioria dos
noticiários nos jornais,
no rádio e na televisão,
pois, de modo geral, as
notícias são
apresentadas de maneira
a impedir que se possa
localizá-la no espaço e
no tempo.
Ausência de referência
espacial ou atopia: as
diferenças próprias do
espaço percebido (perto,
longe, alto, baixo,
grande, pequeno) são
apagadas; o aparelho de
rádio e a tela da
televisão tornam-se o
único espaço real. As
distâncias e
proximidades, as
diferenças geográficas e
territoriais são
ignoradas, de tal modo
que algo acontecido na
China, na Índia, nos
Estados Unidos ou em
Campina Grande apareça
igualmente próximo e
igualmente distante.
Ausência de referência
temporal ou acronia: os
acontecimentos são
relatados como se não
tivessem causas passadas
nem efeitos futuros;
surgem como pontos
puramente atuais ou
presentes, sem
continuidade no tempo,
sem origem e sem
conseqüências; existem
enquanto forem objetos
de transmissão e deixam
de existir se não forem
transmitidos. Têm a
existência de um
espetáculo e só
permanecem na
consciência dos ouvintes
e espectadores enquanto
permanecer o espetáculo
de sua transmissão.
Como operam
efetivamente os
noticiários?
Em primeiro lugar,
estabelecem diferenças
no conteúdo e na forma
das notícias de acordo
com o horário da
transmissão e o público,
rumando para o
sensacionalismo e o
popularesco nos
noticiários diurnos e do
início da noite e
buscando sofisticação e
aumento de fatos nos
noticiários de fim de
noite. Em segundo, por
seleção das notícias,
omitindo aquelas que
possam desagradar o
patrocinador ou os
poderes estabelecidos.
Em terceiro, pela
construção deliberada e
sistemática de uma ordem
apaziguadora: em
seqüência, apresentam,
no início, notícias
locais, com ênfase nas
ocorrências policiais,
sinalizando o sentimento
de perigo; a seguir,
entram as notícias
regionais, com ênfase em
crises e conflitos
políticos e sociais,
sinalizando novamente o
perigo; passam às
notícias internacionais,
com ênfase em guerras e
cataclismos (maremoto,
terremoto, enchentes,
furacões), ainda uma vez
sinalizando perigo; mas
concluem com as notícias
nacionais, enfatizando
as idéias de ordem e
segurança, encarregadas
de desfazer o medo
produzido pelas demais
notícias. E, nos finais
de semana, terminam com
notícias de eventos
artísticos ou sobre
animais (nascimento de
um ursinho, fuga e
retorno de um animal em
cativeiro, proteção a
espécies ameaçadas de
extinção), de maneira a
produzir o sentimento de
bem-estar no espectador
pacificado, sabedor de
que, apesar dos pesares,
o mundo vai bem,
obrigado.
Paradoxalmente, rádio e
televisão podem
oferecer-nos o mundo
inteiro num instante,
mas o fazem de tal
maneira que o mundo real
desaparece, restando
apenas retalhos
fragmentados de uma
realidade desprovida de
raiz no espaço e no
tempo. Como
desconhecemos as
determinações
econômico-territoriais
(geográficas,
geopolíticas, etc.) e
como ignoramos os
antecedentes temporais e
as conseqüências dos
fatos noticiados, não
podemos compreender seu
verdadeiro significado.
Essa situação se agrava
com a TV a cabo, com
emissoras dedicadas
exclusivamente a
notícias, durante 24
horas, colocando num
mesmo espaço e num mesmo
tempo (ou seja, na
tela) informações de
procedência, conteúdo e
significado
completamente
diferentes, mas que se
tornam homogêneas pelo
modo de sua transmissão.
O paradoxo está em que
há uma verdadeira
saturação de informação,
mas, ao fim, nada
sabemos, depois de
termos tido a ilusão de
que fomos informados
sobre tudo.
Se não dispomos de
recursos que nos
permitam avaliar a
realidade e a veracidade
das imagens
transmitidas, somos
persuadidos de que
efetivamente vemos o
mundo quando vemos a TV
ou quando navegamos pela
internet. Entretanto,
como o que vemos são as
imagens escolhidas,
selecionadas, editadas,
comentadas e
interpretadas pelo
transmissor das
notícias, então é
preciso reconhecer que a
TV é o mundo ou que a
internet é o mundo.
A multimídia
potencializa o fenômeno
da indistinção entre as
mensagens e entre os
conteúdos. Como todas as
mensagens estão
integradas num mesmo
padrão cognitivo e
sensorial, uma vez que
educação, notícias e
espetáculos são
fornecidos pelo mesmo
meio, os conteúdos se
misturam e se tornam
indiscerníveis. No
sistema de comunicação
multimídia a própria
realidade fica
totalmente imersa em uma
composição de imagens
virtuais num mundo
irreal, no qual as
aparências não apenas se
encontram na tela
comunicadora da
experiência, mas se
transformam em
experiência. Todas as
mensagens de todos os
tipos são incluídas no
meio por que fica tão
abrangente, tão
diversificado, tão
maleável, que absorve no
mesmo texto ou no mesmo
espaço/tempo toda a
experiência humana,
passada, presente e
futura, como num ponto
único do universo.
Se, portanto, levarmos
em consideração o
monopólio da informação
pelas empresas de
comunicação de massa,
podemos considerar, do
ponto de vista da ação
política, as redes
sociais como ação
democratizadora tanto
por quebrar esse
monopólio, assegurando a
produção e a circulação
livres da informação,
como também por promover
acontecimentos políticos
de afirmação do direito
democrático à
participação. No
entanto, os usuários das
redes sociais não
possuem autonomia em sua
ação e isto sob dois
aspectos: em primeiro
lugar, não possuem o
domínio tecnológico da
ferramenta que empregam
e, em segundo, não detêm
qualquer poder sobre a
ferramenta empregada,
pois este poder é uma
estrutura altamente
concentrada, a Internet
Protocol, com dez
servidores nos Estados
Unidos e dois no Japão,
nos quais estão alojados
todos os endereços
eletrônicos mundiais, de
maneira que, se tais
servidores decidirem se
desligar, desaparece
toda a internet; além
disso, a gerência da
internet é feita por uma
empresa norte-americana
em articulação com o
Departamento de Comércio
dos Estados Unidos, isto
é, gere o cadastro da
internet mundial. Assim,
sob o aspecto
maravilhosamente
criativo e anárquico das
redes sociais em ação
política ocultam-se o
controle e a vigilância
sobre seus usuários em
escala planetária, isto
é, sobre toda a massa de
informação do planeta.
Na perspectiva da
democracia, a questão
que se coloca, portanto,
é saber quem detêm o
controle dessa massa
cósmica de informações.
Ou seja, o problema é
saber quem tem a gestão
de toda a massa de
informações que controla
a sociedade, quem
utiliza essas
informações, como e para
que as utiliza,
sobretudo quando se leva
em consideração um fato
técnico, que define a
operação da informática,
qual seja, a
concentração e
centralização da
informação, pois
tecnicamente, os
sistemas informáticos
operam em rede, isto é,
com a centralização dos
dados e a produção de
novos dados pela
combinação dos já
coletados.
(*) Em nenhuma
democracia séria do
mundo, jornais
conservadores, de
baixa qualidade
técnica e até
sensacionalistas, e
uma única rede de
televisão têm a
importância que têm no
Brasil. Eles se
transformaram num
partido político – o
PiG, Partido da
Imprensa Golpista.
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