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Sexta, 18 de abril de 2008, 08h00
Em torno da contracultura
Antonio Risério
De São Paulo (SP)
(Eduardo Beu me convidou para falar num evento sobre contracultura em
São Paulo. Tempo e trabalho me impediram. Mas aproveito para reproduzir
aqui trecho de um longo depoimento - inédito - que será publicado em
volume da coleção "Encontros", da Editora Azougue, do Sérgio Cohn.
Nesta passagem do depoimento, duas perguntas de Sérgio relacionadas ao
tema do evento paulista).
Sérgio Cohn - Você participou ativamente do movimento estudantil
desde a adolescência, num momento em que o Brasil se dividia entre uma
militância política mais tradicional de esquerda e a contracultura.
Essas visões eram inconciliáveis? Se sim, qual dos dois lados você
escolheu?
Antonio Risério - O movimento estudantil, brutalmente bloqueado
em dezembro de 1968, é anterior ao surgimento da esquerda armada e à
formação de uma contracultura brasileira, no caminho aberto pela
tropicália. Antes de 1969, tínhamos o movimento estudantil, o
tropicalismo e operações esporádicas de preparação para uma futura luta
armada - basicamente, assaltos a bancos em São Paulo, com o próprio
Marighella comandando algumas ações. Nessa época, a tropicália já
expressava conexões entre radicalismo estético e radicalismo político,
com bombas e canhões explodindo nas canções e Torquato Neto se
perguntando: "a bomba explode lá fora, agora, o que vou temer?".
Mas foi somente depois do AI-5 que a esquerda armada e a contracultura
repontaram, de fato, na cena brasileira. Naquele momento, em nossas
grandes cidades, os segmentos mais inquietos da juventude se
distribuíram por essas duas calhas. O horizonte político tinha se
fechado e achávamos que os caminhos tradicionais da transformação
social não levariam a lugar algum. Ao fechamento da ditadura, reagimos
com extremismo. De uma parte, a contracultura. De outra, a esquerda
armada. Neste caso, ao terrorismo de direita, terrorismo de Estado,
núcleos radicais classemedianos reagiram com ações terroristas de
esquerda, seqüestrando embaixadores.
Mas há um equívoco a desfazer: o que houve ali foi uma intenção de luta
armada, mas que não foi além de uma intenção. Quem quase chegou a fazer
luta armada, mas já um pouco mais tarde, não foram aqueles grupos
terroristas, e sim o PCdoB. Ainda aqui, o que se viu no Araguaia não
foi mais do que a montagem de uma base de operações, com vistas à
guerrilha futura. Em todos esses casos, só intenções de luta armada - e
sem qualquer possibilidade de vitória.
Tecnicamente, os agrupamentos de esquerda não tinham condições de
enfrentar as forças armadas. Achavam que contariam com apoio popular.
Mas, àquela altura, a classe média e o operariado, atravessando as
águas do "milagre brasileiro", estavam em outra, tinham mais o quê
fazer.
Voltando à pergunta, tanto a contracultura quanto a esquerda radical
eram combatidas pela esquerda canônica. Não havia acordo possível. No
meu caso pessoal, enveredei pela contracultura. Para nós, naquele
momento, a esquerda tradicional, assim como o intelectualismo
acadêmico, era a estrada sinalizada, com barreiras e postos de
vigilância ideológica a cada dezena de quilômetros. Apostamos na viagem
mais livre, na contracultura. É bem verdade que a nossa dieta
contracultural tinha muito de patafísico: acreditávamos em discos
voadores e que seríamos capazes de fazer o Pentágono levitar, por
exemplo.
Ao mesmo tempo, muitas das lebres que a contracultura levantou,
passaram a integrar as agendas sociais e políticas do Brasil e do
mundo: a defesa do meio ambiente, as lutas das mulheres e dos
homossexuais, as questões negra e indígena, o problema das drogas para
a expansão da consciência. E há uma coisa: a contracultura aconteceu no
Brasil não por causa, mas apesar da ditadura. Quando um intelectual
como o Carlos Nelson Coutinho tenta reduzir as coisas, falando em
"filosofia do desespero", ele se esquece de que a contracultura foi um
movimento internacional, acontecendo em Londres, Praga, Paris, São
Francisco, Amsterdã, etc. Nenhuma dessas cidades era dominada por
militares brasileiros. O general Garrastazu Médici não mandava em
Amsterdã.
E a grande imprensa brasileira, no período, bloqueava informações sobre
a movimentação jovem internacional - bloqueio furado, inicialmente,
pelo "Pasquim", onde Luiz Carlos Maciel e Tarso de Castro davam todas
as bandeiras contraculturais. Mas, enfim, nós escolhemos aquela viagem.
E, embora encenássemos um teatro de alegria e felicidade, a viagem não
foi nada fácil. Alguns dos nossos, como Rogério Duarte, foram
internados em hospitais psiquiátricos. Outros, como Torquato Neto e
Ricardo Maciel, se mataram. Sorríamos, entre muitas tristezas.
Existiam pontos de contato entre esquerda armada e contracultura?
Sim. Escassos, mas importantes. A nenhuma das duas interessava o
pensamento contestador cristalizado. Daí o anti-intelectualismo e o
fascínio pelo lumpemproletariado que encontramos em ambas. Marighella
era todo pela ação. Teoria, para ele, era jogar conversa fora. No caso
da contracultura, o anti-intelectualismo era alimentado, ainda, pela
tradição pragmática norte-americana. Mas a jogada era seletiva.
Pensadores como Marcuse e Norman O. Brown tinham passe livre entre os
"desbundados", ao lado de filósofos e místicos do Oriente,
representantes do esoterismo ocidental, porta-vozes das camadas
marginalizadas da sociedade industrial, profetas de uma "nova era",
antipsiquiatras como Laing e Cooper, etc. Enfim, figuras
extra-ocidentais e párias e críticos do complexo civilizacional do
Ocidente. A turma apertava um charo e ia de Paracelso a Frantz Fanon,
de McLuhan ao "Bhagavad-Gîta" e a reflexões do Paramahansa Iogananda,
ou de Daisetz Suzuki e do "I-Ching" aos panteras negras.
O que não interessava era o pensamento tradicional, acadêmico. O
fascínio pelo lúmpen, incentivado pelo marcusianismo dos mais letrados,
era a contrapartida da recusa, nem sempre apenas conceitual, do modo de
vida burguês. Também no meio da esquerda armada, o anti-intelectualismo
era seletivo. Fanon, Marcuse e Paul Sweezy eram compulsados com alguma
freqüência. E aqui, na aproximação, começamos a ver as diferenças.
Fanon atraía os intelectuais da contracultura em função da questão
negra internacional e da "Revolução contra o Ocidente", de que falava
Barraclough. Mas atraía os intelectuais da esquerda armada por outros
motivos: a idéia da superioridade revolucionária do campesinato, o
papel pedagógico da violência.
A proximidade entre contraculturalistas e terroristas era mais clara
quando estava em tela o lúmpen. Em escritos do Ladislau Dowbor (o
"Jamil" da VPR), passamos ao largo do marxismo clássico ou da moda
althusseriana de então, para entrar em cheio no terreno do papel
revolucionário das massas marginalizadas. Parte da esquerda armada,
contrariando Marighella, via, na marginalidade, uma força
potencialmente insurrecional para tronchar a ditadura e quebrar o
capitalismo. Para a contracultura, o papo era outro. Tratava-se de cair
fora do sistema, "drop out", e o contato com os marginais era natural,
desde que eles já se moviam por veredas alternativas.
Mas as aproximações não devem nos enganar - as distâncias entre
contracultura e terrorismo eram imensas. Para falar em termos algo
caricaturais, o que o desbundado queria mesmo era ficar em paz,
queimando seu baseado e ouvindo Rolling Stones ou Janis Joplin. Antes
que alterar o sistema de poder, pretendia, através da transformação
interior, erigir-se em novo ser de uma nova era, amostra grátis do
futuro. Enquanto o terrorista queria arrombar a porta, saltando com
dois pés no peito do porteiro, o desbundado estava mais interessado em
cintilações lisérgicas nas águas de Arembepe, em conversas sobre
revolução sexual e iluminação interior. É a distância entre a granada e
o LSD, a pedra filosofal da contracultura. Se alguém quiser checar a
dessemelhança extrema entre uma coisa e outra, basta ler o "Minimanual
do Guerrilheiro Urbano", de Marighella, ao som do primeiro disco dos
Novos Baianos.
Antonio Risério é poeta e antropólogo.