12.11.2007
PAÍSES RICOS MANTÊM GUERRA PERMANENTE NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO
CONGO
Na imprensa internacional, a República Democrática do Congo, em
raras aparições televisivas, é retratada como um país de bárbaros e de mulheres
atordoadas, enquanto a China é rotineiramente retratada como um país do futuro,
com uma economia mista e cada vez mais integrada ao “mercado”. Nada sobre as
armas que patrocinam o genocídio na África Central. Estados Unidos, Rússia e
outros país fazem aliança tática pelo livre comércio de armas, motor do moderno
genocídio globalizado.

Criança
que sofre de subnutrição medida por equipe da 'Médicos Sem Fronteiras' em
clínica em Kanyabayonga. Foto de James Nachtwey, verão africano de
2005.
Em um país da África Central, há pelo
menos 10 anos há relatos de mulheres que são forçadas, debaixo da ameaça de
armas, a ingerir excrementos, beber urina ou a comer bebês mortos. São
testemunhas da mutilação genital dos seus maridos ou violadas durante semanas
por grupos de homens. Relatos mostram imagens como “florestas que cheiravam a
morte” e cenários em que “não se podia dar nem cinco passos sem tropeçar em um
corpo”. Em alguns casos, meninos eram forçados a fazer sexo com suas próprias
mães e irmãs.
No entanto, o crime mais terrível
é a passividade da comunidade internacional, das instituições governamentais e
dos meios de comunicação com este país. Nas palavras de uma ativista que
recentemente o visitou: a indiferença total do mundo perante tal extermínio. “E
enquanto nós estamos aqui a escrever o nosso relatório, há mulheres que estão a
ser violadas, meninas que estão a ser destroçadas para sempre, mulheres que
estão a ser testemunhas do assassinato (a golpe de catana) das suas
famílias e outras que estão a ser infectadas pelo o vírus da AIDS. Onde está a
nossa indignação? Onde está a consciência das pessoas?”
Este é o relato de Eve Ensler ao
Conselho de Segurança da ONU (leia ao final), publicado em junho de 2007. Eve
afirmou durante reunião na ONU: “As mulheres são o centro de qualquer cultura e
sociedade. Embora possam não ter poder ou direitos, como são tratadas, como são,
ou não são, valorizadas, indica o que a sociedade sente em relação à própria
vida. Estou aqui para vos implorar, àqueles que têm poder, para declarar estado
de emergência no Leste do Congo, para dar um nome ao que está a ser feito às
mulheres: feminicídio”.
A crise na República Democrática
do Congo, país com população estimada em 54 milhões de pessoas localizado no
coração da África, é apontada por alguns meios de comunicação no exterior, a
partir de abordagens diferenciadas, mas sem qualquer reação suficientemente
considerável a fim de levar à Justiça a notáveis criminosos. Algo próximo de 5
milhões de pessoas morreram desde o início oficial dos conflitos, em 1998, não
só por causa da violência, mas também por doenças negligenciadas no país, como a
malária e o sarampo. Também oficialmente, a guerra “acabou” em
2004.

Criação
que sofre de subnutrição medida por equipe da 'Médicos Sem Fronteiras' em
clínica em Kanyabayonga. Foto de James Nachtwey, verão africano de
2005.
A ativista Eve Ensler, autora da
peça “Monólogos da Vagina” – traduzida para mais de 45 línguas e está em
exibição em teatros em todo o mundo, incluindo no Off-Broadway’s Westside
Theater e no West End de Londres – tem dedicado a sua vida à luta
contra violência e fundou o V-Day, um movimento global que apóia organizações anti-violência em todo o
mundo, ajudando-as a continuar e expandir o seu trabalho principal em campo e,
ao mesmo tempo, chamando à atenção do público para a luta contra a violência
mundial contra as mulheres – incluindo violação, espancamento, incesto,
mutilação genital feminina e escravidão sexual.
“Passei duas semanas em Bukavu e
Goma entrevistando as sobreviventes. Algumas eram de Bunia. Efetuei pelo menos
oito horas de entrevistas por dia. Almocei e fui a sessões de terapia com estas
mulheres. Chorei com elas. O nível de atrocidades supera a imaginação. Não tinha
visto em nenhuma parte este tipo de violência, de tortura sexual, de crueldade e
de barbárie. No leste do Congo existe um clima de violência. Nesta zona as
violações tornaram-se, tal como me disse uma sobrevivente, um esporte
nacional”, relatou Eve na ocasião (relato completo ao final do
texto).
A ativista Christine
Schuler-Deschryver completou, em entrevista ao site Democracy Now! em
outubro de 2007, que 60% da violência sexual que vem ocorrendo no leste do Congo
é cometida pelos mesmos grupos que cometeram o genocídio em Ruanda, em 1994 –
“Hutus que cometeram o genocídio em seu país”.
Contexto
internacional
Um articulista da respeitada revista alternativa Z Magazine,
Keith Harmon Snow, levantou suspeitas sobre Schuler-Deschryver, explicitando sua
ligação com a elite branca do país e alertando que há atualmente uma estratégia
internacional para, assim como em Ruanda, culpar os grupos locais por todo o
caos no país – o que permite esquecer países e empresas que financiam os
armamentos e se beneficiam do caos, como detalha em seu
artigo sobre o tema.
A crise no país, a partir de
qualquer ponto de vista, é urgente, como destacamos no início de 2006 neste
Fazendo Media (veja o link no final do texto) e como vem destacando
persistentemente a organização internacional de direitos humanos Anistia
Internacional (AI). Em junho de 2006, a AI acusou a China de ser “o exportador
de armas mais irresponsável do mundo”. No relatório "China: apoio a conflitos e
abusos de direitos humanos" (China: Sustaining conflict and human
rights abuses, a organização afirmara
que as armas chinesas servem de combustível para conflitos em países onde
ocorrem freqüentes violações dos direitos humanos, como é o caso de Congo. A
Anistia exigiu que a China seja mais transparente e que abra as informações
sobre suas exportações de armas.
Autoridades chinesas repudiaram o
documento alegando que o país assume uma atitude de prudência com relação às
exportações de armas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da
China, Jiang Yu, afirmou que a política de exportação de armamentos respeita
três princípios: aumento da capacidade de defesa das nações importadoras, que as
armas exportadas não afetem a paz, a segurança e a estabilidade regional e
global e do país importador e que não sejam usadas para interferir nos assuntos
internos do país.
Helen Huges, autora do relatório
da AI, rebateu afirmando que, apesar de a China descrever suas exportações de
armas como "cuidadosas e responsáveis", a realidade é bem diferente. Em nome da
Anistia, Huges pediu que o país se comprometesse a suspender as exportações de
armas para países onde elas podem ser usadas como instrumento de abuso dos
direitos humanos. A pesquisadora e especialista em controle de armas afirmou,
ainda, que a China é a única do grupo de grandes exportadores de armas que ainda
não assinou nenhum acordo multilateral nesse sentido.

Uma
senhora de 70 anos que fora estuprada por diversos soldados do governo enquanto
trabalhava no campo, próximo à vila onde mora. Após o acontecimento, ela se
aconselhou na clínica que trata violência sexual mantida pela 'Médicos Sem
Fronteiras' em Kanyabayonga. Foto de James Nachtwey, verão africano de
2005.
De acordo com dados do relatório,
caminhões militares, fuzis, granadas e outras armas militares chinesas - entre
elas, cópias do fuzil russo AK-47 - foram vendidas pela China para diversos
países da região dos Grandes Lagos africanos nos últimos 15 anos, entre eles
Congo, Uganda, Ruanda, Sudão e Burundi – todos com graves problemas de
desrespeito aos direitos humanos. Ainda segundo a Anistia, o volume de
exportações de armas da China ultrapassa a cifra de um bilhão de dólares por
ano.
Armas chinesas e russas
circulam em locais críticos de guerra
A Anistia Internacional vai mais longe: afirma que os rifles AK-47
chineses são comuns entre soldados, milicianos e integrantes de grupos armados
na província de Kivu e no distrito de Ituri, no Congo. A organização vai direto
ao ponto: “Nestes locais atrocidades são freqüentemente cometidas com tais
armas, pela iniciativa de negócios internacionais envolvendo o controle de
recursos naturais valiosos”. O relatório registra, por exemplo, que
investigadores mapearam, em novembro de 2005, a origem de 1.100 armas coletadas
pela Missão da ONU no país (MONUC), mais especificamente em Bunia, distrito de
Ituri. Nada menos que 70% são rifles AK-47 chineses, entregues diretamente pela
China na República Democrática do Congo, Uganda, Ruanda e Burundi ou
atravessando países que mantém relações com a China, como Albânia e
Zimbábue.
Na imprensa internacional, o Congo
aparece freqüentemente como um país de bárbaros e de mulheres traumatizadas,
enquanto a China é rotineiramente retratada como um país do futuro, com uma
economia mista e cada vez mais integrada ao mercado. Nada sobre as armas que
patrocinam o genocídio na África Central. E é precisamente sobre isso que fala
Snow em seu artigo na Z Magazine.
Além disso, no começo deste ano a
própria Anistia levantou outra questão abordada por Snow: Os “diamantes de
sangue”, ou diamantes de zonas em conflito, exacerbam os conflitos, as guerras
civis e os abusos contra os direitos humanos. Com estes diamantes, segunda a AI,
foram financiados na África conflitos que provocaram a morte e o deslocamento de
milhões de pessoas nos últimos tempos. Durante estes conflitos, os benefícios do
comércio ilegal de diamantes, que chegavam a milhares de milhões de dólares,
serviram para que os caudilhos militares e os grupos rebeldes comprassem armas.
Calcula-se que em Angola, na República Democrática do Congo, na Libéria e em
Serra Leoa morreram 3,7 milhões de pessoas em conflitos mantidos graças aos
diamantes.
Embora a guerra já tenha acabado
em Angola e Serra Leoa, e os combates tenham diminuído na República Democrática
do Congo, o problema dos diamantes de regiões em conflito não desapareceu,
alerta a organização.
Apesar de ter começado, em 2003,
a aplicação de um sistema internacional de certificação de diamantes, denominado
Processo Kimberley, os diamantes de zonas em conflito da Costa do Marfim passam
para o comércio legítimo de diamantes através de Gana. “Como mostrou o brutal
conflito de Serra Leoa, mesmo uma pequena quantidade de diamantes de regiões em
conflito pode causar grandes estragos em um país. Entre 1991 e 2002, morreram
violentamente em Serra Leoa mais de 50 mil pessoas, mais de dois milhões
viram-se deslocadas dentro do país ou tornaram-se refugiados em outros países, e
milhares foram vítimas de mutilações, estupros ou tortura. Atualmente, Serra
Leoa ainda está se recuperando das conseqüências do conflito”, lembra nota de
imprensa da Anistia.
Filme retratou
experiência em Serra Leoa
Segundo a Anistia, o filme “Diamante de Sangre” (“Blood Diamond”) é uma
oportuna lembrança aos governos e à indústria dos diamantes de que devem
garantir que diamantes de zonas em conflito não cheguem aos consumidores.
Ambientado na situação de caos e guerra civil que sofreu Serra Leoa na década de
1990, “Diamante de Sangue” conta a história de Danny Archer (representado pelo
ator Leonardo DiCaprio), mercenário sul-africano, e Solomon Vandy (representado
pelo ator Djimon Hounsou), pescador de etnia mende. Ambos são africanos,
mas suas histórias e circunstâncias não poderiam ser mais distintas – até que
seus destinos convergem em uma busca comum para recuperar um raro diamante rosa,
que pode mudar suas vidas.
Archer, que está preso por
contrabando, fica sabendo que Solomon, a quem separaram de sua família e
obrigaram a trabalhar nas minas de diamantes, havia encontrado a extraordinária
pedra preciosa e a havia escondido. Com a ajuda de Maddy Bowen (atriz Jennifer
Connelly), jornalista norte-americana cujo idealismo torna-se suavizado por uma
relação cada vez mais profunda com Archer, os homens empreendem uma longa
jornada através do território rebelde. Mais que a busca por um valioso diamante,
para Archer, a viagem pode ser uma segunda oportunidade que pensava que nunca
teria, enquanto que a Solomon pode ajudá-lo a recuperar o que mais quer: seu
filho, a quem os rebeldes seqüestraram e obrigaram a se tornar um menino
soldado.
Diamante de sangue é dirigido por
Edward Zwick. Com roteiro de Charles Leavitt, criador de “Um mundo a sua medida”
(“The Mighty”), a partir de um relato de Leavitt e C. Gaby Mitchell. É produzido
por Paula Weinstein, Marshall Herskovitz, Edward Zwick, Graham King y Gillian
Gorfil, e os produtores executivos são Len Amato e Benjamin Waisbren, com Kevin
De La Noy como co-produtor.
Contradições
evidenciadas
As armas de mão, de pequeno porte, também tem contribuído para
violações dos direitos humanos em áreas não-conflituosas, destacou o relatório
sobre a China. Impressiona a quantidade de países importadores deste tipo de
arma: Argentina, Austrália, Bangladesh, Bolívia, Burkina Faso, Canadá, Chile,
Costa Rica, República Tcheca, República Dominicana, Finlândia, Alemanha,
Guatemala, Hong Kong, Índia, Indonésia, Irã, Itália, Macau, Malásia, Niger,
Paquistão, Filipinas, Arábia Saudita, Eslováquia, Sudão, Tailândia e Uganda,
entre outros.
No Nepal, assim como no Congo, a
China demonstrou como funciona a política da falsa solidariedade com os povos em
situação de guerra civil. Em janeiro de 2006, quando o Nepal passou por uma
crise envolvendo confrontos internos militares e uma onde de protestos
pacíficos, um importante membro do governo chinês afirmou: “Esperamos que todas
as forças no Nepal possam estreitar suas diferenças por meio do diálogo e
trabalharem unidos para o desenvolvimento e para a prosperidade”.
Em fevereiro, pouco menos de um
mês após a declaração, o governo local pagou ao governo chinês 10 milhões de
dólares por rifles. No Congo, relata a AI, as armas são usadas em grande parte
pelo próprio governo para reprimir protestos populares, como ocorreu durante
todo o ano de 2005, com um saldo de centenas de vidas perdidas.
No próximo artigo
* Estupro de mulheres na
região
* O controle de armas leves no
mundo
* O ilustrativo caso do
Paquistão
* Resumo do relato de Eve Ensler no
Conselho de Segurança das Nações Unidas
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