Se atuasse de olho no interesse público, grande imprensa teria identificado ainda em outubro o avanço da dengue no Rio de Janeiro. Em vez disso, preferiu criar factóides e sugeriu inclusive uma epidemia que nunca existiu, desviando foco de problemas reais. Alerta foi feito na imprensa alternativa um mês antes dos jornais.
Por Gustavo Barreto, da
redação - Fazendo Media e Revista Consciência.Net
Um órgão ligado à prefeitura do Rio de Janeiro, com a tarefa de
fiscalizar as contas municipais e ignorado pelo prefeito, foi o primeiro a
enfatizar: a dengue vem aí. Logo depois o Ministério da Saúde – que também é
poder público, lembremos – alertou enfaticamente: está aberto o caminho para o
Aedes aegypti. A imprensa alternativa e setores organizados da sociedade
civil, atentos aos reais problemas da população no campo da saúde pública,
ampliaram: lá vem o mosquito. (Leia ao final carta enviada a César Maia em
janeiro)
Nada disso ecoou da forma que deveria. Motivo: a grande
imprensa está concentrada nas mãos de poucos e incompetentes políticos –
privados ou públicos –, que criam e recriam o noticiário sem qualquer
compromisso com o interesse público e chegam tarde demais no foco do problema. A
dengue no Rio é mais um entre diversos exemplos gritantes.
No dia 24 de
janeiro de 2008, antes mesmo da epidemia ser reconhecida pelas autoridades mais
responsáveis na área de saúde – excluindo, claro, a prefeitura do Rio -, a
imprensa alternativa alertou para o fato de que o prefeito César Maia, por meio
de seu secretário de saúde à época, não executou ou desviou para outras áreas os
recursos que deveriam ir para o controle de vetores – incluindo o mosquito da
dengue (leia ao final).
Segundo um relatório deste órgão da própria
prefeitura, por exemplo, no exercício de 2006 23% do recurso transferido no
próprio exercício (até dezembro), por meio da rubrica Teto Financeiro de
Vigilância em Saúde (TFVS), não foram liquidados (utilizados) pela prefeitura.
Desceram e simplesmente foram devolvidos, por incompetência
gerencial.
"Despesas não relacionadas com sua finalidade"
Um
montante de aproximadamente cinco milhões e meio de reais deixaram de ser
utilizados, considerando-se a parcela transferida já no mês de janeiro,
referente ao mês de dezembro de 2006. "Mesmo os recursos utilizados não foram
totalmente aplicados adequadamente", completam os relatores. "Ao analisar as
despesas efetuadas no programa de trabalho específico, elencadas no quadro
analítico da execução orçamentária, observam-se despesas não relacionadas com
sua finalidade".
Dentro da grande imprensa, o JB online saiu na
frente, mesmo que atrasado, no dia 28 de fevereiro e confirmou o que havíamos
apontado um mês antes: "Um levantamento da Controladoria-Geral do Município
mostra que há tempos o combate ao Aedes aegypti deixou de ser prioridade
da Secretaria de Saúde. No ano passado, a pasta pretendia investir R$ 13,7
milhões em programas de vigilância epidemiológica. Gastou apenas R$ 6,7 milhões
- 49,3% do que havia planejado". Completamos: os investimentos são tímidos,
quase que insignificantes, e o resultado está aí. Já são até a noite desta
quinta-feira (20/3) 23.555 pessoas infectadas e 30 óbitos, a maior parte
crianças.
Enquanto o secretário estadual Sérgio Côrtes reconhece
responsavelmente a epidemia e se mobiliza para cobrir a falta de investimentos
da prefeitura, César Maia inventa um suposto declínio dos casos, sem ao menos
ter dados em mãos (!). O mesmo ocorreu em 2002. O Ministério da Saúde foi ainda
mais longe: notificou sobre o risco de epidemia em outubro de 2007! Saiu alguma
nota no jornal?
Destacamos que epidemia é um conceito político e
variável, porém científico. Segundo este critério, a incidência da dengue é
avaliada historicamente – em 15 anos, por exemplo - e comparada, excluindo os
anos epidêmicos. Um aumento notável pode ser considerado, segundo análise
criteriosa de especialistas, uma epidemia. É o que pensa dois deles: Sérgio
Côrtes (esfera estadual) e José Gomes Temporão (esfera federal). Perceba que a
imprensa não tem, por algum motivo, o hábito de citar nominalmente o secretário
municipal de saúde. Maia está centralizando todas as respostas – tudo por
email, claro.
Abaixo, vamos publicar na íntegra uma carta que foi
enviada ao prefeito César Maia, em janeiro e fevereiro de 2008, e tornada
pública em seguida. Nenhum dos emails de Maia voltaram e a fonte de que são
emails dele é seu próprio "ex-blog". Nesta carta, estavam graves acusações na
utilização de recursos públicos, tais como o desvio apontado pelo órgão ligado à
própria prefeitura, ao qual me refiro no começo deste artigo: o Tribunal de
Contas do Município (TCM).
Na carta ao prefeito de 24 de fevereiro,
destaquei: "Enquanto os governos divulgam em campanha na TV neste final de
semana (23 e 24/2) que o combate à dengue é um dever de todos, a imprensa
carioca continua a "esquecer" que o prefeito César Maia não executou ou desviou
diretamente 38% do dinheiro que serviria para combater o Aedes aegypti -
nada menos que pouco mais de 15 milhões de reais. Apesar do problema continuar
diariamente, como informa a própria imprensa, falta o nexo causal: nenhum grande
meio questiona a Secretaria Municipal de Saúde sobre o orçamento mal utilizado."
(leia no final)
A reportagem também da imprensa alternativa, um mês
antes, fez um diagnóstico completo do relatório do TCM: "Desvio de recursos do
Ministério da Saúde, ineficiência do inseticida, danos à saúde da população e ao
meio ambiente, péssimas condições de infra-estrutura, má gestão dos recursos e
morosidade na obtenção de resultados dos exames sorológicos são algumas das
observações de um relatório recente elaborado pelo Tribunal de Contas do
Município do Rio de Janeiro sobre o combate ao mosquito da dengue na cidade."
(leia no final)
Ignorando o funcionamento da máquina
pública
Enquanto o JB teve o mérito de, ao menos uma vez, fazer o nexo
causal do crime cometido pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio, o jornal O
Globo continua a chafurdar na confusão de notícias e manchetes sem sentido. Eis
o lead da matéria desta quinta-feira (20/3), que segue a lógica da
primeira página: "Somente depois de cinco meses de surtos e a constatação de
especialistas de que o Rio enfrenta uma epidemia, o Ministério da Saúde decidiu
tratar a dengue como uma situação crítica. O ministro José Gomes Temporão
anunciou ontem a criação de um gabinete de crise para conter o avanço da dengue
no estado" (pág 12, 2a edição).
Ora bolas, por que a ênfase no
Ministério? A crise não pertence ao senhor Temporão. A dengue simplesmente
apresentou queda nacional de 60% no país, ou seja, há inclusive um mérito da
esfera nacional. No Rio, nas contas da semana passada (que continuam a crescer),
já passou de 200% o aumento, em relação a igual período de 2007. Para se ter uma
idéia, as notificações de janeiro de 2008, segundo dados consolidados da
prefeitura, já quase superava todas as notificações desde 2003. É a soma: 2003 +
2004 + 2005 + 2006 + 2007 = 2008. O prefeito César Maia, um homem virtual, está
inventando que os números estão caindo, mesmo que autoridades estaduais e
federais já tenham reconhecido a epidemia.
Além disso, é preciso
destacar: o mosquito é municipal. Perseguição política da nossa parte? Não, o
dinheiro é todo municipal! Os carros, os recursos humanos, tudo vai para a
Secretaria Municipal de Saúde.
Maia tenta, agora, argumentar
pateticamente que se morrem menos pessoas nos hospitais municipais do que nos
estaduais ou privados. Ignora – pois é isso o que ele faz, como político
habilidoso e inescrupuloso que é – que as ações são de responsabilidade da
prefeitura e tem caráter preventivo. O mosquito deve ser combatido o ano
inteiro. Se tivesse escrúpulo – do dicionário, "atitude cheia de zelo" -, César
Maia teria a humildade de colocar o dinheiro onde ele tem que ser colocado. E
não é na Comlurb, como se sabe.
Por que o mosquito tem que ser combatido
continuamente? Por que o ovo que irá gerar o mosquito adulto possui um período
de dessecação que pode chegar a 450 dias! Ou seja, a fêmea deposita o ovo na
parede do criadouro, bem próximo à água, para que este possa eclodir. O ovo
resiste e espera pacientemente a água subir por um período tão extenso que é
impossível pensar em um combate sério do Aedes aegypti sem continuidade
permanente da ação de controle deste vetor.
O curso social da
politicagem
A incidência das notificações de dengue podem até ser grandes
– a princípio não há um problema grave nisto. Desde que, a exemplo de Campo
Grande (MS), haja qualidade no atendimento primário. Agentes do programa de
saúde da família chegam a apenas 8% da população no Rio – por falta de interesse
político, para além do simulacro que se criou em relação aos aspectos corretos,
porém parciais, da topografia urbana carioca e da violência estrutural.
A
reação a uma epidemia também não é novidade. Belo Horizonte tem 70% da população
coberta pelo programa de saúde da família. Lá há favelas e violência, porém
também há um controle contínuo dos vetores e participação efetiva do poder
público, sociedade civil, imprensa local e iniciativa privada. Há reuniões
semanais de distintas esferas do poder público. Por conta disso, não há qualquer
surto epidêmico importante na capital mineira e o interesse público, nesta área,
fala mais alto do que a politicagem. Parece um sonho, mas está em território
nacional e a apenas 434km da cidade do Rio de Janeiro.
Para piorar, além
de não admitir o problema da dengue – primeiro passo para não resolvê-lo –,
César Maia decidiu, por exemplo, iniciar uma série de ações eleitoreiras, como a
liberação indiscriminada de licenças a transportes alternativos, a renovação sem
critérios das concessões para as empresas de ônibus e o aumento irresponsável
para dezenas de categorias profissionais, sem no entanto discriminar fontes de
recursos. Sem contar, claro, os contratos de publicidade, do carnaval, entre
outros. Tudo vence em ano eleitoral, tudo uma grande
coincidência.
Percebam que, ao contrário do PT, que tem sua sigla
associada diariamente a tudo o que há de ruim no país – ainda que com elementos
procedentes -, os DEM (ex-PFL) passam imunes à crise e não são atingidos pela
mídia. Raramente os questionam como partido, apenas seus líderes isoladamente.
Po(u)sam em Brasília como "bons administradores" e "oposição responsável" e
"implacável".
Economia do tempo e a mídia
A economia do
tempo, conceito pouco discutido publicamente, pode ser útil para
analisarmos, igualmente, o papel da grande imprensa no Rio de Janeiro. Em
janeiro, quando já existiam diversos surtos no Rio, os jornais, rádios e tevês
cariocas fizeram uma opção política por noticiar a febre amarela. Não havia
dados significantes para a histeria coletiva. Foram menos mortes do que em
muitos outros momentos, algumas inclusive provocadas pela própria histeria –
decorrentes, por exemplo, da dupla vacinação.
Óbvio que a febre amarela
era notícia, quanto a isso concordamos. Mas o espaço foi desproporcional,
conforme foi largamente apontado na imprensa alternativa, e os motivos eram
puramente políticos. A Revista Veja chegou a fazer matéria patética em
que argumentava que todas as doenças do mundo avançavam no Brasil, por culpa do
governo federal. Para sustentar tamanha invenção, seleciona dados distintos
sobre cada um dos males e escolheu apenas os negativos – ignorando tudo o que
era avanço. Foi tão gritante que alguns órgãos públicos simplesmente
consideraram não mais atender demandas vindas desta revista. Ironicamente, o
noticiário da febre amarela simplesmente sumiu quando começaram a falar das
migalhas do cartão corporativo.
Mas, afinal, o que nos diz a economia do
tempo? Enquanto estamos apontando equivocadamente para uma "crise" que na
verdade não existe, o mundo não pára. Ou seja, as crises reais, sérias,
continuam a acontecer. A dengue era, objetivamente, uma delas. Hoje são 30
óbitos, frutos do descaso que aqui denunciamos. Desvio de recursos financeiros
públicos, má gestão dos recursos humanos, financeiros e materiais, ausência de
critérios científicos para o efetivo controle do vetor.
A Coordenação de
Controle de Vetores da prefeitura nem sequer existe juridicamente! Não pode
comprar uma tinta de impressora ou emitir documentos oficiais. Tudo isso era
público, notável e de conhecimento da imprensa desde janeiro, pelo menos. Tudo,
igualmente, divulgado pela imprensa alternativa.
Em março, caiu a
ficha
Três meses depois, os jornais começaram a citar em um ou outro
canto o posicionamento firme de entidades representativas. O Sindicato dos
Médicos do Rio, por exemplo, vai apresentar uma notícia crime até segunda-feira
(24/3) aos ministérios públicos Estadual e Federal. A intenção é responsabilizar
as três esferas do governo pela epidemia de dengue no município do
Rio.
Para Jorge Darze, que é presidente do Sindicato e um militante de
garra que conheci no Fórum Social Mundial de 2008, todos têm responsabilidades.
"A prefeitura não pode oferecer uma estrutura tão precária, o governo do estado
tem que exercer o poder regulador e fiscalizador junto aos municípios, já que é
ele que gere toda a rede através do Sistema Único de Saúde, e o governo federal
não pode apenas liberar o dinheiro, mas deve monitorar em que tipos de
investimento a verba vem sendo usada" (ao Globo Online,
19/3).
Como se vê, a prefeitura é executora. É a responsável. Cabe aos
governos estaduais e federais fiscalizar, mas, como fica claro aqui, o problema
nestas esferas não é de dinheiro. Se fizessem a fiscalização decentemente,
aplicariam uma punição tão abrangente ao prefeito virtual que este teria que se
entender com a Justiça, inclusive com a conseqüente ordem de prisão para seu
secretário caso não mude drasticamente a situação, como por vezes acontece.
César Maia, agora, diz à imprensa que está liberando verbas à vontade para o
controle de vetores, sem nem olhar o projeto, mas não o faz por sensibilidade
social ou vontade política. O faz por medo.
Os leitores da grande
imprensa, por vezes, caem na armadilha do "quarto poder". Como demonstramos
aqui, a imprensa falhou – e feio – no quesito interesse público, no que
diz respeito à saúde dos cidadãos cariocas e fluminenses. Inventou uma crise e,
enquanto promovia sua pauta histérica, ignorava um problema grave e real. Agora,
posam de "fiscalizadores do poder", supondo que são "isentos" ao apontar as
responsabilidades nas três esferas. Em poucas palavras, comeram mosca e
contribuíram, assim, para a desinformação – a maior causa do avanço do Aedes
aegypti.
Seguem abaixo, para facilitar, algumas idéias aos editores
da grande imprensa para uma próxima cobertura neste tema tão importante como é a
saúde:
Enquanto a Dengue apresenta uma queda nacional de
40%, o jornal O Globo publicou na última quarta (13/2) matéria em que aponta que o
Rio de Janeiro "está batendo, a cada atualização dos números de casos de dengue,
tristes recordes: na última sexta-feira, a quantidade de notificações da doença,
em janeiro de 2008, já era o dobro da registrada no mesmo mês de 2007". Desde
terça-feira, informa o jornal, com a divulgação no site da Secretaria Municipal
de Saúde de mais vítimas, a situação piorou.
A cidade já tem, nos
primeiros 31 dias do ano, 2.912 pessoas contaminadas pelo mosquito Aedes aegypti, quase o triplo do mesmo período
de 2007, quando houve 981 casos. Com grande ajuda da prefeitura, o Estado do Rio
teve um aumento de 117% dos casos nas cinco primeiras semanas de 2008, em
relação a período correspondente em 2007.
Diz o texto d'O Globo: "A matemática mostra que não é nada
confortável a situação do município. Os 2.912 casos de janeiro por pouco não
superam a soma de todos os meses de janeiro, de 2003 a 2007. Juntos, eles
tiveram 3.048 vítimas. Em fevereiro, segundo o site da secretaria, já foram
registrados 82 casos da doença. A área com mais ocorrências foi a de Ramos (14
casos), seguida por Jacarepaguá, com 13. No ano passado, Barra e Jacarepaguá
foram afetadas por um surto da doença". (Reportagem completa para assinantes)
Infelizmente, para uma imprensa cada vez mais perdida diante da
encrenca que o prefeito nos meteu durante anos de irresponsabilidade, falta
destacar o nexo causal. Como a Revista Consciência.Net denunciou, o Tribunal de Contas do Município (TCM) divulgou
relatório em que conclui, por exemplo, que a Prefeitura desviou recursos do
combate ao mosquito da dengue para fins alheios - nada menos que 6 milhões de
reais - e nem sequer regulamentou a Coordenação de Controle de Vetores,
vinculada à Superintendência de Vigilância à Saúde e responsável pelas dez
divisões de controle de vetores. A Coordenação é, digamos, "ilegal" e não pode
emitir uma série de documentos.
Segundo o relatório, no exercício de
2006, 23% do recursos remetidos pelo
Ministério da Saúde para o combate aos vetores no próprio exercício (até
dezembro), por meio da rubrica Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (TFVS),
não foram liquidados (utilizados) pela
Prefeitura. Os desvios configuram algo próximo de 15%, totalizando 38% dos recursos do controle de vetores não utilizados
ou desviados para outros fins.
A maior parte foi literalmente para
o lixo: mais de 5 milhões e 800 mil
reais para "Serviço de higiene hospitalar e gestão interna de resíduos sólidos",
em favor da Comlurb.
O Tribunal de Contas foi contundente:
"Considerando-se as deficiências de infra-estrutura das instalações das Divisões
de Controle de Vetores, dos Serviços de Epidemiologia e da Gerência de
Consultoria Técnica, não justifica a não utilização, pela Secretaria, de todos
os recursos repassados pelo Governo Federal pelo Teto Financeiro de Vigilância
em Saúde (...) Da mesma forma, não justifica a utilização de parte desses
recursos em aplicações não afetas à finalidade específica da vigilância em
saúde, conforme vedado pelo Ministério da Saúde".
Não caberia ao jornal
O Globo, o tradicional jornal O Globo, perguntar cadê o dinheiro? Será
devolvido?
Não perguntaram, mas nós perguntamos: prefeito Cesar Maia, cadê o dinheiro da Dengue?
Será devolvido? Quem será responsabilizado pelas mortes que acontecerem entre os
2.912 casos de janeiro de 2008, que por pouco não superaram a soma de todos os
meses de janeiro, de 2003 a 2007 (!)? Cadê o bom administrador que não consegue
gastar 23% do dinheiro da dengue (e de outros vetores, destaca-se) e desvia mais
de 6 milhões que deveriam ir para o combate ao mosquito?
Se alguém souber
o paradeiro do dinheiro, favor informar. Aguardamos a resposta do prefeito, que
pode ser enviada junto com as sugestões para pa...@consciencia.net
Leia aqui a reportagem sobre os
recursos da dengue e o relatório do Tribunal de Contas, ou leia abaixo.
PREFEITURA DO RIO
FALHA NO COMBATE AO MOSQUITO DA DENGUE, APONTA TRIBUNAL DE
CONTAS
Desvio de recursos do Ministério da Saúde,
ineficiência do inseticida, danos à saúde da população e ao meio ambiente,
péssimas condições de infra-estrutura, má gestão dos recursos e morosidade na
obtenção de resultados dos exames sorológicos são algumas das observações de um
relatório recente elaborado pelo Tribunal de Contas do Município do Rio de
Janeiro sobre o combate ao mosquito da dengue na cidade. Por Gustavo Barreto,
24/01/08.
O Relatório de Inspeção Ordinária na Secretaria Municipal
de Saúde do Rio de Janeiro, de julho de 2007, conclui por exemplo que a
Prefeitura desviou recursos do combate ao mosquito da dengue para fins alheios
(ver mais abaixo) e nem sequer regulamentou a Coordenação de Controle de
Vetores, vinculada à Superintendência de Vigilância à Saúde e responsável pelas
dez divisões de controle de vetores.
"Não houve publicação no Diário
Oficial, constituindo o setor. Em função disso, criam-se obstáculos para a
comunicação com outros órgãos, como a expedição de documentos oficiais, e
entraves para o bom funcionamento de uma estrutura mínima administrativa, como a
obtenção de cartuchos para impressão para consumo próprio. Além disso, faltam
setores de apoio técnico, como os de orçamento, o que tem limitado a atuação
desta Coordenação".
Discurso
dúbio
A Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde
informou que o Brasil registrou 536.519 casos de dengue entre janeiro e novembro
de 2007, com 1.273 confirmados para dengue hemorrágica e 136 mortes. Neste mesmo
ano, foram registrados 29 mortes e mais de 60 mil casos da doença no estado do
Rio de Janeiro – o dobro do número observado em 2006. Há uma grande concentração
de focos da doença na capital.
Enquanto a Prefeitura, por meio do
coordenador de controle do vetor da Secretaria de Saúde do município, Mauro
Blanco, afirma à imprensa que "é importante ressaltar que a participação da
população é fundamental", pois "de 80% a 90% de criadouros do mosquito da dengue
estão dentro de casa, no ambiente de trabalho, nas áreas comuns dos
condomínios", a versão relatada para o Tribunal de Contas do Município (TCM) é
outra.
Uma reclamação incluída pelo TCM no relatório questiona se há
respaldo técnico ou alguma documentação para validar a forma como vem sendo
feitas as visitações dos agentes e acusa que o método não privilegia todas as
residências infestadas.
A resposta dos próprios relatores do Tribunal de
Contas informa que o método de trabalho da Secretaria Muncipal de Saúde (SMS)
está descrito no item 4.6.2 e é denominado "Lupa", em referência ao instrumento
que amplia imagens. "(...) O método parte do princípio de que os casos da doença
ocorrem em locais onde estão localizados macrofocos de mosquitos, tais como em
praças, terrenos e piscinas não tratadas. Os microfocos residenciais não são
considerados como de grande influência na ocorrência de casos".
Blanco,
ao mesmo tempo em que diz para a imprensa que "de 80% a 90% de criadouros do
mosquito da dengue estão dentro de casa, no ambiente de trabalho, nas áreas
comuns dos condomínios", diz para o Tribunal de Contas e para os agentes
sanitários que "os microfocos residenciais não são considerados como de grande
influência na ocorrência de casos".
Índices de infestação assustam
Na página
10 do relatório - disponível a qualquer cidadão comum na Internet (ver no final da matéria) -, o TCM explica que
o índice de infestação predial é a relação expressa em porcentagem entre o
número de imóveis positivos (onde foram encontradas formas imaturas do mosquito)
e o número de imóveis pesquisados. Segundo o Ministério da Saúde, índices de
infestação acima de 1,0 indicam alerta e índices acima de 3,9 indicam risco de
surto da doença. "Observa-se que os índices de infestação no Município são muito
superiores ao preconizado pelo Ministério da Saúde chegando na Divisão V (Méier,
Lins de Vasconcelos, Piedade), 17 vezes acima do nível considerado como de
alerta", dizem os relatores.
No entanto, o TCM observa que, pelas
informações obtidas, "aparentemente não há relação direta entre o número de
casos de dengue e o índice de infestação predial", já que a referida área, com
altíssimo índice de infestação, não tem ocorrência de casos significativos,
enquanto na CAP 5.2 (região de Campo Grande, Guaratiba, Inhoaíba) e na CAP 5.3
(região de Santa Cruz, Sepetiba, Paciência) ocorrem muitos casos, com
relativamente baixos índices de infestação. A diferença pode estar no número
pequeno de agentes sanitários, o que dificultaria um estudo mais amplo do
problema.
Recursos
desviados
Outra situação recorrente que chamou a atenção dos
relatores do Tribunal de Contas foi o desvio dos recursos remetidos pelo
Ministério da Saúde para o combate aos vetores. Segundo o relatório, no
exercício de 2006, 23% do recurso transferido no próprio exercício (até
dezembro), por meio da rubrica Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (TFVS),
não foram liquidados (utilizados) pela Prefeitura.
Um montante de
aproximadamente cinco milhões e meio de reais deixaram de ser utilizados,
considerando-se a parcela transferida já no mês de janeiro, referente ao mês de
dezembro de 2006. "Mesmo os recursos utilizados não foram totalmente aplicados
adequadamente", completam os relatores. "Ao analisar as despesas efetuadas no
programa de trabalho específico, elencadas no quadro analítico da execução
orçamentária, observam-se despesas não relacionadas com sua
finalidade".
Segundo foi apurado, pouco mais de 372 mil reais foram
utilizados para "Locação de ambulâncias para a Rede Municipal de Saúde", em
favor das empresas Star Assistance Emergências Médicas Ltda, Savior Medical
Service Ltda e Toesa Service Ltda (notas de empenho 2006/2089, 2006/2089 e
2006/4851, respectivamente).
Mais de 5 milhões e 800 mil reais para
"Serviço de higiene hospitalar e gestão interna de resíduos sólidos", em favor
da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (mais famosa como Comlurb). Mesmo que,
conforme destacado, a Comlurb seja acionada para a remoção de macrofocos do
mosquito da Dengue, será que justifica todo esse montante de recursos
empenhados?
De qualquer forma, o Ministério da Saúde veda a aplicação dos
recursos referentes ao TFVS em atividades de assistência médica, contratação de
recursos para desenvolver ações ou atividades de assistência médica e, também,
para compra de inseticida, imunobiológicos, medicamentos e kits de laboratório,
que são materiais considerados insumos estratégicos, com aquisição garantida
pelo próprio Ministério.
"Considerando-se as deficiências de
infra-estrutura das instalações das Divisões de Controle de Vetores, dos
Serviços de Epidemiologia e da Gerência de Consultoria Técnica, não justificar a
não utilização, pela Secretaria, de todos os recursos repassados pelo Governo
Federal pelo Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (...) Da mesma forma, não
justifica a utilização de parte desses recursos em aplicações não afetas à
finalidade específica da vigilância em saúde, conforme vedado pelo Ministério da
Saúde".
Os municípios são responsáveis, de acordo com o Plano Nacional de
Controle da Dengue (PNCD), instituído em 24/07/2002, pela notificação de casos
de dengue; investigação epidemiológica de casos notificados, surtos e óbitos por
dengue; busca ativa de casos de dengue nas unidades de saúde; coleta e o envio,
aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública, de material de suspeitos de dengue
para diagnóstico e/ou isolamento viral, conforme Guia de Vigilância
Epidemiológica da Dengue; levantamento do índice de infestação; execução de
ações de controle mecânico, químico e biológico do mosquito; capacitação de
recursos humanos para execução do programa; e estruturação dos núcleos de
Epidemiologia municipais, agregando as ações de vigilância de casos,
entomológica, laboratorial e as operações de campo; entre outras
responsabilidades especificadas na página 15 do relatório do TCM.
Atraso no resultado dos exames
O
relatório também destaca o enorme tempo de demora para se obter resultados dos
exames sorológicos, feitos pelo Laboratório Central de Saúde Pública Noel
Nutels, vinculado à Secretaria Estadual de Saúde. Conforme mostra o Ttribunal de
Contas, havia exames de casos suspeitos do Centro Municipal de Saúde Manoel José
Ferreira dos meses de março e maio de 2007 para os quais em julho de 2007 ainda
não havia diagnóstico. Alguns casos de fevereiro foram diagnosticados em maio (3
meses de intervalo).
Na pesquisa realizada, somente um exame teve retorno
em menos de 30 dias, enquanto que no sistema privado o resultados chegam em 7
dias, em média. "Se um paciente contrai determinado tipo de dengue e só vai ser
conhecido o diagnóstico dois ou três meses depois, ocorre uma deficiência que
pode influir na correta tomada de decisão para as ações de bloqueio e controle
da infecção". O relatório aponta que esta é uma deficiência que tornaria, por
exemplo, mais fácil o ingresso do Dengue 4 no Rio (este sorotipo do vírus ainda
não foi encontrado no Brasil).
Oficialmente, Coordenação de Controle de Vetores não
existe
Para se ter uma pequena idéia do descaso da Prefeitura com
a questão, a Coordenação de Controle de Vetores da Prefeitura, parte da
Superintendência de Vigilância à Saúde e que coordena o trabalho das dez
divisões de controle de vetores, não existe direito, apenas de fato. "Não houve
publicação no Diário Oficial, constituindo o setor. Em função disso, criam-se
obstáculos para a comunicação com outros órgãos, como a expedição de documentos
oficiais, e entraves para o bom funcionamento de uma estrutura mínima
administrativa, como a obtenção de cartuchos para impressão para consumo
próprio. Além disso, faltam setores de apoio técnico, como os de orçamento, o
que tem limitado a atuação desta Coordenação".
Além disso - talvez por
falta do dinheiro que acabou na Comlurb e para o aluguel de ambulâncias -, o
Tribunal de Contas observa que as divisões visitadas, assim como a gerência de
consultoria técnica, não possuem uma boa infra-estrutura em equipamentos e de
condições de trabalho. "Os principais pontos observados foram os equipamentos de
informática, como computadores e impressoras, antigos e com poucos recursos,
quando não quebrados; falta de máquinas copiadoras e falta de material de
consumo, como cartuchos de impressora", aponta o relatório.
Também há
grande carência na área de telefonia: "Na Sexta Divisão há somente um telefone
celular oficial, e nenhum telefone fixo. A Divisão I e a Consultoria Técnica,
que compartilham um prédio em São Cristóvão, contam ambas com apenas uma mesma
linha telefônica" (página 25). Os formulários referentes ao serviço antivetorial
e de pesquisa entomológica, realizados pelos agentes, são digitados nas divisões
e entregues pessoalmente na Coordenadoria, em disquetes.
Postos de abastecimento sofrem com descaso
Os
agentes sanitários atuam em "grupos de campo", com um supervisor, e ficam
instalados em "postos de abastecimento" (PA), que podem ser "associações de
moradores, clubes, igrejas, escolas, postos de saúde municipais, regiões
administrativas e outros locais com disponibilidade para tal". Em alguns locais,
a permissão para instalação do posto é conseguida informalmente pelo próprio
supervisor de campo.
O relatório do TCM aponta que alguns desses postos
são bastante precários, com pouca infra-estrutura. "Não há local para os agentes
trocarem de roupas, ou armários para a guarda de seus trajes. Eles, portanto,
vêm uniformizados para o local de trabalho e da mesma forma retornam a casa".
Segundo os relatores, há intenção da SMS de alocar esses postos de abastecimento
em unidades de saúde municipais, porém "nem todas possuem instalações
disponíveis".
Na imagem acima, posto de abastecimento em Santa Margarida, próximo a Campo Grande: insalubridade e o armazenamento inadequado de produtos tóxicos prejudicam saúde dos agentes sanitários
O relatório informa ainda que os
agentes "executam suas tarefas, em geral, a pé ou por meios próprios, como
bicicletas", de modo que "os logradouros sob sua responsabilidade não podem ser
muito distantes do respectivo posto". A Coordenação de Controle de Vetores
informou ao Tribunal de Contas que já solicitou a compra de repelente de
insetos, essenciais para os agentes sanitários, mas não foi
atendida.


