Universidade Soka (81)
BRASIL SEIKYO, EDIÇÃO Nº 1877, PÁG. A11, 27 DE JANEIRO DE 2007.
Os estudantes que observaram o fundador Shin-iti Yamamoto conversar energicamente com os representantes do setor empresarial visando o futuro deles decidiram encarar com seriedade a questão do emprego como a primeira barreira da carreira profissional a ser ultrapassada.
No ano de 1974, os alunos da primeira turma começaram a se informar sobre o mercado de trabalho a partir do mês de maio organizando, inclusive, visitas a diversas empresas.
Os funcionários da Universidade Soka já vinham atuando nesse sentido desde o início de 1972. Eles haviam se informado sobre os exames de admissão promovidos por órgãos governamentais como também pelas empresas privadas. Também visitaram os empresários para apresentar o perfil dos alunos da Universidade Soka.
No início, por ser uma instituição recém-fundada, não obtiveram uma resposta favorável em relação à contratação de formandos da Universidade Soka. Após o relacionamento mantido por Shin-iti com os empresários, muitas empresas foram abrindo as portas para acolhê-los.
No entanto, o país fora afetado por uma crise econômica no final de 1973. Além disso, previa-se uma acirrada concorrência no mercado de trabalho devido ao grande aumento do número de formandos em comparação aos anos anteriores.
Quando Shin-iti esteve na Universidade Soka em meados de maio, ele encontrou alguns alunos observando as ofertas de emprego afixadas no quadro de avisos.
— Que tal, encontrou algum bom emprego? — perguntou Shin-iti, aproximando-se dos alunos.
Eles se surpreenderam ao vê-lo.
— Não, não está fácil encontrar algo que corresponda às nossas expectativas — respondeu um deles com certa apreensão.
Shin-iti observou o rosto de cada um e procurou confortá-los com um sorriso.
— Eu acho que o mais comum é não encontrar um emprego que atenda às nossas pretensões. Na verdade, se atendesse a uma delas, já seria mais do que ótimo. O trabalho é diferente de diversão ou passatempo. Por recebermos um salário, é natural enfrentarmos dificuldades e até desgostos. Seja qual for a empresa, o mais importante é antes de tudo trabalhar com todo afinco.
— Ah, é ...
Os estudantes pareciam desapontados. Eles achavam que deveriam trabalhar somente em grandes empresas por serem economicamente mais estáveis.
Observando essa reação, Shin-iti percebeu que seria necessário corrigir a concepção dos estudantes sobre o emprego.
— Na verdade, não há uma única empresa em situação estável pois elas têm de conviver constantemente com as crises e mudanças na conjuntura econômica. Todas atuam com seriedade para vencer a acirrada concorrência diária. Aquelas que se desenvolvem é porque não medem esforços para criar novos produtos, aperfeiçoar e reformar continuamente a estrutura funcional. Por exemplo, existem muitas empresas que ampliam os negócios em outras áreas de produtos e serviços para sobreviver vencendo a concorrência. Se uma empresa não mantiver um espírito empreendedor, ela será facilmente derrubada pelo seu concorrente, independentemente de seu ramo de atividade. Mesmo que até ontem tudo tivesse ocorrido bem, isso não asseguraria sua estabilidade no dia de hoje. Esta é a realidade do mundo dos negócios. Mesmo que consiga empregar-se numa grande empresa, poderá ser transferido para a filial do interior ou ser demitido como parte do plano de contenção de despesas. Pior será se ocorrer a falência. Por isso, é um engano pensar que uma grande empresa assegurará o seu emprego e a estabilidade financeira em sua vida.
Os estudantes mudaram de atitude e ouviram atentamente as recomendações de Shin-iti.
As pessoas que não têm um espírito de desafio e se mantêm passivas não conseguem se desenvolver. Era isso que Shin-iti queria ensinar aos estudantes.
— Se estão procurando um emprego, decidam antes de tudo trabalhar com todo o afinco em qualquer área. Por exemplo, quando vocês pensam numa editora, logo imaginam o trabalho na redação. Porém, existem também os setores financeiro, de vendas, de atendimento ao público, de manutenção, recepção etc. Mesmo que seja admitido numa editora, poderá ser transferido para um setor diferente do pretendido. Esta é a realidade.
Depois de uma pausa, Shin-iti disse enquanto olhava o rosto de cada um dos estudantes.
— As empresas e a própria sociedade enfrentam constantes mudanças. Os funcionários que não conseguem acompanhar essas vicissitudes e perdem a motivação de trabalhar por terem sido remanejados para um setor que não atende às pretensões pessoais podem ser considerados fracos e derrotados. Uma vez empregados, terão inclusive de fazer serviços que não gostem ou não tenham habilidade para efetuá-los. Poderão sofrer ainda pressões de seus superiores ou viver relações pessoais constrangedoras. O trabalho é um desafio. Vocês devem se empenhar visando tornarem-se vitoriosos onde atuam. Assim, a empresa se tornará um local para forjar e polir a si mesmos.
Shin-iti foi imprimindo certo rigor em suas palavras. Para ele, os alunos da Universidade Soka eram como seus próprios filhos. Não desejava que fossem derrotados diante das provações da sociedade. Quando pensava dessa forma, sua voz ficava naturalmente mais vigorosa.
— Quando jovem, trabalhei como redator de uma revista infantil editada pela empresa do presidente Toda. Tornei-me também redator-chefe. Contudo, sua empresa não suportou a crise do pós-guerra e tive de atuar no setor de finanças, apesar de detestar essa área de trabalho. Como não havia outra alternativa, empenhei-me com o propósito de me tornar um exímio profissional nessa área. Foram dias e dias de muitas provações. Essas dificuldades foram compensadas com a recuperação dos empreendimentos do Sr. Toda. Além disso, foi um período em que obtive um rico aprendizado sobre economia e finanças. Esse conhecimento tornou-se muito útil mais tarde para os meus empreendimentos.
Os estudantes estavam tão atentos que quase não piscavam os olhos.
— Aqueles que consideram o trabalho apenas como um meio para ganhar dinheiro, serão sempre simples empregados. Então, conseqüentemente, acabam pensando que é um prejuízo trabalhar mais do que recebem. No final das contas, tornam-se um fardo para a empresa. O que eu espero é que vocês tenham sucesso e sejam vitoriosos no campo de trabalho.
— Qual deve ser a minha disposição para ser vitorioso? — perguntou um dos estudantes.
— Procure conquistar a confiança por meio da qualidade do seu trabalho e se esforce para ser o melhor no seu setor. Embora seja natural produzir resultados concretos, procure chegar na empresa antes de todos, colabore fazendo a limpeza e receba os colegas com boa disposição. Isso significa vencer logo de manhã. Não devem, em hipótese alguma, chegar atrasados. Aqueles que não conseguem trocar cumprimentos, não terão sucesso também como cidadãos. Outro ponto importante é trabalhar com responsabilidade, visão global e empresarial, qualquer que seja o seu setor de trabalho. Além disso, deixe de lado a passividade e atue como protagonista e responsável pela empresa. Este é um ponto que decide o sucesso profissional. Na verdade, como integrantes da primeira turma de alunos da Universidade Soka, vocês vieram aprendendo o espírito básico de tudo que estou falando agora.
O grupo de estudantes foi aumentando. Mais de trinta alunos ouviam as recomendações de Shin-iti.
— Parem de pensar que conseguirão dar um jeito na questão do emprego. Atuem com a firme determinação de que abrirão um caminho promissor para o futuro de vocês. Não importa se a empresa em que trabalharão seja de pequeno porte e sem reconhecimento. Qualquer que seja a empresa, o importante é se tornarem o núcleo atuante e se esforçarem para o bem dos colegas que se formarão depois de vocês. Essa é a responsabilidade dos integrantes da primeira turma. Dizem que o presidente Makiguti comentava constantemente que há três tipos de pessoa, cuja presença pode ser considerada indispensável, indiferente ou dispensável. No caso de vocês, devem se tornar pessoas indispensáveis no local de trabalho. Vou continuar prestando todo o meu apoio para que encontrem um bom emprego.
Como um presente antecipado e felicitando a admissão, Shin-iti entregou um pouco de dinheiro a cada um dos alunos que o rodeavam.
Desde a época em que se matricularam na Universidade Soka, os integrantes da primeira turma estavam cientes de que enfrentariam uma acirrada concorrência nos exames de admissão de funcionários.
Numa roda de estudantes, um deles comentou:
— A nossa universidade é particular e recém-fundada e ainda não possui nenhum mérito ou tradição que a destaque no meio acadêmico e empresarial. Por isso, acho que as empresas de primeira categoria dificilmente nos admitirão em seu quadro de funcionários. Contudo, eu mesmo escolhi esta escola porque desejava contribuir para o seu desenvolvimento, principalmente por ter sido fundada pelo presidente Yamamoto. Não tenho nenhum arrependimento e estou decidido a trabalhar em qualquer ramo.
Após receber os incentivos do presidente Yamamoto com relação ao emprego, os alunos da primeira turma renovaram a decisão de encontrar bons empregos para servir de exemplo aos calouros. Sentiram que era mais uma tarefa a ser cumprida como pioneiros.
Não lhes faltou coragem e disposição para colher as informações sobre o perfil de diversas empresas, os requisitos exigidos para a admissão, as condições de trabalho etc. Tudo tinha de ser feito por eles mesmos por não terem veteranos para apoiá-los nas questões relacionadas com o mercado de trabalho.