Mito religião e pensamento científico na Grécia Antiga

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Racquell Narducci

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Sep 13, 2011, 3:20:10 PM9/13/11
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 Mito religião e pensamento científico na Grécia Antiga
Resumo dos tópicos abordados durante a conferência, relação das imagens e textos apresentados, leituras recomendadas e breves notas. 
Algumas poucas imagens, infelizmente, não podem ser mostradas aqui em virtude da Lei de Direitos Autorais. 

Isto é uma narrativa maravilhosa com personagens sobre-humanos; pode ser apenas um relato fictício, uma história, ou então uma tentativa de explicar algum acontecimento ou fenômeno aparentemente inexplicável.

Religião é um sistema de crenças (geralmente míticas) e rituais (combinação de gestos, palavras e atitudes) através dos quais se procurava - e em nossos dias ainda se procura - algum tipo de relacionamento com as forças sobrenaturais (divindades).

A Ciência, por sua vez, é um conjunto de conhecimentos acerca do universo reunidos de forma sistemática e objetiva, de acordo com uma certa quantidade de regras que formam o "método científico":
- Observação (com o uso de instrumentos adequados);
- Hipótese (explicação provisória);
- Experimentação (teste da hipótese);
- Generalização (extensão das conclusões a outros fenômenos). 

Mito e religião, de um lado, e ciência, de outro, são apenas diferentes formas do homem explicar o mundo em que vive, e de obter algum tipo de controle sobre as forças da natureza de que depende para sobreviver. Mas, enquanto o mito e a religião são formas pré-racionais de entendimento do universo, a ciência considera todos os fenômenos naturais e passíveis de abordagem racional.
Na verdade, tanto a abordagem racional como a não-racional, isoladamente, descrevem de forma incompleta a Natureza [1]. Mesmo um cientista, por exemplo, ao contemplar uma paisagem, é capaz de descrever racionalmente as leis da Física envolvidas no fenômeno (como a refração e a difração da luz, entre outras), mas percebe a beleza da cena e suas cores de forma não-racional...
§ Texto: características do pensamento humano 

RÁPIDO PANORAMA DA RELIGIÃO GREGA
A religião grega, bem conhecida a partir da época Arcaica [2], era publicamente centrada no culto aos deuses do Olimpo e aos heróis [3]. Privadamente, cultuavam-se também os mortos e participava-se dos assim chamados cultos de mistério [4].
Pensava-se que os deuses interferiam diretamente nos assuntos humanos, e era necessário aplacá-los através de sacrifícios; a Asclépio, deus da Medicina, era costume sacrificar um galo, por exemplo. Os sacerdotes que auxiliavam os fiéis em suas preces e sacrifícios não constituíam o que hoje chamaríamos de 'clero': considerados servos do deus administravam seus templos e santuários, e na comunidade eram tratados como simples cidadãos.
Festivais religiosos eram celebrados regularmente, para que toda a comunidade pudesse honrar o deus da cidade. As famosas Olimpíadas, por exemplo, eram festivais da cidade de Olímpia em honra a Zeus e aconteciam a cada quatro anos. Além das cerimônias religiosas de praxe, havia também concursos de poesia, competições atléticas e corridas de carros.
Os doze deuses olímpicos [5] representavam basicamente o 'componente celeste' da religião grega, associado ao dia luminoso e claro; provavelmente, seu culto foi levado à Grécia pelas populações indo-européias que chegaram depois de -2000. O culto aos mortos e os cultos de mistério eram parte do 'componente ctônico', de origem Neolítica (anterior a -3000, portanto) e ligado à fertilidade da terra.

O MITO COMO EXPLICAÇÃO DO MUNDO
Serão apresentados sumariamente apenas quatro tópicos: a agricultura, a poesia, a medicina e a cosmologia entre os gregos.
A agricultura
Os fenômenos associados à agricultura eram provavelmente um completo mistério para os agricultores primitivos [6]: a planta morre e deixa uma semente; planta-se a semente, dá-se a ela alguns cuidados, e meses depois surge uma planta em tudo semelhante à original.
A explicação mítica envolve Deméter, a deusa da agricultura; sua filha Perséfone; e Hades, o deus do mundo subterrâneo. É muito ilustrativo o relacionamento que o mito faz entre a morte e renascimento cíclico das plantações e o rapto de Perséfone.
§ Texto: a lenda de Deméter 

A poesia
Na Grécia, como em muitos outros lugares, a literatura não-escrita antecedeu a escrita. Durante incontáveis séculos, enorme quantidade de hinos religiosos, gestas guerreiras e histórias míticas cantados em festivais e outras ocasiões foram conservados oralmente, em versos, pelos aedos e rapsodos, poetas-cantores dotados de prodigiosa memória.
Nem todas as pessoas eram dotadas de tal capacidade; conseqüentemente, conceitos abstratos como memória e inspiração poética eram considerados dons de origem divina, atribuídos pelos deuses a alguns poucos mortais.
Isso está bem ilustrado nas epopéias heróicas [7], em que o poeta fazia sempre uma invocação às musas, divindades que personificavam todas as formas de pensamento, ao iniciar a declamação do poema ou até mesmo antes de um trecho particularmente difícil...
§ Texto: as musas e a memória do poeta 

Veja também, em outro texto, uma breve monografia a respeito de todas as musas.

A medicina
Desde épocas muito remotas os médicos gregos conheciam as propriedades curativas de diversas plantas e eram já capazes de tratar corretamente ferimentos de diversos tipos. Todo esse conhecimento, no entanto, havia sido adquirido de modo totalmente empírico e não racional, através do famoso método da tentativa-e-erro.
Os relatos míticos que explicam a origem da Medicina e sua transmissão dos deuses aos homens estão dentre os mais elaborados de toda a Mitologia Grega. Dentre os diversos deuses com atributos médicos, Asclépio era o mais popular. Seus santuários, verdadeiros templos da cura, estavam espalhados por toda a Grécia, e a eles os fiéis acorriam constantemente em busca de alívio para suas doenças.
§ Texto e imagens: a medicina entre os deuses 
§ Texto: a origem divina das doenças 
§ Texto: o tratamento empírico das doenças 
§ Texto: nascimento, vida e morte de Asclépio 
§ Texto: um sonho terapêutico no templo de Asclépio 

Cosmologia: a imagem do mundo
Antes dos filósofos "pré-socráticos" (século -VI), a concepção grega do Universo era guiada, primordialmente, pelas aparências: a Terra, estática, era o centro de tudo; o céu era uma abóbada que recobria a Terra; e o Sol, é claro, girava em torno da Terra... Tudo, desde a formação do Universo até o mais simples dos fenômenos naturais recebia uma explicação mítica.
Alguns exemplos: o Universo [8] tinha sido formado a partir de Gaia, a terra, e de Uranos, o céu; os relâmpagos eram lançados por Zeus, o "amontoador de nuvens"; a chuva era também obra dele e, quando chovia, dizia-se "Zeus está chovendo"; os terremotos eram atribuídos a Posêidon, o "abalador do chão".
§ Texto: os deuses primordiais 
§ Texto: o senhor do raio 

OS PRIMÓRDIOS DO PENSAMENTO CIENTÍFICO
A ciência grega - e por extensão a Ciência Ocidental - tem registro de nascimento: 28 de maio de -585, dia previsto por Tales de Mileto (-625/-545) para um eclipse solar que afetou as ilhas gregas.
Tales é o mais antigo dos filósofos pré-socráticos, nome convencional dado a diversos intelectuais que viveram nos séculos -VI e -V e procuravam explicar o Universo sem recorrer à religião e aos mitos.
Eles não eram ainda 'cientistas' na acepção atual do termo, pois não quantificavam suas observações e não testavam suas teorias através da experimentação; sua investigação dava-se somente em termos de especulação, análise e inferência teórica. Podemos, no entanto, chamá-los de 'pré-cientistas', já que eram dotados de vários dos atributos necessários: inteligência, curiosidade, capacidade de observação, ceticismo e imaginação...
§ Imagem: o mapa-múndi de Hecateu 
§ Texto: conceitos de Anaximandro e Xenófanes 
§ Texto: Álcmeon de Crotona: primórdios da Patologia 
§ Texto: Álcmeon de Crotona: primórdios da Fisiologia 
§ Texto: Coleção hipocrática: a causa das doenças 

CONCLUSÃO
Os mitos gregos, assim como a antiga religião grega, são parte importante do patrimônio cultural da humanidade, notadamente da Civilização Ocidental. Durante incontáveis séculos, constituíram a única explicação do mundo e de seus fenômenos, tanto na Grécia Antiga como em outras culturas igualmente antigas; somente nos últimos 500 anos a Ciência foi capaz de explicar racionalmente parte da estrutura e funcionamento da Natureza.
Muita coisa há ainda por se descobrir e, enquanto isso, convém lembrar que até mesmo a Ciência tem seus limites e provavelmente não será capaz de descobrir explicações racionais para tudo.
Talvez os cientistas precisem de um pouco de irracionalidade, tanto quanto a irracionalidade precisa também de um pouco de ciência...

NOTAS
1. "Natureza", em grego, é physiké; daí a palavra portuguesa Física
2. A história dos gregos é habitualmente dividida nas seguintes fases: Período Micênico (-1550/-1100); Idade das Trevas (-1100/-750); Período Arcaico (-750/-480); Período Clássico (-480/-323); Período Helenístico (-323/-30) e Período Greco-Romano (-30/476). 
3. Os heróis ou semideuses, filhos de um deus e de uma mortal (ou vice-versa), embora mortais, eram capazes de façanhas sobre-humanas. Os mais populares dentre os heróis gregos eram Heracles e Teseu
4. Os mais importantes eram os mistérios de Elêusis, dedicados a Deméter e sua filha Perséfone, e o culto órfico, dedicado a Orfeu
5. Zeus, Hera, Deméter, Posêidon, Ares, Atena, Apolo, Ártemis, Afrodite, Hefesto, Hermes e Dioniso
6. A Grécia é a mais antiga área agrícola da Europa. Os primeiros agricultores chegaram por volta de -6500 e instalaram-se na Tessália (norte da Grécia). 
7. A literatura grega é também a mais antiga da Europa. Os mais antigos textos literários que chegaram até nós, a Ilíada e a Odisséia, são gestas guerreiras compostas na metade do século -VIII, aproximadamente. Transmitidas oralmente de rapsodo a rapsodo, devem ter sido confiadas à escrita pouco antes de -500, quase duzentos e cinqüenta anos depois... 
8. A palavra "Universo", aqui, compreende apenas o que era visível aos gregos daquela época: a própria Terra, o sol, a lua e o céu estrelado.
 
LEITURAS RECOMENDADAS
§ ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica, v. I Lisboa: Calouste Gulbenkian, 7ª ed., 1993. 
§ FINLEY, M.I. (org.). O Legado da Grécia. Trad. Y.V. Pinto de Almeida. Brasília: Ed. UnB, 1998. 
§ VERNANT, J.P. As Origens do Pensamento Grego. Trad. I.B.B. Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 7ª ed., 1992. 



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Não me alimento de 'quases', não me contento com a metade. Nunca ser sua meio amiga, ou seu meio amor, é tudo ou nada. (M.Monroe)

Do not get me food 'almost', I am not content with half. Never be your friend through, or through your love, it's all or nothing.

-- Denis Waitley


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