Sobre o auê em torno da Etanolamina.
Gordinha ou Ex-Gorda:
Essa substância (Fosfatoetanolamina) não é remédio, do ponto de vista técnico-
médico-científico e, principalmente e por definição, do ponto de vista legal.
Trata-se de uma molécula natural, etanolamina, conhecida desde 1936, à qual se
agregou em laboratório um radical fosfórico (daí também ser chamada de sintética).
Por que não pode ser considerada um medicamento, como parece querer fazer
acreditar a reportagem (sensacionalista, fraca e nada informativa, por sinal)?
Não consta nenhum estudo com essa droga em qualquer das fases clínicas de
pesquisa de novos medicamentos, a saber, fases I, II ou III, etapas obrigatórias
de estudos in vivu, pelas quais têm que passar, em todo o mundo, todos as subs-
tâncias, sejam elas naturais ou sintéticas, que tenham mostrado indício e potencial
para se tornarem medicamentos novos e remédios de fato e de direito, porque é
longo o caminho entre a ideia e o medicamento disponível aos pacientes no mercado.
No mais das vezes, esse longo é medido em décadas.
Com o advento de doenças de forte apelo social, como a AIDS, houve uma certa
agilidade nos processos de desenvolvimento de novas drogas, principalmente no que
tange à burocracia oficial, mas os processos científicos rigorosos têm um ritmo de
maturação próprio que não permite queimar etapas. Todos os medicamentos hoje
disponíveis no mercado passaram pelo mesmo sistema, independentemente de como
surgiram como ideia ou esperança no início.
Ao cumprirem e passarem nos ensaios preclínicos: testes laboratoriais e de eficácia
(atividade contra tumores em ensaios in vitru, em cultura de células, em tecidos
tumorais e em modelos animais), a droga candidata a remédio precisa ser testada
quanto à segurança, dose ideal, efeitos adversos, farmacodinânica, interações com
outros medicamentos, contra indicações, e outros indicadores. Esta seria a Fase I
da etapa clínica. A maior parte das substâncias que passam da fase preclínica ficam
por aqui, por não conseguirem passar em todos esses testes controlados.
Somente após se mostrar viável (inclusive no processo de produção) é que o medica-
mento passa a ser testado em Fase II, em voluntários portadores da doença, selecio-
nados de acordo com o perfil e critérios de elegibilidade, dentre os quais exames de
imagem (tomografia, ressonância magnética) das lesões mensuráveis, para análise
de eficácia do tratamento. Aqui também muitos medicamentos fracassam.
A última etapa (fase III) antes da comercialização, corresponde aos testes compara-
tivos, onde o novo tratamento é comparado com o chamado padrão ouro, ou seja, o
melhor tratamento existente para o mesmo caso. Aqui, os resultados podem apontar
e consagrar um novo caminho ou descartar uma nova possibilidade.
Esta última etapa (fase III ou estudos de campo) tem sido objeto, nas duas últimas
duas décadas, da atividade profissional deste humilde esculápio que, por força de
laços familiares, também vem a ser um orgulhoso tio seu, assim como de muitos
outros sobrinhos queridos.
Toda essa lenga-lenga, além de denotar disposição e tempo propiciado por um bom
e providencial período de repouso acamado, tem o escopo de alertar a todos para as
soluções milagrosas que surgem de vez em quando, fazendo de famílias e portadores
de câncer e de outras doenças graves vítimas fáceis de charlatanismo e reféns das
notícias sensacionalistas.
Claro que todos procuram um porto seguro para as aflições e nada mais atraente do que
uma matéria apresentada com roupagem pseudocientífica.
Mas a mesma facilidade tecnológica que enseja a profusão de informações que inun-
dam os meios de comunicação pode ser prontamente usada contra o feiticeiro, ou a
própria feitiçaria.
Permite, por exemplo, procurar profissionais e centros especializados, pesquisar fontes
e informações oficiais, órgãos científicos e sociedades médicas da especiaidade, cen-
tros de pesquisa clínica, etc.
A primeira providência, em casos como este, é consultar a Anvisa, por exemplo.
A propósito, a própria USP se encarregou de botar os pingos nos iis, em nota oficial
onde esclarece os acontecimentos que geraram esse fusuê em torno da etanolamina,
cuja fosforilacão foi conseguida por um professor, ora aposentado, do Dpto. de Química
em São Carlos.
Aproveito para esclarecer outra conotação explorada na triste reportagem (para não usar
termos mais tentadores): a famigerada teoria da conspiração. Tenho dúvidas de que seja
possível desmistificar essa crença embora tenha certeza de que fácil não o é.
Digo isso porque escuto desde adolescente que a cura do câncer é mantida oculta a sete
chaves por força dos interesses da indústria farmacêutica. Não sei de onde partiu essa
enorme besteira, porque é de tal estultice que nunca resistiu ao menor esboço de lógica
primária.
Ora, com milhões e milhões de portadores de câncer, um gigantesco mercado mundial esperando avidamente novidades, de quem seria o maior interesse em soluções mais
efetivas?
E o que dizer do fato concreto de que as principais fontes de financiamento de pesquisas
contra o câncer originarem hoje em dia de fontes não governamentais, leia-se da própria indústria e do mercado mundial de capitais? Será que deu a louca no sisudo capital e nos
investidores e nos fundos de pensão mundo a fora, a tal ponto de sistematicamente irem
em busca do prejuízo e fugirem do lucro, objetivo maior e permanente de todo e qualquer investidor?
Ou será que seja possível existir alguém (descontando algum internado em clínica psiquiátri-
ca) que acredita que os remédios que toma para qualquer dos seus males tenham surgido do nada?
Mas tal sandice grassou a tal ponto, que só posso acreditar cada vez mais em J. G. Rosa que, em várias passagens e personagens, registrou a propensão e a força da necessidade atávica que temos de acreditar nas coisas por mais absurdas que pareçam, a tal ponto de transformar jagunços assassinos em cruzados, por acreditarem religiosamente estarem cumprindo missão superior. Isso para não falar nas crendices menores do dia a dia.
É muito mais fácil acreditar em bobagens do que enfrentar a realidade. Talvez venha também
daí, dessa tendência quase religiosa, a facilidade que temos em abraçar, defender e até mesmo adotar e incorporar ideologias tão retrógradas e atrasadas quanto risíveis, não fossem as graves consequências provocadas por muitas dessas loucuras registradas ao longo da história.
Bençôi,
Cláudio.
(Bacu, para os íntimos).