Em torno da contracultura

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Fernando Padua

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May 12, 2009, 7:59:06 PM5/12/09
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Sexta, 18 de abril de 2008, 08h00
Em torno da contracultura

Antonio Risério
De São Paulo (SP)

(Eduardo Beu me convidou para falar num evento sobre contracultura em São Paulo. Tempo e trabalho me impediram. Mas aproveito para reproduzir aqui trecho de um longo depoimento - inédito - que será publicado em volume da coleção "Encontros", da Editora Azougue, do Sérgio Cohn. Nesta passagem do depoimento, duas perguntas de Sérgio relacionadas ao tema do evento paulista).

Sérgio Cohn - Você participou ativamente do movimento estudantil desde a adolescência, num momento em que o Brasil se dividia entre uma militância política mais tradicional de esquerda e a contracultura. Essas visões eram inconciliáveis? Se sim, qual dos dois lados você escolheu?

Antonio Risério - O movimento estudantil, brutalmente bloqueado em dezembro de 1968, é anterior ao surgimento da esquerda armada e à formação de uma contracultura brasileira, no caminho aberto pela tropicália. Antes de 1969, tínhamos o movimento estudantil, o tropicalismo e operações esporádicas de preparação para uma futura luta armada - basicamente, assaltos a bancos em São Paulo, com o próprio Marighella comandando algumas ações. Nessa época, a tropicália já expressava conexões entre radicalismo estético e radicalismo político, com bombas e canhões explodindo nas canções e Torquato Neto se perguntando: "a bomba explode lá fora, agora, o que vou temer?".
Mas foi somente depois do AI-5 que a esquerda armada e a contracultura repontaram, de fato, na cena brasileira. Naquele momento, em nossas grandes cidades, os segmentos mais inquietos da juventude se distribuíram por essas duas calhas. O horizonte político tinha se fechado e achávamos que os caminhos tradicionais da transformação social não levariam a lugar algum. Ao fechamento da ditadura, reagimos com extremismo. De uma parte, a contracultura. De outra, a esquerda armada. Neste caso, ao terrorismo de direita, terrorismo de Estado, núcleos radicais classemedianos reagiram com ações terroristas de esquerda, seqüestrando embaixadores.
Mas há um equívoco a desfazer: o que houve ali foi uma intenção de luta armada, mas que não foi além de uma intenção. Quem quase chegou a fazer luta armada, mas já um pouco mais tarde, não foram aqueles grupos terroristas, e sim o PCdoB. Ainda aqui, o que se viu no Araguaia não foi mais do que a montagem de uma base de operações, com vistas à guerrilha futura. Em todos esses casos, só intenções de luta armada - e sem qualquer possibilidade de vitória.
Tecnicamente, os agrupamentos de esquerda não tinham condições de enfrentar as forças armadas. Achavam que contariam com apoio popular. Mas, àquela altura, a classe média e o operariado, atravessando as águas do "milagre brasileiro", estavam em outra, tinham mais o quê fazer.
Voltando à pergunta, tanto a contracultura quanto a esquerda radical eram combatidas pela esquerda canônica. Não havia acordo possível. No meu caso pessoal, enveredei pela contracultura. Para nós, naquele momento, a esquerda tradicional, assim como o intelectualismo acadêmico, era a estrada sinalizada, com barreiras e postos de vigilância ideológica a cada dezena de quilômetros. Apostamos na viagem mais livre, na contracultura. É bem verdade que a nossa dieta contracultural tinha muito de patafísico: acreditávamos em discos voadores e que seríamos capazes de fazer o Pentágono levitar, por exemplo.
Ao mesmo tempo, muitas das lebres que a contracultura levantou, passaram a integrar as agendas sociais e políticas do Brasil e do mundo: a defesa do meio ambiente, as lutas das mulheres e dos homossexuais, as questões negra e indígena, o problema das drogas para a expansão da consciência. E há uma coisa: a contracultura aconteceu no Brasil não por causa, mas apesar da ditadura. Quando um intelectual como o Carlos Nelson Coutinho tenta reduzir as coisas, falando em "filosofia do desespero", ele se esquece de que a contracultura foi um movimento internacional, acontecendo em Londres, Praga, Paris, São Francisco, Amsterdã, etc. Nenhuma dessas cidades era dominada por militares brasileiros. O general Garrastazu Médici não mandava em Amsterdã.
E a grande imprensa brasileira, no período, bloqueava informações sobre a movimentação jovem internacional - bloqueio furado, inicialmente, pelo "Pasquim", onde Luiz Carlos Maciel e Tarso de Castro davam todas as bandeiras contraculturais. Mas, enfim, nós escolhemos aquela viagem. E, embora encenássemos um teatro de alegria e felicidade, a viagem não foi nada fácil. Alguns dos nossos, como Rogério Duarte, foram internados em hospitais psiquiátricos. Outros, como Torquato Neto e Ricardo Maciel, se mataram. Sorríamos, entre muitas tristezas.

Existiam pontos de contato entre esquerda armada e contracultura?


Sim. Escassos, mas importantes. A nenhuma das duas interessava o pensamento contestador cristalizado. Daí o anti-intelectualismo e o fascínio pelo lumpemproletariado que encontramos em ambas. Marighella era todo pela ação. Teoria, para ele, era jogar conversa fora. No caso da contracultura, o anti-intelectualismo era alimentado, ainda, pela tradição pragmática norte-americana. Mas a jogada era seletiva. Pensadores como Marcuse e Norman O. Brown tinham passe livre entre os "desbundados", ao lado de filósofos e místicos do Oriente, representantes do esoterismo ocidental, porta-vozes das camadas marginalizadas da sociedade industrial, profetas de uma "nova era", antipsiquiatras como Laing e Cooper, etc. Enfim, figuras extra-ocidentais e párias e críticos do complexo civilizacional do Ocidente. A turma apertava um charo e ia de Paracelso a Frantz Fanon, de McLuhan ao "Bhagavad-Gîta" e a reflexões do Paramahansa Iogananda, ou de Daisetz Suzuki e do "I-Ching" aos panteras negras.
O que não interessava era o pensamento tradicional, acadêmico. O fascínio pelo lúmpen, incentivado pelo marcusianismo dos mais letrados, era a contrapartida da recusa, nem sempre apenas conceitual, do modo de vida burguês. Também no meio da esquerda armada, o anti-intelectualismo era seletivo. Fanon, Marcuse e Paul Sweezy eram compulsados com alguma freqüência. E aqui, na aproximação, começamos a ver as diferenças. Fanon atraía os intelectuais da contracultura em função da questão negra internacional e da "Revolução contra o Ocidente", de que falava Barraclough. Mas atraía os intelectuais da esquerda armada por outros motivos: a idéia da superioridade revolucionária do campesinato, o papel pedagógico da violência.
A proximidade entre contraculturalistas e terroristas era mais clara quando estava em tela o lúmpen. Em escritos do Ladislau Dowbor (o "Jamil" da VPR), passamos ao largo do marxismo clássico ou da moda althusseriana de então, para entrar em cheio no terreno do papel revolucionário das massas marginalizadas. Parte da esquerda armada, contrariando Marighella, via, na marginalidade, uma força potencialmente insurrecional para tronchar a ditadura e quebrar o capitalismo. Para a contracultura, o papo era outro. Tratava-se de cair fora do sistema, "drop out", e o contato com os marginais era natural, desde que eles já se moviam por veredas alternativas.
Mas as aproximações não devem nos enganar - as distâncias entre contracultura e terrorismo eram imensas. Para falar em termos algo caricaturais, o que o desbundado queria mesmo era ficar em paz, queimando seu baseado e ouvindo Rolling Stones ou Janis Joplin. Antes que alterar o sistema de poder, pretendia, através da transformação interior, erigir-se em novo ser de uma nova era, amostra grátis do futuro. Enquanto o terrorista queria arrombar a porta, saltando com dois pés no peito do porteiro, o desbundado estava mais interessado em cintilações lisérgicas nas águas de Arembepe, em conversas sobre revolução sexual e iluminação interior. É a distância entre a granada e o LSD, a pedra filosofal da contracultura. Se alguém quiser checar a dessemelhança extrema entre uma coisa e outra, basta ler o "Minimanual do Guerrilheiro Urbano", de Marighella, ao som do primeiro disco dos Novos Baianos.

Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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