“Quando eu vejo as pessoas passarem por aqui e perguntarem pela cobra, quando eu vejo os meus velhos amigos lá na festa, eu me emociono, eu me sinto emocionada com esta festa que realizamos todos os anos, a maioria das vezes apenas com a nossa própria força de vontade e com o apoio da comunidade”, diz a professora aposentada Marilza Vasconcelos, criadora e coordenadora da Festa da Cobra, cortejo que reuniu centenas de pessoas nas ruas de Soure, Marajó, e que neste sábado, 6 de junho, completou 16 anos.
A Festa da Cobra pode ser definida como uma festa dionisíaca e com os tradicionais símbolos míticos e eróticos da cultura marajoara. Enquanto o cortejo segue, centenas de pessoas vão a ele se agregando, correndo de rua em rua, travessa em travessa, passagem em passagem. Percebe-se a adesão em massa da comunidade. Famílias inteiras nas portas das suas casas, senhores e senhoras, casais, com filhos ainda de colo e mais outros, meninos e meninas, curumins, e jovens, a saldar – por assim dizer - esta profana procissão, que, no lugar de um santo, transporta uma cobra, como se esta fosse um mastro, típico elemento (fálico) das festas tradicionais interioranas que se espraiam seja pelo Marajó, pela Amazônia e mesmo pelos rincões desconhecidos deste país.
E assim uma transgressão se vai desenhando pelas ruas, uma euforia consciente, que corta a cidade, mas que não a reparte, juntando-a neste nirvana através do qual todos se sublimam. A cobra, carregada por quem a este ato se arriscar, parece que tem vida própria, avançando ora de forma veloz, ora lentamente, algumas vezes se enroscando, engolindo a própria cauda, gerando cenas hilárias, com pessoas a pisar e mesmo a cair nas lamas que se formam com as constantes chuvas que desabam sobre o Marajó.
Vez por outra, a cobra para diante de um bar e logo o proprietário do estabelecimento oferece alguma bebida, que pode ser rum, cachaça, ou vodka, à cobra. E a cobra bebe e com ela também os brincantes que a carregam sobre suas cabeças, arrastando-a, puxando-a, com os seus movimentos, em direção aos outros participantes do cortejo. Há mesmo quem se lance sobre a cobra com toques e gestos de todos os tipos, como simulações de carícias e mesmo de agressões. Todos a querem tocar, todos querem na cobra se enroscar, todos a querem ver se mexer, todos querem se mexer com e como ela.
Concentração - A cobra, de 11 metros de cumprimento, chega por volta das 14 horas na “castanheira dos carudos”, que fica na 5ª Avenida, esquina da Travessa 12, em frente ao bar Nossa Senhora de Nazaré, onde os tradicionais participantes do festejo estão reunidos, cantando, tocando e ouvindo carimbó e músicas juninas.
Por volta das cinco horas da tarde, o cortejo começa. E a cobra é logo disputada pela comunidade. Todos a querem carregar durante o trajeto de duas horas de duração pelas vias públicas do Município, em direção ao “Complexo da Cobra”, nome dado ao barracão localizado na Travessa 9, entre 2ª e 3ª ruas do Bairro Novo, de propriedade de Gumercindo e Marilza (Vasconcelos), criadores e coordenadores da Festa da Cobra.
A origem - Em 1993, o Senhor Gumercindo Vasconcelos, esposo da professora Marilza, recebeu um convite para tocar com a sua aparelhagem sonora - de nome DENYSOM - em, uma festa no Município de Salvaterra, entretanto, àquela altura, o governo havia proibido a realização de festas juninas em escolas públicas, pelo que o Senhor Gumercindo ficou sem trabalho, tendo sido desafiado por um amigo a fazer uma festa, mas em Soure.
No começo daquela década era comum batizar as festas de terreiro com nome de animais. Assim começaram as especulações sobre o provável nome da festa que aconteceu no dia 03 de junho de 1993, na travessa 8, entre a 1ª e a 2ª rua, bairro novo, com grande participação popular.
De uma forma muito espontânea, a comunidade passou a chamar a festa de FESTA DA COBRA.
Materiais - Ao longo destes anos, a abnegada professora Marilza utilizou vários materiais na confecção da cobra, tendo feito vários experimentos com aros de ferro, que não deram muito certo. No começo, ela pedia sacos de ráfia nas padarias, cortava-os, costurava-os e os enchia com capim seco; depois, o enchimento foi de serragem; finalmente, ela se decidiu pelo enchimento de esponja, por ser mais leve.
O filme - A novidade deste ano é que este Cortejo vai virar filme. Alunos das oficinas do Projeto Resistência Marajoara acompanharam o cortejo e captaram imagens para o PRIMEIRO FILME COLETIVO produzido no âmbito deste Projeto.
Sob a coordenação do poeta e realizador de cinema Francisco Weyl, o Projeto Resistência Marajoara (http://resistenciamarajoara.blogspot.com) venceu ano passado o Prêmio Residência Estética em Pontos de Cultura, da Fundação Nacional de Artes(FUNARTE)/Ministério da Cultura. A meta é estimular a prática do audiovisual e realizar um filme coletivo na comunidade, mediante a realização de oficinas de cinema, cineclubismo, teatro e música. As oficinas começaram em maio e o Projeto rola até setembro, com o apoio do Ponto de Cultura Reconquistando a Arte, a Cultura e a Cidadania, Associação de Moradores do Pacoval, Casa da Cultura Cruzeirinho, Secretaria de Turismo (Soure), Museu do Marajó, Cineclube Amazonas Douro, REDE Aparelho, Corredor Polonês Atelier Cultural, Revista Pará Zero Zero, Universidade Federal do Pará (Depto Antropologia), Fundação Curro Velho e Secretaria de Estado, de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (Sedect).
©Francisco Weyl
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