Livro potico escrito entre 1868 e 1869 por IsidoreDucasse sob o pseudnimo Conde de Lautramont. Poeta francs de origem uruguaia, Ducasse serve de referncia para a construo e a elaborao dos momentos cnicos coreografados. De Marcel Duchamp a Samuel Beckett e de Manoel de Barros a Shakespeare, Andreazzi releu os autores a partir do tratamento especfico dado ao corpo por Deleuze e Guattari, propondo encenaes mltiplas, plurais. Ao mesmo tempo dana, teatro e msica, as elaboraes visuais criadas por Andreazzi e apresentadas pela Cia. Corpos Nmades so nicas; criando smbolos em cena, em vez de simbolizar. O prprio ser mutante protagonista do Conto, Maldoror, d ignio criao coreogrfica: trata-sede um homem que se recorda de haver vivido durante meio sculo sob a forma de tubaro, nas correntes submarinas que margeiam as costas da frica. Ora jovem, ora de cabelos brancos; aqui moribundo, ali capaz de faanhas atlticas; transformado em guia para combater a esperana, polvo para melhor lutar com Deus, porco em seus sonhos, coisa informe, misturada natureza, objeto de identidade indefinida.
(Quando divulgada por Jean-Jacques Lefrre em 1977, esta foto de Lautramont / Isidore Ducasse suscitou dvidas; contudo, outra, em companhia de colegas identificveis do Liceu de Tarbes, confirmou ser mesmo ele)
Adiciono ainda o mais recente dos artigos elogiosos (mas todos foram elogiosos) tratando da minha traduo da obra do homem dos lbios de safira: -boa-resenha-da-nova-edicao-de-os-cantos-de-maldoror-poesias-cartas-de-lautreamont/
Lembrando, a verso anterior da mesma encenao ficou mais de um ano em cartaz, entre 2010 e 2011. Alm do comparecimento de pblico, justificando ampliao da temporada, foi calorosamente elogiada pela crticas.
Livro potico escrito entre 1868 e 1869 por Isidore Ducasse sob o pseudnimo Conde de Lautramont. Poeta francs de origem uruguaia, Ducasse serve de referncia para a construo e a elaborao dos momentos cnicos coreografados.
Como diretor e coregrafo residente da Cia. Corpos Nmades, Andreazzi gerou um amplo espectro de encenaes. De Marcel Duchamp a Samuel Beckett e de Manoel de Barros a Shakespeare, todos relidos a partir do tratamento especfico dado ao corpo por Deleuze e Guattari, ele prope encenaes mltiplas, plurais. Ao mesmo tempo dana, teatro e msica, as elaboraes visuais criadas por Andreazzi e apresentadas pela Cia. Corpos Nmades so nicas; criando smbolos em cena, ao invs de simbolizar.
O prprio ser mutante protagonista do Conto, Maldoror, um afrodisaco para a criao coreogrfica, um homem que se recorda de haver vivido durante meio sculo sob a forma de tubaro, nas correntes submarinas que margeiam as costas da frica. Ora jovem, ora de cabelos brancos; aqui moribundo, ali capaz de faanhas atlticas; transformado em guia para combater a esperana, polvo para melhor lutar com Deus, porco em seus sonhos, coisa informe, misturada natureza, objeto de identidade indefinida.
[2] Na edio Flammarion da obra completa de Lautramont, seu organizador, Jean-Luc Steinmetz, interpreta essa imagem sobremodo enigmtica como referncia ao jogo de dados (o cubo), smbolo por excelncia do acaso, do aleatrio.
[3] Rotferos e tardgrados so animalculos, microorganismos, que se viram envolvidos nas polmicas da segunda metade do sculo XIX entre Pasteur e outros cientistas, por sua capacidade de resistir a temperaturas elevadas. Comentaristas observam como isso mostra at que ponto Lautramont recorria a publicaes cientficas.
Lautramont, depois de morrer desconhecido aos 24 anos, em 1870, e de sua obra esperar dezessete anos para ter os primeiros leitores, tornou-se um mito, pela extraordinria ousadia e criatividade de seu texto, um exerccio radical de liberdade de criao. Hoje multiplicam-se as edies de Os Cantos de Maldoror e da obra completa de Isidore Ducasse, celebrizado sob o pseudnimo de Conde de Lautramont. Sua bibliografia gigantesca, situando-o entre os escritores mais estudados e discutidos da atualidade.
Ignorou a modernidade e apontou caminhos para o surrealismo e as vanguardas do sculo XX. Provocou fascinao e espanto em autores to diversos como Breton, Malraux, Gide, Neruda e Ungaretti. reconhecido como poderoso inventor, expoente dos inovadores, transgressores e poetas malditos, assim como o foram William Blake, Baudelaire, Rimbaud e Jarry.
O poeta Claudio Willer, que j havia publicado sua traduo de Os Cantos de Maldoror, preparou esta edio completa de Lautramont.
Incluiu comentrios, notas e um substancioso prefcio, onde enfrenta obscuridades, vencendo o desafio da interpretao do texto e os mistrios decorrentes da ausncia de biografia. Mostra como os Cantos e Poesias so uma escrita do avesso, abissal e perversa, regida pela lgica da metamorfose, pois nela cada termo contm seu oposto e cada coisa implica seu contrrio, aquilo que no . Repleta de paradoxos, representa a consagrao do pensamento analgico, oposto razo dualista. Satrica e pardica, pelo modo como se apropria de outros autores, adulterando-os e invertendo-lhes o sentido, seu carter monumental deve-se coerncia, aliada imaginao desenfreada e transbordante. Da concepo geral, passando pelos relatos e reflexes, at o estranho vocabulrio e as figuras exageradas de retrica, tudo, em seus detalhes, obedece lgica do delrio e da negao. Por isso, no apenas reflexo crtica sobre a literatura, mas rebelio extrema contra a sociedade e o mundo.
Sarah Ducados, conhecida como Sarah Maldoror, considerada a primeiramulher negra a fazer cinema na frica nos anos 1960, ainda que outrasdiretoras, como a documentarista Thrse Sita-Bella, do Camares, fossemcontemporneas. O longa-metragem mais conhecido da carreira,Sambizanga (1972), fora igualmente marcante na histria do cinema deAngola, uma vez que a narrativa, adaptada de um livro do escritorangolano Luandino Vieira, trata de um episdio da luta clandestina pelaindependncia do pas frente ao colonialismo portugus. A cineastaconstruiu a base de sua carreira na Frana, onde seguiu dirigindofilmes, trabalhando na televiso e atuando no espao pblico em favor daimigrao, da comunidade negra e das mulheres. Uma caractersticamarcante em suas obras flmicas o dilogo com a literatura, entrecontos, romances e poesias, e as artes em geral.
"Sinto-me em casa em toda parte. Sou de toda parte e de lugar algum.Meus ancestrais eram escravos. No meu caso, isso torna as coisas maisdifceis. Os antilhenses me acusam de no viver nas Antilhas, osafricanos dizem que no nasci no continente africano e os franceses mecriticam por no ser como eles".1
Nasceu no ano de 1929, filha de me francesa e pai imigrante das ilhasde Guadalupe, no Caribe. Na fortuna crtica dedicada cineasta, noexiste um consenso sobre onde a diretora tenha nascido, oscilando entreCondom, em Gers na Frana, mais crvel a nosso ver, e a mesma ptria deseu pai. Em uma pgina virtual, chega-se afirmar uma nacionalidade(Frana), e outra (Guadalupe) em um quadro ao lado. O nome artstico dadiretora foi inspirado em Os cantos de Maldoror (1869), livro deIsidore Ducasse, conde de Lautramont.
O incio de sua carreira artstica ocorreu no teatro. Em 1956, SarahMaldoror ajudou a fundar a Compagnie d'Art Dramatique des Griots,conhecida como Les Griots, e a presidiu nos primeiros anos deexistncia. O ncleo do coletivo era formado pela cantora haitiana TotoBissainthe, o imigrante da Costa do Ouro Timit Bassori e o senegalsAbabacar Samb Makharam, alm de Maldoror e, posteriormente, RobertLiensol, de Guadalupe. Todos participavam nos eventos organizados pelarevista Prsence Africaine em Paris, e reconheciam-se seguidores deAlioune Diop, diretor da instituio, e prximos do movimentointelectual Negritude, cujos expoentes eram Aim Csaire, Lon-GontranDamas e Leopoldo Sendar Sngor. A falta de representatividade negra nospalcos parisienses, a criao de um teatro moderno e de uma escola deteatro para negros e negras foram os principais objetivos para aformao da companhia.
O grupo aprendeu noes de encenao teatral no Centre d'apprentissaged'art dramatique e no teatro do Foyer de l'cole de mdecine, e montoudiversas peas, como Huis clos de Jean-Paul Sartre, Don Juan deMolire, L'Ombre de la ravine de Synge John Millington, L'Invit dePierre de Pouchkine, La Fille des dieux de Abdou Anta Ka e Lesparavents de Jean Genet, alm de recitais de poesia de autores negrospublicados pela revista Prsence Africaine, sempre com o apoio dodiretor Roger Blin. A companhia Les Griots atuou em diversos espaoseuropeus e, com a encenao de Les ngres, tambm de Genet, obtevereconhecimento nos meios teatrais. O grupo se desfez em 1964 apscontrovrsias sobre a montagem de uma pea de Aim Csaire recmescrita, La Tragdie du roi Christophe, que ficou a cargo de outracompanhia teatral. A experincia no teatro aproximou Sarah Maldoror douniverso dos intelectuais e artistas imigrantes africanos e antilhanos,e muitos deles atuaram ou foram tema em seus filmes anos depois.
A jovem artista, encorajada por pessoas prximas como o documentaristaChris Marker, pleiteou e conseguiu uma bolsa para estudar cinema emMoscou. As bolsas fizeram parte da estratgia diplomtica do regimesovitico de aproximao com os pases africanos, movimento iniciado nosanos finais da dcada 1950. A formao ocorreu entre 1961 e 1962, aolado do senegals Ousmane Sembene, no prestigiado Instituto Nacional deCinematografia da Unio Sovitica (VGIK), tendo como principaisreferncias os soviticos Sergei Gerassimov e, principalmente, MarkDonskoi. Ambos estudantes acompanharam a produo de Hello children(1962), de Donskoi. Aps o curso sovitico e ao lado do companheiroMrio Pinto de Andrade, intelectual e um dos fundadores do Movimentopela Libertao de Angola (MPLA) em 1956, Sarah Maldoror transitou porFrana, Guin-Conacri, Marrocos, Tunsia e, sobretudo, Arglia. Nesseltimo pas, Maldoror prestou assistncia, como "uma espcie deestagiria" segundo ela, ao diretor italiano Gillo Pontecorvo nasfilmagens do premiado A batalha de Argel (1966). Sarah tambmcolaborou na realizao do documentrio argelino Elles (1966), deAhmed Lallem, filme dedicado s jovens argelinas ps-revoluo. Valeobservar que ambas produes deram destaque s mulheres no processo decombate ao colonialismo e organizao da nao no ps-independncia.
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