Desvio de recursos do Ministério da Saúde, ineficiência
do inseticida, danos à saúde da população e ao meio ambiente, péssimas condições
de infra-estrutura, má gestão dos recursos e morosidade na obtenção de
resultados dos exames sorológicos são algumas das observações de um relatório
recente elaborado pelo Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro sobre o
combate ao mosquito da dengue na cidade. Por Gustavo Barreto, da Redação
Consciência.NetO Relatório de Inspeção Ordinária na Secretaria
Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, de julho de 2007, conclui por exemplo que
a Prefeitura desviou recursos do combate ao mosquito da dengue para fins alheios
(
ver mais abaixo) e nem sequer regulamentou a Coordenação de Controle de
Vetores, vinculada à Superintendência de Vigilância à Saúde e responsável pelas
dez divisões de controle de vetores.
“Não houve publicação no Diário
Oficial, constituindo o setor. Em função disso, criam-se obstáculos para a
comunicação com outros órgãos, como a expedição de documentos oficiais, e
entraves para o bom funcionamento de uma estrutura mínima administrativa, como a
obtenção de cartuchos para impressão para consumo próprio. Além disso, faltam
setores de apoio técnico, como os de orçamento, o que tem limitado a atuação
desta Coordenação”.
Discurso
dúbioA Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde
informou que o Brasil registrou 536.519 casos de dengue entre janeiro e novembro
de 2007, com 1.273 confirmados para dengue hemorrágica e 136 mortes. Neste mesmo
ano, foram registrados 29 mortes e mais de 60 mil casos da doença no estado do
Rio de Janeiro – o dobro do número observado em 2006. Há uma grande concentração
de focos da doença na capital.
Enquanto a Prefeitura, por meio do
coordenador de controle do vetor da Secretaria de Saúde do município, Mauro
Blanco,
afirma à imprensa que “é importante
ressaltar que a participação da população é fundamental”, pois “de 80% a 90% de
criadouros do mosquito da dengue estão dentro de casa, no ambiente de trabalho,
nas áreas comuns dos condomínios”, a versão relatada para o Tribunal de Contas
do Município (TCM) é outra.
Uma reclamação incluída pelo TCM no relatório
questiona se há respaldo técnico ou alguma documentação para validar a forma
como vem sendo feitas as visitações dos agentes e acusa que o método não
privilegia todas as residências infestadas.
A resposta dos próprios
relatores do Tribunal de Contas informa que o método de trabalho da Secretaria
Muncipal de Saúde (SMS) está descrito no item 4.6.2 e é denominado “Lupa”, em
referência ao instrumento que amplia imagens. “(...) O método parte do princípio
de que os casos da doença ocorrem em locais onde estão localizados macrofocos de
mosquitos, tais como em praças, terrenos e piscinas não tratadas. Os microfocos
residenciais não são considerados como de grande influência na ocorrência de
casos”.
Blanco, ao mesmo tempo em que diz para a imprensa que “de 80% a
90% de criadouros do mosquito da dengue estão dentro de casa, no ambiente de
trabalho, nas áreas comuns dos condomínios”, diz para o Tribunal de Contas e
para os agentes sanitários que “os microfocos residenciais não são considerados
como de grande influência na ocorrência de casos”.
Índices de infestação assustamNa página
10 do relatório - disponível a qualquer cidadão comum na Internet (
ver no final da matéria) -, o TCM explica que
o índice de infestação predial é a relação expressa em porcentagem entre o
número de imóveis positivos (onde foram encontradas formas imaturas do mosquito)
e o número de imóveis pesquisados. Segundo o Ministério da Saúde, índices de
infestação acima de 1,0 indicam alerta e índices acima de 3,9 indicam risco de
surto da doença. “Observa-se que os índices de infestação no Município são muito
superiores ao preconizado pelo Ministério da Saúde chegando na Divisão V (Méier,
Lins de Vasconcelos, Piedade), 17 vezes acima do nível considerado como de
alerta”, dizem os relatores.
No entanto, o TCM observa que, pelas
informações obtidas, “aparentemente não há relação direta entre o número de
casos de dengue e o índice de infestação predial”, já que a referida área, com
altíssimo índice de infestação, não tem ocorrência de casos significativos,
enquanto na CAP 5.2 (região de Campo Grande, Guaratiba, Inhoaíba) e na CAP 5.3
(região de Santa Cruz, Sepetiba, Paciência) ocorrem muitos casos, com
relativamente baixos índices de infestação. A diferença pode estar no número
pequeno de agentes sanitários, o que dificultaria um estudo mais amplo do
problema.
Recursos
desviadosOutra situação recorrente que chamou a atenção dos
relatores do Tribunal de Contas foi o desvio dos recursos remetidos pelo
Ministério da Saúde para o combate aos vetores. Segundo o relatório, no
exercício de 2006, 23% do recurso transferido no próprio exercício (até
dezembro), por meio da rubrica Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (TFVS),
não foram liquidados (utilizados) pela Prefeitura.
Um montante de
aproximadamente cinco milhões e meio de reais deixaram de ser utilizados,
considerando-se a parcela transferida já no mês de janeiro, referente ao mês de
dezembro de 2006. “Mesmo os recursos utilizados não foram totalmente aplicados
adequadamente”, completam os relatores. “Ao analisar as despesas efetuadas no
programa de trabalho específico, elencadas no quadro analítico da execução
orçamentária, observam-se despesas não relacionadas com sua
finalidade”.
Segundo foi apurado, pouco mais de 372 mil reais foram
utilizados para "Locação de ambulâncias para a Rede Municipal de Saúde", em
favor das empresas Star Assistance Emergências Médicas Ltda, Savior Medical
Service Ltda e Toesa Service Ltda (notas de empenho 2006/2089, 2006/2089 e
2006/4851, respectivamente).
Mais de 5 milhões e 800 mil reais para
"Serviço de higiene hospitalar e gestão interna de resíduos sólidos", em favor
da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (mais famosa como Comlurb). Mesmo que,
conforme destacado, a Comlurb seja acionada para a remoção de macrofocos do
mosquito da Dengue, será que justifica todo esse montante de recursos
empenhados?
De qualquer forma, o Ministério da Saúde veda a aplicação dos
recursos referentes ao TFVS em atividades de assistência médica, contratação de
recursos para desenvolver ações ou atividades de assistência médica e, também,
para compra de inseticida, imunobiológicos, medicamentos e kits de laboratório,
que são materiais considerados insumos estratégicos, com aquisição garantida
pelo próprio Ministério.
“Considerando-se as deficiências de
infra-estrutura das instalações das Divisões de Controle de Vetores, dos
Serviços de Epidemiologia e da Gerência de Consultoria Técnica, não justificar a
não utilização, pela Secretaria, de todos os recursos repassados pelo Governo
Federal pelo Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (...) Da mesma forma, não
justifica a utilização de parte desses recursos em aplicações não afetas à
finalidade específica da vigilância em saúde, conforme vedado pelo Ministério da
Saúde”.
Os municípios são responsáveis, de acordo com o Plano Nacional de
Controle da Dengue (PNCD), instituído em 24/07/2002, pela notificação de casos
de dengue; investigação epidemiológica de casos notificados, surtos e óbitos por
dengue; busca ativa de casos de dengue nas unidades de saúde; coleta e o envio,
aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública, de material de suspeitos de dengue
para diagnóstico e/ou isolamento viral, conforme Guia de Vigilância
Epidemiológica da Dengue; levantamento do índice de infestação; execução de
ações de controle mecânico, químico e biológico do mosquito; capacitação de
recursos humanos para execução do programa; e estruturação dos núcleos de
Epidemiologia municipais, agregando as ações de vigilância de casos,
entomológica, laboratorial e as operações de campo; entre outras
responsabilidades especificadas na página 15 do relatório do TCM.
Atraso no resultado dos examesO
relatório também destaca o enorme tempo de demora para se obter resultados dos
exames sorológicos, feitos pelo Laboratório Central de Saúde Pública Noel
Nutels, vinculado à Secretaria Estadual de Saúde. Conforme mostra o Ttribunal de
Contas, havia exames de casos suspeitos do Centro Municipal de Saúde Manoel José
Ferreira dos meses de março e maio de 2007 para os quais em julho de 2007 ainda
não havia diagnóstico. Alguns casos de fevereiro foram diagnosticados em maio (3
meses de intervalo).
Na pesquisa realizada, somente um exame teve retorno
em menos de 30 dias, enquanto que no sistema privado o resultados chegam em 7
dias, em média. “Se um paciente contrai determinado tipo de dengue e só vai ser
conhecido o diagnóstico dois ou três meses depois, ocorre uma deficiência que
pode influir na correta tomada de decisão para as ações de bloqueio e controle
da infecção”. O relatório aponta que esta é uma deficiência que tornaria, por
exemplo, mais fácil o ingresso do Dengue 4 no Rio (este sorotipo do vírus ainda
não foi encontrado no Brasil).
Oficialmente, Coordenação de Controle de Vetores não
existePara se ter uma pequena idéia do descaso da Prefeitura com
a questão, a Coordenação de Controle de Vetores da Prefeitura, parte da
Superintendência de Vigilância à Saúde e que coordena o trabalho das dez
divisões de controle de vetores, não existe direito, apenas de fato. “Não houve
publicação no Diário Oficial, constituindo o setor. Em função disso, criam-se
obstáculos para a comunicação com outros órgãos, como a expedição de documentos
oficiais, e entraves para o bom funcionamento de uma estrutura mínima
administrativa, como a obtenção de cartuchos para impressão para consumo
próprio. Além disso, faltam setores de apoio técnico, como os de orçamento, o
que tem limitado a atuação desta Coordenação”.
Além disso - talvez por
falta do dinheiro que acabou na Comlurb e para o aluguel de ambulâncias -, o
Tribunal de Contas observa que as divisões visitadas, assim como a gerência de
consultoria técnica, não possuem uma boa infra-estrutura em equipamentos e de
condições de trabalho. “Os principais pontos observados foram os equipamentos de
informática, como computadores e impressoras, antigos e com poucos recursos,
quando não quebrados; falta de máquinas copiadoras e falta de material de
consumo, como cartuchos de impressora”, aponta o relatório.
Também há
grande carência na área de telefonia: “Na Sexta Divisão há somente um telefone
celular oficial, e nenhum telefone fixo. A Divisão I e a Consultoria Técnica,
que compartilham um prédio em São Cristóvão, contam ambas com apenas uma mesma
linha telefônica” (página 25). Os formulários referentes ao serviço antivetorial
e de pesquisa entomológica, realizados pelos agentes, são digitados nas divisões
e entregues pessoalmente na Coordenadoria, em disquetes.
Postos de abastecimento
sofrem com descasoOs agentes sanitários atuam em “grupos de
campo”, com um supervisor, e ficam instalados em “postos de abastecimento” (PA),
que podem ser “associações de moradores, clubes, igrejas, escolas, postos de
saúde municipais, regiões administrativas e outros locais com disponibilidade
para tal”. Em alguns locais, a permissão para instalação do posto é conseguida
informalmente pelo próprio supervisor de campo.
O relatório do TCM aponta
que alguns desses postos são bastante precários, com pouca infra-estrutura. “Não
há local para os agentes trocarem de roupas, ou armários para a guarda de seus
trajes. Eles, portanto, vêm uniformizados para o local de trabalho e da mesma
forma retornam a casa”. Segundo os relatores, há intenção da SMS de alocar esses
postos de abastecimento em unidades de saúde municipais, porém “nem todas
possuem instalações disponíveis”.
Posto de abastecimento em Santa
Margarida, próximo a Campo Grande: insalubridade e o armazenamento inadequado de
produtos tóxicos prejudicam saúde dos agentes
sanitários
O relatório informa ainda que os
agentes “executam suas tarefas, em geral, a pé ou por meios próprios, como
bicicletas”, de modo que “os logradouros sob sua responsabilidade não podem ser
muito distantes do respectivo posto”. A Coordenação de Controle de Vetores
informou ao Tribunal de Contas que já solicitou a compra de repelente de
insetos, essenciais para os agentes sanitários, mas não foi
atendida.
Quadro
de funcionários é insuficienteA Coordenação de Controle de
Vetores possui 2.898 funcionários em seu quadro, sendo que 625 são da Funasa
(cedidos pelo Governo Federal) e não geram ônus para o Município - este arca
apenas com o pagamento de cargos comissionados. Outros 788 são da Força
Nacional, foram usados apenas no contexto dos Jogos Pan-americanos e dispensados
após o evento.
Com isso, a Prefeitura é responsável por apenas metade dos
funcionários que atuaram no período analisado pelo Tribunal de Contas, de 2006 a
2007. Os 885 funcionários da Prefeitura foram admitidos “no único concurso
público para agente de controle de endemias realizado pela Secretaria Municipal
de Saúde”, pontua o relatório, e “ainda não há confirmação para realização de
novo concurso”, que segundo a Secretaria Municipal de Saúde foi
solicitado.
Outros 331 funcionários foram terceirizados pelo Contrato
nº114/2007, celebrado em 09/04/2007.
“Fumacê”: ruim sob todos os aspectosO
relatório também chama atenção para o fato de que “os agentes de campo estão
quase que diariamente em contato com produtos químicos e biológicos e, portanto,
sujeitos a doenças, principalmente as respiratórias e dermatológicas” e elogia
“a boa prática observada na terceira divisão de controle de vetores
correspondente aos bairros de Tijuca e Vila Isabel, de realizar exames médicos
periódicos anuais nos agentes”. No entanto, afirma que esta prática “deveria ser
acompanhada pelas demais divisões. Porém, pelo menos nas divisões visitadas,
isso não acontece”.
Na página 36 do relatório, o Tribunal de Contas do
Município informa que o inseticida a Ultrabaixo Volume (UBV) - popularmente
conhecido como “fumacê” - é considerado de pouca efetividade até pela própria
Coordenadoria de Controle de Vetores. E pior: faz mal à saúde da população e dos
possíveis predadores e, principalmente, ao agente sanitário, que está em contato
com a droga por mais tempo.
"[O inseticida] Tem o objetivo de atingir o
mosquito alado, mas além de não fazê-lo, pois a espécie se encontra geralmente
no interior dos imóveis, elimina seus possíveis predadores, como pássaros e
morcegos, e prejudica a saúde em geral da população, já que se trata de um
inseticida. Além disso, em áreas mais urbanizadas tem pouco alcance, já que
atinge apenas até o terceiro andar dos prédios”.
O Tribunal de Contas
problematiza: “A população, porém, identifica esse tipo de atuação como o
verdadeiro combate à dengue e o serviço continua sendo executado, principalmente
quando há ocorrência de mais de um caso de dengue em locais próximos,
significando a existência de mosquitos infectados no local”.
O relatório
informa que o produto Aquacel 20 causou reações nos pedestres, como vômito e
tosse, e que estava sendo esperado (em julho de 2007) um novo produto, Fersol
30. O fornecimento de todo inseticida e larvicida para combate ao vetor é de
atribuição do Governo Federal, não tendo o município nenhuma ingerência na sua
escolha.
O relatório na íntegra pode ser acessado
clicando aqui.
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