Ayun - Amor na língua Mapuche.

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Carlos Alberto Feitosa Perim

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Apr 2, 2011, 9:42:31 AM4/2/11
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A magia e o significado místico da palavra amor - Ayün - na Língua mapuche.

(PENROZ, Ziley Mora. PENROZ, Ziley Mora. Verdades Mapuches de alta magia para reencantar la tierra del Chille. Tenuco, Chile: Editorial "Kushe", 1989, epílogo, tradução de Wilson Coelho.).

Na maioria das civilizações antigas e das grandes culturas indígenas pré-colombianas ficaram vestígios de um conhecimento superior que englobava as leis fundamentais da pátria celeste de onde “desceram” os homens. E esta “comunicação estelar” ficou condensada em umas quantas sonoridades, em algumas “palavras de poder” que evocam ainda o vislumbre de uma passada grandeza. E ayün, “amor”, é uma típica palavra daquelas que poderíamos designar como “palavras-universo”. Pois se dá o caso, em vocábulos de nossos ancestrais idiomas pré-colombianos assim como no alvorecer de nossas velhas línguas greco-latinas e indo-europeias, de palavras que encerram noções de tal profundidade e amplitude que a posteriori seus abigarrados e fecundos significados terminam por coincidir com os limites dos vastos conceitos do todo universal. Parecia ser que o verdadeiro castigo à humanidade, a sanção divina mais trágica que se haja merecido o homem, foi aquela que se produziu no instante que um homem, um espírito encarnado, repetiu mecanicamente um som assinalando com ele uma coisa a modo de um código arbitrário, esquecendo-se de si mesmo e cegando-se à luz que emanava desse som mágico articulado por uma língua humana. Quando a palavra deixou de ser transparente às infinitas ressonâncias do mundo interno e às infinitas compreensões do cosmos, vindas “abruptamente” à consciência no instante de enunciá-las, ali se deu lugar à degeneração da espécie humana, ali se produziu o pecado original, e a confusão de Babel. Quando se perdeu a fala consciente, ali o Verbo deixou de ser poderoso e criador e ali o homem retrocedeu um grau em sua categoria evolutiva tornando-se indigno de seu nome.

Todas as palavras e os significados que estruturam as noções e conceitos da língua mapuche surgem vinculados aos mais sugestivos elementos da Natureza e “inesperadamente” associados a realidades muito vividas e concretas. Na verdade, falar em mapudungún com relativa consciência do significado é fazer falar à sinfonia dos elementos da água, da terra, do céu, do fogo, e é fazer falar e intervir na ponta da língua todas as realidades do mundo intrapsíquico dos falantes. Portanto, pronunciar uma palavra indígena equivale a por à dançar todas as coisas: todo som articulado é uma energia invocadora de movimento, cujas ondas centrifugas terminariam por afetar até as bordas mais distantes do universo. Com maior razão isto ocorre se trata-se da palavra ayün (ou aiñ): “amor”.

Digamos em primeiro lugar que o termo ayün em mapudungún não tem sinônimos ao modo como no castelhano [ou português] assinalamos ao amor, trocando-o por outros termos, como “afeto”, “querer”, “apreço”. Aqui, amor – ayün – é exatamente o que significa: amor (já veremos o que é) e não outra coisa parecida, porque se é parecido tem outro nome não substituível como sinônimo. A esse respeito, convém citar a opinião autorizada do poeta mapuche e professor de mapudungún Leonel Lienlaf. Que nos sirva para recordar que se estamos falando do amor estamos nos referindo ao “amor” e não a algo distinto:

O mapudungún não necessita de sinônimos porque cada palavra é um mundo, cada palavra é em si mesma um poema. Os sinônimos se tem feito para matar o idioma. E com a explicação (que fazem os sinônimos) não se entende: não se pode entender com explicações. O idioma pode ser mais rico com mais palavras, mas não com mais sinônimos”. ()

Portanto, aqui não se explicará o significado da palavra amor segundo a língua mapuche, porque se a explicássemos, estaríamos explicando algo muito diferente e sem a mínima capacidade de entendimento do que estamos afirmando. Aqui, só demonstraremos as raízes, as finas conexões que um vocábulo tem com outros, suas afinidades mútuas, outras pistas insinuantes, que nos vão revelando o sentido perdido que concorreu ancestralmente no nascimento da palavra.

Ayün ou aiñ encerra três noções básicas em sua raiz. Significa “beleza”, “um tipo especial de luz” e “transparência”.

Está diretamente entroncada com sua matriz, o vocábulo aywon (também ayon) que por sua vez significa “nascimento da luz” ou, literalmente, “luz que olha” (o amor seria uma clarividência lúcida e não uma cegueira passional). Também aywon, raiz direta de ayün se traduz, em algumas zonas da Araucânia, como “amanhecer”, “sol nascente” e em outras, com esta palavra se designa a qualidade transparente do vidro e dos cristais e, muito particularmente, a superfície dos espelhos. Seria o tipo de luz que espelha nas águas transparentes e que tem a virtude de desenvolver a imagem. Note-se, portanto, as primeiras firmes e claras estruturas que vão configurando a perdida noção de “amor”. Nos referimos aos elementos implícitos subjacentes a estas velhas palavras do homem americano. O amor seria uma forma de iluminação solar, uma sorte de amanhecer para o espírito, uma espécie de recuperação da aurora interna, um estado de renascimento esperançoso (como o é toda madrugada) onde a claridade das certezas traspassam a realidade e fazem transparente a opacidade artificial das coisas. O que ama, aquele que se faz enamorado, é dizer aquele que deixou amanhecer seu sol interno despejando as sombras de sua noite, vê no outro e nas outras coisas, a maravilha de suas próprias luzes irradiantes, assim como a clara verdade de si mesmo vista e posta diante de si. É aquele que contempla e aprende de sua própria natureza ao vê-la espelhada na superfície dos outros, que não fazem outra coisa que falar-lhe de si mesmo para situá-lo no correto lugar em seu afã de perfeição. Ademais, tal estado de auto-observação através do “sentimento espelho”, conduziriam ao amante à total abertura, a uma humilde sinceridade interna, a um estado de total transparência. E esta transparência o moverá desde dentro a uma verdadeira entrega. Finalmente, tal entrega o tornará compacto e irredutível como o cristal. Por que quem o poderia arrebatar ou matar à essência de um cristal aliado ao poder do sol nascente?

Outra forma de aprofundar na entranha do significado, outra alternativa de iluminar a compreensão desta palavra prodigiosa, é optar e tentar esclarecer a noção oposta, que nega o que afirma como amor.

Em mapudungún a negação do amor, o enunciado “não (há) amor”, “não (te) amo”, “não tenho amor (para ti)” se transcreve como ñelay ayün. Literalmente significa “morreram meus olhos para a visão de tua luz”, sendo esta uma tradução etimológica e não poética, pois ñe (ou nge) é “olho” e lay (do verbo lan) “morte”. Digamos de repente que outro rasgo mais que notável nesta língua e cultura pré-colombiana, é a ausência da negação, a inexistência do “não” no abundante e preciso léxico mapuche. Sub-jaz neste antecedente a noção do “tudo pode ser possível”, dado que nem sequer a nível da linguagem se contempla ou se concebe a negação de algo.

Tudo teria, na base, um arranque otimista; até os mitos mais deslumbrantes e aparentemente inverossímeis aparecem assim impregnados de possibilidade real e de afirmatividade. Pense-se, por exemplo, em uma criança que jamais escutou um “não” da boca de seus pais ou um “impossível”: jamais poderia amadurecer nele a dúvida que não fosse possível alcançar a altura e luminosidade da Via Láctea se ele obedece a dura escola da honra guerreira. Porque em seus ouvidos, sempre plenos de may (“sim”), o Grande Rio de Estrelas são os fogos que acendem o amor incandescente do maior e arcaico herói da raça. Ñelay ayün, por outro lado, nem sequer afirma “tenho morto meu olhar à perfeição da luz” ou à “visão do amor e a beleza”, senão que simplesmente deixa a constância que “(por agora) meus olhos estão dormidos à revelação da luz”, podendo estes, num momento futuro, deixar de estar nessa situação, dado que dormir pode ser um estado passageiro e temporal da consciência. (A respeito, pensa-se nesta outra grande avenida de sabedoria que vem a traduzir a negação mapuche, o ñelay, como “dormir”, “inconsciência”, “perda do alerta vigílico”. O sonho é a imagem da morte, o dormir é uma espécie de “pequena morte”.).

Em consequência, a forma mais estritamente literal para traduzir a “tragédia” espiritual e afetiva de haver perdido ou não ter amor e assumir na linguagem “eu não te amo”, “não há agora mais amor para ti”, é, segundo as raízes assinaladas: “meus olhos dormiram (sofrem o transe passivo da morte) para a visão de tua luz transparente”. É tão profunda, honesta e comovedora esta fórmula que se alguém, com plena consciência do que afirma, logo ao anunciá-la e no instante de afirmá-la, poderia já estar desdizendo-se e começaria, ipso facto, a recuperar a mesma capacidade de amor que disse haver perdido.

Porque o ñelay ayün, o morrer-se de seus olhos à beleza luminosa que irradiam todos os seres, vulneraria a quem a diz, o chegaria como uma autocrítica fria e dura, seria a chicotada violenta de uma falsa impostura frente ao real, o voltaria ao rosto como uma molesta sensação de não estar em sintonia com a verdade do universo; pois todos os seres do cosmos brilham, irradiam um tipo de luz; é dizer, são “amáveis”. Todas as coisas são dignas de amor no momento que elas existem, e seu ser último não é nada mais que uma forma de condensação de energia radiante.

Deixamos constância da ausência do “não” na cultura mapuche. Portanto, não poderia haver algo oposto absolutamente à realidade do amor. É inconcebível pensar em um antônimo, em um termo oposto ao amor. Porque por mais distante dele, será sempre uma diferença de grau, mas não de natureza, a distância existente entre – por exemplo – “amor” e “ódio”, entre “amor”: ayün e “não amor”: ñelay ayün.

Esta particularidade ficará claramente manifesta ao revisar, o também enormemente sugestivo e enriquecedor sentido da semântica arcaica do termo composto em mapudungún, ayiwiyengu, “enamorar-se”. Esta palavra clarifica e complementa o significado já descrito e estabelecido. Ayiwiyengu, que se deriva de ayün é, segundo seu sentido literal, “se desprenderam os dois de si mesmos”: ambos amantes – tendo-se e vendo-se ante a luz mútua que refletem e espelham seus rostos – “se foram os egos e são um”. Segundo precisão de um especialista indígena na língua (), a expressão indica que os enamorados alcançam a unidade, configuram um novo ente, se querem “independente de suas personalidades” que ficam abandonadas para fazer possível esse milagre da unidade de duas essências. Este elevado conceito do amor de casal se vê melhor perfilado ainda revisando a noção oposta e contrária ao ayiwiyengu, noção que não é seu antônimo como já temos dito, senão um tipo de amor degradado, situado num nível mais baixo de qualidade e de “frequência vibratória”. Se trata da voz güllkun que tem três sugestivas possibilidades de tradução literal: “amar (me) muito a mim mesmo”, “abarcar-se muito”, “abarcar-me (eu) mais” e “enojar-se”: porque “amo” me “enojo”. É dizer, estamos frente ao típico e conhecido conceito de “amor ocidental” que inclui os níveis emocionais e primários da possessão, o egoísmo e os ciúmes.

No güllkun mapuche, a diferença do ayün, se observa a típica falta de liberdade e grandeza interna para permitir-lhe ser ao amado (a) e o desvio do impulso amatório que é saída de si mesmo, doação “para fora”, trocado em volta viciosa ao próprio ego: ao haver saturação dentro de um eu egoísta, ao não existir “saída” perde-se a capacidade de receber, não deixando-se espaços a serem “preenchidos”. E ali, todo movimento de natureza irradiante se torna lento, denso e gravemente obscuro.

Por isso, güllkun não tem nenhum parentesco nem fonético, nem fonológico com a transparente voz ayün, dado que as noções “luz do amanhecer” e “beleza” estão muito distantes da hipertrofia de opacidade de um ser que “engole” e não gera energia e, como dizia o já citado especialista em mapudungún, o poeta Lienlaf, “ayün, em troca, é fazer-se menor”. Vale dizer, enquanto mais despojados os amantes de suas couraças sugadoras, enquanto mais desprendidos de suas seguranças externas e mesquinhas, enquanto menores suas personalidades socializadas e condicionadas, maior possibilidade de geração de brilho, transparência e crescimento do foco interno e essencial do inche, o eu.

Diferenças de intensidade amatória ou de qualidade no amor é o que existe, portanto, nos respectivos vocábulos mapuches. Não há realidades de natureza oposta e diversa como as que se inferem espontaneamente em nossa cultura entre “amor” e “ódio”. O “ódio”, para a linguagem e cultura mapuche, não é nada mais que um ponto afastado, ou um polo distante do mesmo e único fenômeno de geração de luz, algo assim como a diferença entre o ultravioleta e o infravermelho dada no interior de um mesmo espectro de energia vibratória. É o que também ocorre com aywün, “sombra corporal”, intimamente aparentada com aywonnascimento da luz”, “Luz que vê”, raiz de nosso ayün.

A “sombra do corpo” – aywün – é o primeiro degrau para que um homem suba e se converta, ao final de suas existências, na “luz do espírito”, ayün. Fica mais nítido o sentido desta ideia ao revisar a palavra mapuche que vem a ser “ódio”: güden. Güden se decompõe em , “temor”, “medo”, e em den, sufixo do vocábulo küden, “fazer luz”; de onde se infere então um significado literal para güden: “temor à luz”; é dizer, uma forma de “ser sombra”. E isto seria “ódio” em mapudungún: uma resistência a produzir luz, uma espécie de “buraco negro” da alma que succiona e sepulta os raios luminosos de si mesma e de outras estrelas próximas.

Mas o mais provável é que tal “buraco negro” refratário à luz não seja mais que uma etapa – a última – antes que se converta em sol, em supernova, antes que “estoure” em luz, e volte ao pick de sua intensidade luminosa. Que estamos afirmando? Não outra coisa além de um desentranhar o perfil secreto e místico do conceito “amor” na língua mapuche, temos posto em destaque uma conclusão não pretendida ao início do capítulo: uma palavra também nos tem colocado nada menos que no nervo do conceito de Natureza da cultura e cosmovisão mapuche. A Natureza, para esta prodigiosa raça do velho Chile, não é o dialético mundo de Bem ou Mal, de Deus e homem, de espírito e matéria; não é o maniqueista e dicotômico mundo das oposições irreconciliáveis entre beleza e fealdade, entre masculino e feminino, entre anjos e demônios, entre pedras surdas e águias de ouro. Não, a Natureza é um só grande útero mais além do sagrado e o profano onde se incubam transformações e germinações que são processos, aspectos e momentos aparentemente diversos, mas idênticos e necessários em sua base única, como único é o substrato em que se nutre o “amor” (ayün) e o “ódio” (güden).

Advirta-se finalmente, que o significado vasto, profundo e pleno da voz ayün, contrasta com a pobreza semântica que nós, ocidentais contemporâneos, damos à manuseada palavra “amor”. Hoje este vocábulo não significa nada além de ser definido como “sentimento nobre” em uma de suas melhores acepções. Mas em termos comuns e frívolos, o amor hoje é um produto afetivo de certos calculados benefícios pessoais dados em transação, deixando constar que amor, na maioria das vezes, se entende como “fazer o amor”, é dizer, um intercâmbio hormonal no nível de corpos e glândulas. O mundo indígena mapuche do sul de Chile, em contraste, nos ensina que o amor diz relação mais bem com as alturas iluminadas do espírito que com o mero instinto químico dos corpos, mas com a paixão de ser e crescer “desde o sol nascente” que um puro sentimento do coração ou uma pura convulsão hormonal do sexo. Por suposto, que este último também o assume o conceito ayün toda vez que as asas do Espírito surgem desde o fogo da carne e do sangue, mas como um começo – unir os corpos é um instinto formoso, mas fácil – não como a essência final e última do amor onde o trabalho de “fazer-se luz” é o difícil e o sublime.

Por último, o ayün mapuche, nos prepara para compreender a maravilha final e também esquecida de nossa voz amor, nos desperta para recuperar a magia perdida de nossa própria palavra greco-latina. Amor, segundo uma tradicional etimologia europeia, significa “o que não conhece a morte” (do prefixo grego “a”: “sem” e do latino mors: “morte”). Portanto, o amar a alguém, o amar uma verdade, uma causa, uma terra, um ideal é a ocasião pela qual o espírito pode iluminar-se e ser capaz de vencer o buraco negro da morte. E se não é assim, se não conseguimos entender esta conexão com nossa linguagem, que a compreensão do ayün mapuche, ao menos nos deixe o hálito fugaz de uma possibilidade intemporal de amor à beleza.

 

Comunicação pessoal ao autor, explicação entregue como observação a uma classe de mapudungún, verificada em Temuco, aos 23 de outubro de 1989.

O escritor mapuche Leonel Lienlaf, professor de mapudungún e autor da obra: “Se ha despertado el ave de mi corazón” Ed. Universitária, 1989.

Carlos Alberto Feitosa Perim

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Apr 3, 2011, 4:45:04 PM4/3/11
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Não deixem de ler até o fim
entenda compo um povo tem uma lingua onde não existe a palavra não
Abraços fraternos
Carlos Perim
 

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Subject: [saberpolítica'847'] Ayun - Amor na língua Mapuche.
Date: Sat, 2 Apr 2011 10:42:31 -0300
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