Enviado por luisnassif, ter, 04/01/2011 - 19:01
Por Fábio Souza
Eu fui conselheiro municipal de saúde durante os anos de 2007 a
2009. Coordenei a comissão de politicas de saúde e lá tentamos discutir
os contratos de gestão das OS. Numa leitura no âmbito da
administração, o orgão máximo de deliberação e fiscalização do SUS da
capital, nunca foi respeitado. Pelo contrário, nenhum contrato foi
aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde e o único espaço de controle é
da própria secretaria com as OS. Além do mais a Via Pública, uma OS
também, recebeu milhões de reais por ano para fazer esta interlocução, o
que deveria ser competência do poder público. Só para destacar o
Conselho Municipal de Saúde sempre foi contra as OS e é deliberação do
mesmo.
A atual gestão terceirizou inclusive a gestão
territorioal, ou seja, fragmentou não somente a administração dos
recursos públicos, mas a sua gestão. O que tem consequências sérias do
ponto de vista assistencial. Seria interessante avaliar se a população
feminina tem conseguido acessar os serviços contraceptivos nos
hospitais e serviços gerenciados por entidades religiosas, bem como as
entidades com interesses economicos que passam a administrar certos
serviços, como os de saúde mental atuando de forma contrária aos
princípios da reforma psiquiátrica.
Do ponto de vista assistencial o que tem-se assistido é um verdadeiro leilão do
trabalho
médico, cada OS disputa a tapa os médicos, principalmente do PSF,
então o que deveria ser uma política de vinculação do profissional
acaba virando uma colcha de retalhos. Detalhe falo porque não só sou um
ator político, mas porque uso o SUS de verdade e a unidade que costumo
ir em muitos momentos não tem médico, mas a prefeitura continua
recebendo verbas federais pelo PSF (recebe quase nada do Estado de SP,
uma merreca).
Por Giliate C. Coelho Neto
Caro Nassif e Fernando,
Acho preocupante o avanço das Organizações Sociais no SUS, e exponho os motivos.
Algumas OSs prestam serviço de boa qualidade, e é fato que os serviços públicos de saúde precisam
ganhar em eficiência.
Porém, se constituem como um forte estímulo à lógica concorrencial
entre os serviços do SUS, e isso, do ponto de vista de organização
inteligente do sistema, é bastante questionável. Por mais que uma OS não
possua, juridicamente, o objetivo do lucro monetário, me parece
factível que toda OS bem organizada vise uma expansão dos seus serviços
– ou seja, um lucro caracterizado por novos contratos com o Estado.
Nessa lógica, não é interessante ter concorrentes prestando bons
serviços – ou mesmo age para não ter concorrentes – pois isso pode vir a
interferir na expansão dos contratos.
É o mesmo modelo do setor privado da saúde. É como se o SUS fosse um
"plano de saúde público", que contrata serviços para prestarem
assistência a seus clientes/usuários. Isso vem acompanhado de efeitos
colaterais importantes. Para manter a rentabilidade do sistema, o setor
privado costuma buscar alternativas de restrição do acesso dos
usuários. Pois, baseado num sistema de práticas clínicas centradas no
consumo de procedimentos de alta complexidade, os planos de saúde tem
cada vez mais dificuldade de fechar suas contas.
Na iniciativa privada, isto também tem repercussões na distribuição
dos serviços no território, pois no momento que existem mais serviços
descentralizados, a possibilidade de aumento do acesso é grande, pelo
fato da população cada vez mais medicalizada e óbvio, pela facilidade
de deslocamento. Veja o exemplo da cidade do Recife, onde a maioria
dos hospitais e exames de alta complexidade estão concentrados em um
único bairro, a Ilha do Leite.
Na prática, são montados mini-sistemas de regulação dos serviços
gerenciados por cada OS´s. Uma mesma OS gere algumas UPAS e um hospital
de referência, o encaminhamento para esse hospital é prioritário para
as UPAS gerenciadas por essa OS. A gestão pública estatal vai se
esvaziando em poder de regulação, pois esta também é delegada. O sistema
perde a sua globalidade, e critérios de classificação de risco são
relativizados dependendo do serviço de origem de cada paciente.
De fato, o que está no cerne, na gênese, no coração da proposta de
Organizações Sociais é um profundo descrédito, com parcial razão, da
possibilidade do serviço público em prover serviços públicos
eficientes. A proposta passa, inclusive, pela absorção de setores
estatais completos por OS´s, inclusive do quadro de servidores públicos.
Vale ressaltar, ainda, que é considerável o número de contratos que
não prevê a obrigatoriedade de direitos trabalhista e muito menos Plano
de Cargos e Carreira (o que é inviável num sistema geridos por OSs). É
uma flexibilidade de contratação que tem uma convivência
relativamente tranqüila com a alta rotatividade de profissionais, pois
há pouco incentivo para o investimento do trabalhador na sua carreira.
Com um perfil epidemiológico cada vez mais caracterizado pelo aumento
de doenças crônicas na população, é um erro grosseiro não investir e
incentivar os profissionais a permanecerem a médio e longo prazo no
serviço. O hipertenso não acompanhado de forma longitudinal no decorrer
dos anos é o mesmo vai chegar com um derrame cerebral no serviço de
urgência, e elevar de forma significativa os custo do sistema - falo
isso para além do óbvio, que é o descaso ético e o descuidado com essas
pessoas, ao qual deveria ter assegurados seu direito à saúde.
Por fim, o estabelecimento de contratos de gestão/programa com
serviços de saúde, a gestão por metas e resultados, a flexibilização na
gestão contábil, dentre outras, não são - nem de longe - exclusivas das
OSs. Fazemos isso hoje nas Fundações Estatais, e dá pra fazer muita
coisa inclusive na administração direta.
Abraço,
Giliate Coelho Neto
Médico, gestor público da Fundação Estatal de Saúde da Família da Bahia
Também falo do ponto de vista estadual, pois onde moro, zona sul, tem
um hospital que queria ser o melhor hospital brasileiro público,
contudo hoje enfrenta os mesmos problemas de todos, sem vagas da UTI
pediátrica, mal atendimentoe longas esperas no PS. Falo isso porque uso
e não como alguém que com uma crise procura o PS dos hospitais do
Morumbi ou espigão da paulista.
Quanto as metas e valores são bem questionáveis, pois já vi muito
contrato de gestão que a meta combinada é menor do que a necessidade da
população, ai fica fácil até superar a meta, alias qualquer meta.
Agora isso é em todo o Estado de SP,as OS são as entidades que sempre
estiveram ali, recebendo convênios da prefeitura, que pega um serviço
reformado pela prefeitura e passam a receber recursos para
administra-los, quase um negócio de comadres.
Agora do ponto de vista jurídico, desde 2009, há discussão no
Ministério Público Federal, inclusive com sentença contrária a
prefeitura. Bem como o Ministério Público Estadual, e o grupo de ação
especial, GAESP, o grupo de saúde pública tem investigado os desmandos
da prefeitura de São Paulo em relação as OS.
Será desconhecimento do assunto ou será conflito de interesse? Acho
que podemos fazer um debate profundo sobre modelo de gestão, em
consonância com o modelo de assistência e o SUS que queremos, ou melhor,
podemos defender uma posição e isso não ser um problema, mas não dá
para desqualificar a crítica (de todo um movimento sanitário - CEBES,
ABRASCO, APSP) e diversas produções acadêmicas e movimentos sociais e
dizer que eles estão errados. sera?
COMISSÃO TÉCNICO CIENTÍFICA
» Dr. FERNANDO PROENÇA DE GOUVÊA
» Dra. MARIA LAURA DEORSOLA
» Dr. WALDEMAR MURAKAMI
» Dr. ANTONIO CLAUDIO DO A. BARUZZI
» Dr. OLMAR SALES LIMA
» Dr. FERNANDO BUENO PEREIRA LEITÃO
E agora é falta de conhecimento ou defesa de uma posição?
Este debate é fundamental, mas não é por ai. São Paulo tem um
orçamento de cercad e 4,5 bilhões de reais/ano, com mais de 1,3 bi do
governo federal, muito ou quase nada do ESTADO de SP. para repassar
milhões de reais por ano, sem fiscalização do Conselho Municipal de
Saúde.
OUtro problema é quanto o desmando em relação aos servidores público,
a cada ano a maioria dos trabalhadores são das OS, os servidores tem
sido colocados a disposição e desrespeitados pelas OS, inclusive a
prefeitura perseguindo as lideranças sindicais.
Acho que há outras críticas, inclusive ao modelo de Gestão público
estatal que podemos discutir. Principalmente a partir de que SUS nós
queremos, a população necessita, com quais recursos e como se dará a
participação da população na fiscalização.
Saudações sanitaristas.
Fábio Souza
Juliana Zimmermann Gomes
ASSISTENTE SOCIAL - CRESS 3.530
Programa de Humanização - HMEM
(31) 3828-5640 ou (31) 8476-3773