"A reforma agrária é,
além de uma necessidade política, uma obrigação moral", disse Papa
29 de outubro de 2014
Da Página do
MST
Para os
movimentos, pastorais sociais e grupos de trabalho, o discurso do
Papa deve ser um roteiro de reflexão, mística e
ação.
Caci Amaral
Coordenadora da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de
São Paulo
Em seu discurso durante o Encontro
Mundial dos Movimentos Populares, organizado pelo Pontifício Conselho
Justiça e Paz em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais e
com os líderes de vários movimentos sociais, o Papa Francisco defendeu a Reforma
Agrária e fez duras críticas ao modelo do agronegócio.
Ao citar o Compêndio da Doutrina Social da
Igreja, Francisco lembrou que "a reforma agrária é, além de uma
necessidade política, uma obrigação moral".
Disse ainda se preocupar com a erradicação
de tantos camponeses que deixam suas terras, “não por guerras ou
desastres naturais”, mas pela “apropriação de terras, o
desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos
males que arrancam o homem da sua terra natal”. Para ele, “essa dolorosa separação, que não é só física,
mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está
pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até
em risco de extinção”.
Como conseqüência a essa perversidade, o
Papa trouxe a dimensão da fome ao se referir a outra prática recorrente do
agronegócio. “Quando a especulação financeira condiciona o preço dos
alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e
morrem de fome”.
Teto e
trabalho
Além da questão da terra, Francisco ainda
foi enfático com um problema presente em diversos centros urbanos: a
moradia.
Não hesitou ao defender “uma casa
para cada família” e denunciar o modelo de cidade “que oferecem
inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz... mas se nega o teto a
milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados,
elegantemente, de ‘pessoas em situação de rua’”, disse ao atacar o
eufemismo criado para mascarar a marginalização.
O terceiro e último ponto tocado por
Francisco se refere à dimensão do trabalho, ao colocar que “não existe
pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade
do trabalho”. Para ele, tanto o desemprego
quanto as precárias condições de trabalho são resultado “de uma prévia
opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem”.
Nesse sentido, “se o lucro é
econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do
descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode
ser usado e depois jogado fora”.
O encontro entre os movimentos sociais de
diversas partes do mundo teve início nesta segunda-feira (27) e segue até esta
quarta-feira (29).
O evento tem por objetivo elaborar uma
síntese da visão dos movimentos populares em torno das causas da crescente
desigualdade social e do aumento da exclusão em todo mundo, principalmente a
exclusão da terra, do teto e do trabalho, e “propor alternativas
populares para enfrentar os problemas gerados pelo capitalismo financeiro, a
prepotência militar e o imenso poder das transnacionais, como a guerra, a fome,
desemprego, exclusão, despejos e miséria, com a perspectiva de construir uma
sociedade livre e justa”.
Abaixo o discurso do Papa Francisco, na
íntegra:
Discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Encontro Mundial
de Movimentos Populares
Bom dia de novo. Eu estou contente por
estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez
que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.
Como lhes dizia, tenho muita alegria e
lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para
debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que
sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson
pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas
palavras.
Este encontro de Movimentos Populares é um
sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja,
dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a
injustiça, mas também lutam contra ela!
Não se contentam com promessas ilusórias,
desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de
ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de
maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio
perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas,
se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa
solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e
que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de
esquecer.
Solidariedade é uma palavra que nem sempre
cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se
pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade
esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de
todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as
causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e
de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os
destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as
migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e
todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a
transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo
de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.
Este encontro nosso não responde a uma
ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com
realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram...
têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de
luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez
porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo
da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às
periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas
conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.
Não é possível abordar o escândalo da
pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e
convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver
quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade,
se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes
chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os
Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o
vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se
transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.
Este encontro nosso responde a um anseio
muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um
anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza
cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu
falo disso para alguns, significa que o papa é
comunista. Não se entende que
o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso
pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é
nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um
deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.
Terra. No início
da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de
cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e
quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivá-la e por fazer isso em
comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o
desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de
terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são
alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa
separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há
uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida
peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.
A outra dimensão do processo já global é a
fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos,
tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de
fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro
escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei
que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns
desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o
Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de
uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI,
300).
Não sou só eu que digo isso. Está no
Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela
dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se
beneficiar dos frutos da terra.
Em segundo lugar,
teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família.
Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem
não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o
Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque
nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia
andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma
dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa
a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a
partir da convivência com os vizinhos.
Hoje, vivemos em imensas cidades que se
mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros
prazeres e bem-estar para uma minoria feliz... mas se nega o teto a milhares de
vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados,
elegantemente, de "pessoas em situação de rua". É curioso como
no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a
contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa
segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome,
é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre,
talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um
crime.
Vivemos em cidades que constroem torres,
centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si
nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são
marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos
despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da
guerra. E isso se vê hoje.
Vocês sabem que, nos bairros populares,
onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros
enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular:
ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do
próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as
cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem
dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades
que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam,
relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.
Por isso, nem erradicação, nem
marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa
palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas
também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as
periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma
integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de
maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as
famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma
infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas,
hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas
que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à
segurança.
Terceiro,
trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto
–, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e
priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta
de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia
opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o
lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma
cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de
consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
Hoje, ao fenômeno da exploração e da
opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça
social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos,
"sobrantes". Essa é a cultura do descarte, e sobre isso
gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso
acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o
homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem
que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do
universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa
inversão de valores.
E, para explicitar, lembro um ensinamento
de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da
torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era
preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os
tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a
palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e,
quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a
torre.
Se um tijolo caía – o tijolo era muito
caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia
nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que
lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa
está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano
1200, explicando essas coisas horríveis.
E, a respeito do descarte, também temos
que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo
coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as
crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se
descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes
de nascerem, descarte de crianças.
Descartam-se os idosos, porque, bom, não
servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou
menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário,
nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro
descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero
dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco
exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho,
desempregados.
Nos países da Europa – e estas são
estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de
jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração,
anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está
passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros,
ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não
produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para
poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e
não a pessoa humana.
Apesar disso, a essa cultura de descarte,
a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos,
sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo
aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo... mas vocês, com a sua
artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com
o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão
conseguindo... E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia.
Obrigado.
Desde já, todo trabalhador, esteja ou não
no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna,
à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros,
recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores,
camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os
tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos
dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se
sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha
voz à sua e acompanhá-los na sua luta.
Neste encontro, também falaram da Paz e da
Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver
trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes
que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem
deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os
homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois
dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco
de Assis.
Há pouco tempo, eu disse, e repito, que
estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos
que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e,
com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do
dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos
campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas
moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto
sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se
levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos
movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a
guerra!
Um sistema econômico centrado no deus
dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o
ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda
da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores
nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes,
os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis
economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.
Irmãos e irmãs, a criação não é uma
propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade
só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom
maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício
de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu
estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas
preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes
agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos
Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o
assunto.
Falamos da terra, de trabalho, de teto...
falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza... Mas por que, em vez disso,
nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas
famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza?
Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e
substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro.
Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me
importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o
mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de
lado.
Alguns de vocês expressaram: esse sistema
não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade
humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas
sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas
também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem
violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles,
buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade,
de paz e de justiça.
Os cristãos têm algo muito lindo,
um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes
vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de
São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de
Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas,
vocês têm o programa de ação.
Sei que entre vocês há pessoas de
distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão
praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da
discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos,
dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o
conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro,
uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a
confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade.
Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se
integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o
global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu
território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem
buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam
tudo.
Assim, parece-me importante essa proposta
que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de
solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta,
confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram
nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas.
Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou
dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos
tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho.
Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar
juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e
estão levando adiante.
Os movimentos populares expressam a
necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes
sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a
sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse
protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva
de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo
paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os
movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e
internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos
excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem
ressentimento, com amor.
Eu os acompanho de coração nesse caminho.
Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum
agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a
dignidade que o trabalho dá.
Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua
luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de
recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram
fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da
América Latina.
E nesse acompanhamento eu rezo por vocês,
rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe,
que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente
essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não
desilude. Obrigado.
Minha fé
é política porque ela não suporta separação entre o corpo de Jesus e o corpo de
um irmão.
Minha fé
é política porque crê que a economia pode mudar um dia e ser toda
solidária.
Minha fé
é política porque acredito na juventude, na sua força e inquietude, no seu poder
de diferença
e na força da velhice que com sua sabedoria e
experiencia ainda tem muito a colaborar, para um país justo, igualitário sem
tantas injustiças sociais..
Pastoral Fé e Política
Arquidiocese de São Paulo
A partir de Jesus Cristo em busca do bem comum
Caso não queira receber os nossos informes, por favor,
responder esse e-mail com o assunto “Remover meu e-mail da
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