Quem acompanhou a campanha de Barack Obama teve a oportunidade de ser
pioneiro numa nova forma de fazer política. Para tal, bastava entrar
no portal barackobama.com e se registrar como usuário. Eu fiz isso bem
no início da campanha, quando ele ainda disputava a indicação de seu
partido. Então posso dizer que conheço bem a metodologia utilizada
pela campanha de Obama para construir uma rede de milhões de
apoiadores que não apenas contribuiram financeiramente para sua
campanha mas como também atuaram como voluntários fazendo ligações
telefônicas para outros eleitores e batendo de porta em porta e
pedindo votos para seu candidato. Ao se inscrever no portal, o eleitor
recebia mensagens assinadas pelo candidato, criando um certo ar de
intimidade. Nada mal abrir sua caixa de email e ver uma mensagem
enviada por Barack Obama, ou seu candidato a vice Joe Biden, ou outro
apoiador como o ex-presidente Bill Clinton e sua esposa Hillary
Clinton.
A lista de emails também era utilizada para buscar opinião dos
eleitores de como avançar na campanha e para pedir apôio financeiro. A
campanha arrecadou um recorde de mais de 700 milhões de dólares com
doação média de 65 dólares. A comunicação com os voluntários era
priorizada em relação à mídia em geral. Ao fazer um anúncio da
campanha ou do candidato, este era primeiro enviado para os
voluntários antes de ser divulgado para a mídia tradicional. Isso
deixou claro a importância dessa rede de apoiadores e Barack Obama se
comprometeu a continuar esta relação após eleito. Lembro-me de dois
exemplos interessantes para envolver os voluntários. No primeiro, a
campanha escolheu quatro voluntários para participar de um jantar com
o candidato. A escolha foi feita através de inscrições online e para
participar era necessário fazer uma doação de 15 dólares e contar sua
história e dizer porque queria jantar com o candidato. O jantar foi
divulgado na mídia tradicional. O mesmo modelo foi usado para escolher
os jogadores para um jogo de basquetebol com a presença de Obama. O
outro exemplo é ainda mais efetivo. Durante as férias de verão de
2008, a campanha convocou jovens para participar de um programa de
treinamento em organização comunitária, praticando na conscientização
de votar para presidente, o que resultou em milhões de novos eleitores
que garantiram a vitória de Obama (nos EUA o voto não é obrigatório e
o candidato tem que incentivar o eleitor a ir votar).
Desde que começou a campanha para a eleição do novo presidente do
Brasil, eu procurei na Internet o nome dos candidatos, busquei seus
portais oficiais e fiz inscrição nos mesmos. Enquanto tenho recebido
boletins frequentes das campanhas, até agora não recebi nenhuma
mensagem direta de nenhum dos candidatos. A impressão que tenho é que
os candidatos tem equipes que coordenam suas campanhas na Internet e
eles sequer entendem ou se preocupam com esta mídia. Ainda não recebi
nenhuma requisição de apoio financeiro para as campanhas e nenhum se
preocupou em pedir minha opinião sobre como avançar na sua campanha. A
impressão que tenho é que a Internet tem sido usada pelas campanhas da
mesma maneira que a midia tradicional, ou seja, a Internet é mais um
meio de divulgação, uma via de mão única. A nível de presidência da
república, eu ainda não vejo o efeito revolucionário da Internet
afetando a democracia brasileira. Parece que vamos ter que esperar até
as próximas eleições.
Alguém pode argumentar que a Internet não penetra tão profudamente na
popolação brasileira quanto na americana. Mas eu não acredito neste
argumento, pois a rede de voluntários que elegeu Barack Obama está em
torno de 5 milhões de pessoas, uma meta possível entre os usuários da
Internet brasileira, num país em que o voto é obrigatório. os
candidatos a presidente do Brasil ainda não se realizaram do benefício
de governar diretamente com o povo. Barack Obama entende bem este
poder. Após ser eleito presidente, sua campanha transformou-se numa
entidade com o nome Organizando Pela América (OFA). O presidente, o
vice-presidente e a primeira dama continuam se comunicando com os
voluntários que os elegeram. Esses voluntários agoram ajudam o
presidente a realizar sua agenda de mudanças . Um grande exemplo é a
passagem do controverso Programa de Saúde Pública que garante seguro
de saúde para toda a população, algo que tem sido buscado por várias
décadas. Para convencer os deputados de seu partido a votarem a favor
e depois enfrentar uma eleição, a OFA recolheu não só recursos
financeiros entre seus milhões de voluntários como também criou um
banco de horas de trabalho voluntário que ofereceu aos candidatos como
garantia de apôio durante suas campanhas em 2010. Estas eleições que
acontecerão em Novembro deste ano apresentam um grande desafio para o
partido do presidente que está ameaçado de perder o controle do
congresso. Enquanto a mídia tradicional já prevê a derrota do
presidente, existe um fator revolucionário atuando no vácuo da mídia
tradicional e que pode trazer surpresas como foi a eleição de Obama, a
Internet.
Eu acredito que existam candidatos no Brasil que já enxergaram o poder
da Internet e já estão utilizando-a em seu poder revolucionário. Eu
tenho acompanhando apenas a campanha para presidente, pois voto na
Embaixada Brasileira em Washington, nos EUA. Se você conhece algum
candidato, seja para qualquer cargo, que utilize a Internet em sua
campanha de maneira semelhante a descrita aqui, por favor me diga. Eu
gostaria muito de conhecer e acompanhar os novos líderes cibernéticos
brasileiros. Quem sabe não poderemos no futuro próximo elegê-los
presidente da república?