| Raquel Cunha - 6.nov.2013/Folhapress | ||
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| O sociólogo Chico de Oliveira em sua casa, em São Paulo |
ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO
PAULO
A crise parece muito grande, mas não é. O Brasil vai voltar a crescer, tem uma economia privilegiada e será uma sociedade mais igualitária. A burguesia do país é muito autoritária, mas seu jogo não vai prosperar. Os panelaços não terão continuidade. "A sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas".
A análise é do sociólogo Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, 81. Para ele, o país vive como em um baile, onde tudo está em movimento, o que gera sensações de pressa e angústia. "Isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação". E é preciso lutar pelo poder.
Fundador do PT e do PSOL, professor aposentado da USP e autor de clássicos como "A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista" (1972), ele condena a ausência de ousadia dos últimos governos. "Brizola é o grande político que falta no Brasil. Falta alguém com audácia", diz.
Crítico do lulismo, que classifica como um movimento conservador, avalia que é possível, mas não provável, a derrota do partido em 2018. Na sua visão, Lula vai precisar se realinhar de forma radical, fazendo política de forma mais contundente, ou os tucanos voltarão ao poder. "Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado", declara.
Nesta entrevista, concedida na sua casa na Vila Romana, em São Paulo, Chico de Oliveira fala de seu projeto para um novo livro. Quer tratar do que identifica como chances perdidas pelo lulismo, que deveria ter ampliado muito mais os benefícios sociais. "Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua intensidade", afirma.
Folha - O que está acontecendo no
Brasil?
Francisco de Oliveira - As posições se acirraram porque tem o
PT de um lado e os tucanos de outro. Todo o meio desapareceu. PDT, PPS, os
democratas, outros partidos praticamente desapareceram. A consolidação de
posições que são opostas dá essa sensação de que está tudo muito ruim, mas não
está não.
O que há de bom nessa conjuntura?
Bom
seria um exagero. É uma conjuntura cíclica, que vai e volta. A crise parece
muito grande, mas não é. A concentração da crítica na Dilma é fogo de palha. Nem
ela mesma tem o controle do partido dela. O controle ainda é do Lula. Mas Lula
não é homem de partido, ele é muito personalista.
Há choque entre Lula e Dilma?
Vai haver
sempre. Porque Lula elegeu a Dilma para ser um pau mandado. Mas, quando se chega
à Presidência, a regra do pau mandado não vale. Ela tem pouco jogo de cintura
político, tem que ouvir muito. O poder fica muito diluído.
Qual sua avaliação do governo Dilma? O que ela
faz de bom e de ruim?
Nem nada de muito bom nem nada de muito ruim. É um
governo médio e medíocre. Ela não é responsável pelos grandes males do país nem
tem solução para esses grandes males. É uma presidente fraca. Votei com
convicção nela nas duas vezes e não estou decepcionado. Ela me pareceu ser mais
de acordo com as minhas percepções. O governo não tem quase respostas para nada,
mas não faz o programa do PSDB. É um programa quase óbvio. Vai empurrando com a
barriga. Felizmente, apesar de governos fracos, a tentação autoritária não está
voltando.
A ascensão de movimentos mais conservadores nas
ruas e no Congresso lhe preocupa?
Não me preocupo porque os tucanos não
são populares. Eles não conseguirão galvanizar essa tentativa de
desestabilização com apoio popular. Os tucanos sempre evitam recorrer às ruas.
Panelaço não é o povo quem faz. Esse tipo de movimento não tem continuidade. Já
o PT não pode mover-se com a facilidade que tinha antes de ser governo. Não
acredito que o PT tenha solução para nada.
Há uma ascensão da direita?
Não vejo. A
direita existe mais na imprensa do que no movimento real de setores da
população. A sociedade brasileira é muito diversificada e não comporta uma
direita extremada. Existe uma polarização entre os muito ricos e muito pobres.
Mas esses dois segmentos não fazem política. A polarização se dá em picos. A
linha de continuidade é muito por baixo e muito fraca. Os picos parecem nos
espantar. A discussão do impeachment não vai para frente. Renan Calheiros e
Eduardo Cunha são fracos. Se fosse com o Ulysses Guimarães, a senhora Dilma
estaria dançando miudinho.
Como o sr. analisa a situação do Brasil no
mundo?
O Brasil é área de disputa muito forte. É a sexta economia mundial
ou algo nessa dimensão. É muito bom fazer negócios aqui, especialmente num
momento em que EUA e Europa estão mais ou menos estagnados. A Índia é muito
pobre. Na China, ou os negócios passam pelo Estado ou não passam. O Brasil é uma
ilha de muita liberdade empresarial. Não tem muita regulação. Salvo em setores
muito vulneráveis, se faz qualquer negócio em qualquer parte. O Brasil cresce.
Agora está patinando, mas é só uma patinação. Esse ciclo é passageiro; haverá
reativação. O Brasil não é um país condenado ao esquecimento. É por isso que é
preciso lutar.
Lutar como e para quê?
Pelo poder. Numa
sociedade estagnada a luta é mais fácil. Aqui, não. Aqui é como um baile: está
tudo em movimento. Dá uma sensação ao mesmo tempo de pressa e de angustia.
Porque você nunca está sossegado. E isso é ótimo. A pior coisa é a estagnação. É
preciso andar para dar um mínimo para a população mais pobre. Não se pode mais
deixar milhões sofrerem com necessidades básicas. Isso não existe. É preciso
jogar a bola para frente –e correr atrás dela.
O perfil desse governo é mais protecionista ou
liberal?
O governo não sabe se definir em relação a isso. Não sabe se é
protecionista ou livre cambista. Vem de uma herança pesada. FHC jogou para
destruir regras de proteção, fez um jogo liberal. O que não era esperado, pois
sua tradição era pela esquerda. Lula não puxou para a esquerda. Daí vem a
indefinição do governo federal, que prossegue com Dilma.
Reajustes reais do salário mínimo, Bolsa Família
não são pontos de um governo de esquerda?
Sim, comparando com outros. A
ironia é que são medidas capitalistas. Moro num prédio de classe média, onde
quem trabalha na portaria já tem carro. É um índice de êxito do capitalismo, até
certo ponto. Só um socialista louco –como já fui; hoje sou apenas socialista–
para achar que eles não melhoraram de vida. Melhoraram extraordinariamente.
O sr. já afirmou que as esquerdas no Brasil,
desde os tempos do auge do PC, passando pelo PT e pelo PSOL, nunca conseguiram
ter um projeto para o país. Por quê?
As esquerdas são muito brasileiras:
tendem mais à conciliação do que ao conflito. É da formação da sociedade e do
Estado. As esquerdas também são muito conservadoras. Na redemocratização, em
1945, o projeto do PCB para o petróleo era privatista. Seguia a linha de
aprofundar o capitalismo para criar condições para o socialismo. Esquerda e
nacionalismo convergiram numa certa fase. A atual esquerda não tem projeto. Lula
nunca teve; Dilma também não tem. O PT não sabe o que é o Brasil, não tem um
projeto para o país. Está superado. Não vai acabar, mas não tem nada a dizer a
respeito do desenvolvimento do Brasil. Vai empurrando com a barriga. É o partido
da ordem.
Seu diagnóstico de esgotamento do PT significa
previsão de derrota do partido em 2018?
É possível, mas não é provável.
Quando jogo for pesado, Lula vai ter que se realinhar. De forma até radical, o
que não é do estilo dele. Ou Lula volta a fazer política de forma mais
contundente e mais consistente ou se prepara para entregar o queijo para os
tucanos. Lula vai ter que ser mais partidário e retomar a militância política.
Vai precisar dar apoio a Dilma para que o mandato não tenha um desenlace que
caia em cima dele. Se houver um desastre e o PT for desalojado do poder, as
burguesias nunca mais se esquecerão disso. Vão tentar manter o PT afastado.
Há personalidades alternativas?
Brizola é
o grande político que falta no Brasil. Governou dois Estados (o RJ duas vezes).
Não tem ninguém com esse perfil, com essa audácia. Falta alguém com audácia.
Como o sr. enxerga o Brasil a longo
prazo?
Vai caminhar para ser uma sociedade mais igualitária. Não é
otimismo. Em geral, a obrigação do cientista social é ser pessimista. Nenhuma
sociedade aguenta o nível de desigualdade que se produziu no Brasil. Há pressão
da população. Não existe manter 200 milhões de pessoas sob o jugo da
desigualdade, reprimida por inteiro. No longo prazo seremos mais igualitários. A
democracia está ao alcance das mãos; não é um sonho utópico e é necessária.
Menos para os democratas e mais para os não democratas. Quem estiver jogando
jogo autoritário não vai aguentar. A burguesia brasileira é muito autoritária.
Mas hoje a sociedade não aguenta mais ver a demissão de 2.000 pessoas. Ela não
permite. As empresas não são mais donas absolutas do jogo econômico social e
político. Têm que prestar contas à sociedade. O confronto deslocou-se do âmbito
de empresas e sindicatos para a sociedade.
Como avaliar politicamente essa fração da
população que ascendeu nos últimos anos?
Ninguém sabe. É como olhar
dentro de uma chaleira. Há vários pontos de ebulição. Há uma ebulição geral na
sociedade. Mas o Brasil vai melhorando, incluindo mais gente. É a forma do
capitalismo se renovar. Ninguém pense em reformas profundas. As reformas são
dadas pelo crescimento econômico e pelo crescimento da população. Pela
alfabetização. Essas são as reformas que movem a sociedade. Eu, como um velho
socialista –mais velho do que socialista–, não vejo revolução à vista. O Brasil
vai engatar, vai crescer. É impossível conter 200 milhões de pessoas, cada uma
querendo o melhor para si. Esse egoísmo capitalista é positivo. O socialismo é
algo para além.
O sr. planeja um novo livro?
Sobre o
ciclo do lulismo. A chance que o Brasil teve desde FHC e, com mais intensidade
com Lula, não é de fácil repetição. FHC abre o ciclo. É homem de elite, não
gosta do Nordeste, dos pobres. Tenho desgosto em relação a isso. Trabalhamos
muito juntos; ele não era assim. O Lula não fez nada de excepcional, não na
dimensão que poderia. Excepcional foi o Brasil desde 1930. Agora a chance foi
desperdiçada, principalmente por Lula. O capitalismo só funciona com inserção
social e não houve nenhum milagre no Brasil. A economia brasileira é
privilegiada, disputada. Mas está faltando capacidade de aproveitar isso, ocupar
espaços. No passado, quem percebeu isso com lucidez foi San Tiago Dantas
(1911-1964, ministro de João Goulart). Ele meteu o pé. Hoje também há
oportunidades, mas não há percepção.
Como seria o título do livro?
Vi
recentemente "Um Sonho Intenso" [documentário de José Mariani] e tem um título
me perseguindo que é "Um Pesadelo Intenso". Pela frustração dessa oportunidade
única. Erraram. Foi um sonho que poderia ter sido e não foi em toda a sua
intensidade. Não culpo a Dilma. É o lulismo que, contraditoriamente, é muito
conservador. Lula não ousa tudo o que poderia ter ousado. O que ele fez em
relação à previdência social? Basicamente nada. Quando não se pode incluir pela
expansão do mercado, essa é a forma de inclusão, fora do mercado. Ele poderia
ter feito um esforço mais intenso para ampliar os benefícios sociais. E isso não
é risco para o Tesouro, porque vem compensação pelo outro lado –pela expansão da
economia, pelo aumento de arrecadação. Era hora de meter o pé no acelerador e
Lula fez o contrário.
Como o sr. avalia o caso
Petrobras?
Petróleo ainda é o melhor negócio do mundo. A Petrobras é de
1953 e avançou. Vargas foi obrigado a se suicidar por isso. Os norte-americanos
até hoje não engolem o fato de ela ser estatal, mesmo sendo um estatismo frouxo.
Não engolem porque é um filé. Está abalada hoje. Há pressão para que ela seja
fatiada. A burguesia brasileira quer pegar nacos. A Petrobras é um item de
segurança nacional; não pode ser privatizada.
E a questão da corrupção envolvendo
empreiteiras?
Há tempos, quando todo mundo se desesperava com isso,
Ignácio Rangel (1914-1994), que era realista e cético, dizia: "A corrupção é o
creme do capitalismo. Não se desesperem, isso é sinal de que o capitalismo está
se expandindo". É isso: tudo é corrupto no
capitalismo
Prof. Dr. Sandro Benedito Sguarezi
Professor Adjunto da Universidade do Estado de Mato Grosso(UNEMAT)
Campus Universitário de Tangará da Serra-MT/Departamento de Administração
Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGEdu – nível Mestrado da UNEMAT
Coordenador Operacional do Doutorado Interinstitucional/DINTER UNISINOS/UNEMAT
Pesquisador Membro do Núcleo de Pesquisa, Extensão e Estudos da Complexidade no Mundo do Trabalho (NECOMT)
Líder do Grupo de Pesquisa/ CNPq: Gestão Agricultura Familiar e Agroecologia (GAFA)
Vice-líder do Grupo de Pesquisa/ CNPq: Desenvolvimento Regional Sustentável e as Transformações no Mundo Trabalho (GDRS)
Coordenador da Incubadora de Organizações Coletivas Solidárias e Sustentáveis (IOCASS)